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26 novembro 2011

No derby do optimismo, Benfica tem mais razões para confiar

Crónicas de Bruno Prata, in Público

Não é comum ver, em simultâneo, os adeptos do Benfica e do Sporting tão optimistas antes de um derby lisboeta – nas últimas décadas, tem até sido uma situação raríssima, por força das crises que alternadamente têm afectado um e outro clube. As recentes dores de um FC Porto que não tem sabido lidar com o sucesso também terão ajudado à euforia dos principais rivais.

Separados por apenas um ponto na classificação e praticamente igualados nos restantes indicadores estatísticos, Benfica e Sporting apresentam, no entanto, uma diferença substancial: o projecto de Jorge Jesus já está estabilizado, enquanto que ao de Domingos Paciência ainda falta tempo de maturação. E isso pode fazer diferença num confronto que, ainda por cima, se realiza no campo do mais forte.

Frente a frente vão estar a equipa que melhores resultados tem registado no seu estádio e a que melhor se tem saído nos campos alheios: o Benfica venceu os cinco jogos que realizou na Luz, enquanto o Sporting somou quatro vitórias e um empate na qualidade de forasteiro. De resto, as duas sofreram o mesmo número de golos (10), enquanto o Sporting leva mais um marcado (24 contra 23). Na Luz, o Benfica marcou 15 e sofreu cinco. Fora de portas, o Sporting marcou nove e sofreu quatro.

O empate conquistado em Manchester e o consequente apuramento para os oitavos-de-final da Champions terão ajudado a aumentar os já de si altos níveis de confiança de um Benfica que já igualou o recorde registado por Eriksson em 1982, quando o técnico sueco esteve 21 jogos sem perder. Curiosamente, na altura, o registo acabou por ser interrompido pelo Sporting... Outro dado a reter: desde que treina o Benfica, Jorge Jesus só sofreu uma derrota frente ao Sporting, tendo somado seis vitórias e um empate.

O Benfica continua a ser uma equipa com uma enorme riqueza ofensiva, mas o seu futebol já não é feito de supetões. Mostra-se mais temperado, homogéneo e pragmático, aceitando, por vezes, que o adversário domine (em Manchester, teve apenas 37 por cento de posse de bola), mas sem nunca se descompor de forma perigosa. Para isso foi essencial a chegada do belga Witsel, um box to box que é talvez um dos reforços mais interessantes que, nos últimos anos, chegou ao futebol português. Custou 7,5 milhões de euros e a sua presença permite a passagem do 4x1x3x2 para um desenho com um duplo pivot defensivo e com Aimar a assumir o papel de segundo avançado. Como se tem provado na Liga dos Campeões, esta solução tornou o Benfica num melhor produto de exportação.

Acresce que o Benfica parece uma equipa mais preparada do ponto de vista psicológico, como se comprova pelo facto de ter recuperado das situações de desvantagem com que teve de lidar no Dragão (duas vezes), em Braga e em Manchester. Isso contribuiu para que seja uma das duas únicas (a outra é o Barcelona) que ainda não conheceu o sabor da derrota esta época, entre as que participam nas provas europeias.

Essencial para boa parte dos resultados positivos tem sido Artur. Depois dos traumas que resultaram da contratação do espanhol Roberto, o Benfica voltou a ter um guarda-redes decisivo como talvez não tinha desde os tempos de Preud’ homme. Contratado a custo zero, contribuiu com defesas extraordinárias para os 15,1 milhões de euros que o Benfica já garantiu na Champions.

O acerto da generalidade das contratações (isto se olharmos apenas para os que acabaram por ficar no plantel) aumentou de forma substancial as alternativas ao dispor de Jorge Jesus, que assim pode efectuar a rotação de jogadores que não foi capaz de fazer na época passada, com os custos que são conhecidos. Isso poderá ser útil depois de um jogo desgastante como foi o de terça-feira em Inglaterra, apesar de só estar decorrido um terço da época e de haver tempo suficiente de recuperação. Javier García, Bruno César, Gaitán, Aimar e Rodrigo seriam os principais candidatos à substituição, mas não é crível que Jorge Jesus invista numa remodelação desta monta.

De qualquer forma, é muito provável que Cardozo regresse à equipa, ele que já não actua desde 15 de Novembro, quando defrontou o Chile ao serviço do Paraguai. Outro jogador que poderá reentrar na equipa é Nolito, que não foi utilizado em Manchester, o que acontece pela primeira vez esta época. Rúben Amorim também poderá ter mais uma oportunidade. Em princípio recuperado da entorse no joelho, Saviola deverá ser convocado, mas não é certo que seja titular.

