Neste blog utilizo textos e imagens retiradas de diversos sites na web. Se os seus autores tiverem alguma objecção, por favor contactem-me, e retirarei o(s) texto(s) e a(s) imagem(ns) em questão.
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22 julho 2011

O peso da responsabilidade


O Benfica afina os motores para o começo da temporada. Uns partiram, outros ficaram, outros acabam de chegar. É sempre assim, mesmo quando se ganha, já que hoje a mobilidade e a volatilidade do mercado futebolístico faz com que não haja certezas quanto ao futuro de cada jogador na sua equipa, sobretudo se teve êxito, se conseguiu impor-se em termos internacionais e se tem vontade de tentar a sorte noutras paragens. O coração pode morar até ao fim num clube, mas a ambição e o desejo de triunfo fazem com que a razão e a conveniência falem muito mais alto que os afectos. Por muito que nos custe, no Benfica como noutros clubes, é esta a regra do jogo. Convém não esquecer, parafraseando o Prof. Adriano Moreira, sempre lúcido e certeiro, numa entrevista recente, que vivemos num tempo em que “o preço das coisas é o valor das coisas”. E não existe coração que fale ou bata mais alto que esta lógica implacável.

O Benfica prepara-se para começar e, acima de tudo, para transformar numa verdadeira equipa o colectivo que já é. Sabemos que são duas coisas diferentes e que, por vezes, é grande a distância que as separa. Mas, uma coisa é certa: aconteça o que acontecer, a equipa não pode ter um arranque, em competição a valer, com uma perda de pontos que, logo à partida, lhe comprometa o título. Para isso bastaram o sobressalto e a frustração da época anterior. É demasiado cedo para se vestir a camisola de tons escuros do pessimismo quando tudo está ainda a começar. Para tons sombrios, bastam os da crise nacional, europeia e mundial. Uma das virtudes e méritos do futebol reside justamente na capacidade que tem de nos fazer acreditar na vitória quando tudo em volta parece querer derrotar-nos. Como sempre, o Benfica tem o destino nas suas próprias mãos e não pode alienar ou delegar essa responsabilidade, por muitas e boas razões. Haverá compromisso maior com o presente e com o futuro ?

05 fevereiro 2011

Razão e coração


O Campeonato está a entrar numa fase crucial. Quem ficar para trás, dificilmente, terá margem para recuperar. Todos o sabem, mas uns parecem sabê-lo melhor que os outros.Convergem vontades e palavras para evitar que quem regressou ao topo de forma revalide o que por direito lhe pertence. É sempre assim. Nem é preciso ler “Arte da Guerra”, do velho e sábio Sun Tzu, para se saber que uma das tácticas que mais frutos costumam dar é a da desestabilização emocional dos adversários antes da hora do confronto em que tudo se decide.
O Futebol não é, como alguém disse, uma religião ou um assunto de Estado. Mas, no vazio de muitas outras crenças, ele ocupa um espaço singular em que se juntam razão e coração, com o segundo, quase sempre, a falar mais alto que a primeira. Nas religiões, o que conta é a fé, que abre a porta aos dogmas que tornam quase tudo indiscutível e indisputável. No Futebol, o que conta é a paixão, que também tem os seus dogmas e pouco espaço deixa para a serenidade da análise equidistante e fria. Para isso existem os comentadores, que fingem nunca ter clube ou cor preferida, mas que, frequentemente, deixam cair a máscara e acabam por denunciar o jogo. Para o resto, para o terreno da paixão, existem os adeptos, os que sofrem, gritam, insultam, choram, culpam e desculpam. Exactamente porque para eles só existe o coração. E a paixão.
O Benfica levou tempo a recuperar, mas está onde, e como, queremos que esteja: combativo, criativo e com energia. Por isso é temido e respeitado. Mas, também por isso, este é o momento em que é preciso manter a cabeça fria entre linhas para que, fora delas, os corações que vibram possam viver as suas merecidas horas de júbilo.
E há sempre vozes que provocam, que desafiam, que tentam desestabilizar, porque sentem o cheiro do perigo e a primazia em risco. Mas, como diz o velho e sábio provérbio, essas vozes, como as do pequeno equídeo das fábulas, nunca conseguem chegar ao céu, nem mesmo ao som de apitos.

09 setembro 2010

José Torres nas alturas


Enlutou-se a memória colectiva dos benfiquistas com a partida de José Torres, uma referência inapagável no futebol português e também da dignidade, da seriedade e da grandeza de espírito com que ele deve ser encarado e vivido.
Há muito que a doença que o vitimou privara José Torres das grandes memórias de que foi protagonista, durante 12 anos ao serviço do Benfica, o seu clube e a sua casa, mas também na Selecção Nacional e depois no Vitória de Setúbal e no Estoril-Praia, onde encerrou a sua carreira como jogador. Chamavam-lhe o “Bom Gigante”, porque era alto e por ter uma coração grande. Aqueles que com ele conviveram e que foram seus amigos foram unânimes em salientar esse traço de carácter, acrescentando, como fez José Augusto, o gosto de pregar partidas aos companheiros e o seu contributo constante para que imperasse o bom ambiente no colectivo.
Não conheci José Torres, mas vi-o jogar muitas vezes no Benfica e na Selecção, e isso basta-me para guardar dele uma recordação que o tempo não apaga. Lembro-me, por exemplo, do talento e eficácia das suas jogadas de cabeça, certeiras e fatais para qualquer guarda-redes, mas também dos golos fantásticos que marcava com o pé esquerdo. Dava nas vistas por ser um jogador de invulgar estatura para a época, mas também por ter um grande sentido táctico, espírito de sacrifício e capacidade concretizadora.
Não teve o final de vida que merecia, desde logo porque a doença que o atingiu lhe roubou anos de lucidez e de disponibilidade para a consagração merecida. Em 1986, quando garantiu a qualificação da Selecção Nacional para o Mundial, pediu apenas que o deixassem sonhar. E ele sonhou enquanto pôde.
Coincidiu a sua morte com a leitura do acórdão da Processo Casa Pia, o que contribuiu para ofuscar a homenagem que, também pela via mediática, lhe era devida nesse dia. O que é mau esquece-se e o que é bom resiste. José Torres vai continuar a jogar para nós e por nós, nas alturas.

