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03 setembro 2011

Para o grande Ricardo Gomes: força, capitão, as melhoras!















04 maio 2011

O céu na Pedreira


O domingo algarvio trouxe-nos mais uma desilusão. Outra robertada, agora em versão subtil, e lá vamos nós buscar nova bola triste ao fundo das redes. Não pode ser... Não é nada benfiquista só querer ganhar quando há classificações em jogo. Isso são vistas muito curtas; como tentar reduzir a alma a uma estatística, a uma conta de 2+2. O Glorioso tem de jogar sempre com a alegria de quem quer ganhar, de quem futebola porque sim e não porque tem de ser. Não, o Benfica não joga para o calendário, joga para a história do futuro. Caramba, não há nenhum adjunto que ponha isso em forma de poema para inspirar os jogadores enquanto estes calçam as chuteiras e fazem os seus vudus preparatórios? Brinco, mas é para dizer coisas muito sérias sem me engasgar. No jogo de amanhã — a segunda das três finais para salvarmos a época — precisamos de reaprender a alegria. Bola rápida, corpo inteligente, ideia no golo.
Para este segundo ato na magnífica Pedreira de Souto de Moura, o Benfica enfrenta três questões importantes. A primeira está na baliza. Temos de começar a ganhar logo por aí ou arriscamo-nos a que o céu irlandês nos caia na cabeça. Se me é permitida uma modesta, tímida, óbvia, sugestão, ponham Júlio César ou Moreira. Ou um miúdo qualquer dos juniores que agarre as bolas em vez de as meter na própria baliza. Não é por nada, mas não estar Roberto entre os postes já será um bom começo. Até para ele, que não deve arriscar a carreira com mais frangos fatais.
A segunda questão chama-se Pablo César Aimar Giordano. De grandes artistas como o maestro argentino, diz-se que são “insubstituíveis”; costuma ser apenas uma forma de elogio, mas temo que, no caso do Aimar deste Benfica, o termo seja bem mais literal. A verdade é que — por mau planeamento, falha nas contratações e na formação — não há outro número dez para o Benfica e, como se sabe, o astro argentino não pode jogar amanhã. A versão melhor talvez seja aquela que põe Carlos Martins a organizador, mas não deixa de ser uma adaptação. O português furioso é mais ele próprio no vaivém defesa-ataque do miolo do jogo, não concordam? Bem, vamos ver.
No fim de contas, a questão é a de saber se os jogadores ouvem mais Jorge ou Jesus. Depois da vitória da primeira-mão, enquanto Jorge disse que íamos a Braga defender a eliminatória, Jesus disse que íamos à Pedreira fazer golos. Sim? Sim: ao ataque, por favor!

25 março 2011

Alegria na gaveta


Um dos maiores defeitos do mister Jorge Jesus é também uma das suas maiores qualidades: a casmurrice. Ou chamem-lhe como quiserem - caturrice, teima, finca-pé, cabeça-dura. O facto é que, sem essa teimosia ensimesmada, Jesus não era ninguém. Só ela explica, por exemplo, que o treinador continue a insistir em Cardozo para carrasco dos nossos penáltis. Quantos já falhou o paraguaio? Mesmo quando marca, como segunda-feira, contra o Paços, ainda o jogo ia no prefácio, dá ideia que é menos um conseguimento próprio que um fracasso do guarda-redes, um capricho do vento, uma magia arquitectónica. Não têm essa impressão? Não sei, talvez seja uma coisa minha. Talvez seja só aquele estilo amedrontado de pôr a chuteira na bola que me encanita especialmente... Mas isto para dizer que a casmurrice também tem um lado bom. Veja-se o caso de Nuno Gomes. A insistência do mister em deixá-lo no banco, oferecendo-lhe não mais que umas migalhinhas de um ou outro final de jogo, salvou o jogador português. Não há pior para um avançado do que a doença da previsibilidade e Nuno Gomes andou lá muito perto, muito tempo. O estatuto de suplente-talismã que Jesus lhe ofereceu esta época deu-lhe um novo foco. Salvou-o. Bem-vindo, Nuno!
Mas... estão a ver isto? O que é isto, caros amigos? Um Picasso? Um James Joyce? O Super-Bacana? Não: isto é Osvaldo Nicolás Fabián Gaitán. Um super-craque da bola. Mas comecemos pelo começo. É uma jogada digna das antologias mais escolhidinhas: a bola rolando do pé uruguaio para o pé paraguaio (na banda sonora, Caetano cantando “soy loco por ti, América/ soy loco por ti de amores”...); Cardozo alegra-se por um segundo e, com uma espécie de sorriso, toca para Gaitán; e o miúdo Nico, de repente, plim. Como é que ele fez aquilo? Plim, acendendo a lâmpada das ideias eternas.
Olha para a baliza, livre de todas as complicações, livre de toda a palha do dia-a-dia - como um sábio ou um poeta, imaginando a verdade. Depois espera, deixa passar um tempo nem longo nem curto, o tempo justo de uma respiração, e faz o gesto. Cumpre a grande lição dos ensaios de dança: não penses. Isto é, pensa mas pensa com o corpo. Plim, e a bola rompendo o ar espesso de Paços de Ferreira, a “capital do móvel”, planando por cima do guarda-redes que voa, esticado, para trás, e descendo para a baliza. Nunca tinha visto nada assim: uma onda arrumando-se na gaveta.