A grande dor de cabeça do técnico benfiquista irá ser a ausência provável de Luisão. A confirmar-se, provavelmente tornará o derby mais equilibrado. Porque o brasileiro e Garay formam a melhor dupla de centrais do futebol português. Tudo indica que o substituto será Miguel Vítor, que entrou em Manchester e tem levado vantagem sobre Jardel nos últimos tempos. Mas nenhuma das alternativas garante a habitual fiabilidade.

O Sporting também terá dificuldade em disfarçar as suas fragilidades defensivas. Rodríguez já falhou 50% dos jogos e continua a debater-se com problemas físicos e faz falta, mesmo que Polga e Onyewu tenham subido de produção e passado a beneficiar do maior equilíbrio que a equipa foi ganhando. Continua a faltar um central de classe extra e isso pode tornar-se mais dramático em resultado da lesão que vai afastar Rinaudo durante vários meses.

O argentino garantia um suplemento de agressividade à frente da defesa e não há mais ninguém com as suas características no plantel. André Santos seria a alternativa mais óbvia, mas não esteve bem frente ao Braga. Talvez por isso, Domingos Paciência aproveitou para ensaiar a colocação de Carriço na posição “6”. A alternativa poderá ser a inversão do triângulo a meio-campo, com Schaars a surgir na mesma linha de Elias, ficando Matías Fernández numa posição mais central e adiantada.

O Sporting teria claramente mais armas se pudesse contar não só com Rinaudo, mas também com Jeffrén e Izmailov, estes dois últimos talvez os jogadores com mais classe pura do plantel. Mesmo assim, a equipa de Alvalade continua a ter algumas armas interessantes, a começar por Capel, que atravessa um momento de grande empolgamento. Ainda não aprendeu a levantar a cabeça, mas funciona como um furacão capaz de galgar metros sobre metros e de confundir qualquer defesa. A mudança fez-lhe bem. Em Sevilha, tinha marcado 16 golos durante sete épocas. No Sporting, já vai com quatro tentos em apenas 17 jogos. O Sporting também melhorou de fecundidade goleadora à custa de Van Wolfswinkel (11 golos em jogos oficiais), um belíssimo projecto de ponta-de-lança que está a crescer em Alvalade.

Outro jogador determinante no Sporting têm sido Rui Patrício. Titular há quatro anos, está a preencher o vazio na baliza que já durava desde os tempos de Schmeichel, porque Ricardo nunca foi consensual. João Pereira é essencial na verticalidade que dá ao corredor direito, sendo o segundo jogador mais utilizado, apenas atrás de Schaars, cujo futebol geométrico e cerebral contribuiu para o equilíbrio que hoje se nota entre os três sectores. Mas, no miolo, quem mais faz a diferença é Elias, não sendo por acaso o jogador mais caro na história do clube.

Na Luz, frente a um Benfica supermotivado, é natural que Domingos baixe um pouco a linha da defesa, procure jogar com os sectores muito próximos uns dos outros e invista ainda mais do que é hábito nas transições ofensivas rápidas. Tem jogadores com características para isso e não é de descurar a hipótese de Carrillo ser lançado para explorar as debilidades de Emerson, de início ou então mais tarde.

Os reforços estão integrados, as hierarquias da equipa estão agora bem definidas e o Sporting tem hoje uma alma que contagia e um vigor juvenil que lhe tem permitido marcar golos nos primeiros minutos.

Será o 14.º confronto entre Domingos Paciência e Jorge Jesus. O saldo está equilibrado: cinco vitórias para o técnico benfiquista, quatro para o sportinguista e quatro empates.

A FAVOR
BENFICA
Maturidade
Versatilidade táctica
“Banco”

SPORTING
Estabilidade psicológica
Qualidade dos reforços
Alma contagiante

CONTRA
BENFICA
Lesão de Luisão
Desgaste físico

SPORTING
Lesão de Rinaudo
Fragilidades defensivas
Ambiente

01 setembro 2011

A baliza do Benfica


O Benfica gastou quase 30 milhões de euros em reforços, boa parte deles de indiscutível qualidade. Mas não deixa de ser curiosa a circunstância de o papel mais relevante, até ao momento, estar a ser protagonizado por um jogador contratado a custo zero: o guarda-redes Artur. Algo que merece ser tanto mais relevado porquanto o que se discutia há um ano eram os 8,5 milhões que havia custado Roberto e os estragos que o guardião espanhol vinha fazendo na baliza benfiquista.