25 agosto 2010

Os elefantes e os galos - Por José Jorge Letria

Por José Jorge Letria in O Benfica

O cartaginês Aníbal tinha apenas 26 anos quando comandou a sua legião de elefantes, atravessando os Alpes em plena invernia, para conquistar Roma, feito que nunca chegou a cumprir. Alexandre, o Grande, tinha apenas 33 anos quando morreu de causas misteriosas, depois de ser senhor absoluto do mundo conhecido, com estatuto de quase divindade.

Agora querem transformar um treinador jovem, depois de uma vitória isolada mas nem por isso menos merecedora de reflexão e análise, num chefe carismático, num líder natural de homens. Um aspecto ficou à vista nesta primeira aparição a valer: o jovem treinador do FCP incute nos seus jogadores uma agressividade, um sentimento proximo da raiva que talvez o deixe talhado para vir um dia a comandar a selecção da Nova Zelândia, herdeira, como se vê no râguebi, de uma ancestral tradição guerreira.

Mas deverá ser assim o futebol? Se assim não fosse, como poderia o jovem treinador, nos comentários imediatamente a seguir ao jogo, falar, calculadamente, de um “grito de revolta”. Mas revolta contra quê? Contra o título tão justamente conquistado pelo Benfica na época anterior? Contra o facto de os resultados recentes do Benfica, na pré-época, terem feito vibrar, legitimamente, os benfiquistas? Contra o facto de o Benfica ter reocupado na vida desportiva portuguesa o lugar que por direito lhe pertence? Se está aí a causa da revolta, então até somos capazes de tentar perceber. Só que, aí, a revolta, em boa verdade, devia ter outro nome. Daqui para a frente, semana após semana, de forma continuada, consistente e sem excessos de agressividade, é que se vai ver quem tem elefantes em número suficiente para chegar a Roma. O que vai contar é o trabalho, a constância, o talento e a perseverança. De boas gargantas precisam os galos, mas esses já estão no emblema da Selecção de França há muitos anos, mesmo tendo saído de crista murcha da África do Sul.

12 agosto 2010

A bola nos dias da rádio - Por José Jorge Letria


Por José Jorge Letria in O Benfica

A rádio pública portuguesa está a comemorar 75 anos de existência, com a qualidade e o destaque que a efeméride merece. A rádio que, para algumas vozes do pessimismo militante, não tem futuro, é, do meu ponto de vista, talvez o meio de comunicação que melhor se poderá adequar no futuro às necessidades do cidadão comum em termos comunicacionais, já que o acompanha ao longo de todo o dia, mesmo onde a televisão não chega, e também por ter um registo mais intimista que não precisa da imagem para se projectar e para fazer o seu caminho.

Sempre fui um ouvinte atento e empenhado. Sempre fui um grande “consumidor” de rádio, porque ela nunca deixou de me fazer a companhia que eu sempre dela esperei. Recuo no tempo e recordo-me de, antes da televisão ter chegado a Portugal em 1957, a rádio ser, em termos de comunicação, o grande meio que entrava nos lares portugueses, mesmo tendo presente o modo como foi utilizado pela ditadura.

Mas foi também a rádio que mais contribuiu para que o futebol saltasse dos estádios para o interior das casas das pessoas, inundando-as com a emoção que sempre rodeou as grandes partidas. Recordo-me bem de ver o meu pai sentado na sala, nas tardes de domingo, num cadeirão que era o seu lugar cativo na bancada do seu fervoroso benfiquismo, de ouvido colado ao rádio de que tanto gostava, sem deixar que ninguém interrompesse a sua intensa concentração.

Esses eram os dias da rádio e da emoção de a ouvir e de partilhar com outros, com muitos outros, aquilo que ela tinha para contar. Eram outros tempos, outros hábitos, diferentes ritmos de vida e de comunicação. Mas foi a rádio, como de resto continua a ser hoje, o meio capaz de nos pôr a todos centro do relvado, através do jogo insuperável da imaginação. Haverá algo que se compare à fulgurante palavra “Gooooolo!” gritada aos microfones da reportagem radiofónica ?

