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09 janeiro 2011

Continuar a começar


Aquele chuto de Salvio inaugurou o ano. Não é nada fácil este ritual de “nascer de novo” ao fim de 365 dias, mas o tiraço do miúdo argentino cortou todas as fitas que amarravam 2010. No ano passado, chamei-lhe, imaginem, “craque-em-progresso”... Que golão. O homem-elástico da Madeira, o nosso velho conhecido Peçanha, nem a viu. Zás. Um remate originalíssimo, rompendo a ideia feita de que um chuto ou é “em jeito” ou “em força”. Como um parágrafo de Bolaño, ou uma frase de Capote, o pontapé de Salvio foi ao mesmo tempo “em força” e “em jeito”. Um feito!
Começa por nos tirar o tapete, o craque - como na melhor literatura. O quê, não vai cruzar? Surpresa, desequilíbrio, ponto de interrogação. E depois, quando menos esperamos, a chuteira de El Toto revela-nos o sentido. Tal e qual uma frase bem cozinhada, que nos põe às voltas com o pensamento e a imaginação, para, de repente, plim, desembrulhar uma imagem, um relance de verdade, a vida.
Mas o jogo com o Marítimo não foram só os dois golos do placar. Lobo Antunes diz que se aprende muito a ler livros falhados, e aqui o cronista acha que, no Benfica-Marítimo, também vale a pena olhar para dois golos que não foram. O primeiro foi dos ilhéus e só não contou porque o artista estava fora-de-jogo, que a bola entrou na baliza direitinha. Digo “artista” no melhor sentido. É que se trata mesmo de uma obra de arte. Falo, pois, da genial bicicleta de Babá. A “inutilidade” futebolística do gesto (um golo que não contou) até lhe dá um “bónus” de arte, digamos. Um balé aéreo mostrando aos esquecidos que o futebol não pode ser uma indústria formatada de “transições” e “dinâmicas” - mostrando aos chatos que o futebol é, primeiro que tudo, um artesanato de sonhos.
O segundo foi aquele de Jara. O homem foge do último defesa com um toque perfeito, isola-se para a alegria e, no último momento, é interrompido por um pensamento. É o que basta para o defesa recuperar. Um pensamentozito a mais. Percebendo o erro, o benfiquista ainda tenta emendar o soneto, mas já é tarde para cantigas e o remate sai ao lado. Ainda assim, temos de aplaudir. Quando Franco souber ser fiel àquele primeiro impulso, há-de fazer estragos, sim, estragos maravilhosos.
E ora aí está um belo desejo para o ano novo, não acham? Ser assim novo no que se faz, pôr querer vivo no que se quer. Por outras palavras: continuar, continuar a começar.


Jacinto Lucas Pires

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