Artur é um guarda-redes experiente (30 anos), mas a serenidade que transmite não deve ter apenas a ver com a idade ou com a passagem por bons clubes brasileiros e pelo futebol italiano. Parece algo inato e tem tido uma dupla virtude: sossega as bancadas e dá tranquilidade à restante defesa. Claro que a entrada de Garay para o lado de Luisão também foi determinante para dar estabilidade ao sector, mas foi Artur a conseguir que os seus colegas se sentissem novamente seguros e à-vontade para arriscarem uma defesa alta, como se exige a uma equipa com as características do Benfica. Artur atenuou os estragos em Barcelos e foi quase sempre determinante nos resultados positivos frente ao Feirense, Nacional, Trabzonsport e Twente. Na Madeira, resolveu um lance perigoso logo ao sétimo minuto e foi ainda decisivo na reposição rápida da bola que permitiu a cavalgada e o golo de Bruno César.

Mais importante do que a liderança à condição, que contrasta com o início periclitante da época passada, salta à vista que o Benfica desta época tem mais e melhores armas, tanto no que respeita aos recursos humanos como à maneabilidade táctica (por muito que Jorge Jesus teime em dizer que o desenho táctico é sempre igual...). Tudo factores determinantes, como também é voltar a contar com um guarda-redes em que os colegas e os adeptos confiam...

25 fevereiro 2011

As contas da corrida entre o FC Porto e o Benfica


Caso se repetissem os resultados da época passada nas dez jornadas da liga portuguesa que resta disputar, o FC Porto iria garantir a conquista do título nacional, terminando, nesse caso, com cinco pontos de vantagem sobre o Benfica. A extrapolação é apenas um indicador e não é, obviamente, totalmente fiável, até porque os portistas irão defrontar o Portimonense (fora), com quem não jogaram em 2009/10, não havendo por isso qualquer termo de comparação. Acontece o mesmo com o Benfica relativamente ao mesmo Portimonense e também ao Beira-Mar (ambos na Luz).

Nas nove jornadas da época passada em que defrontou os mesmos adversários (e nos mesmos estádios) que ainda lhe restam defrontar no actual calendário, o FC Porto desperdiçou oito pontos, todos fora de portas (ver quadro). Perdeu na Luz (1-0), empatou em Paços de Ferreira (2-2) e perdeu nos Barreiros, no Funchal. O Benfica, por seu lado, nos oito jogos em questão, saiu derrotado de Braga (2-0) e cedeu dois pontos em Olhão (2-2). Ou seja, o FC Porto desperdiçou um total de oito pontos, enquanto as perdas do Benfica se resumiram a cinco pontos. Como a actual vantagem do FC Porto no campeonato sobre o seu mais directo perseguidor é de oito pontos, o FC Porto manteria uma confortável margem de segurança no caso de desfechos idênticos.

Acresce que o FC Porto tem ainda a vantagem de ter batido o Benfica no Dragão por cinco golos sem resposta, na primeira volta do actual campeonato. Jorge Jesus ter-se-á esquecido desse pormenor quando, após o importante triunfo do Benfica em Alvalade, afirmou que a sua equipa estava agora a apenas cinco pontos do líder. Para além de ter dado como garantida a vitória sobre o FC Porto no encontro que apenas terá lugar na 25.ª jornada, terá desvalorizado a necessidade de marcar seis golos sem resposta à equipa portista, o que não é muito verosímil. Caso isso não aconteça, o Benfica terá de anular, de facto, nove pontos.

O Benfica tem a seu favor o facto de ir disputar cinco jogos no seu estádio e outros campos alheios, enquanto o FC Porto jogará apenas quatro vezes no Dragão, sendo que uma das suas seis viagens será exactamente à Luz. Acresce que os portistas terão ainda que se haver, no seu estádio, com o Sporting, o que não deixa de ser um jogo com algum risco, mesmo levando em conta a presente debilidade que a equipa "leonina" denota. Mas o Benfica também terá de ter muito cuidado, principalmente nas deslocações a Paços de Ferreira (onde mora o surpreendente quinto classificado), a Braga, a Olhão e até a Vila do Conde.