07 agosto 2010

Aquilo que nos engrandece - Por José Jorge Letria


Por
José Jorge Letria in O Benfica

Antecipando a abertura da época, o Benfica soma e segue, seguro, goleador, com invejáveis vitalidade e alegria, transmitindo-nos a confiança que só os vencedores são capazes de colocar em tudo aquilo que fazem. E isso não acontece por acaso. Há ali muito trabalho feito, muita força anímica renovada e fortalecida, muito orgulho em se fazer parte de uma equipa e de um clube que, sendo ambas as coisas, é muito mais do que isso, símbolo pujante da convicção que tantas vezes nos falta quando enfrentamos os grandes desafios da vida.

Essa energia, essa mobilidade e essa criatividade ficaram bem patentes no jogo contra o Aston Villa, equipa que só erradamente pode levar os mais desprevenidos a pensar que se tratava de um adversário demasiado acessível. O Aston Villa não é nem nunca foi para brincadeiras, e perdeu, contrariado e carrancudo, porque o Benfica jogou muito melhor e não perdeu oportunidades de marcar, confirmando uma vocação concretizadora que tanto empolga os benfiquistas, que põe os adversários em sentido e começa a ser comentada por essa Europa fora, já que não é costume habitual alcançarem-se resultados tão expressivos com tanta regularidade e segurança.

Quem acompanhou a prestação benfiquista no Torneio do Guadiana, sabe que estamos em presença de uma grande equipa que soube recuperar do tempo de pausa e da saída de quem fazia falta. Costumam ser assim as grandes equipas, com o colectivo a não depender das contingências do factor individual. E nem sequer faltou, no jogo anterior, uma homenagem sentida a António Feio, grande actor, encenador e benfiquista de sempre. Na tremenda adversidade deste último ano e meio, não faltou a António Feio o que engrandece o Benfica: a confiança, a esperança e a vontade de vencer. Perdeu a batalha, mas deixou-nos o fulgor do seu exemplo. O relvado tornou-se um imenso palco para lhe podermos dizer: “Bravo, António, continuas presente!”

29 maio 2010

O vermelho e o verde da nossa esperança - Por José Jorge Letria


Por José Jorge Letria in Jornal O Benfica

Há dias recebi um amável convite de um semanário de referência para escrever uma crónica sobre a memória que guardei do Mundial de 1966, em Inglaterra. Aceitei com gosto, porque tenho uma atracção especial por este tipo de exercícios de memória.
Nessa época, já lá vão 44 anos, o futebol não era o que é hoje, desde logo porque ainda não existia a galáxia mediática que o tornou definitiva e imparavelmente global. Tudo era mais pequeno, mais lento, mais modesto, mas nem por isso menos exaltante. Eu era muito jovem, mas tenho essa lembrança bem presente. Quase à beira do começo do Mundial da África do Sul, recordo-me que tudo chegava a Portugal a preto e branco e que o próprio país, até por razões políticas, também vivia nesse binómio cromático, pois não havia espaço para muitas outras cores, até porque algumas delas eram consideradas subversivas.
A comunicação televisiva tinha outro ritmo, outra lógica. Porém, não foi isso que nos impediu de testemunhar a genialidade de Eusébio e a carreira fulgurante da nossa Selecção, que levou de vencida equipas nacionais como a do Brasil e da então URSS, para não falar da surpreendente norte-coreana. E o certo é que foram precisos 18 anos para Portugal conseguir regressar a uma fase final. Desta vez, vamos ver os jogadores seleccionados todos os dias e a toda a hora. Em directos constantes e por vezes cansativos, prestando declarações por tudo e por nada, quando, na realidade, o que têm como tarefa essencial é treinar para ficarem à altura da responsabilidade que lhes foi confiada. Em 1966 foi tudo muito diferente, mais contido, mais discreto. Mas nem por isso menos empolgante e comovente, incluindo as lágrimas de Eusébio depois da derrota frente à Inglaterra. Só me resta esperar que esse espírito único e inesquecível inspire e mobilize os que na África do Sul vão representar o vermelho e o verde da nossa espe- rança colectiva.

06 março 2010

A noite de glória de Di María

Por José Jorge Letria in O Benfica

Na alta competição como na vida artística há momentos de glória que só muito dificilmente se repetem, e é justamente isso que torna estas actividades tão fascinantes quanto imprevisíveis. Sábado à noite, o argentino Di Maria, teve, frente ao Leixões, a sua noite de glória, com três golos magistrais e com um contributo fundamental para o Benfica reforçar o capital de confiança que o encaminha para o título, sem temer a obscuridade que pode vir do interior de qualquer túnel.
Di María, exemplarmente assistido, com a pontaria afinada, com um excelente sentido posicional e uma dose elevada de inspiração infernizou a vida a Diego. Mas as noites de glória também podem ter o contraponto amargo das saídas iminentes. Di María tem dado nas vistas entre os grandes, é desejado e cobiçado, e, por esse motivo, uma noite de glória também pode ser sinónimo de um pré-aceno de desdedida. E nem faltou um cartaz onde se lia “No Nos Dejes”.
Depois de ter andado com Camacho e Quique à procura do lugar certo na equipa, o jovem argentino, agora mais maduro e mais seguro, sabe onde deve estar e o que deve fazer, mas também sabe que vai fazendo subir a fasquia num mercado onde a excelência vale muito dinheiro.
Claro que, se Di María, estiver prestes a partir, vamos sentir a falta do seu talento, dos seus remates certeiros, da filigrana dos seus dribles e da sua paixão pelo golo. Mas a vida continua e o Benfica respira confiança por todos os poros, condição fundamental para acreditar e nos fazer acreditar que este ano é que vai ser.
Este Benfica, com a liderança certa, está a trabalhar para vencer, para convencer e para continuar, com 93 golos já marcados nesta temporada, em jogos oficiais. É obra, por muito que doa a quem prefere intrigar na penumbra dos túneis. A noite de glória de Di María foi apenas mais um anúncio de que a glória que conta e nos exalta vem a caminho. E que não tarde.