04 março 2011

Coluna e o bom espírito


Este sábado, Coluna, esse nome maiúsculo do futebol português, do futebol mundial - e reza a lenda que, já nos dias gloriosos do amor à camisola, Eusébio o tratava com um respeitinho à parte, “Senhor Coluna, posso marcar o penálti?” -, recebeu a águia de ouro. De corações levantados, a nação benfiquista aplaudiu com a alma toda; um aplauso espontâneo, genuíno, fortíssimo.
No domingo, esse espírito deu-nos a vitória contra o Marítimo. Uma vitória épica e lírica, dramática e mais que merecida, um conseguimento histórico todo apontado ao futuro.
É essa a grande notícia, caros amigos. Podemos não ganhar o campeonato este ano, mas já ganhámos este espírito de nunca-descrer, de vamos-vencer-e-vamos - e isso vale os mil e um campeonatos de amanhã. O treinador até pode errar (como errou o treinador do Benfica ao tirar Aimar, partindo a equipa, retirando-lhe inteligência e visão; como errou Jorge Jesus ao perder a cabeça nos protestos do fim do jogo...), mas o espírito pode mais. A má sorte pode enervar (como enervou no domingo: bolas ao poste, bolas por um triz, um golo que afinal não valeu...), mas este espírito vale muito mais.
Um estoiro de adrenalina, aquele golo de Coentrão com o pé menos famoso. No último dos últimos segundinhos dos descontos. Para aquilo nem há palavras de dicionário: douraltidência, imensartismo, inesquecidade. Que tiraço - a matéria de que se fazem os sonhos e as histórias mais verdadeiras.
Antes, caíra um frio de proporções nórdicas na Catedral: Djalma (que nome maravilhoso) salta na nossa área e, com um simples virar de cabeça, muda em golo um pontapé de canto. Cinquenta e cinco mil pessoas em silêncio na Luz, um suspiro de milhões por esse Mundo. O relógio apertava, agigantava-se o problema. Mas baixámos os braços, entristecemos, desanimámos? Nem sombra de nada disso, caros amigos. Fomos logo lá para a frente fazer pela vida - de novo, sempre.
De costas para a baliza, Cardozo, o nosso paraguaio melancólico, junta quatro ou cinco madeirenses à sua volta e solta a bola para a esquerda; Fábio “Super-craque” Coentrão lança o mais venenoso dos esféricos, um passe diagonal, rasteiro, a cruzar a área, baralhando defesas e guarda-redes; e, do outro lado, como que aterrando de uma viagem transatlântica, aparece Salvio, a tocar para dentro. Com este espírito, é para a glória, não é, senhor Coluna, só pode ser para a glória, não é?

25 fevereiro 2011

Fazer sentido


Uma vitória do Benfica em Alvalade até faz a segunda-feira parecer um sábado. Não que tenha sido exactamente um passeio, que a expulsão de Sidnei ainda nos fez sofrer um bocadito. De qualquer modo, isso só aumentou a alegria dos finalmentes. Dois golos que foram um consolo, dois chutos argentinos que nos fizeram esquecer o sem-sentido de tanta história que há para aí.
É um dos grandes mistérios mundiais, a Argentina. É um país, claro, está nos mapas, nos livros, tem uma bandeira, etc, mas é também um profundo mistério - um mistério límpido e infinito. O lugar de Borges e Maradona. E também de Gardel e Piazzolla, e dessa música que é, ao mesmo tempo, emoção carregada e puro movimento. Essa Argentina inexplicável é que explica o belo resultado de anteontem. Poderíamos desbobinar a conversa das tácticas, estratégias, psicologias, etc, poderíamos armar-nos em cientistas e recitar números, percentagens, estatísticas, etc, que não chegaríamos nem perto do ponto. Como é que se mede a garra? Como é que se avalia o espírito? Como é que se tabela a mística? A verdade desta gloriosa vitória contra o Sporting está nessas antiquadas e irredutíveis palavras - garra! espírito! mística! - e nas chuteiras argentinas dos nossos craques.
Salvio é um jogador inesperado, originalíssimo, e, no futebol formatado de hoje, isso é muito-muito. Um extremo que marca golos, um estilista que sabe passar a bola, um repentista que aguenta a carga. Quando pega na bola, o campo aumenta porque os adversários não conseguem defini-lo - isto é, dar-lhe um fim. Olham-no com a estranheza de quem se pergunta “mas de que cromo é que este tipo saiu ao certo?” e, de repente, já é tarde. Já a bola canta lá dentro, embrulhada nas redes. Foi assim em Alvalade. Os olhos postos no Cardozo famoso, e afinal, quem leva a bola é Salvio. Um toque, dois, já está.
Mas a estrela de segunda-feira foi - cantem comigo: Nico, Nico, Nico... Gaitán, Gaitán! Jogou como um bailarino erudito, como um verdadeiro argentino. As doses certas de cabeça e coração, impulso e calma, letra e metáfora. Por isso, aquele golo não foi sorte nenhuma. Ou antes, sim, mas a sorte justa. A verdade é um mistério e aquela bola tinha de entrar. Tabelando num defesa adversário, soprada pelos deuses, fosse lá como fosse. Tinha de entrar. Não para a história acabar bem, mas, muito mais importante, para a história fazer sentido.

20 fevereiro 2011

A gralha e a arte


Na última quarta-feira o Deus da Gralha pregou-me uma partida danada. Ao ler a minha crónica aqui, deparei-me com um texto sportinguista que, obviamente, não era meu. No dia seguinte a coisa foi corrigida e a crónica legítima saiu certinha. Mas o meu coração benfiquista ficou pouco menos que furiosíssimo, como devem imaginar. E, no entanto, passada uma semana, começo a perceber o desígnio por trás desse acidente gráfico. O Deus da Gralha queria que eu olhasse para o Sporting. É isso. Foi um sinal. Não é isso, afinal, a arte gráfica: a arte dos sinais?
Não, não vou fazer pouco do momento dramático que o Sporting atravessa. Pelo contrário. O que venho aqui fazer, nestas modestas linhas de homenagem ao Deus da Gralha, é desejar as melhoras rápidas ao SCP. Filosoficamente, o Benfica é pura afirmação; não é contra coisa nenhuma, não é anti-nada. Mas, literariamente, digamos, a existência de um Sporting bem vivo faz parte do meu benfiquismo. Quero ganhar sempre ao Sporting, mas não quero olhar para o clube de Alvalade daqui a uns anos com o saudosismo paternalista com que, fatalmente, olhamos para o Belenenses ou para a Académica. Digo-o sem um grão de ironia: por favor, deitem a mão ao Sporting.
Mas falemos de bola concreta. Na Luz, contra o Vitória de Guimarães, houve de tudo. Arte, serenidade, lições de vida. Comecemos pelo fim: Sidnei dedicando aquele primeiro golo de cabeça - uma bola careca, bem penteadinha, colocada no único quadradinho possível - a Luisão, o mano velho da defensiva. Passemos pelo meio: Saviola conseguindo uma obra-prima de serenidade zen ao não desesperar perante a anulação escandalosa daquele golo mais limpo que um dia de céu azul no inverno de Ponte de Lima. E acabemos no começo: arte, futebol-arte!
Só aquele toque de Pablito, recebendo - almofadando e apimentando - a bola longínqua, aérea, de Sidnei, só aquilo vale um prémio de ouro. Depois, basta olhar e chutar: tão difícil fazer assim simples. E o de Carlos Martins? Um artista português! Ajeita com o direito e, com o esquerdo, plim, inventa uma folha seca daquelas à antiga, daquelas que tornam anacrónico qualquer guardião, mesmo um craque elástico como esse Nilson Correia Júnior. Futebol-arte!
Contra o Sporting, sim, caros amigos, vamos respeitá-los ao máximo: pressão alta e pé no acelerador.