Salta, por isso, à vista que só uma verdadeira hecatombe poderá fazer com que o FC Porto desbarate toda a sua vantagem. Nas 20 jornadas já realizadas, a equipa de André Villas-Boas desperdiçou apenas quatro pontos (empatou em Alvalade e em Guimarães), somando 56 dos 60 possíveis. O Benfica, que totaliza 48 pontos, deixou pelo caminho 12 pontos, fruto de quatro derrotas. Três delas aconteceram nas quatro primeiro jornadas (em casa com a Académica e fora com o Nacional e o Guimarães) e a restante foi a já referida goleada sofrida no Dragão.

Por isso, é incontornável a conclusão de que o Benfica hipotecou as suas ambições com o pior arranque de campeonato da sua história. É verdade que o FC Porto teve recentemente uma quebra considerável de produção, fruto de algumas ausências importantes e, quiçá, também de algum deslumbramento. Mas isso acabou por não se reflectir nas contas do campeonato, ao contrário do que aconteceu na Taça da Liga. Mais do que isso, com os regressos de Álvaro Pereira e Falcão, fica a ideia de que os portistas recebem um suplemento vitamínico importante, até porque a segunda delas implica o regresso de Hulk aos terrenos onde ele é mais desequilibrante e explosivo. A derrota frente ao Sevilha poderia ter deixado sequelas se tivesse resultado no afastamento da Liga Europa. Assim, o mais provável é que seja apenas vista como um acidente de percurso, até pelas circunstâncias estranhas em que aconteceu, num jogo em que ficou a ideia que os portistas poderiam ficar toda a noite a rematar à baliza de Varas que a bola jamais acabaria por entrar.

Esta realidade não é a mais atractiva para quem gostaria de assistir a um campeonato competitivo e ainda interessante até ao fim, algo em que é difícil de acreditar até levando em linha de conta o excessivo desnível que existe entre o FC Porto e o Benfica e todos os restantes adversários, no que acaba por ser um dos grandes óbices do futebol português. De facto, seria bem mais aliciante assistir a um braço-de-ferro duradoiro entre as duas principais equipas portuguesas. Até para o negócio desta indústria em que há tantos interesses paralelos, designadamente os ligados aos sectores das apostas desportivas e da própria comunicação social.

Com o Benfica de regresso ao futebol-champanhe e com o FC Porto ainda e sempre fiável, a coisa prometia. Mas o FC Porto acaba por ser o menos culpado por isso provavelmente não ir acontecer...



O que resta jogar

Benfica*

21.ª Benfica-Marítimo (1-1)

22.ª Sp. Braga-Benfica (2-0)

23.ª Benfica-Portimonense**

24.ª P. Ferreira-Benfica (1-3)

25.ª Benfica-FC Porto (1-0)

26.ª Naval-Benfica (2-4)

27.ª Benfica-Beira-Mar**

28.ª Olhanense-Benfica (2-2)

29.ª Rio Ave-Benfica (0-1)

30.ª Benfica-U. Leiria (3-0)



FC Porto*

21.ª Olhanense-FC Porto (0-3)

22.ª FC Porto-Guimarães (3-0)

23.ª U. Leiria-FC Porto (1-4)

24.ª FC Porto-Académica (3-2)

25.ª Benfica-FC Porto (1-0)

26.ª Portimonense**-FC Porto

27.ª FC Porto-Sporting (1-0)

28.ª V. Setúbal-FC Porto (2-5)

29.ª FC Porto-P. Ferreira (1-1)

30.ª Marítimo-FC Porto (1-0)

* Entre parêntesis, os resultados verificados na época passada

** Equipas promovidas



A honestidade do Atlético de Madrid

A história deu que falar em Espanha e resultou de uma carta de um associado do Atlético de Madrid dirigida ao director do jornal Marca, em que o leitor expressava a sua inquietude face à possibilidade de o seu clube decidir vender o avançado Aguero já depois de os sócios pagarem os seus lugares anuais no estádio. Defendia o autor da missiva que, nesse caso, o Atlético deveria devolver o dinheiro a todos aqueles que quisessem anular a inscrição. A preocupação tem razão de ser, porque há antecedentes recentes: Heitinga, Jurado e Simão Sabrosa. Mas o mais surpreendente é que aquela simples carta acabou por ter efeitos imediatos. Os responsáveis do clube madrileno emitiram um comunicado em que se comprometiam a tornar pública uma lista de jogadores inegociáveis antes de começarem a cobrar as cadeiras anuais. Só não se trata de uma garantia total porque todos os jogadores em Espanha são obrigados a ter no seu contrato um valor por que podem ser transferidos mesmo sem o acordo do clube. Mas não deixa de ser algo de raro em termos de credibilidade, transparência e até honestidade... Alguém acredita que isso possa algum dia acontecer em Portugal?