25 fevereiro 2010

Abraçar as causas justas



Por José Jorge Letria in O Benfica

Sempre me bati para ver os futebolistas de maior visibilidade mediática a utilizarem a sua merecida popularidade para mobilizarem consciências e vontades para causas que justificam toda a atenção e apoio. Recentemente foi Nuno Gomes que juntou o seu nome ao de algumas dezenas de figuras públicas na campanha contra a discriminação de pessoas infectadas com o HIV. Todas essas personalidades confrontaram a opinião pública com perguntas inteligentes que nos levam a confirmar que banir e marginalizar quem vive com esse flagelo é um acto digno de total condenação moral e cívica. Entretanto, em importantes jogos da Liga, os jogadores entraram em campo com faixas de 16 metros condenando o terrível fenómeno da violência doméstica, que não cessa de fazer vítimas, envergonhando qualquer país que se considere civilizado. Basta pensar no número de mulheres que todos os anos morrem em consequência dessa forma de barbárie.
É importante que os jogadores tomem posição nestas matérias e que, pela força do exemplo, levem muitos milhares de pessoas a abraçar estas causas, que são justas, oportunas e mobilizadoras.
O mundo do futebol nunca foi, nem pode ser, um universo estanque que recusa a abrir-se à realidade, sobretudo quando ela apresenta os tons sombrios do drama e do sofrimento humano. As vedetas dos estádios devem ser elementos dinamizadores da cidadania. Ao assumirem essa dimensão, não se comprometem negativamente nem prejudicam as suas carreiras. A única coisa que os pode comprometer é o silêncio, a indiferença e a apatia. Saúde-se, pois, a vontade e a coragem de quem abraça causa justas. E, já agora, seja-lhes também pedido que, uma vez por outra, apareçam com um livro na mão à saída de um autocarro ou de um avião. Com esse acto tão simples e discreto não imaginam o que podem fazer pelo fomento da leitura e pelo combate à iliteracia. É que uma cidadania activa também passa por aí.

08 janeiro 2010

Consenso nos balanços e previsões



Por José Jorge Letria in O Benfica

O ano de 2009 terminou com balanços e 2010, como não podia deixar de ser, começou com previsões. Esta prática nada encerra de novo, pois o ser humano, quando é confrontado com o tempo vivido e o tempo por viver, desde que seja em momentos de viragem, tende sempre a pensar no que fez e no que ainda pode e deve fazer. É saudável que assim aconteça.
Notório é o facto de, mesmo aqueles que o fazem contrariados, terem reconhecido que uma marca incontornável do ano findo foi a afirmação do Benfica como a equipa com melhor futebol praticado e, por esse motivo, a mais forte candidata à conquista do título. Esse consenso só vem reforçar a responsabilidade do clube e fortalecer a confiança dos que lutam pela vitória.
Marca incontornável do ano findo foi a afirmação do Benfica como a equipa com melhor futebol praticado...
Alguém disse em tempos, referindo-se à política, que mais importante que a realidade é a percepção que se tem dela. De tal modo assim é que a percepção se torna mais forte e mobilizadora que os próprios factos. Nesse sentido, pode afirmar-se que até a percepção geral joga a favor do Benfica, fazendo soprar os ventos de bons augúrios na direcção da Luz.
Apesar disso, mesmo com os reforços cuja chegada se saúda, toda a prudência é pouca e todo o bom senso é recomendável. Tornando nossos os argumentos que outros usam com uma frequência já insuportável, há quem tudo esteja disposto a fazer para que o Benfica não seja campeão, apesar da dinâmica de esperança e de confiança que se encontra instalada. Vai aumentar o nervosismo, vão surgir provocações e ataques, vai-se jogar para fazer doer, mas o Benfica tem de estar preparado para lidar com essa situação. A conquista do título, apesar de ter a força de uma quase evidência, ainda não é um assunto resolvido. Mas, quando for, acredito que até para o País vai ser bom, pois, como dizia há meses um grande nome do mundo do futebol, quando o Benfica ganha Portugal mexe.