09 fevereiro 2011

Argentina e Argentina


Antes do jogo de hoje à noite, falemos das mais recentes felicidades argentinas. No relvado do Bonfim, do lado direito, ainda longe da zona dos perigos convencionais, Saviola espreita o horizonte e toma a decisão. Sem parar, levanta a bola com o máximo de força para o lado contrário. Tanta força que acaba por rodar sobre si próprio como um daqueles bonecos de subbuteo que havia nos anos oitenta da nossa infância, nem vê o belo arco diagonal do passe que acaba de fazer. Quando os olhos voltam ao mesmo sítio, já a bola está a chegar à chuteira do miúdo. Que momento maravilhoso, Nico, que magnífico centésimo, que instante flamejante.
Em vez de se pôr o problema de como receber a bola, em vez de pensar “dentro da caixinha”, em vez de se perder num qualquer clichê confortável, o craque número 20 do Glorioso pensa pela própria cabeça e espanta da melhor maneira. Receber a bola? Não, atacá-la, reencaminhá-la. Não deixa sequer que o esférico desça ao chão mortal. Abre os braços como que se preparando para voar e, com um simples toque - a chuteira esquerda esticada, apontando o caminho -, faz a história desenrolar-se para o golo. Palmas, palmas, caros amigos. Por favor, repitam comigo: Osvaldo Nicolás Fabián Gaitán.
Mas o domingo em Setúbal ainda teve mais Argentina. Com três nomes apenas se anuncia a outra maravilha benfiquista no Bonfim: Franco Daniel Jara. Na repetição, até parece fácil. Uma tabela com o lateral Maximiliano, a bola devolvida pelo ar, um tudo-nada para trás. Um problema? Não, problema é não enfrentar os problemas com boa cara e melhor imaginação. Num movimento de dança que Fred Astaire, Mikhail Baryshnikov e Edson Arantes do Nascimento não desdenhariam, o argentino número 11 do Benfica sobe pela escadaria de ar que dá para o sonho e, o quê? como é que é possível?, chuta. Sem força a mais nem alma a menos, no ponto perfeito: a bola aconchegadinha nas redes, toda contente. Viva, iupi, uma ovação para o futebol-arte.
Belos golos, grandes momentos, sim. Mas, sem querer ser desmancha-prazeres: o Benfica não tem de jogar mais, ainda mais, muito mais?
Hoje à noite, a Argentina está do lado de lá, bem sei. Mas a questão permanece, no futebol e fora. Seremos capazes de juntar um verdadeiro jogo de equipa à alegria dos nossos craques? Acções concretas às belas palavras? A força transformadora do sonho ao “sangue, suor e lágrimas” dos tempos difíceis?

AQUI

02 fevereiro 2011

Prosa lírica


Chamem-me bota-de-elástico, utópico, lírico, chamem-me pobre e mal agradecido, mas o facto é que não consigo compreender esta madrugadora saída de David Luiz. Do lado do jogador, acho sempre incompreensível que alguém saia do Benfica, ponto final. O Chelsea não é propriamente um clube recreativo de meio da tabela, bem sei, tem muito dinheiro e muito tempo de antena, blá, blá, blá. Mas, digam-me, como é que alguém pode jogar de águia ao peito quatro anos, uma semana, um minuto, e não perceber que Glorioso só há um, o SLB e mais nenhum? Pois, pois. Antiquado, lírico, não é? Peço desculpa. Não quero dar sermões a ninguém, calo já a má disposição. É que acabei de ler o raio da notícia... Lírico, tudo bem. Pobre, aceito. Agora, mal agradecido é que não. Boa sorte, David! Mostra a esses ingleses enevoados que até na zaga o futebol tem de ser alegria e alma.
Mas há mais a dizer sobre esta triste saída às escuras. Se um miúdo que quer ver mundo tem sempre desculpa, quem repete erros crassos não pode passar sem o nosso “buuu...”. Do lado dos patrões do negócio, do lado de quem vendeu o defesa, a decisão é, usemos um eufemismo, indefensável. Se queremos ganhar competições, não podemos despachar craques sem ter substitutos à altura. Foi assim com as saídas de Ramires e Di María e vejam o que isso nos custou. Até pode ser que Sidnei puxe dos galões e se revele um portento, que Jardel construa uma personalidade benfiquista à prova de dúvida, pode ser. Mas, caros amigos, o Benfica não deve ficar refém de um reticente “pode ser”...
O Benfica não é isto. O Benfica é o Javi García parado no ar, à espera da primeira bola do recém-chegado Fernández, para cortar a fita da baliza do Desportivo das Aves. O Benfica é aquele olhar de raposa de Franco Daniel Jara antes de dar um delicadíssimo toque para o lado, como quem suspende a sílaba de uma frase assassina, e chutar para golo. O Benfica é a chuteira atenta de Nuno Gomes, engavetando mais uma bola no marcador. O Benfica não é um número, não são os milhões obscenos que as manchetes põem em grande e por extenso. O Benfica não é uma “marca” e não é, não pode ser, um entreposto entre o talento do Novo Mundo e os cifrões dos novos ricos. O Benfica é aquele golaço que o miúdo Menezes declamou no domingo: um movimento indestrutível, todo futuro e certeza, a subir, sempre a subir.

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27 janeiro 2011

Não juntemos depressão à depressão


Saber perder é importante, mas saber ganhar também. E, quanto a isso, os últimos sinais no país não são exactamente brilhantes... Parece-me que andamos com as referências um bocado trocadas. O modelo de “sucesso” - e, por favor, carreguem bem nas aspas, que só esse palavrãozito dava para um contentor de teses de doutoramento - não pode ser nenhum Cristiano, o supremo cromo do “pintas vaidosão”, nem pode ser nenhum Mourinho, o técnico de futebol que se vê como um dos “eleitos”. Se queremos um modelo como deve ser, pensemos antes em Eusébio: o génio, o deus da bola portuguesa, o nosso craque para todos os sempres - e um exemplo de modéstia à prova de bala.
Não é moralismo nenhum. É que, no fundo, esse “sucesso zangado” é apenas outra variante do famoso “síndroma Mamede”, outra via para o nosso “medo de ser feliz”...
Ainda assim, vamos com calma. É tentador pegar no discurso amargo que o Presidente eleito fez no dia das eleições, juntá-lo ao empurrão inadmissível que o treinador do Benfica deu ao jogador do Nacional, e dizer que o país não sabe ganhar e que, assim, começamos a perder logo nas vitórias. Mas seria demais. Não, por favor. Não juntemos depressão à depressão. O país é o que nós fizermos dele no terreno. E o Benfica também, mister Jesus. A altura é de passar confiança aos craques, libertá-los “espiritualmente” para as alegrias do futebol, mostrar-lhes que a grandeza do Glorioso é um “ser” e não um “estar”.
Olhemos para Sidnei, por exemplo. Sábado, o central marcou o segundo golo com a determinação de quem mete a vitória na gaveta logo aos 20 minutos. Canto de Aimar, um daqueles cruzamentos argentinos em que a bola vai toda magicada das melhores malícias, o nosso miúdo dos brasis corre para o bico da pequena-área, salta a pés juntos como um jogador de básquete e, de cabeça, plim, passa a ideia do golo à bola.
Mas depois, lá está, não soube ganhar... Amoleceu e deixou que os avançados do Nacional furassem por ali dentro como turistas no dia mundial dos museus. É verdade que não foi só ele e que ele até terá mais desculpas, que anda sofrer o peso de todos os olhares agora que se fala da saída de David Luiz (bater na madeira). Mas Sidnei é um bom símbolo do que falta afinar neste Benfica. Não se pode dormir em serviço, nem com uma goleada no bolso. O Glorioso é para querer sempre mais, dar sempre o máximo, tentar o impossível. E conseguir.