O triste surrealismo das associações

Seria uma situação apenas surrealista se não fosse também triste e lamentável. As associações que vêm funcionando como minoria de bloqueio à adequação dos estatutos da federação tinham, finalmente, garantido ir votar favoravelmente as alterações previstas se Gilberto Madaíl lhes apresentasse provas de que a UEFA e a FIFA entendem que as regras impostas pelo novo Regime Jurídico das Federações Desportivas não chocam com os próprios regulamentos das duas entidades que gerem o futebol internacional. Ora, numa reunião tida esta semana com as referidas associações, Madaíl apresentou-se com duas cartas nas quais a FIFA e a UEFA assumiam que a "lei desportiva portuguesa não está em conflito" com nenhuma das suas regras ou princípios. As associações dizem agora que a resposta não foi suficientemente esclarecedora e que querem elas mesmo reunir com a UEFA e com FIFA. Só se for para lhes perguntar se podem ser elas a escolher os próximos presidentes dos conselhos de disciplina e de arbitragem...

04 fevereiro 2011

As transferências de David Luiz e Liedson


As transferências de David Luiz e de Liedson deixaram o paupérrimo futebol português ainda mais falho de cabeças de cartaz. Não sendo uma inevitabilidade, ambas as vendas acabam por resultar aceitáveis à luz das circunstâncias e da necessidade de tanto o Benfica como o Sporting manterem os equilíbrios. Na tesouraria e nos humores do balneário.

São, obviamente, situações muito distintas. Desde logo pela disparidade dos valores envolvidos. Mas também com contornos e especificidades que se tocam. A gestão financeira do Benfica pode não estar tão dependente do garrote bancário como a do Sporting, mas ficou também evidente a necessidade que o clube da Luz tinha de realizar um suculento encaixe. Assim se compreende que o Benfica tenha aceitado uma oferta do Chelsea com valores substancialmente mais reduzidos do que outras recebidas na Luz no último Verão. Que tenha acabado por aceitar uma proposta que não diferia em muito da que tinha recusado poucos dias antes. E ainda que Luís Filipe Vieira se tenha deslocado a Londres, a meio do processo, para negociar com os responsáveis ingleses - quem costuma viajar são os dirigentes do clube comprador.



A verdade é que a opção acaba por fazer sentido até do ponto de vista económico. Porque o mercado futebolístico está hoje diferente, para muito pior. E porque, somando as várias parcelas (25 milhões a pronto pagamento, 3,5 milhões de prémio por objectivos, receita do jogo na Luz e o passe de Matic), David Luiz acaba por ser uma das maiores transferências conseguidas pelo Benfica na sua história (Di María foi vendido por 33 milhões, Ramires por 22 milhões e Simão Sabrosa por 20 milhões). O que não deixa de ser relevante até por ter ocorrido na reabertura do mercado em Janeiro, normalmente menos propícia a negócios avultados. Mais, os 23 milhões recebidos imediatamente tornam a transferência de David Luiz a décima mais relevante a nível internacional, subindo para o quinto lugar se lhe acrescentarmos as restantes mais-valias, designadamente a garantia de que será o Chelsea a responsabilizar-se pelas percentagens que cabem aos empresários e aos clubes formadores.



Claro que os cinco milhões em que foi avaliado Matic parecem um excesso de boa vontade, até porque se há algo que o Benfica parece não precisar hoje é de um médio-defensivo (seria bem mais razoável que recebesse um lateral). No entanto, o sérvio que o Chelsea mantém emprestado ao Vitesse até ao final da presente época tem apenas 22 anos e distingue-se não só pela elevada estatura (1,94 m), mas também pela qualidade do seu pé esquerdo. Não é um craque, mas sabe posicionar-se e tem qualidade de passe, mesmo a longa distância. Pode dar jeito a funcionar num 4x4x2 clássico, agora que Jorge Jesus descobriu que o duplo pivô defensivo também serve para ganhar jogos difíceis.



