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05 maio 2011

Benfica - Liga Europa - Entre o Abismo e o Passo em Frente


Para todo e qualquer benfiquista, os tempos não têm sido fáceis. A equipa que incondicionalmente apoiamos volta a fazer jus à frase do grande João César Monteiro, que, perguntado como andava, respondia como o Benfica, arrastando-se pelos relvados. Este arrastão vermelho tem duas nuances: uma, física, bem visível no estado agonizante que se lhe dá depois dos primeiros dez minutos de cada jogo em que entra - a equipa está de rastos; outra psíquica, que faz com que esta época do Benfica, analisada ao primeiro dia de Maio de 2011, se prepare para entrar na História do clube, tornando-se absolutamente inesquecível. Sempre que se referirem os Campeões de 2009-2010, gerações e gerações de benfiquistas lembrar-se-ão do que se passou no ano seguinte. Do ano em que copiosa e incompetentemente nos tornamos um saco de porrada do F. C. do Porto, conseguindo a proeza de perder um troféu, um campeonato em casa, uma taça com o requinte de uma reviravolta épica e de apanhar uma cabazada monumental. Se nas três primeiras vezes, intercaladas por uma vitória no Dragão que a História acabou por tornar irrelevante, se admite um, dois ou três azares (já que estes raramente vêm sós) a quarta vez demonstra precisamente que resultados trazem as casmurrices consecutivas, as más apostas e a incapacidade de motivar uma equipa pelos seus pergaminhos, dever moral e honorabilidade. Sim, já o escrevi e repito: o Benfica, se quer ter futuro, precisa de um departamento de História, de importância estratégica tão grande como o Marketing.

Aqui chegados, o Benfica vê-se entre o abismo e o passo em frente: ou não consegue sequer gerir uma vantagem magra alcançada a ferros contra o Braga e, desta feita, é ingloriamente eliminado da final da Liga Europa ou, gerindo-a, consegue o apuramento e vai a Dublin defrontar o F. C. do Porto naquele que será o encontro mais indesejado de todos os tempos por todo e qualquer Benfiquista que não seja, também ele, um adepto ferrenho da literatura de Leopold von Sacher-Masoch.

Posto isto, e armando-me em Agostiniano de bancada, resta-me ir acreditando no que vou vendo. E congeminando, nas crónicas que se seguem até ao fim desta temporada agonizante, uma análise à época calamitosa e autofágica do Benfica bem como uma abordagem aos cinco desafios essenciais do Benfica para o futuro que se avizinha. É que os ventos, decididamente, não correm de feição, por muito que custe a crer a alguns de nós.

[Adenda: já depois de ter alinhavado estas palavras, o Benfica deixou-se empatar com a Olhanense. Nada de anormal no decurso do ano: a Robertada do costume é já uma imagem de marca deste medíocre Benfica e, claro está, um incentivo aos adversários para acreditarem até ao fim. O que choca verdadeiramente é a desculpabilização patética que o treinador do Benfica faz não só à falta de agressividade da equipa, mas também ao pior titular de todos os tempos das redes vermelhas (Bossio foi quase sempre suplente), passando a toda a massa adepta, crítica e directiva um atestado de incompetência que devia ser endossado ao actual número 12 da equipa do Benfica. Neste ponto, só não compreende e só não age quem decididamente não o quer fazer.]

04 março 2011

Jornada 21 + Taça da Liga: o Eterno Retorno


Afastei-me da filosofia de Nietzsche no final da época de 1994/1995. Nessa altura, o Benfica era treinado por uma pessoa que então se assemelhava ao filósofo alemão e que estava a dar cabo de uma equipa campeã nacional, afastando os enormes Isaías e Vítor Paneira, entre outros, e trazendo, também entre outros, nomes como Clóvis, Paulão, Nelo, Tavares e Mario Stanic que, mais tarde, dispensaria por crer que “não tinha valor para jogar no Benfica”. Ora bem, foi nessa altura em que tive que fazer uma escolha penosa: ou Nietzsche – por encontrar nele a projecção física do anti-treinador do Benfica – ou o Benfica. Evidentemente escolhi Benfica e sofri como anos a fio como um cão até Jesualdo Ferreira ter sido demitido após conseguir a proeza de perder contra o Gondomar em casa, para a Taça de Portugal. De aí em diante –de Camacho em frente- a coisa tem-se vindo a recompor paulatinamente. E eu, paulatinamente também, lá vou voltando a Freddie Nietzsche. A primeira vez que assumi publicamente este regresso foi precisamente quando Rui Costa voltou ao Benfica e o Prof. Neca regressou ao Desportivo das Aves: cumpria-se mais uma vez, no futebol, o mito do Eterno Retorno Nietzschiano que nos diz, em linhas genéricas, que isto tudo é uma quantidade de ciclos históricos, naturais, sociais e futebolísticos que se repetem até ao infinito. Rui Costa voltará sempre, Neca também.

Ora, os dois últimos desafios do Benfica permitem-nos, com relativa segurança, afiançar que estamos na presença de fortes índices de Eterno Retorno: contra o C. S. Marítimo, o Eterno Retorno de Fabinho aos braços do Benfica, o Eterno Retorno de um Benfica que acredita até ao fim. O Eterno Retorno do Inferno da Luz. Contra o Sporting, o Eterno Retorno genérico de mais uma vitória do Benfica e de mais uma não vitória do Sporting. Parafraseando um treinador do Benfica já aqui citado, tudo Eternos Retornos perfeitamente normais. Já com alguma surpresa assisto ao facto de o normal Eterno Retorno da vitória ao Sporting se traduzir num surpreendente Eterno Retorno de uma segunda-vitória-consecutiva-no-último-minuto em três dias. Coisa rara no mundo dos Eternos Retornos. Porém, se me detiver nesta fenomenologia no jogo de ontem, fácil será concluir que o dito esteve cheio de Eternos Retornos: em primeiro lugar, o Eterno Retorno às Robertadas, com mais um frango clamoroso. Vá que a coisa se compôs a seguir. Depois, estava o Benfica a perder e entra Anderson Polga. A simples entrada do central foi suficiente para que começasse a –permitam-me a expressão- cheirar a Eterno Retorno de qualquer coisa. Polga entra, está lá um bocadinho e zás, faz penalty. Eterno Retorno às Polguices, vem aí golo do Benfica. Quando vi Cardozo a correr para a bola, lembrei-me do Eterno Retorno ao erro crasso de por o Cardozo a marcar penalties. Bingo. Certo que a seguir ainda estava o João Pereira a abraçar Rui Patrício pelo feito e já o jogo estava empatado. Eterno Retorno de Tacuara aos golos.