06 janeiro 2010

Tempo de reler “O Túnel”



Por
José Jorge Letria in O Benfica

“O Túnel” é o título de um dos romances mais famosos da literatura latino-americana das últimas décadas. Escreveu-o o argentino Ernesto Sabato, nascido em Buenos Aires em 1911. Não sei bem porquê, mas veio-me este título à memória depois de assistir ao Benfica-Porto na Luz. Se calhar até sei muito bem a razão por que me lembrei do romance de Sabato e estou somente a ironizar. Ironia por ironia, até me senti tentado a oferecer exemplares de “O Túnel” a Hulk e a Sapunaru, para lerem durante o período de suspensão em curso. Porém, aviso já que não se trata de um livro sobre futebol, nem sobre os altos e baixos da desnorteante carreira de Maradona, embora Ernesto Sabato seja seu compatriota. “O Túnel” é um livro com uma estrutura semelhante à de um romance policial, embora esteja muito mais orientado para a abordagem da crise espiritual do homem contemporâneo. Enfim, outros futebóis!
Talvez seja essa configuração imaginária do túnel que favorece, dentro dos estádios, situações deploráveis
Quando era miúdo e me queriam punir por alguma pequena malfeitoria por mim praticada, falavam-me numa ida para “escuro”, e eu imaginava que esse “escuro” era uma espécie de imenso túnel coberto nas duas extremidades, onde se respirava com dificuldade e não se conseguia enxergar vivalma. Talvez seja essa configuração imaginária do túnel que favorece, dentro dos estádios, situações deploráveis que, longe do olhar sempre curioso e indagador do público, reclamam sanções rápidas e exemplares. Não sei ao certo o que se passou no túnel da Luz, no final do jogo. O que sei é que dois “vermelhos” não costumam ser mostrados, dentro dos túneis, de forma tão inequívoca e firme a anjos que se limitam a bater as asinhas candidamente. Ainda bem que há imagens gravadas para servirem de prova, não vá alguém querer confundir agressões físicas com ramos de flores. Para acalmar os ânimos, fica “O Túnel” como sugestão de leitura para Hulk e Sapunaru. É o tipo de livro que deixa os leitores verdadeiramente suspensos.

27 dezembro 2009

Aquecimento global na Luz



Por JOSÉ JORGE LETRIA in O Benfica

Não houve chuva, vento ou frio que os fizessem faltar ao encontro. O Benfica precisava deles e eles estiveram presentes. Uns foram sozinhos, outros com amigos, outros com a família.
Quase ninguém faltou, numa tempestuosa noite de Dezembro, com o Natal a bater à porta. Queriam assistir à prova de fogo, ou seja, ao confronto do Benfica com o campeão nacional em título.
Para efeitos de balanço, talvez pudesse dizer-se somente que o Benfica ganhou porque jogou melhor, porque teve mais determinação, maior capacidade de concentração e mais brio do princípio ao fim, sem precisar da mão na bola ou da carga paquidérmica de Christian Rodríguez, numa noite deplorável e insuficientemente sancionada. Mas pode e deve dizer-se mais. Sem ter realizado um jogo memorável, o Benfica mostrou ser a melhor equipa em campo, também pelo espírito de sacrifício e pela constante combatividade. E dizer isto é já dizer muito, pois é desta matéria que os campeões são feitos.
Sem ter realizado um jogo memorável, o Benfica mostrou ser a melhor equipa em campo...
O FCP, tristonho e pouco concentrado, ficou muito aquém do que esperavam e exigiam aqueles que gostam de falar das renovações de títulos como uma inevitabilidade histórica. Vi alguns a sair da Luz cabisbaixos. Há quatro épocas que o Benfica não mostrava a este adversário natural e directo aquilo de que tem obrigação de ser capaz. Nesta época está à altura dessa responsabilidade e mostrou o que vale e, sobretudo, o que quer.
Em Copenhaga, a Cimeira do Clima saldou-se num quase total malogro, porque falhou o essencial, mesmo com Obama presente, a saborear o Nobel da Paz e o título generalizado de Figura do Ano. Na Luz não falhou o essencial, porque o Benfica jogou “à Benfica” e isso fez subir a temperatura. Aliás, nos tempos que correm, essa é mesmo a única forma de aquecimento global que não só se aceita como se exige.

04 dezembro 2009

Frente ao Benfica todos se agigantam



Por
José Jorge Letria in O Benfica

O Benfica tem a melhor equipa da Liga, a mais criativa e concretizadora, mas não conseguiu ir além de um empate a zero com o Sporting. Acontece, sobretudo em jogos de grande carga emocional e de ainda maior pressão psicológica, nos quais a lógica do favoritismo acaba por claudicar. Depois do desaire frente ao Guimarães, o Benfica refez-se e jogou bem, mas faltou-lhe sorte e inspiração para activar o marcador. Não veio disso mal ao mundo, pois o triunfo continua a estar perfeitamente ao seu alcance. Pensar de outro modo é não querer ajudar o Benfica a regressar à posição que historicamente lhe pertence.
O tom da euforia deve ficar guardado para a festa da vitória, quando ela chegar...
Já há muitos anos, alguém me dizia, na redacção de um jornal em que trabalhei: “O Benfica tem uma mística tal que mesmo quem é fraco ou está em baixo se agiganta quando o defronta.” E é precisamente isso que acontece. Até o Sporting, que se esforça para conseguir superar uma crise profunda, cresceu e ficou ao nível do Benfica. Essa atitude dignificou os dois opositores, sobretudo porque quem ganhou foi o futebol. Claro que é importante saber em que medida a ausência de marcação de falta quando um braço sportinguista travou uma bola benfiquista a caminho da área terá prejudicado irremediavelmente o Benfica neste dérbi. Mas o que está feito está feito e não vale a pena consumirmo-nos em retóricas que nada vêm alterar.
Estes últimos resultados estão a fazer o Benfica reencontrar-se com a realidade, que nem sempre é gloriosa e gosta mesmo de ser surpreendente e traiçoeira. É com ela que é preciso lidar e não com a embriaguez das “cabazadas” de golos. A elas voltaremos sempre que tivermos força e inspiração para podermos desequilibrar os jogos a nosso favor. Entretanto, a palavra de ordem deve ser, hoje e sempre: trabalhar muito e com humildade. É com essa atitude que se forjam e consolidam os vencedores. O tom da euforia deve ficar guardado para a festa da vitória, quando ela chegar.