Independentemente do valor da recompensa, há ainda que avaliar a vertente desportiva. David Luiz ia na quarta época e meia na Luz, mas vale hoje um pouco menos do que valia há cinco meses. Porque não manteve o mesmo nível exibicional. Por culpa do início de época tremido do Benfica, mas também por culpa própria, ficando a ideia de que não lidou bem com a circunstância de ver partir Di María e Ramires e ele ter sido obrigado a continuar em Lisboa. Ora, tendo em conta que o Chelsea lhe oferecia a chance de quase triplicar o ordenado, era normal que a situação se repetisse e que o jovem brasileiro voltasse a acusar alguma instabilidade psicológica.



David Luiz tem uma qualidade acima de qualquer suspeita e pode vir a consagrar-se como um dos melhores defesas-centrais do mundo. Essa evidência contribuiu para que alguma crítica defendesse que a sua saída iria tornar-se numa grande dor de cabeça para Jorge Jesus, por falta de alternativas credíveis. Nesse sentido foi também entendida a contratação de Jardel, apresentado como a solução de futuro. Independentemente do valor do ex-Olhanense, tratou-se de uma visão injusta para Sidnei, como anteontem ficou provado no Dragão. Resolvido o problema de excesso de peso, que foi notório a certa altura, o central brasileiro está mais do que preparado para formar uma grande dupla com Luisão, até em termos de complementaridade. Tem apenas 21 anos, mas não me admiraria que dentro de pouco tempo tenha um valor de mercado equiparável ao de David Luiz.



No que respeita a Liedson, devemos também contar com o peso da vontade do jogador, havendo notícias de que o avançado estaria a criar focos de tensão em resultado da sua vontade irredutível de se mudar para o Corinthians. Os 2,1 milhões de euros (tudo indica que incluem os 600 mil que o Sporting devia ao avançado à conta de prémio de assinatura do seu último contrato e que irão agora ser pagos pelo clube brasileiro) não parecem um valor de monta e capaz de influenciar a decisão de prescindir do melhor jogador e goleador sportinguista da última década. Mas numa casa em que todos os tostões têm de ser hoje contados, não deixa de ser importante cortar na folha salarial os 150 mil euros mensais que se diz ser o vencimento de Liedson, mesmo que pareça pouco ortodoxo que esse facto acabe contabilizado na comunicação enviada à CMVM.



Depois, Liedson tem 33 anos, vai na oitava época de leão ao peito e ficaria livre no final da próxima temporada. Também por isso, seria razoável que o Sporting aproveitasse a circunstância da sua saída para encontrar uma solução de qualidade e de futuro, mais a mais numa fase em que os actuais objectivos desportivos já são muito limitados. Por isso, o problema não foi aceitar a sua transferência. Foi não ter tratado atempadamente de uma alternativa credível e exequível - Kléber teria sido uma boa solução, mas saltava à vista que o FC Porto e o polémico presidente do Atlético Mineiro não estavam pelos ajustes...





A impressão digital de Jorge Jesus

Jorge Jesus pode não se distinguir pela verve imaculada, mas acabou por ter a explicação mais certeira para o que se passou no último FC Porto-Benfica: "A colocação do Peixoto visava não dar muitos espaços ao Belluschi, que tem muito jogo interior e dá largura ao jogo do FC Porto. Na última vez, não conseguimos impedir as diagonais de João Moutinho e Belluschi, por isso mudámos", referiu após um triunfo em que ficaram evidentes as impressões digitais do treinador. Faltou-lhe acrescentar que a defesa subida inclinou o campo a favor do Benfica, enquanto o FC Porto se limitou a combater com dignidade, mas mostrando-se sempre um conjunto pesadote, mal articulado e sem nenhuma solução para os problemas que se lhe colocaram. Não era só uma questão de jogo, mas também de voltagem. Agora, a grande questão é saber como Villas-Boas vai gerir o insucesso.



Convocatória de Paulo Bento sem polémica

É difícil polemizar em torno da convocatória da selecção nacional. Paulo Bento foi coerente nas escolhas, mesmo na chamada de Ventura como terceiro guarda-redes. O guarda-redes que o FC Porto mantém emprestado em Portimão pode não estar a fazer uma época do outro mundo, mas não há muitas alternativas credíveis. E não deixa de ter lógica dar uma oportunidade a quem tem passado nas selecções jovens e é o titular dos sub-21. O regresso de Quaresma, que só não tinha estado nos jogos anteriores por se ter lesionado, era obrigatório, mais a mais agora que não há Simão. Pode, claro, discutir-se a ausência de Liedson, numa altura em que Postiga regressa de uma lesão. Mas este último até foi titular frente à Espanha e saiu-se bem. Com o regresso ao futebol brasileiro, é provável que Liedson se torne cada vez menos solução, como de alguma forma acabou por reconhecer Bento. Claro que ninguém estranharia se o seleccionador tivesse chamado Manuel Fernandes (anteontem marcou dois golos na Turquia) em vez de Paulo Machado.