Posto isto, e descontando alguns mini-Eternos Retornos que foram acontecendo aqui e acolá (a lesão de Aimar é bom exemplo), o jogo fica marcado por duas profundas linhas de reflexão: uma de fézada e outra em que a noção de Eterno Retorno se funde com a ideia de fézada. Ambas provando, com clareza, que o futebol não é só técnico-táctica, mas é também muito de construção filosófica. Comecemos pela fézada, um conceito que me é particularmente grato e a cujo estudo muitas horas tenho dedicado: fácil foi de constatar a fézada com que o Sporting estava em decidir o jogo nos penalties. Tanta que a partir dos setenta minutos já só defendia. O que é certo é que esta dita fézada encontrava correspondência inversamente proporcional na contra-fézada que o Benfica (e o seu universo de seguidores) tinha em que se fosse a penalties ia perder, fundamentando ontologicamente este temor na Final de Estugarda em 1988 e na Supertaça 1994/1995 em que o Benfica, estando a ganhar nos penalties ao F.C. do Porto, acaba por perder sem glória, num volte-face patético. Posto isto, entramos no momento capital do jogo: aquele em que a ideia de fézada se funde na noção de Eterno Retorno Nietzschiano: minuto 84. O Sporting é forçado a substituir João Pereira por Abel. Ao vê-lo entrar, lembrei os colossais ensaios lógico-futebolísticos que lhe são consagrados por J. Salinas neste mesmíssimo espaço e, associando conceitos, pensei que apenas em Abel estaria a única possibilidade de vitória do Benfica neste jogo: fosse num auto-golo, num penalty ou num qualquer ficar-nas-covas. Pensei também que, cumprindo-se esta conjectura, um duplo Eterno Retorno se verificaria: segunda vitória em três dias nos últimos suspiros de jogo, segunda eliminação consecutiva do Sporting nos últimos instantes do desafio.

Ante a confirmação da legalidade do seu golo, Javi Garcia terá pensado “quem foi a alma caridosa que me pôs em jogo?”. A resposta tem a fusão total entre a minha fézada e o Eterno Retorno de Friederich Whilhelm Nietzsche: foi o Abel, o lateral direito com nome de guarda. Posto isto, regressei a casa e inscrevi-me na Associação Internacional de Nietzschianos de Bancada.

27 janeiro 2011

SOBRE ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO


Carta aberta ao Presidente do Sport Lisboa e Benfica

Caro Presidente:

Certo que ultimamente a equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica – doravante denominada por nós – tem andado atrás do gabarito perdido. E de facto temos conseguido voltar às boas partidas, juntando, no mesmo desafio, o jogar assim-assim com jogar para nota artística.

Certo também que ontem foi um desses dias: uma hora de sonho e vinte minutos de pesadelo mais dez de absoluta normalidade assim-assim. Se, no ano passado por estas calendas levávamos uma vantagem de três zero, nem mesmo nos nossos piores pesadelos equacionaríamos empatar a partida (defino pior pesadelo: três jogadores expulsos e substituição defensiva de Di Maria por César Peixoto). Recordo até um jogo com a Naval Primeiro de Maio onde, aos onze minutos já estávamos a levar dois zero no lombo e, nesse mesmíssimo instante, a dúvida de todos os benfiquistas não residia em saber se conseguiríamos dar a volta ao jogo: estava, sim, em perceber se a volta era conseguida antes do intervalo ou na segunda parte. Ora, Presidente, ontem o Benfica definiu-se na sua versão desta época: estando a ganhar três a zero, nenhum destes todos benfiquistas (nós) estava tranquilo quanto à permanência do resultado, estivesse onde estivesse: no estádio, no sofá, no café ou, no meu caso, num quarto de hotel de estrada no País Basco Francês.

É certo, portanto, que este ano a coisa dificilmente lá vai. Até podia ir – fossemos nós uns melancólicos optimistas – mas, com o começo desastroso, as boutades e as robertadas, está difícil. Ora, é em alturas como estas que precisamos de um duche massivo de realfussbalitik – a realpolitik adaptada ao futebol. Perguntar-me-á, Presidente, o que lhe quero dizer com isto. Respondo-lhe com o final do jogo de ontem, com o momento em que Jorge Jesus agride ou tenta tentar agredir e agride um jogador do Nacional da Madeira que, seguramente, o provocou. Aqui está, Presidente, aquilo que nós mais precisávamos: bem mais que meia centena de reforços sul americanos.

Lembrando sempre que o jogador do Nacional em causa, Luís Alberto Santos dos Santos (sic), é para todos os efeitos e ao contrário do que alguns possam pensar, um agente desportivo, fácil será presumir que a justiça desportiva irá punir Jota Jota pelo acto. É justo, porque evidente, é de bom tom e tem o precedente dos quatro jogos que Scolari apanhou por esmurraçar um jogador sérvio chamado Dragutinovic. Ora, sendo Jorge Jesus punido com um, dois, dez, quinze jogos de suspensão ou apenas com uma simples multa, aqui estará aqui toda e qualquer – repito e ponho isto a negrito e a itálico – toda e qualquer justificação para todo e qualquer desaire do Benfica desta época, seja ele passado ou futuro. A partir daqui não importa a nossa própria incapacidade de ganhar, erros tácticos, erros de gestão de esforços, roubalheiras aqui e acolá. Na suspensão de Jesus – que deverá ser apodada de cabala montada por factores externos para deliberadamente prejudicar o Benfica e deliberadamente afastá-lo de onde merece (ou algo assim parecido, desde que contenha o advérbio deliberadamente) – residirá a explicação cósmica do que quer que seja, mesmo das quatro derrotas do início do campeonato. Sei eu, caro Presidente, que esta estratégia de comunicação não é original nem se coaduna muito com o livro de estilo do Benfica. Porém, é no mínimo uma ideia divertida e, deliberadamente, experimental.

Digne-se Vª Excelência receber os respeitosos cumprimentos e demais protestos de respeito de quem tem a honra de assinar-se um imenso benfiquista, Carlos Pringle.