15 novembro 2009

Crónica de José Jorge Letria



O Benfica ao som dos Beatles

Por José Jorge Letria in O Benfica

O Benfica foi jogar com o Everton a Liverpool. Os mais velhos, na cidade dos Beatles, ainda se lembram da genialidade de Eusébio no Mundial de 1966. Quem viveu essa época nunca a esqueceu.
Recordo-me de ter estado no início desta década em Liverpool, quando a cidade iniciava a preparação da sua candidatura a Capital Europeia da Cultura, sonho que concretizou com êxito no ano passado.
À semelhança de Bilbau, foi uma das cidades europeias que, na década de oitenta, entraram em crise devido ao declínio da actividade portuária tradicional. Mas conseguiu superar a crise apostando na cultura e criando o magnífico Maritime Museum, recebendo a Tate Gallery e investindo na marca imbatível que é o conceito “The City of the Beatles” (a cidade dos Beatles). Apostou e ganhou em toda a linha. Quem vai ver bons jogos de futebol, também visita os locais que os Beatles mitificaram, desde o “pub” “The Cavern”, até ao Stawberry Fields, nas imedia- ções da casa onde Lennon cresceu.
O nome do Benfica, que nunca deixou de ser respeitado por um passado brilhante, voltou agora
a ser temido
Liverpool orgulha-se desse passado recente, ainda tão vivo, audível e presente, como se orgulha do historial do Everton. Só que tudo isso não bastou para evitar que o Benfica em dois jogos marcasse sete golos, saldo invulgar em competições internacionais. Mas foi o que aconteceu e foi o que se viu. E o que se viu foi uma equipa com talento e energia bastantes para superar pequenos desaires e não perder de vista os objectivos estratégicos que se propôs atingir para coroar esta temporada.
O nome do Benfica, que nunca deixou de ser respeitado por um passado brilhante, voltou agora a ser temido, com ou sem a música dos Beatles em fundo. Depois vejo Aimar a entrar em campo e lembro-me da perfeição atingida pela dupla Lennon - MacCartney. A explicação para essa inesperada mas justificável associação talvez esteja no binómio talento - harmonia. É assim que o bom futebol às vezes se aproxima da boa música, porque ambos, afinal, são arte.


07 novembro 2009

Crónica de José Jorge Letria


O seu a seu tempo

Por José Jorge Letria in O Benfica

Há verdades incontornáveis: o Benfica tropeçou em Braga e os benfiquistas ficaram tristes, inquietos, silenciosos. É natural. Em maré de vitórias expressivas, com golos para todos os gostos, ninguém desejava ou previa este desaire, que surgiu ao arrepio da euforia triunfante. Mas a realida- de é mesmo assim, imprevisível e tantas vezes espinhosa.
O caminho até agora percorrido anuncia muitas alegrias, mas nada existe mais recomendável do que a prudência, que é a expressão prática do bom senso. Algumas vezes aqui se deixou registado um alerta contra os perigos do triunfalismo. Nunca é de mais fazê-lo.
À míngua, nos últimos anos, de triunfos proporcionais ao prestígio e glória do clube, muita gente se convenceu de que, a partir de agora, tudo iria ser fácil, acessível, garantido. Mas o futebol, como a vida, tem outras regras, outras leis. É possível jogar-se bem, com as qualidades do costume, e não se vencer. É possível levar-se para dentro do campo a garra, a vontade, o talento, a energia e ficar-se com o marcador em branco do lado que verdadeiramente conta.
Mas a realidade é mesmo assim, imprevisível e tantas vezes espinhosa...
O Benfica teve pela frente uma equipa de muita qualidade e trabalhou com afinco para alcançar um bom resultado. Mas acabou por ficar aquém das expectativas e do seu mérito efectivo. Acontece, mas dói. E o caminho até à meta ainda é longo e trabalhoso. A onda triunfante já começou a causar temores e invejas nos suspeitos do costume. Por isso irá ser cada vez mais difícil, mais exigente, mais complexo.
E será justamente o grau de dificuldade que irá temperar o gosto da vitória. É quando se desce das alturas e se põem os pés no solo agreste que se percebe que o triunfo tem um preço elevado. Havemos de lá chegar, mas com serenidade e realismo, porque sempre deu azar fazer a festa antes de tempo. Mas esse tempo vai chegar.

17 outubro 2009

Crónicas de José Jorge Letria


Lembrar a Republica...