09 janeiro 2011

Continuar a começar


Aquele chuto de Salvio inaugurou o ano. Não é nada fácil este ritual de “nascer de novo” ao fim de 365 dias, mas o tiraço do miúdo argentino cortou todas as fitas que amarravam 2010. No ano passado, chamei-lhe, imaginem, “craque-em-progresso”... Que golão. O homem-elástico da Madeira, o nosso velho conhecido Peçanha, nem a viu. Zás. Um remate originalíssimo, rompendo a ideia feita de que um chuto ou é “em jeito” ou “em força”. Como um parágrafo de Bolaño, ou uma frase de Capote, o pontapé de Salvio foi ao mesmo tempo “em força” e “em jeito”. Um feito!
Começa por nos tirar o tapete, o craque - como na melhor literatura. O quê, não vai cruzar? Surpresa, desequilíbrio, ponto de interrogação. E depois, quando menos esperamos, a chuteira de El Toto revela-nos o sentido. Tal e qual uma frase bem cozinhada, que nos põe às voltas com o pensamento e a imaginação, para, de repente, plim, desembrulhar uma imagem, um relance de verdade, a vida.
Mas o jogo com o Marítimo não foram só os dois golos do placar. Lobo Antunes diz que se aprende muito a ler livros falhados, e aqui o cronista acha que, no Benfica-Marítimo, também vale a pena olhar para dois golos que não foram. O primeiro foi dos ilhéus e só não contou porque o artista estava fora-de-jogo, que a bola entrou na baliza direitinha. Digo “artista” no melhor sentido. É que se trata mesmo de uma obra de arte. Falo, pois, da genial bicicleta de Babá. A “inutilidade” futebolística do gesto (um golo que não contou) até lhe dá um “bónus” de arte, digamos. Um balé aéreo mostrando aos esquecidos que o futebol não pode ser uma indústria formatada de “transições” e “dinâmicas” - mostrando aos chatos que o futebol é, primeiro que tudo, um artesanato de sonhos.
O segundo foi aquele de Jara. O homem foge do último defesa com um toque perfeito, isola-se para a alegria e, no último momento, é interrompido por um pensamento. É o que basta para o defesa recuperar. Um pensamentozito a mais. Percebendo o erro, o benfiquista ainda tenta emendar o soneto, mas já é tarde para cantigas e o remate sai ao lado. Ainda assim, temos de aplaudir. Quando Franco souber ser fiel àquele primeiro impulso, há-de fazer estragos, sim, estragos maravilhosos.
E ora aí está um belo desejo para o ano novo, não acham? Ser assim novo no que se faz, pôr querer vivo no que se quer. Por outras palavras: continuar, continuar a começar.


Jacinto Lucas Pires

15 dezembro 2010

Mudar mais


Como o país, o Benfica vive dias nervosos, desafiantes. Domingo, no jogo da Taça com o Sporting de Braga, a tremedeira gloriosa não tinha por onde escapar. Era um teste definitivo, de ou-vai-ou-racha, um verdadeiro mata-mata psicológico. E, sim, esse peso foi visível durante os noventa e poucos minutos que durou a partida... Ou, felizmente para o Benfica, durante noventa e poucos minutos menos dois magníficos segundos.
Lembram-se daquela canção que Nat King Cole cantava em espanhol, no tempo em que os microfones eram felizes e quadradões, “Ansiedad”? Pareceu-me ouvi-la durante o jogo; a música como que nascendo das imagens de passes previsíveis, desmarcações inconvictas, cruzamentos moles. Que canção tão triste, não concordam, amigos? “Ansiedad”... A banda-sonora apropriada para o futebol domingueiro, burocrático, delicodoce, que levámos para o jogo com os arsenalistas.
Felizmente, houve aqueles dois segundos de puro silêncio. El Conejo saltando na área para a hora agá, rodando a perna sem figuras de estilo, apontando o pé com o sangue-frio de um cirurgião: golo. E depois El Mago. A bola antipática, contra o poste, devolvida ao remetente, rejeitada pelo guarda-redes, perdida no ar - até que Pablito sobe e, qual poeta colando mistérios à página, cabeceia para a mais bela das palavras: golo.
Dois instantes de brilho dos nossos craques argentinos. Mas é pouco, não, para um jogo do Glorioso?
Até Jesus já reconhece que a história não está correr muito bem. A propósito, repararam na mudança de personagem do mister benfiquista? Uma postura mais contida, um tom mais equilibrado, outra lucidez de análise. Sim senhor, acho óptimo. Mas temo que ainda falte qualquer coisa. Sair da fase de negação é apenas o primeiro passo, agora é preciso o resto. É bom ver as coisas como elas são, claro, mas não basta ir de recuo em recuo... Veja-se a embrulhada europeia. Em vez de enfrentar a crise com um corajoso salto político, a União Europeia limita-se a recuar, resgatando os periféricos à medida que estes vão caindo. A isto chama-se adiar o problema, não resolvê-lo. Não sei se Jorge Jesus tem seguido o folhetim das crises soberanas, mas aqui fica o meu apelo: por favor, não caia no mesmo erro. Queremos ganhar e ganhar com alegria. E, para isso - no Benfica como no país e na Europa - há um só caminho: mudar, mudar de novo, mudar mais.