18 janeiro 2011

O AZAR MELANCÓLICO DO GRANDIOSO CLUBE


Para além de ser um clube melancólico, o Benfica é um grande clube com bastante azar. Aliás, o azar benfiquista funda a melancolia epónima. O jogo de ontem contra o OAF da Académica de Coimbra não perfaz excepção a este estado e alinha-se, é certo que em menor escala, com uma corrente que tem picos altos na infelicidade de Costa Pereira na chuvosa final da Taça dos Campeões de 1965, em S. Siro contra o Inter (já para nem falar no azar de se jogar em casa de um dos finalistas) e no penalty de Veloso em Estugarda, na final da Taça dos Campeões de 1987.
Vejamos: o Benfica ganhou ontem ao OAF da Académica de Coimbra com um golo claramente obtido à margem das leis de jogo, em grosseiro offside. O azar disto é que tão visto como o offside do golo vermelho são os dois penalties que ficam por assinalar cometidos um sobre Fábio Coentrão, outro por corte com a mão de um cruzamento do Fábio Coentrão. Anulado o golo ao Benfica, asssinalados os dois penalties devidos, aplicando a lei dos cinquenta por cento à teoria das probabilidades de marcar um penalty e falhar o outro, o Benfica ganharia o jogo por um-zero, precisamente o resultado que alcançou frente ao OAF. É caso para dizer que o Benfica teve o azar de ganhar o jogo desta maneira inglória por um zero quando o devia ter ganho sem grande glória também por um zero (tenho para mim que um jogo ganho por um zero de penalty não é glorificante, sobretudo se contra equipas simpáticas como o OAF da AAC).
A seis de Novembro de 2007, o Benfica deslocou-se a Parkhead para jogar com o Celtic de Glasgow para a liga dos Campeões. Perdeu um zero. Aos oitenta minutos de jogo, Gilles Binya, um meridiano trinco que tivemos nas fileiras, assinalava o segundo momento da sua inscrição na história do Benfica: a uma estranha e portentosa forma de marcar lançamentos laterais adicionou uma entrada violentíssima a Scott Brown, com bolinha vermelha no canto superior direito, capaz de gelar qualquer alma caridosa com um cortante iiiiiiiiiiiiii. Resultado: seis jogos de suspensão. Ontem, aos trinta e cinco minutos de jogo, um meridiano trinco do OAF chamado Pape Sow conseguiu uma proeza notável: elevar os requintes da acrobacia agressiva para um nível bem mais nureiévico que karatékidico, numa agressão merecedora de bolinha vermelha no canto superior direito, capaz de gelar qualquer alma caridosa com um cortante iiiiiiiiiiiiii, fazendo com que a de Binya, já por si só horripilante, parecesse uma brincadeira de jardim escola.
Chegados aqui sabemos que a) a arbitragem é medíocre e a mediocridade que dirige o futebol fifense está-se nas tintas para os avanços tecnológicos no auxílio de decisões certas e justas usados noutras modalidades desportivas e que acabariam com estas cretinices (pardon my french) semana após semana, usando como justificativo desta recusa argumentos tão maquiavélicos que só entendidos como não sérios é que se lêem até ao fim e , b), Pape Sow, em Portugal, jamais e em tempo algum apanhará, no mínimo, os mesmíssimos seis jogos que Binya deglutiu - punição que, diga-se, tenho como justíssima em função do acto praticado.
Nada mais me restando para concluir, até porque estou com pressa para apanhar um avião para Genebra por causa de um negócio de importação de canivetes, termino com um desabafante e sempre justificativo o futebol é isto.

14 janeiro 2011

DA IMPORTÂNCIA DA NOMENCLATURA


Confirmadas as minhas teses sobre a correlação forte e tensa entre mercado aberto e x vem para o Benfica, confirmada a minha tese quanto ao genoma reactivo do F. C. do Porto ao universo Benfica – desta feira com o perigo vermelho e o Funes Mori certo no Benfica, ai já não vem, inflacionou-se, afinal Funes Mori interessa ao Porto – venho escrever-vos um desabafo rápido, curto e pertintente, ainda quente que está o siga em frente na Taça.

Não escondo eu um certo fascínio pela nomenclatura no futebol, tão na berra que está por força deste pedaço de literatura. Entendo - e já o expressei nesta mesmíssima ágora - que há uma relação directa entre um nome forte e a qualidade do futebol que se produz. Maradona, Zidane, Scifo, de todos o meu preferido, e Baggio (quem me dera chamar-me Carlos Baggio) tinham que ser grandes jogadores. Indalécio Hitler, que passou por Barcelos, jamais poderia ser um grande mago da bola, assim como Carlinhos, Carlitos, Zito, Vitinha ou Neca.

Posto isto, foi com particular júbilo que assisti à referida relação tensa entre mercado aberto e x vem para o Benfica desta semana, com a inscrição, nas capas dos jornais, de dois tipos com um nome absolutamente descomunal para jogador de futebol: Daniel Wass e Oscar Wendt, respectivamente lateral esquerdo e direito. Já consigo imaginá-los com a raça de um Shwartz, a força de um Thern e a elegância de um Strömberg e a eficácia de um Mats Magnusson. Ao constatar quem eram, o que fazem e ao que vêm, ousei até congeminar que Wass e Wendt, só pelo nome, têm tudo para se tornarem dos melhores jogadores de sempre do Benfica. Ainda por cima, jogando nas laterais, arrisca-se uma espécie de GreNoLi com os WW's vermelhos, não cometendo a injustiça de particularizar alguém da equipa do ano passado, uma verdadeira e épica QuiMaDaLuCoJaRaDiAiSaCa.

Continuando na esteira da dita relação de mercado aberto e vem para o Benfica, louvor também para a possibilidade de vinda de Taiwo: lateral esquerdo e nigeriano, tem a força bruta de um grande nome africano. Se Taiwo tiver tiro potente e certerio, tanto melhor, com aliteração em tê.

Estava eu bastante animado com este leque de possibilidades, mais ainda pela referência a um tipo chamado Ziegler que, diga-se, tem também grande nome de estratega e pensador da bola - sobretudo se for alto, esguio e falso lento (atributos para onde o nome Ziegler imediatamente remete) – quando me convulso pelo facto do Benfica ter ido buscar um central chamado Jardel ao Olhanense. Nesta altura estará o leitor mais benfiquista tão em choque térmico quanto eu ao escrevinhar estas linhas: Jardel? Mas o Benfica vai agora comprar um tipo chamado Jardel? Depois de tudo o que se passou com o Jardel e com o Jardel quase no Benfica e com o George Jardel no Benfica? Certo que o dito zagueiro Jardel possa até ser um central competente. Porém, se pensarmos na relação investimento em Jardel sobre número de piadas fáceis que uma contratação de Jardel para o Benfica é capaz de gerar, facilmente concluimos que não vale a pena ir buscar este senhor. Só assim por alto lembro-me de oito piadas fáceis demolidoras, com destaque para uma que ocorra na remota probabilidade de um auto-golo num jogo contra o F. C. do Porto, Sporting ou Beira-Mar. Ou seja, a vinda de um tipo chamado Jardel é bem capaz de ser um abalo moral forte numa altura de ressurgimento do Benfica pós cataplexia no Dragão. A única forma de contornar este melindroso assunto seria seduzir o jogador a mudar de nome antes de assinar contrato - solução que não é inédita e que se pratica em Chelsea, Londres, onde um tipo com o nome brutamontano de Paredão passou a ser conhecido, elegantemente, por Emerson Thomé.

Caros leitores: é também em situações como esta da vinda do Jardel que o Benfica falha, que o Benfica vacila, que o Benfica titubeia: para se jogar no Benfica não deve bastar só ser-se um jogador enorme, imenso, bem formado e culto. Deve, também, ter-se nome para jogar no Benfica. Deve existir, destarte, uma triagem na nomenclatura antes de se avançar para a contratação: há certos tipos que, graças à graça que têm jamais poderiam ter graça para jogar de águia ao peito. Que o diga George Jardel (bis), Carlitos, Carlitos, Nelo, Nandinho, Marinho e isto só para me ficar por uns quantos. Mal chegaram e já se sabia no que iam dar. E porquê? Porque não têm nome para ser jogadores do Benfica. Tal como este Jardel.

A continuar assim, daqui a uns dias ainda contratamos um José Deco.