01 outubro 2010

Os problemas do Benfica e o toque de Midas de Jesus

As grandes equipas vencem até quando jogam pior, mas este Benfica tem perdido mesmo alguns dos jogos em que foi melhor durante mais tempo, como voltou a acontecer em Gelsenkirchen. Decorrida que está 20 por cento da época, a amostra já é de molde a permitir conclusões mais fiáveis e certeiras. E as principais são: o Benfica gastou 31,4 milhões em ordens de compra, mas foi menos certeiro do que desejava em boa parte das contratações; Jorge Jesus não tem conseguido manter o toque de Midas que, na época passada, lhe granjeou elogios de todos os quadrantes (até de Pinto da Costa); alguns dos craques com mais responsabilidades e estatuto no plantel têm estado muito abaixo do que seria expectável.

Este conjunto de circunstâncias reflectiu-se no rendimento colectivo e o Benfica perdeu cinco dos nove jogos oficiais que leva disputados, uma exorbitância, principalmente se levarmos em conta que foi batido somente por seis vezes em toda a época passada.

Na temporada anterior, o Benfica fazia tudo aquilo que distingue as grandes equipas. Tinha uma boa organização colectiva, era fortíssimo nos lances de bola parada, sabia reduzir os espaços entre linhas e funcionar em organização, mas principalmente em transições rápidas, tanto defensivas como ofensivas.

Hoje, o seu jogo parece algo entorpecido, funcionando muitas das vezes como um disco riscado e incapaz de fazer as demonstrações de ferocidade e eficácia que tanto entusiasmaram os adeptos na última época. Falta-lhe arquitectura e intensidade no meio-campo, demasiado rotineiro. Em suma, não tem estética nem épica.

Claro que, mais importante do que as perdas na elegância plástica são as inúmeras falhas de concentração de vários jogadores, a começar por aqueles que, no passado recente, transpiravam segurança e fiabilidade. Maxi Pereira e, principalmente, David Luiz estão à cabeça deste lote, principalmente o brasileiro, que parece inebriado pelos elogios e pelas recentes chamadas à selecção.

Também no capítulo físico há diferenças consideráveis, não colhendo já a tese de que alguns jogadores continuam a acusar o desgaste do Mundial em África. Claro que a cabeça é que comanda o corpo e não é de excluir a hipótese de a falta de confiança estar a reflectir-se no resto. E já nem o guarda-redes serve de desculpa, porque Roberto parece estar a ultrapassar o período crítico de falta de confiança e começa a afirmar-se como um verdadeiro reforço.

A verdade é que o Benfica perdeu boa parte do seu poder de intimidação. Falta-lhe a visão panorâmica de Aimar, novamente perseguido por lesões. O principal prejudicado com isso tem sido Saviola, que deixou de ter a sua alma gémea em campo. Carlos Martins até tem cumprido quase sempre com acerto quando joga no meio, mas é um jogador diferente, menos dado ao futebol de filigrana da dupla argentina. Obviamente, falta também o equilíbrio que era dado por Ramires e a capacidade de acelerar o jogo de Di María. Mas, chegados a Outubro, não faz sentido continuar a discutir as deserções, até porque elas eram inevitáveis e houve mais do que tempo de as colmatar de forma bem mais eficaz.

Nicólas Gaitán ainda não justificou os 8,4 milhões de euros e dificilmente o conseguirá enquanto houver a tentação de o comparar com Di María. Tem uma qualidade técnica inquestionável, centra bem e pode jogar na direita (ou na esquerda, ou até no meio). Mas já se sabia que o seu futebol é mais feito de diagonais curtas para o interior do que de cavalgadas pela linha. Com ele em campo, o Benfica é menos explosivo e tem menos profundidade do que tinha, obviamente, com Di María, até porque o problema não pode ser compensado na outra banda, pelo menos enquanto Salvio não começar a jogar o que não conseguiu mostrar nos breves meses em que esteve no Atlético de Madrid.