Jacinto Lucas Pires

04 dezembro 2010

Clichê para quê


“Pensar jogo a jogo”, pois. Agora é assim, temos de jogar sob o monstruoso peso do clichê. É o que nos resta depois do desbaratar de pontos do começo do campeonato, depois daquele dilúvio no estádio do Dragão, depois da vergonha de Telavive. Mas, se não adianta chorar sobre o leite derramado - não é assim a expressão? -, também não podemos pôr a vaca louca. Seria pior a emenda que o soneto se, à primeira vitoriazinha pós-descalabro, começássemos logo a disparatar contra o “sistema”, ressuscitando “teorias da conspiração” que não dão em nada. Ou, pior, dão em asneira, porque são sinais de fraqueza que facilmente resvalam para fraquezas em campo.
Até porque há um lado bom neste modesto “pensar jogo a jogo”. É um pouco como ser criativo fora da hora de ponto: assim podemos imaginar futebóis com outro à-vontade. Jogar com uma alegria desinteressada que dará espectáculo e golos. E que, quem sabe, até poderá trazer de volta a alma que se esfumou com a saída do nosso eterno Queniano para os nevoeiros ingleses. Sim, caros amigos, tudo está na maneira de ler a realidade. Se, em vez de um resignado “nada a ganhar”, virmos neste momento do Glorioso um esperançado “nada a perder”, ainda podemos resgatar muita glória fresquinha aos fins-de-semana nacionais.
Por falar nisso, este domingo o cenário não estava nada amigo. Depois da hecatombe israelita, e com o F.C. Porto a uma distância proibitiva, uma discussão séria com o Beira-Mar não é pêra doce nenhuma. Ainda para mais, Pablo Aimar, o único sobrevivente da nossa crise futebolística, estava lesionado...
A primeira parte foi certinha mas também desensabida. Jogávamos com medo ou com um excesso de cerimónia muito parecido com medo. O futebol de quem vai pela primeira vez jantar a casa dos pais dela. Longos, longuíssimos minutos. Alguém tinha de desatar aquele nó ou arriscávamo-nos a cometer uma gafe fatal antes do fim do convívio.
E é aí que entra o nosso matador paraguaio. “Para quê?” Paraguaio! Sim, sem dúvida: a hora agá do jogo de domingo foi aquela bela malandragem do nosso tímido Tacuara. No momento de estoirar o penálti para um dos lados, a chuteira paraguaia do matador atreve-se a tocar de mansinho, devagar-devagar, para o meio... e é golo. Um gesto arriscado, capaz de exorcizar mil fantasmas. Sim? Agora é continuar, golo a golo. Joguem à bola, vamo-nos divertir, cambada.



Jacinto Lucas Pires

18 novembro 2010

Amor à camisola


Domingo, assisti da bancada à sessão de terapia que o Naval proporcionou ao Benfica. Um pacote daqueles é que dava jeito às nossas finanças tremidas. Se fosse um livro de bomba de gasolina, a coisa podia chamar-se “Como Recuperar O Amor Próprio Em Quatro Passos”, ou “Plano Infalível Para O Dia Seguinte”. De facto, ganhar por 4-0 dá moral ao mais tristonho dos craques, ao mais depressivo dos treinadores de bancada. (Perdoem-me o parêntesis de humor negro, mas melhor que 4-0, só mesmo 5-0…) E, no entanto, como sabemos, muitas vezes os números são enganadores. A verdade é que, se a partida dominical teve grandes jogadas e belos golos, também houve momentos de forte “instabilidade”, para usar o palavrão que está na ordem do dia. Há muita arte no ataque, mas falta ciência na defesa. Há jogadores que fazem a diferença, mas às vezes parece faltar uma equipa “mais igual”. Há Aimar e mais dez – e infelizmente não são dez Ramires…
Mas falemos de coisas boas. Sálvio conduz a bola redonda de esperanças; corre com bom espírito, dá para perceber; mal os defesas lhe aparecem no caminho, o miúdo argentino toca para o craque mundial; Aimar, o nosso Mágico Maestro, inventa um país livre entre os adversários e chuta; o guarda-redes lá consegue defender, mas a bola sobra para um espaço em branco no tapete verde da Catedral; Nico Gáitan vem a correr desde a Argentina e, no pé esquerdo, traz um único pensamento. Remata com a parte de fora da bota, a bola rodando para cima e para longe das luvas esticadas do guardião azulinho – o futuro chega em forma de golo, e que golaço. Para exorcizar fantasmas, para lavar a alma, gritem comigo, por favor: Nico! Nico! Nico! Gaitán! Gaitán!
Mas Nuno Gomes também merece uma palavra. Ao contrário da maioria das gentes benquistas, não sou, confesso, um incondicional do avançado português. Mas o golo que Nuno Gomes conseguiu desembrulhar contra a Naval – um golo todo feito de crença, num momento difícil para o clube e para ele próprio – vale muitíssimo. Golos assim dão o exemplo e fazem-nos acreditar que o amor à camisola não morreu, não há-de morrer nunca. Mais: o país inteiro precisa de exemplos destes, da economia à política, da cultura ao futebol, individualmente e colectivamente. Acreditar, acreditar. Corações vivos de olhos abertos. Palavras fortes e gestos claros. Vamos a isto?


Jacinto Lucas Pires

11 novembro 2010

Penitência


Foi um atropelo de proporções obelixianas aquela nossa ida ao Porto, caros amigos. Uma humilhação do tamanho desta bola de futebol chamada planeta Terra. Uma tragédia daqui até à Nova Zelândia, ida e volta. Um desastre digno dos mais sofridos lamentos, dos mais solenes palavrões. Perdoem-me, já nem sei bem o que digo… E desta vez, pois, não há paninhos quentes que nos safem, nenhuma história mal contada, nenhum azar redentor. Nem sombra de “bodes respiratórios”… Contra o facto de termos saído dali com cinco batatas na nossa baliza, não há argumento que se aguente.
Podemos, claro, olhar para trás e lembrar a decisão de deixar ir o Ramires e o Di María, podemos falar das invenções tácticas de Jorge Jesus para esta partida, podemos falar da falta de alma dos jogadores no momento do tudo-ou-nada e da ideia peregrina de levar os últimos quinze minutos com o Lyon para a visita ao F. C. Porto, mas em boa verdade não me parece que seja tempo para nada disso. O que temos de fazer, caros amigos, é muito mais simples e muito mais difícil. Esta é a hora de aguentarmos o coração nas mãos e dizer a todos, no português mais verdadeiro de que formos capazes: levámos um banho de bola. Entregámos os pontos. Parabéns ao vencedor.
Mas, não, ainda não é tudo. Não nos safamos assim tão facilmente, não pensem. Temos de parar ainda um momento e, com a alma exposta às intempéries, cumprir a penitência até ao fim: Hulk recebe a bola na direita, avança de mansinho até David Luiz como quem quer partilhar um segredo ou trocar uma anedota e, de repente, acelera até à linha, vai-se embora. Até que lhe saem aos pés Sidnei e Roberto, logo os dois, com uma timidez de espantalhos inofensivos, e o brasileiro do F.C.P. – zás. Não está cá com florzinhas, não perde tempo. Faz o mais simples, que é também o mais difícil. Toca forte, em diagonal, para a chuteira atenta de Varela: golo. Era o um-zero. E ainda viriam mais quatro... Um super-herói, aquele Hulk. As maldades que ele fez à nossa defesa… Se continuar assim concentrado, há-de chegar longíssimo. E nós, Jesus, chegaremos onde?
É doloroso, eu sei, mas por favor, caros amigos, digam comigo: descer à terra, descer à terra – repitam cinco vezes –, descer à terra a ver se ainda conseguimos salvar alguma coisa este ano... A ver se, de pés na terra, reaprendemos a sonhar. Resta-nos o quê agora, a Liga dos Campeões?