28 dezembro 2010

JORGE NUNO, O AMOR E EU.


Permitam-me os leitores que, desejando-lhes um bom Natal atrasado, me debruce sobre um elemento extra-Benfica. Coisa rara – senão inédita – na minha prosa, é certo. Mas hoje acordei assim. E, para além disso, o grau de pós-modernismo da discursividade deste elemento a isso me obriga, seja em nome de uma clubite aguda - porém analítica - da qual padeço, seja também em nome de um amor profundo à filosofia enquanto mãe de todos os saberes e, destarte, também do futebol.

Tendo estado, nesta quadra, isolado numa remota aldeia do interior da Lituânia – onde a informação chega a conta-gotas – tentei aceder a notícias não do meu país, mas sim do meu Benfica. Ora, nestas coisas de estatísticas, nuvens de palavras, like its e feeds, descubro que as maiores referências ao Benfica provém não de jogadores e ex-jogadores do clube, não de dirigentes e ex-dirigentes do clube mas sim, senhoras e senhores, pasmem-se os incrédulos, de Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa, presidente do clube de futebol arqui-rival do Benfica, diseur de poesia, veterano das Caldinhas e mestre da arte de bem telefonar, alegadamente (reparem na astúcia defensiva com que uso o alegadamente).

Nada me move contra a pessoa em si. Porém, é na própria pessoa que devo centrar a minha análise sucinta, exacta e difícil de contradizer. Cá vai: Pinto da Costa amou profundamente o Benfica, mas o Benfica nunca o amou. Só assim, através da lei impiedosa do amor, conseguimos perceber o fascínio hepático-biliar que move o presidente de um clube que, mais do que uma identidade regional, nacional e internacional em franco crescimento tem como traço definidor essencial do seu programa um sentimento benfiquista, um amor que virou ódio. O Benfica é, pois, o combustível do presidente, a 98 sem chumbo que o faz carburar.

Vejamos os factos: a nível discursivo, o presidente do F. C. do Porto dirige-se mais insistentemente ao Benfica que ao clube a que preside. Ele é em entrevistas, em comunicados, em discursos que nem se consegue imaginar como será no balneário da sua equipa. Só alegadamente nas chamadas alegadamente telefónicas é que parece haver uma preocupação levemente maior pelo destino do, alegadamente, F. C. do Porto (denote-se, mais uma vez, a salvaguarda astuta no uso do advérbio de modo). Ora, caros leitores, como podemos compreender esta fixação? Apenas o podemos fazer à luz de uma paixão por corresponder. Mas será que se pode ser adepto de um clube e não ser, por este, correspondido enquanto clube apoiado? Por regra não, ou seja, eu não posso apoiar um clube e o clube não apoiar que eu o apoie e, por força disto, eu deixar de o apoiar. Porém, ao analisarmos o que verdadeiramente move Pinto da Costa, temos que encarar essa hipótese como altamente provável. Um pouco como encaramos a probabilidade do universo ser infinito quando lhe estamos à procura dos cantos. É que só podemos entender a actio do presidente do F.C. do Porto como resultado de um profundo sentimento pelo Benfica, tão extremo, tão extremo que deu a volta. A psicologia explica bem isto. Tipo “o amor que sentia levou-o à loucura e ao ódio”, para parafrasear um qualquer compêndio de lugares comuns. E mesmo tendo passado para o outro lado a intensidade sentimental de Pinto da Costa pelo Benfica acaba sempre por ser mais forte que a pelo F. C. do Porto.

Reparemos: quando o Benfica vai jogar ao Dragão, o sentimento é tão forte, tão forte, que os speakers estão proibídos de dizer Benfica: dizem antes visitante. Benfica é como o nome da paixão antiga que, como cantava Tim Maia, sempre mexe com a gente. Se – oh exemplo tão inocente! - uma pequena companhia de teatro vai representar para os filhos dos jogadores do F. C. do Porto a peça Pinóquio, cedo um assessor da presidência diz que os calções do pequeno aldrabão não podem ser vermelhos, que a companhia tem que desenrascar uns azuis para fazer a peça, caso contrário, nada feito. E quais as seis primeiras palavras que presidente do F. C. do Porto, seus jogadores, demais dirigentes e adeptos proferem, quando a sua equipa ganha um qualquer troféu, incluindo e destacando aqueles em que o Benfica não participa? Cito: “SLB, SLB, SLB, SLB, SLB, filhos”. Se isto não é fruto de um grande amor, meus caros leitores, o que é um grande amor?

É, pois, legítimo concluir que o presidente do F. C. do Porto não se move por desejos puros e inatos de grandeza, mas sim pelo propósito de ser um bocadinho mais que o Benfica. E isto mesmo quando o F. C. do Porto ganha mais que o Benfica, tem mais títulos internacionais que o Benfica e, em suma, é a melhor equipa portuguesa dos últimos trinta e cinco anos. É aqui, caros leitores, que reside a enorme pequenez do presidente futebolclubeportista. Podia ser, também, naquela táctica de perante qualquer derrota iminente do seu clube, dizer que se trata de um atentado às gentes do Norte e à sua região e depois, quando o clube ganha, não lhes dedicar nem uma vitóriazinha na Taça. Mas não: a política do presidente do F. C. do Porto nunca foi feita de per si, mas sempre em relação à existência do Benfica. Daí que Pinto da Costa podia ser presidente do F. C. do Porto, do Estrelas da Areosa, do Águas Santas ou das Águias do Falcão que, atendendo ao que o faz correr, a coisa seria a mesma. Só seria levemente diferente se, por acaso, calhasse ser presidente do Benfica: colapsava-se, explodia e daria origem a um novo sistema solar.

Na última semana, o presidente do F. C. do Porto fartou-se de falar à imprensa. E o que saiu do seu discurso? O Benfica e o seu treinador. O Benfica e os pontos de atraso. O Benfica e a cabazada do Dragão. O Benfica e o guarda-redes do Benfica. Sim, o mesmíssimo Benfica que não interessa porque já está a quinhentos pontos, o mesmíssimo Benfica que o ano passado não ia ser problema para ninguém. Como me dizia um velho amigo portista, “bastava a águia Vitória ter dentes e já o Pinto da Costa tinha contratado o Juan Bernabé”.

25 novembro 2010

Sobre a metodologia da derrota


Escrever sobre as derrotas do Benfica é já um depurado processo metodológico. Aliás, sendo eu um metodólogo por defeito, este compasso de espera - não escrever após o 4-0 à Naval para escrever após mais três secas do Happoel - é disso prova. Poderia alegar uma estadia demorada na Polónia, mais precisamente em Lodz, para tratar de uma exportação de sabonetes com aroma a pera-abacate, mas não. Apesar de ser verdade, não me recorrerei deste subterfúgio menor. Evidentemente que preferi esperar pela derrota do Benfica para pegar na pena e deixar que os zéfiros pestilentos da ria de Aveiro, onde me encontro, me inspirem, accionando em mim o verdadeiro método de escrever sobre derrotas do Benfica.