Por José Jorge Letria em o Jornal O Benfica

Em dia de celebrar os 99 anos da República, o Benfica foi ganhar ao Paços de Ferreira no campo da Mata Real. Foi uma vitória merecida, embora a segunda parte, muito inferior à primeira, tenha sido essencialmente de gestão do expressivo resultado alcançado no primeiro tempo. Mas o que conta, para aflição de alguns e desconsolo de muitos outros, é que o Benfica soma e segue, já com a sexta vitória consecutiva.
Se este ano foram os 99 anos da República, para o ano será o centenário, e justo será que o Benfica, honrando as suas origens e tradições, também a queira festejar, desde logo porque as suas raízes populares, na Lisboa do princípio do século levaram a que muitos dos adeptos iniciais fossem seguidores do ideal republicano.
Falemos de um caso concreto. Não só de um adepto, mas também de um jogador com talentos firmados. Chamava-se Francisco Santos, era natural do concelho de Sintra e, além de atleta benfiquista, era também escultor com obra reconhecida. Num tempo em que era ainda possí-
vel acumular duas actividades tão diversas, Francisco Santos chegou a trabalhar com êxito, como escultor, em Itália e França.
Acontece que este jogador-escultor, assumidamente republicano, foi o vencedor do concurso para a criação do busto oficial da República, figurando a obra distinguida nos Paços do Concelho de Lisboa. Mas Francisco Santos foi também um dos escultores que conceberam, no início dos anos trinta, o monumento do Marquês de Pombal, na Rotunda, que tem o nome do primeiro-ministro de D. José I e que foi o local do triunfo republicano, em 5 de Outubro de 1910, com cerca de 300 militares e civis comandados por Machado dos Santos.
Quem se recorda hoje de Francisco Santos, jogador e escultor que deixou o seu nome ligado aos primórdios do Benfica e à celebração do ideal republicano? Por certo muito poucos. O próximo ano será o momento certo para o Benfica também celebrar os 100 anos da República, porque a conquista do título talvez ganhe ainda mais sabor com esse tempero de memória histórica
e genuinamente popular.

14 outubro 2009

Crónicas de José Jorge Letria


Fervor clubístico

Por José Jorge Letria em Jornal O Benfica

O problema em questão resulta da situação em que estamos. E nós, Benfiquistas, estávamos mal, ou melhor, bem habituados, com vitórias sucessivas e goleadas, grande exibições e um jogo marcado pelo empenhamento, a eficácia e a alegria. Mas sejamos realistas: ninguém de bom senso admitirá, independentemente do seu desejo e fervor clubístico, que o Benfica vá ganhar todos os jogos de todas as competições da época. Ganhar sempre nem os batoteiros encartados conseguem, como bem podemos ver à nossa volta e olhando para baixo de nós na tabela da classificação.
É claro que perder, dói. Mas a questão é que a dor passe e depressa. E para que passe cada um de nós e todos os Benfiquistas têm alguma coisa a fazer: manter a confiança e o apoio à equipa. O Benfica, a par dos êxitos desportivos, está a fazer um trabalho extraordinário sob o ponto de vista do progresso e da consolidação financeira que sustentará, ao altíssimo nível da sua história e das suas tradições, o Glorioso. O sucesso desportivo está a ser acompanhado pelo disparo na Bolsa, a constituição do Benfica Stars Fund, as enchentes nos campos, a viabilização de um projecto próprio de transmissões televisivas. Tudo isto assenta nas vitórias dentro do campo e no valor imenso desta pequena mas tão grande palavra: Benfica. E para as vitórias contribui decisivamente o apoio entusiástico das bancadas. Em todas as circunstâncias. Ou não seremos Benfiquistas para o melhor como para o pior?

11 setembro 2009

Crónicas de José Jorge Letria


Quando o Benfica é uma festa

Por José Jorge Letria in Jornal O Benfica

Na política como no futebol o que conta são os resultados. Mesmo aqueles que não pouparam críticas ao Benfica na última temporada devem estar agora satisfeitos com o que estão a ver. Não faltam golos nem entusiasmo. O Benfica, sem deixar que o triunfalismo se instale, está a tornar-se uma festa para quem acredita nele e uma dor de cabeça para quem o vai ter pela frente. Falei e torno a falar de festa, pois esse conceito e essa certeza que levam os adeptos aos estádios e lhes permitem voltar para casa com a luz de uma alegria intensa a iluminar- lhes a memória daquilo que viram e partilharam com muitos milhares de pessoas. Hemingway escreveu um magnífico livro de memórias intitulado “Paris É uma Festa”. Não há-de faltar quem queira escrever outro chamado “O Benfica É uma Festa”. O que aconteceu no jogo com o Vitória de Setúbal, equipa com um historial digno do maior respeito, foi uma das expressões visíveis dessa festa, não só pela fartura do resultado, mas também pela euforia que andava no ar. Há anos que não se via nada assim. Há anos que a satisfação colectiva não se tornava tão intensa e empolgante. Depois veio o jogo com o Celtic e confirmou esse estado de espírito. É perante resultados como este que apetece responder com uma divertida frase de um tal Dadá Maravilha, que teve, em tempos, notoriedade futebolística no Brasil: “Não venham com problemática que eu tenho a solucionática.” Com isto fica quase tudo dito para quem quiser enredar-na retórica e nos labirintos da teoria. A prática é outra coisa, bem mais simples e inequívoca: envolve golos, vontade e capacidade de os marcar e confiança na vitória. O resto são cantigas.
É nestas alturas que me dou conta do verdadeiro sentido do título que decidi dar a estas crónicas semanais –“Tudo o que Luz” –, com a certeza de que o ouro do título virá coroar o trabalho colectivo e o desejo de quem, convictamente, torce por ele.