Jacinto Lucas Pires

05 novembro 2010

O futuro de ontem


É a minha sina este ano. Escrever terça-feira à tarde sobre jogos de terça-feira à noite para leitores de quarta-feira de manhã. Na página branca do presente, escrever sobre o futuro em tempo pretérito. Parece confuso? E é mesmo. É por isso, caros leitores, que hoje começo por fazer um pedido à moda dos advogados das séries americanas: concedam-me, por favor, alguma latitude, um certo espaço de manobra, sim? Prometo que não farei “literaturas”, não darei “música” a ninguém, nenhuma batota complicada. Pelo contrário, serei o mais directo e claro que é possível nestas estranhas circunstâncias temporais. Mas comecemos pelo que sabemos de saber provado.
Aimar toca a bola ainda antes da linha de meio-campo e, de imediato, a bola muda. Dá para ver se olharmos com muita atenção. Ganha uns arredondados mais felizes, de repente toda ela é leveza e graça, poesia e geometria. Faz todo o sentido, claro, que a bola é uma velha amiga das chuteiras argentinas do Maestro Mágico. Planando sobre a relva, Pablito leva-a a passear pelos lugares perigosos do ataque. O cenário é a Luz, o convidado é o Paços de Ferreira. Que belo dia para estarmos vivos, hã, caros amigos? O nosso craque faz aquilo com tal estilo que até parece fácil. Um herói contemporâneo: alguém capaz de ser uma pessoa inteira sob a violência das luzes, alguém igual a nós fazendo o gesto mais verdadeiro e mais impossível. Não exagero, não senhor. Seja como for, não há verdade completa sem o excesso da imaginação.
Mas, sim, podemos usar outras palavras. Pablo Aimar limita-se a dançar ao som da música silenciosa do futebol. Simulação, olhar, mudança de velocidade. Dúvida, quebra, mudança de direcção. Levantar os olhos, pensar a bola lá dentro. Cumprir o pensamento até ao fim: que golo, Maestro! Uma obra-prima daquelas que valem mais que resultados e pontinhos. Um golo de vencer o vazio de todo o esquecimento, uma memória mesmo futura. Sim, não exagero. Maravilha, Pablito. Palmas, palmas! Agora só falta tudo o resto, não é? Que a alegria, a ousadia, a lúcida loucura desse momento, passe para o jogo colectivo, os noventa minutos do Benfica em campo.
Mas, portanto, aí vai – daqui, deste futuro-passado em que estou preso a escrever – a minha pergunta trocada, destraduzida, pela máquina-do-tempo: ontem o Glorioso ensinará o Lyon a engolir a expressão “baixar as expectativas”? Amanhã o Benfica alegrou?


Jacinto Lucas Pires

28 outubro 2010

Dois fantasmas magrinhos...


Sim, confesso. Depois da goleada aos amigos de Arouca, achei que íamos arribar definitivamente e regressar às alegrias do futuro. Claro que qualquer Lapalisse de trazer por casa percebe que o Arouca não é o Lyon, o Schalke ou o Rio Ave. Mas, como tenho cá para mim que isto do futebol é um jogo mais mental que outra coisa, acreditei que a fé dos nossos craques tinha crescido com aqueles golos da Taça e que, em virtude disso, os franceses iam provar da nossa canja. Afinal, foi o que se sabe: nós é que nos livrámos da goleada… Se não fosse o ressuscitado Roberto a defender aquelas outras bolas venenosas, tínhamos ido a França fazer de portugueses suaves… Ainda temos hipóteses, sim, não é tempo de perder as esperanças, claro que não, mas o facto é que entrámos em regime de austeridade europeia. Agora cada pequeno gesto na Liga dos Campeões, cada corrida, cada passe, cada chuto, vai estar sob maior pressão e vai custar muito mais. É um pouco como o que os economistas nos explicam todas as semanas sobre o jogo da dívida pública e a pressão dos mercados. Reticências, reticências, lá voltamos nós às reticências…
Dois pontos: o mal do Benfica deste ano não é a ausência de Ramires e Di María. O mal é a presença dos fantasmas de Ramires e Di María. Não concordam, caros amigos? É tão óbvio que até o mais científico dos cépticos vê. Nem sei como é que os árbitros, os bandeirinhas, os delegados do jogo e toda essa malta burocrática não dão conta. É um escândalo. Em todas as partidas, o Benfica entra em campo com treze jogadores. Onze mortais, de carne e osso, e dois fantasmas magrinhos. Esses mesmo, Ramires e Di María. Não pode ser. Temos de os esquecer de vez, camaradas. Os fantasmas só existem se acreditarmos neles. E agora temos é de acreditar nos que cá estão. Além do mais, todos somos fantasmas futuros… Mas, pois, não vale a pena apressar nada.
Para já, safámo-nos com o Portimonense. Uma lição de perseverança e garra. Falhar, falhar, até conseguir. Aliás, foi adequadíssimo que o golo tivesse a assinatura do nosso carregador de pianos. Era esse tipo de jogo. Mais de insistência que de extravagância. Martins centra certinho; Javi García faz uma corrida em C que deixa os portimonenses despassarados, faz que sim com a cabeça na bola e – golo.
Pois, safámo-nos… Mas, para a próxima, por favor, façam um bocadinho melhor, sim?