Façamos de conta que este é que é o primeiro parágrafo. Para começar a versar sobre a normalidade benfiquista deste ano, nada melhor que uma afirmação contundente, do género meus preclaros conclubistas, preparemo-nos, que esta época vai ficar - e já está - na história pelas antipodais razões da época passada. Em quatro meses ruiu tudo: o trabalho edificado e as expectativas criadas. Esta já é mais uma época de um imenso desconsolo. Depois deverá seguir-se, uma rememoração das vezes em que tal já se disse e escreveu, como prova que o autor não é um arrivista. (Neste instante, o autor escusa-se a fazer links para todos os textos que já publicou neste espaço, salvo o primeiro, ainda pejado de fézada). Na antecâmara da conclusão vem uma frase forte, do género toda a gente sabe que os jogadores estão a fazer a folha ao treinador, demonstradora que o escriba sabe o que é o cheiro do balneário e que conhece ou tem uma fonte importante junto da estrutura do Benfica. Por fim, a recordação da mais recente vez em que se afirmou estar ciente do descalabro vermelho: terça-feira, no barbeiro existencialista, quando, de navalha encostada ao pescoço em acto de desfazer a barba, a ele se dirigiu, dizendo ò Fernandes, a desgraça começou na Supertaça. Assim termina o primeiro parágrafo.

No segundo parágrafo, recua-se no tempo uma semana e meia apenas para expressar a intensidade da comoção de Nuno Gomes ao marcar o quatro a zero à Naval, para referir o quão ela nos marca e, aproveitando a conjuntura, para a metaforizar numa imagem do Benfica de hoje. No qual Gomes, teimosamente, vai irritando o treinador [e conclui-se, depois da figura de estilo, com o reforço de uma ideia já aflorada, ora leiam lá o que vem a seguir] a quem os jogadores estão claramente a fazer a folha.

No terceiro parágrafo, o escriba mostra como põe a ferramenta da História ao serviço da previsibilidade do futuro, neste caso, na descrença de um bom resultado em Israel: refere ter sofrido que nem um cão quando a vinte e oito de Agosto de noventa e oito, o Benfica, jogando o apuramento para a fase de grupos da Champions, depois de ter vencido o Beitar Jerusalém por seis a zero na Luz, a dez minutos do fim do jogo "em Beitar" está a perder por quatro a um. O resultado final foi encurtado por João Pinto e o Benfica passou por um fio. Relembra também as boutades Jesuanas do “agora vamos ganhar a Champions”. Junta tudo isto e, na esteira de uma conclusividade lógica, reforça as piores previsões (porque, benfiquista realista e melancólico, só isto lhe resta fazer) usando a expressão qualquer benfiquista que se preze. Cá vai: qualquer benfiquista que se preze tem quase a certeza que nem à Liga Europa vamos e, se formos, vamos de vela tão cedo quanto possível. Basta relembrar que foi na Liga Europa que o canibalismo Jesuano começou – qualquer benfiquista que se preze (bis) sabe que se Jesus não tivesse sido acometido de uma imensa borra, que o levou a inventar com o Sidnei em vez do Fabinho (Luiz jogou a lateral esquerdo) e o Júlio César em vez do Quim, tínhamos seguido em frente, empatando em Anfield a uma bola.

No quarto parágrafo o autor sublinha os contornos humilhantes desta época, referindo que até o Sporting de Braga fez uma Liga dos Campeões melhor que a do Benfica, reafirma o carácter anedótico deste Benfica que, com maior ou menor dificuldade, já não se verificava desde os anos negros de dois mil e um, no tempo daquele senhor que conseguiu perder com o Gondomar em casa, com golo de Cílio Sousa, e alerta para o ardil que é o facto do treinador do F.C. do P. andar estrategicamente preocupado em defender o treinador do Benfica da mesma forma fácil que todos os Benfiquistas defendem que o treinador do Sporting o seja por muitos e bons anos.

No quinto e último parágrafo, o escriba reafirma a falta de condições do treinador – fim de linha, Jota Jota, fim de linha - e termina com um bocadinho de name dropping para dar estilo ao texto e para categorizar o grande dilema do Benfica deste ano: como dizia Jean Paul Sartre, no futebol, tudo se complica pela presença da equipa adversária. Como lêem, esta máquina de escrever já está mais oleada que os onze de Jesus. Coisa fácil, quando há método e lógica.

09 novembro 2010

A Borra e as citações


“À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica/ Tenho febre e escrevo./ Escrevo rangendo os dentes”. Que melhor começo senão Álvaro de Campos e a sua Ode Triunfal para uma crónica sobre a inesquecível cabazada do Dragão? Falar do jogo? Da canalhice do Luisão? Do penalty por marcar por mão do Sálvio? Dos três frangos – um verdadeiro, a driblar um steward, e dois do Roberto (limpinho, é também muito à conta desta abécula que estamos a cair a pique)? Nada disso. Melhor é mesmo começar pelo Álvaro de Campos - também ele um grande benfiquista – se bem que no meu caso “escrevo rangendo os dentes” porque padeço de bruxismo de stress.

Como afirmei na passada semana, dirigi-me ao Estádio do Dragão munido de um bilhete falso. Não passei da tentativa: duas horas antes do jogo, quando passava ali pela confeitaria Estádio, em frente à Praça Velasquez, apanhei com uma bola de golfe na cabeça e perdi os sentidos. Acordei no início da segunda parte, profundamente sedado, numa cama do Hospital da Prelada. Graças aos anestésicos, consegui ver o jogo até ao fim calmamente, como se estivéssemos a fazer um treininho desastroso contra o Cova da Piedade. Apercebi-me, também, da presença de inúmeras bolas de golfe dentro do relvado do estádio. Provavelmente foram arremessadas do Monte de S. Roque, vizinho cimeiro do Estádio do Dragão. Não creio que a zelosa segurança deixasse passar um animal vivo para dentro do estádio, quanto mais umas dezenas de bolas de golfe. Ou vice versa.

Mas vamos ao que interessa: existe, no genoma benfiquista, um código de terror que se activa sempre que o Benfica se desloca à casa do F. C. do Porto. É um facto inegável na História Benfiquista que o Benfica já entra no Dragão a perder. Toda a gente o sabe, se bem que apenas poucos o admitem. E, a bem ou a mal, o Benfica acaba sempre por conseguir o resultado com que lá entrou. (É um facto que o ambiente gerado pelo anfitrião pode, à luz de certas normas de Direito Internacional, ser considerado de guerra, mas tal facto não releva para a teorização que ora se apresenta). Na gíria futebolística, este código de terror tem o nome de borra. E a borra monumental que o Benfica emana quando vai chez F. C. do P. iniciou-se, concretamente, na era de Artur Jorge de Braga Melo Teixeira, provavelmente o mais nefasto treinador que alguma vez sentou o derrière num banco benfiquista. Aliás, convém não esquecer que é no consulado desta espécie de Rei Midas ao contrário que ocorre o lendário pedido de substituição de Tavares em San Siro, por lhe ter dado a borra. Que me recorde, nos últimos quinze anos, nunca o Benfica entrou sem medo em casa do F. C. do Porto. Nunca. Nem mesmo quando lá ganhou por dois a zero, na época de 2004/2005.