05 setembro 2009

Crónicas de José Jorge Letria


A questão da liderança

Por José Jorge Letria in Jornal O Benfica

Sempre entendi que a questão fulcral no trabalho de um treinador é a sua capacidade de liderança. Um treinador, seja qual for o seu “curriculum” ou nacionalidade, não tem de ser telegénico, fotogénico, simpático, sedutor ou politicamente correcto. Tem uma missão a cumprir e é pela forma como a cumpre que irá ser avaliado. Mal andará essa avaliação se a fizerem depender das frases mais ou menos criativas e pomposas que proferiu, dos amuos, dos sorrisos e da simpatia ou antipatia que gerou no sempre intenso e imprevisível circo mediático.

O que se espera de um treinador é que saiba transformar o colectivo com o qual trabalha não num mero somatório de talentos mas numa equipa que tenha a caracterizá-la e a defini-la a capacidade de executar um plano, de cumprir objectivos bem determinados e de não se deixar minar pelas pequenas, médias e grandes querelas internas que rapidamente criam clivagens e tensões em qualquer grupo. Este princípio é válido para as empresas, para os colectivos artísticos e para a sociedade em geral. Quem não perceber e não levar à prática esta regra,
mal andará no cumprimento das suas funções.

É por isso que eu gosto do estilo de Jorge Jesus e daquilo que dele, no Benfica, já nos foi possível observar e perceber, através do modo como estrutura a equipa, como opera as substituições e como põe em prática um dispositivo que, nunca desprezando o sentido do espectáculo, visa essencialmente a eficácia a partir de um conceito ofensivo e concretizador da prática futebolística. Antes do jogo com o Vitória de Setúbal, ouvi-o dizer aos jornalistas algo parecido com isto: “Os jogadores não têm desculpas para não atingirem os objectivos fixados.” Num país que vive, secularmente, da desculpabilização que paralisa e desresponsabiliza, dentro da lógica perversa do “a culpa não foi minha, foi do outro”, é estimulante ver e ouvir quem não se rende aos eufemismos e aos rodeios. Na realidade, ganha quem for capaz de combinar os dois verbos deste binómio: crer e querer. Com efeito, é preciso acreditar para que a crença determine a vontade e os resultados que ela produz. Escreveu um dia Napoleão que, “na guerra, a audácia é o mais belo cálculo do génio”. Aqui não estamos, obviamente, a falar de guerra, mas nem por isso devemos desvalorizar o papel da audácia. Sem ela dificilmente se vence, se triunfa, se convence. Por isso é tão importante a questão da liderança. Quem a tem, chama-lhe sua e deve usá-la para tornar ganhador o projecto em que acredita. Assim se fazem os vencedores e se constroem as vitórias. Estamos no bom caminho.

26 junho 2009

Crónicas de José Jorge Letria



Por José Jorge Letria in "O Benfica"


Tudo o que Luz

Isto de ser benfiquista


Agora que nos encontramos no defeso das competições, mas não no defeso dos projectos que vão determinar o futuro dos clubes e, em particular, do Benfica, faz sentido uma breve reflexão sobre o que é isto de Ser Benfiquista. Passou, pelo menos até ver, o tempo das ideologias e da confrontação de grandes modelos ideológicos. Passou, pelo menos até ver, o tempo das utopias mobilizadoras da vontade das grandes massas humanas, sendo que uma boa parte delas deixou um rasto de tragédia e indescritível sofrimento. Mas não passou o tempo dos afectos que duradouramente nos ligam àquilo que faz bater os nossos corações.


Alguém me disse um dia, com a reflectida sabedoria dos mais velhos, que, em regra, pode mudar-se de tudo, excepto de fé clubística. E foi mais longe, exemplificando. Pode mudar-se de nacionalidade, de partido, de família, de cidade ou de país, de ideias e de credos religiosos. Mas nunca se muda de clube. E porquê? Talvez só um psicanalista competente tenha resposta para esta pergunta académica. Se calhar é porque a simpatia ou a paixão clubística costumam estar associadas à raiz dos afectos que nos ligam ao pai ou à mãe, ou seja, àquilo que é profundo e inalterável na memória da nossa infância.


Eu, por exemplo, sou do Benfica porque o meu pai sempre foi do Benfica, e nunca esquecerei as tardes em que ele me levava ao velho Estádio da Luz, para momentos de glória e outros que nem tanto. Para mim, ser do Benfica é isso, mas é também muito mais do que isso. É sentir que se pertence a um colectivo imenso que o tempo e a história universalizaram e que ultrapassa fronteiras, barreiras sociais e etárias, filiações políticas e partidárias, crenças religiosas ou a ausência delas, modas ou gostos. Ser do Benfica, e por mim falo, é um impacto para a vida, nas horas boas como nas más, um sentimento de pertença, uma teia de afectos e memórias que hoje partilho com os meus filhos e com os meus netos, a quem sempre dei e darei plena liberdade de escolha. É isso que nos une e nos transcende, bem como a esperança de que o prémio dessa dádiva venha a ser a merecida alegria da vitória.


O verdadeiro benfiquista nada pede em troca quando o é genuinamente, mas, pelo menos, para lá de todas as conveniências e interesses, de todas as querelas e diferenças, dêem-lhe não a glória do passado mas a certeza de um futuro triunfante, digno e justo. Menos do que isso é quase nada.