10 agosto 2010

Matemática alegria - Por Jacinto Lucas Pires

Por Jacinto Lucas Pires in JN

Sei de um miúdo de cinco anos, quase seis, que diz que, quando for grande, quer ser jogador de futebol; se não der, treinador; se não der, professor de matemática. Parece uma ligação estranha, não é, esta entre bola e matemática? Mas basta olharmos para o meio-campo do Benfica para percebermos que tem tudo a ver.

Alguns melómanos, quando, de frente para um qualquer milagre musical (pensemos Bach, Jobim, Stevie Wonder), buscam o mais alto dos adjectivos, passam por “grandioso”, “genial”, etc, e só se dão por contentes se aterram em “matemático”. E não foi o nosso poeta dos poetas que disse que o binómio de Newton é tão belo quanto a Vénus de Milo? Pois, é assim também o meio-campo do Glorioso quando está bem afinadinho, a trocar a bola em velocidade, de pé para pé, triangulando surpresas até aos lugares do perigo. Escrevo ainda antes do jogo na Luz com o Tottenham, mas quem viu, por exemplo, o 4-1 ao Aston Villa não poderá deixar de concordar. Aquele ateliê-laboratório do qual podem fazer parte Aimar, Martins, Airton, Gaitán, Ramires, Amorim, García, Menezes (e dizer os nomes é, desde logo, uma espécie de reza feliz acreditando em toda a vitória, na vitória máxima), aquilo é do que há de mais concreto e mais musical. Isto é, de mais matemático.
Do jogo com o Aston Villa – e para lá do poema lírico que merecia essa máquina artística do meio-campo – ocorrem-me três notas individuais. (Perdoem-me, credo, o tom professoral.) Uma é sobre Roberto: que alegria não ter nada a dizer sobre o novo guarda-redes. Outra sobre David Luiz: parece mesmo certo, não acham?, que seja dele a braçadeira de capitão. Caro Jesus, não quero sugerir nenhuma revolução a partir de cima, mas não seria justo, em virtude do que os jogadores dizem ou não dizem, passar esse simbólico (e, portanto, importantíssimo) cargo de “primus inter pares” do brasileiro velho que quer partir para o brasileiro novo que escolheu ficar? A terceira nota é só um ponto de exclamação: Jara! Com avançados assim focados, chuteiras que gostam da bola mas que também sabem despachá-la no momento certo, vamos longe, quantos golos, vamos, sim.
Este ano é para a alegria, caros amigos. Futebol de pôr Maradona a saltar em Buenos Aires, Cruyff a aplaudir em Barcelona, Eusébio a voar sobre os imensos portugais mundiais. Não acreditam? Vejam os jogos, espreitem as manchetes. Até o treinador do Real já está com medo de nós...

12 maio 2010

Crónica da Semana - Campeões, somos campeões - Por Jacinto Lucas Pires

Por Jacinto Lucas Pires in JN

Era uma vez um jogo de bola. O grande jogo, o super-jogo, o jogo dos jogos, aquele em que se ia decidir qual é que era a melhor equipa do país. O especial deste especialíssimo jogo é que cada uma das equipas candidatas ao título de “a melhor do país” jogava num relvado diferente contra uma equipa diferente. Um jogo à distância e com intermediários, mas o mais emocionante, o mais intenso dos jogos.

Na Catedral da Luz, a história não podia ter começado melhor. Logo a seguir ao “era uma vez” da entrada – no exacto momento, dizem, em que o ponteiro dos minutos tocou no 3 –, Óscar Tacuara Cardozo, o nosso melancólico matador paraguaio, estica o pé, adiantando-se ao defesa do Rio Ave, e toca a bola para o golo 1. “Pronto”, pensámos todos num silêncio síncrono, bem afinado, “vem aí goleada, mais uma festa de futebol-arte e batatas nas redes”. Mas não. O tempo ia passando, os minutos cada vez mais parecidos uns com os outros, e o nervoso a aumentar. No outro estádio, o Braga empata. E depois é o Rio Ave a empatar também. De repente, por uns segundos, até o nosso silêncio desafinou.
O “inimaginável”. Basta a palavra formar-se no pensamento e pomo-nos logo a imaginá-lo. É da nossa natureza. E foi o que aconteceu nesses longos segundos de sofrimento. Por momentos, adeptos e jogadores pensaram nessa hipótese remota, quase impossível e tão injusta: o inimaginável. Imaginaram isso, e o futebol ficou entre parêntesis. Felizmente durou pouco, muito pouco, que os nossos craques, sim, souberam estar à altura da circunstância tramada.
Aimar chuta um daqueles cantos de levezas arquitectónicas, um desses passes niemeyerianos, em recta-curva. Cheio de fé, cheio de estilo carioca, Airton salta para trás e dá de cabeça para a frente. É golo? Não, um defesa corta em cima da linha, que pena. Mas, quê?, é melhor ainda: aparece Cardozo. O nosso Óscar, que precisa de um golo só para ser o rei cá da terra. E Tacuara não treme. Aponta a chuteira paraguaia, atira a redondinha para a vitória.
Campeões, somos campeões. O Glorioso é uma lição de vida, caros amigos: como é difícil e feliz tornarmo-nos aquilo que somos. Campeões, somos campeões.