Ora, parafraseando um velho teórico do futebol, a borra define-se como um estado psicossomático que atinge treinadores e futebolistas e que consiste num misto de medo, de pequenez, de angústia existencial bebida em Kierkegaard e, amiúde, forte indisposição gastro-técnico-tático-intestinal. Haverá melhor descritivo para o modo como o Benfica entrou em campo no Dragão? Talvez apenas o medo de existir tal como idealizado por José Gil. Mas esse não tem a força de uma grande borra. À borra deste fim de semana acresceu, claro está, um tratado de desinteligência Jesuana, digna de um hara-kiri japonês ou de uma rescisão amigável por falta de condições para continuar. Rescisão essa que inclui, como bónus, a oferta dos passes de Roberto Gago, César Peixoto e Franco Jara. Em quatro meses, Jesus conseguiu a proeza inédita de estuporar tudo o que erigiu na época passada. Um pouco como Rei Midas, mas ao contrário, sim. O próprio Benfica, como diria João César Monteiro, já voltou a parecer-se com “o Benfica arrastando-se nos relvados”.

Depois desta copiosa e vergonhosa derrota, chegou a altura de repensar o benfiquismo. É isso que me proponho fazer, até porque andar a escrever sobre derrotas e mais derrotas já me começa a custar um pouco e o meu estômago queixa-se disso. Daqui em diante, eu, Carlos Pringle, sistémico teórico do Benfica, proponho-me, neste mesmíssimo espaço excogitar, numa série de ensaios a que chamarei Prolegómenos de Todo o Benfiquismo Futuro, a essência desse mesmo benfiquismo. Termino como comecei, com uma citaçãozinha de grande oportunidade, fazendo minhas as palavras de Jorge Costa: "podem encomendar as faixas". É que a Liga deste ano está feita. Desde o jogo da Supertaça.

04 novembro 2010

A HUMILHANTE VITÓRIA (ESPECIAL LIGA DOS CAMPEÕES)


A jornada dupla que o Benfica realizou esta semana – sexta versus Paços, ontem versus Lyon – motiva, da parte deste glosador, uma análise ritmada e tipificada de grandes verdades benfiquistas, ciente da compreensão profunda, porém contida, dos meus correligionários de clube.
Começando pelo jogo do Nacional Maior da Primeira Divisão (terminologia vintage da nossa primeira Liga), urge condensar a sua sistematização na obra de futebol arte com que o Professor Doutor Pablo Aimar brindou qualquer ser humano que goste ou diga que gosta de futebol. Nada mais, depois desta obra, há a dizer sobre este jogo. Tudo que se queira acrescentar é irrelevante. O deslumbrante golo vai directamente para uma monografia em que me encontro a trabalhar, chamada Para Uma Antologia do Futebol-Arte Benfiquista – Casos, Estudos e Teorias.
Passando, de imediato, para o jogo da Liga dos Campeões, urge começar pela sua qualificação dizendo, sem espinhas, que a vitória do por 4-3 sobre o Lyon foi a vitória mais humilhante de sempre do Benfica. O leitor mais sagaz avivar-me-á a memória com aquela, em 2004/2005, com que brindamos o Oliveirense por 4-1 para a Taça de Portugal, mas apenas após prolongamento e após colapso físico dos atletas de Oliveira de Azeméis, então a prestar contas na II Divisão. Porém, este jogo da Champions é pior. E é-o pelas seguintes e insofismáveis certezas que todos sentimos e poucos confessam, que passo a elencar:
a) mais vinte segundos de jogo e o Lyon empatava.
b) mais um minuto e vinte segundos de jogo e o Lyon ganhava.
Um sustento transcendental do que se escreve mora aos setenta e seis minutos de jogo, quando, após o 4-1, o enciclopédico Alexandre Albuquerque, nos pertinazes comentários com que ilustrava a transmissão televisiva, disse: “atenção que ainda há muito para jogar”. Estou profundamente certo que apenas o mencionado Albuquerque, eu e o meu primo Ricardo Pringle (que por sinal estava ao meu lado esquerdo a ver o jogo) sentimos que a profecia fazia todo o sentido e que o jogo, apesar de estar em quatro a um, ainda não estava ganho. Ora, sentir uma coisa destas num resultado destes é um pouco como aquele mestre japonês que vê uma borboleta a bater as asas em Quioto, liga para o primo na Carolina do Norte e lhe diz "vai para casa, Hidetoshi, que está aí a chegar um furacão": no caso benfiquista é algo que só está ao alcance de todos aqueles que, compreendendo a essência da melancolia benfiquista estão certos que este ano é ano dela. Limpinho.
Porém, e no negrume desta humilhante vitória, espreita um corolário que urge considerar: a descida à terra, o regresso à época 2010/2011. É que caso o Benfica-Lyon tivesse terminado como estava aos setenta minutos, seria um facto absolutamente indesmentível que a efervescência vermelha iria dizer, a), somos candidatos à Champions e, b), vamos ao Dragão cilindrar. Daí que no facto dúplice deste jogo ter acabado quando acabou e de ter acabado como acabou - com o regresso das Robertadas - resida a referida descida à terra necessária para encarar com realismo o jogo no Estádio do Dragão, ao qual conto assistir - tendo para tal procedido à feitura de um seguro de vida e um testamento - uma vez que sou portador de um bilhete falso (jamais conseguiria aceitar um convite e, claro, jamais compraria um bilhete aos seus proprietários).
Uma nota final em forma de dupla questão: o que é que passa pela cabeça de um atleta de 24 anos, que usufruirá por certo de um vencimento mensal superior a 60 mil euros, e que tem, portanto, a vida resolvida numa tenra idade, para, nos últimos segundos de um jogo importante, em que a sua equipa até estava a vencer por margem confortável, porém, não lhe correndo tudo de feição, deixou tal margem encurtar-se para valores perigosos, para, dizia, sair da baliza correndo que nem um prisioneiro perseguido por um cão raivoso a fugir em busca da liberdade, até ao limite da grande área para socar a bola, sendo que o mencionado atleta sabe-se portador de bastante insegurança neste tipo de jogadas – ou pelo menos terá lido algo a seu respeito sobre isso –, pelo que, considerando a sua idade, profissão, salário, características e desempenho, o melhor seria ter ficado quietinho no seu lugar uma vez que o jogo, como se disse, estava a cinco segundos do fim? E já agora, o que é que lhe passa pela cabeça para usar meias tipo collants?

02 novembro 2010

Favada Austariana


Recuemos no tempo uma semana: quem, como eu, compreende a essência e o âmago do Benfica, estaria profundamente certo que, na passada quarta feira às 19.45 portuguesas, a equipa que apoiamos racional, porém apaixonadamente, iria perder o jogo contra o Olympique Lyonnais. Perguntais com o devido espanto: Carlos, porque afirmas de forma tão veemente tamanha certeza inquestionavelmente correcta? A resposta é simples, meus preclaros leitores: porque sei perfeitamente o que é o Benfica e, sobretudo, sei perfeitamente com que cosmogonias se orienta o futebol. Vejamos: acaso poderíamos ganhar depois de embandeirarmos em arco com uma vitória por cinco a um sobre o Arouca, como se tivéssemos cilindrado o Dortmund de Sammer, Kholer, Möller e Riedle? É certo que sempre que defrontamos, para a Taça, uma equipa de escalão inferior oriunda da periferia do Porto, o fantasma de Cílio Sousa e do Gondomar volta a pairar na Luz. Mas, caspité, o Fyssas já marcou ao Porto de Mourinho toureando meia defesa azul numa final do Jamor! Acaso Kardec facturaria mais algum golo depois dos dois que marcou para a Taça e que o fizeram prometer mundos e fundos? Se estivesse calado, talvez sim. Abrindo o livro de tal forma, como se tivesse cilindrado o Dortmund de Clos, Ricken e Chapuisat, evidentemente que não.

Se, por mera ironia do acaso, ainda restasse uma ou outra hipótese de fazer qualquer coisa decente na capital do Ródano, a esperança aniquilar-se-ia com a dupla boutade de Jesus, tomando eu aqui a liberdade de usar um francesismo que muito aprecio, boutade. Antes da partida, disse Jota Jota que, um, ganhar em França não é anormal e, dois, que o Benfica joga um futebol único no mundo. No primeiro caso, bastará recordar que antes da marselhesa do ano passado, a última vez que o Benfica foi a França, em dois mil e seis, perdeu dois a um com o PSG. A penúltima vez, em dois mil e cinco, empatou a zero com o Lille em casa (sic - Parque dos Príncipes, com noventa por cento de benfiquistas nas bancadas) com um onze composto por um keeper, seis defesas, dois trincos e dois avançados (vide abaixo)*. No segundo caso, nada de grave seria digno de se assinalar na referida asserção, fosse ela proferida por mim depois de ingerir uma garrafa de Bollinger Special Cuvée. Aliás, casos há em que depois da referida ingestão consigo declarar não só que o Benfica joga um futebol único no mundo como até mesmo que é a melhor equipa de futebol de todos os tempos. Voltando à fraseologia utilizada por Jesus, é certo e sabido que a sua utilização antes dos jogos dá derrota pela certa. Daí que, caros leitores, eu estivesse tão ciente da vitória do Lyon no mítico Gerland como da mesma ter o contributo, por razões óbvias relacionadas com o conceito de fézada, de Lisandro Lopez. A minha única dúvida residia em saber se Aly Cissokho iria ou não marcar golo.

Uma nota final, ditada por um dever de consciência: mesmo em tempos de crise, o Benfica distingue-se pela sua imensa dimensão nacional, parte considerável da sua grandeza. O pedido feito pela actual direcção aos adeptos de se absterem de acompanhar a equipa nos jogos fora, é um indamissível insulto ao benfiquismo. Tão grande como a sugestão de faltar a qualquer jogo de taça de liga ou de campeonato. É preciso ter cuidado com o que se faz ao benfiquismo.

Para desenjoar disto tudo, acabei por aceitar o convite de um velho amigo e, no passado domingo, rumei aos Picos de Europa para comer uma favada asturiana, facto que me impediu de assistir, com a devida dignidade, ao jogo contra o Portimonense e, pior, que me impediu de escrever na segunda e na terça. A favada não estava nada de especial, mas comi que me fartei. Um pouco tipo Javi Garcia, se é que me faço entender.

* Lille-Benfica, 22.11.05, Paris; um dos onzes mais vergonhosos de sempre do Benfica, da inesquecível responsabilidade de Ronald Koeman: Quim na baliza; Anderson, Luisão, Rocky Rocha, Léo, Alcides e Nélson, defesas; Petit e Beto, trincos; Nuno Gomes e Miccoli, avançados. Era tão provável ganhar com um onze destes como o Elvis Presley estar vivo e morar em Fafe.

07 outubro 2010

Rojões, Pudim e Digestivos.


Depois da escalada ao Pico do passado sábado, voltei ao Continente no início desta semana. O regresso ficou marcado por uma breve, porém intensa, paragem no Faial, da qual só me lembro do primeiro golo do Shalke 04, dos seis primeiros gins tónicos no Peter e de uma evacuação de helicóptero para Ponta Delgada.

Regressei ao Continente directamente para o Norte do País, onde, como é sabido, mantenho alguns negócios. Rumei ao Minho, mais precisamente à Roma portuguesa, tcc (também conhecida como) Braga, onde assisti, num conhecido restaurante perto da Sé, ao jogo que opôs o Benfica ao Sporting de lá. Durante o desafio fiz-me acompanhar de uns portentosos Rojões, condimentados com uma apurada tripa farinheira, batata aloirada em intensíssimo refogado, sarrabulho e grelos ensopados em delicado caldo de azeite e alho.

À medida que o jogo avançava e que eu ia devorando este prato supinamente confeccionado, cogitava em várias coisas, desde a imortalidade da alma à fantástica nomenclatura de Nico Gaitán. É que para além de um talento bruto, discretamente revelado nesta partida, Gaitán tem, de facto, nome de grande futebolista. Estará, por certo, ao nível de Enzo Scifo – o melhor nome de futebolista de todos os tempos, imortalizado no cósmico “Scifo, golo” de Rui Tovar - de Roberto Baggio, de Chrissie “Fucking” Waddle, de Mozer, de Shéu Han, de Jonas Thern (até dá gosto carregar no “rrr” de Thern), de Ljubinko Drulovic e de Preud'Homme. Tudo designativos poderosos, sonantes, sustenidos, capazes de encher a boca de qualquer relatador (salvo Gabriel Alves que era mau com os sotaques e que dizia “Proidóme” ao tentar dizer Preud'Homme). Do outro lado da barricada, Gil Baiano, Esquerdinha, Chicabala, Jorge Fucile, Carlitos, Nelo, Nandinho, El Hadrioui, Miguelito e Tote são exemplos acabados de jogadores condenados ao insucesso pela denominação. Exceptuam-se desta regra, eviendentemente, Ronaldinho Gaúcho e Cristiano Ronaldo, que tem o nome mais impensável de chamar a uma criança que tenho memória de ouvir. Mas adiante: como se sabe, ter nome de futebolista é meio caminho andado para se ser um grande futebolista. Nico Gaitán está, evidentemente, no bom caminho. Viu-se no domingo.