A revolução benfiquista

Os grandes momentos fazem-nos isto. Obrigam-nos a parar, a respirar fundo, a olhar para trás. Assim, num espírito de Reviver o Passado no Jornal de Notícias, permitam-me que respigue algumas passagens das minhas crónicas futebolísticas deste ano.
Nos calores de Agosto, escrevia aqui o meu eu-de-então: “Jorge Jesus entrou com tudo, exigindo o máximo e prometendo o céu, e a verdade é que vai lançado. Boas escolhas, bom futebol e bons resultados até.” E nem o empate do primeiro jogo (água fria logo de entrada!) fez deste adepto um descrente: “Inaugurar a época com um empate em casa não é brilhante, claro. Mas, pensando no que o Benfica chutou à baliza do Marítimo, também não é nenhuma tragédia.”
No segundo jogo já estava à vista o primeiro actor da revolução benfiquista: “Todos conhecemos a caricatura – o treinador do cabelo branco que vai mudando de tom, o entrevistado dos pontapés na gramática – e, no entanto, por trás disso, arrisco que não é uma personagem nada óbvia que ali está. Será ele até a ‘arma secreta’ do Glorioso deste ano. Por uma vez, permitam-me o trocadilho: é um mistério o nosso mister. (...) O homem é bruxo.”
Começava então a festa desse fenómeno tão raro por cá, um futebol-arte com muitos golos: “Vá, digam comigo, não tenham medo: baile, bailinho, banho, cabazada, espectáculo, carrossel, atropelo, sinfonia, saco de batatas.” Estávamos a jogar muitíssimo, pois, mas o campeonato não seria nenhuma facilidade de favas contadas. “Se fosse tudo muito fácil, tudo de quatro golinhos para cima, não dava gozo nenhum e a história estaria mal escrita. Vencer tem de implicar esforço, surpresa, contrariedade, conquista. Não citarei nenhum grego mas vem em todos os livros.” A verdade é que ainda trememos uma ou outra vez. “Não podemos continuar assim, meus caros, tão dependentes destas pérolas dos nossos astros. (...) O pior que nos podia acontecer nesta altura do campeonato era começar a perder balanço.”
Mas uma boa organização em campo e uma “boa onda” nos espíritos mantiveram-nos sempre focados no primeiro lugar. “Leio num jornal tão sisudo como o Financial Times que grande parte do sucesso norte-americano nos campos da economia se deve ao ‘pensamento positivo’. O sucesso do Benfica também (digo eu).”
Por outro lado, conseguimos não embandeirar em arco. Com alguns dos nossos craques mais modestos, fomos aprendendo “a genuína humildade que há em querer mais, querer sempre mais. A humildade de nos sabermos sempre capazes de melhor e, portanto, não nos darmos nunca por satisfeitos.”
E hoje aqui estamos, caros amigos: campeões, campeões, campeões.
Quem tem dúvidas que um investimento a sério na cultura – numa cultura de exigência e qualidade – ajuda todo o país, economia incluída, que olhe para o Glorioso deste ano. Como se viu nos relvados eternos deste nosso rectângulo europeu, a arte dá alegria, sim, mas também números e vitórias, títulos e multidões.
E agora, claro, queremos mais.

07 maio 2010

Ataque especulativo - Por Jacinto Lucas Pires



Por Jacinto Lucas Pires in JN

Água fria, amigos. É como diz a canção, não é? “Água fria da Ribeira...” Baldes e baldes, toneladas de frio. Quando Luisão, o nosso capitão-faraó, fez o golo do empate – um verdadeiro achado, um golo positivamente desenterrado de uma brutal confusão de pernas e pés –, até comecei a ouvir música. Parecia que já estava, já não havia volta a dar-lhe. Além do mais, fazia todo o sentido que um jogo assim de nervos acabasse simétrico, com golos dos defesa-centrais, um de cada lado. Mas depois – pum, aquele balde de Farías. E depois ainda outro, ai, aquele inexplicável golão de Belluschi. Uma bola que sobe violentíssima e, de repente, chh, perde o peso todo, cai para dentro. De um momento para o outro, lá se foi a música. Ficou só a letra daquele pop antigo do Variações, “É p’ra amanhã mas bem podias fazer hoje...”
Como um azar nunca vem só, ou como não há duas sem três (escolha o leitor o dito mais apropriado), o Braga conseguiu ganhar ao Paços com mais um golito de Meyong. Tudo muito certo, fazem o trabalho deles. Falta fazermos nós o nosso. Aliás, acho que deste Braga só se pode dizer bem. Num país de PME’s, onde tantas ideias boas não conseguem dar o salto, o exemplo arsenalista é de aplaudir. Digo mais: que continuem assim para o ano, e para o outro, e para o outro. Seria muito bom se o Braga, o Guimarães (que, em número de adeptos, já é o “quarto grande”), o Nacional e mais uma ou outra equipa, conseguissem subir ao campeonato do título. Se, em vez de três, tivéssemos seis ou sete clubes a lutar pelo primeiro lugar, a bola ficaria mais contente, com toda a certeza. (E as vitórias benfiquistas seriam ainda mais saborosas...)

Pois é, mas agora acabemos com as cerimónias, caros amigos. Agora é hora de fac-tu-rar. Levantar a cabeça, arregaçar as mangas e meter cinco, seis batatas na baliza do Rio Ave. O que se passou no Dragão não foi bonito, é óbvio, toneladas de água fria, pois – mas não foi mais do que um terrível “ataque especulativo”. Agora temos de voltar à relva e mostrar a força da “economia real” das nossas chuteiras. Para terminar em beleza, sim, por favor? Lembrem-se: arte e golos, suor e brilho. Cabeça fria para chegarmos vivos à festa louca.

23 abril 2010

Crónica da Semana: Sim, mas - Por Jacinto Lucas Pires



Por Jacinto Lucas Pires in JN

Já há benfiquistas a reservar o Marquês para os festejos do campeonato, não sei se viram as imagens. A “mística” a embrulhar o “iluminista” de pedra com uma espécie de gigantesco cachecol vermelho. Percebe-se a graça, claro, mas é preciso ter calma, caros amigos. É como diz aquela canção dos Heróis do Mar. “Eu não sou supersticioso, mas...” foguetes antes da festa dão azar. Aqui chegados – tão perto, tão maravilhosamente perto do título –, podemos tudo menos brincar com as Pressas, essas temíveis deusas pagãs, famosas pela sua arte de desmanchar prazeres. Já bem nos basta a luta contra essa outra deusa tramadíssima, a velha Pressão.
Pensemos, por exemplo, no jogo de Coimbra, contra a Académica. Como fazer para voar sob a nuvem negra da Pressão? Está visto que não pode ser no estilo Quim. (Digo nomes, não para ser desagradável com A ou B, apenas para tornar clara a ideia. Sou, aliás, um defensor do guardião benfiquista, e acho que devia ser ele o número um da selecção no Mundial.) Se respondemos à pressão com “excesso de confiança”, o resultado será este, “erros de palmatória”.
Não. Temos responder mais como Weldon: aprender a genuína humildade que há em querer mais, querer sempre mais. A humildade de nos sabermos sempre capazes de melhor e, portanto, não nos darmos nunca por satisfeitos. Não foi nada vistoso, já sei, mas é magnífico aquele primeiro golo do nosso craque suplente. Virando costas à baliza – permitam-me, por favor, que force um pouco a nota: como que virando costas ao clichê –, Weldon surpreende o guarda-redes da estudantada e a bola, zup, vai direita às redes. Um toque dos mais raros, em rotação, de raspão, com a parte de trás da cabeça (essa zona secreta onde, segundo os cientistas, começamos a ver). Um golaço, belo como uma equação.
E depois veio outro. Sem tempo para armar o chuto, entre os defesas X ou Y, o avançado W limita-se a esticar a chuteira, sem flores, frase directa: golo. É assim, amigos, que temos de encarar os próximos capítulos. Uma questão além-futebol, de filosofia de vida, quase. O amanhã há-de ser feliz, sim. Mas, para que o amanhã seja feliz, temos de jogar como se não houvesse amanhã.