Devorada a travessa inteira de rojões e seguindo o jogo para um pudim Abade de Priscos, sou confrontado com a magnífica triangulação Fabinho-Saviola-Carlos Martins (lá está, nome de craque e de jazzman), que resulta no golão deste último. Considerando o estado de nervos em que me encontrava, a que não era alheia a demora na chegada de mais uma garrafa de um encorpado maduro tinto da região, explodi ali mesmo e gritei golo, seguido de expressão vernacular que rima com reviralho. No micronésimo de segundo em que o fiz, temi pela fúria brácara dos adeptos do Sporting local. Toda a gente sabe que um minhoto irritado é capaz do pior. Qual não é o meu espanto quando quatro quintos do restaurante gritam golo comigo. Recebo um abraço, dois palavrões e três sorrisos e compreendo a velha máxima que nos diz que em Braga o Benfica está tão em casa como na Estrada da Luz.

Ao engarfar o último trecho do sobredito pudim, reparo nas comemorações do autor do golo vermelho, que me deixaram bastante enjoado, como se acabasse de comer algo que leva vinte ovos e trezentos gramas de manteiga e açúcar: reparemos que Martins marca o golão, corre para a bandeirola de canto e simula qualquer coisa intravenosa – o que pode ser interpretado como algo para os lados do ilícito ou como uma crítica subtil à nomeação de Paulo Bento como seleccionador. Logo de seguida, pede uma bola ao apanha ditas, simula a gravidez e num gesto de extrema violência, esmurra a barriga grávida provocando parto extemporâneo do nascituro. O que quis Martins dizer com isto? Não fosse uma generosa aguardente envelhecida em carvalho, servida em balão aquecido, teria sido torturado por esta celebração plena de pós modernidade durante o resto do repasto.

Com o apito final do árbitro, depois do Benfica ter estado perto do dois a zero por duas vezes, dei por terminada a minha refeição. Quando me preparava para solicitar a conta ao Garçon, confronto-me com a entrevista relâmpago de Domingos Paciência: no seu fácies era legível a desesperada procura da perfeita desculpa para o sucedido. Não encontrou melhor que um fora de jogo assim-assim e a referência ao facto de o Benfica, depois do golo, ter jogado em queima-tempo. Após uma tirada deste calibre, fui forçado a mandar vir mais um digestivo. Fechei os olhos e, enquanto o bebia de penalty, consegui rever em fast forward os três minutos, dois beijos, seis apertos de mão, catorze palmas e cinquenta passos que o bracarense Vandinho deu para sair do campo instantes antes do fuzilamento Martineiro. “Ainda te lixas com f se dás um jogo como empatado aos setenta e três minutos”, já me dizia um tio meu, treinador adjunto (com curso de grau dois) do Marialvas de Cantanhede nos anos oitenta. Paguei a conta, saí do restaurante, e fui festejar com aqueles imensos benfiquistas que apitavam no Campo da Vinha. Afinal, estava “tipo do género” a jogar em casa.

23 setembro 2010

Jornada 5 – A lei do piorio Sportinguista


Quando Óscar Cardozo mandou calar os adeptos da Luz, no jogo contra o Hapoel de Tel Aviv, virei-me para a minha companhia feminina de origem lituana, que conheci numa viagem de negócios, e disse-lhe num lituano irrepreensível: este gajo precisa de cortar o cabelo. A conversa ficou por ali. A minha companheira levantou-se e foi buscar mais pistáchios, fruta seca que ambos muito apreciamos.

Alguns dias mais tarde, Óscar Cardozo aparece no relvado da Luz de cabelo curto para jogar contra o Sporting. O resultado está à vista: cinco ocasiões de golo cinco, duas delas lá dentro, vai buscá-las Patrício. Se me perguntais, caros leitores, se tal jogo redentor se ficou a dever à entrevista dada à Bola ou à reprimenda da Direcção, dir-vos-ei que se ficou a dever a ambas. Mas acrescento um dado de relevo: a redenção de Óscar Cardozo deveu-se sobretudo, ao facto de Tacuara ter ido ao barbeiro. Já dizia a escritora que não há coincidências. Muito menos no futebol. Repare-se igualmente que Roberto nunca mais abriu o aviário (apesar das ameaças) desde que deixou aquele miserável equipamento amarelo, uma versão actualizada do mesmíssimo jersey que fazia com que as exibições de Silvino Louro e Adelino Neno fossem dez vezes piores do que quando equipavam de verde berrante.

O Benfica-Sporting do passado domingo serviu para confirmar, uma vez mais, a velha máxima que nos diz que o Sporting é o sustento benfiquista do “pior é bem possível”. É um facto incontestável que sempre que o Benfica faz asneira, o Sporting consegue, com maior ou menor dificuldade, fazer uma borrada tão incontestavelmente pior capaz de lançar nas turvas águas do oblivião a bizarrice benfiquista. Chama-se a isto a “Lei do Piorio Sportinguista”. Pior arranque de campeonato de sempre, não ganhamos a ninguém? Ora aqui vai um banho de bola ao Sporting e dois a zero nas calmas. Roberto na baliza e Postiga no ataque? Roberto tem folha limpa e dá-se ao luxo de defender para a fotografia; Postiga mantém imensa coerência e fica em branco. Sete em Vigo, pior é impossível? Sporting-Bayern e vice versa: valeu a pena esperar. Contratações exorbitantemente caras? Thomas Skhuravi: um milhão de contos em 1996, quatro jogos, zero golos, remate ao poste mais caro da história do futebol português no Desportivo de Chaves – Sporting. Livro das contratações pós-modernas? Há sempre mais um melhor pior para os lados de Alvalade. Jovan Kirovski. O Pinheiro. A “melhor equipa do mundo”.

Numa monografia em que me encontro a trabalhar, chamada O Guia Místico do Verdadeiro e Bom Benfiquista, defendo que esta Lei do Piorio Sportinguista encontra os seus fundamentos na própria origem do Sporting, nos idos de 1906-1907. Outra coisa não seria de esperar de um clube cuja primeira acção de relevo foi apoderar-se de meia equipa de futebol do Benfica, num acto de fartar-vilanagem (numa expressão devida a um preclaro amigo benfiquista). Ora, um acto destes nunca pode fazer antever um caminho de glória. Admite-se o esforço, a dedicação e a devoção. Mas pouco mais do que isso, a julgar pelos oito campeonatos ganhos nas últimas cinquenta épocas.

Minuto cinquenta do jogo de domingo. Roberto põe a bola no chão. Expira fundo, expele os seus próprios demónios. Levanta a cabeça, lê o jogo com o brilhantismo de qualquer estratega. Puxa a culatra atrás e, num passe magistral de cinquenta metros (algo que há três semanas seria impossível), coloca a bola milimetricamente em Óscar Cardozo. Este triangula com Saviola, toureando a defesa do Sporting. Tacuara, épico e redentor, remata a bola num arco de volta perfeita apenas ao alcance dos grandes geómetras do futebol. Patrício não consegue contrariar a Lei da Física e defender o indefensável e, em termos mais amplos, não consegue suster a marcha inexorável da Lei do Piorio Sportinguista, confirmando, mais uma vez, a sua aplicação. Eu, assombrado pela certeza das minhas teorias, viro-me para a minha companhia lituana e digo-lhe, querida, traz-me um ovo mole, que se me falham os açucares.