Jorge Jesus tem, nos últimos tempos, procurado ultrapassar esta questão com o adiantamento de Fábio Coentrão. Sendo verdade que o Benfica ganha profundidade, fica a perder em duas vertentes. Coentrão é hoje um dos melhores laterais-esquerdos da Europa (como o próprio Jesus não se cansou de dizer na altura certa) e o seu futebol ofensivo ganha ainda maior dimensão quando parte de terrenos mais recuados. Tão ou mais grave, a sua utilização como médio-interior obriga à entrada na equipa de César Peixoto, que não domina as artes da posição nem cumpre os mínimos desejáveis para integrar uma equipa de ponta.

É sabido que para a entrada tremida do Benfica na época muito contribuiu a forma esmagadora como foi derrotado na Supertaça pelo FC Porto. Um desaire que abalou a confiança e os alicerces de uma equipa em reconstrução, não sendo por acaso que o campeão nacional seja hoje derrotado várias vezes nos detalhes, quando era precisamente nos pormenores que antes fazia muitas vezes a diferença.

É também verdade que, nos últimos jogos, tinham-se registado sinais claros de retoma, que se esfumaram bastante frente ao Schalke 04. Sendo certo que nada está ainda irremediavelmente perdido para o Benfica, tanto na Champions como internamente, não deixa de ser verdade que não há grandes equipas sem maturidade e sem a capacidade de se manterem firmes em todos os jogos adversos. É esse o desafio de Jorge Jesus.

17 setembro 2010

O Benfica e a arbitragem de Olegário

Sendo verdade que não há campeonatos perdidos à quarta jornada, parece evidente que o Benfica está numa situação muito perigosa, quase à abeira do abismo. E, como se não bastasse o pior arranque na história da equipa da Luz, seguem-se três confrontos de dificuldade elevada: recepção ao Sporting, visita ao Marítimo e duelo na Luz com o Braga. Até por isso, Jorge Jesus precisa de recuperar e estabilizar animicamente uma equipa que tem acusado problemas de vária monta e que nunca mais foi a mesma desde que foi surpreendentemente aniquilada pelo FC Porto na Supertaça. Queixar-se da arbitragem (mesmo que com inteira razão) pode não chegar.

O Benfica foi muito prejudicado em Guimarães (que não merecia que lhe retirassem o mérito de uma exibição interessante) e tem também razões de queixa dos árbitros num ou noutro jogo. Mas, até pela pequenez da amostra, parece descabido e perigoso passar a ideia de que há um poder escondido a influenciar os árbitros para que eles afastem o Benfica do título. Aceita-se, e até se justifica, a indignação de Rui Costa e Luís Filipe Vieira, mas os julgamentos precipitados e definitivos são muito perigosos, mais a mais quando salta à vista que o que ocorreu em Guimarães foi a conjugação de dois factores: falta de competência do árbitro e de bom senso de quem o nomeou.

Porque Olegário Benquerença não é o melhor árbitro português, nem anda lá perto, ao contrário do que parece indiciar a circunstância de ter estado no último Mundial e de fazer parte do grupo de elite da UEFA. O seu valor está super-inflacionado e, mais do que levantar suspeitas infundadas, importa que se questione o porquê do investimento que vem sendo feito na sua carreira em detrimento de outros que têm claramente mais qualidade.

Como se isso não bastasse, a sua nomeação pecou por falta de razoabilidade. Por se tratar do seu primeiro jogo da época, teria sido mais curial que se tivesse estreado num encontro de menor responsabilidade, quiçá mesmo no escalão secundário. Tão ou mais grave foi não levar em conta o facto de, dias antes, Olegário Benquerença ter sido homenageado pela Associação de Futebol do Porto. De facto, não havia necessidade.

25 agosto 2010

Roberto vai ter de sair para provar que é (mesmo) bom - Por Bruno Prata


Por
Bruno Prata in Público

O futebol tem vários registos de guarda-redes, até com nome feito, que não justificaram as credenciais e o dinheiro gasto. O exemplo mais próximo de nós talvez seja o de Vítor Baía, que o Barcelona transformou, em 1996, no guarda-redes mais caro do mundo. Não tardou muito a que, em Espanha, se escrevesse que era mais guapo do que portero. Depois disso, de regresso ao FC Porto, ainda venceu uma Taça UEFA e foi campeão europeu...

Também Barthez não conseguiu manter o estatuto que tinha no Mónaco e justificar os 7,8 milhões de euros que o Manchester United pagou por ele. A equipa inglesa confia agora cegamente em Van der Saar, mas o holandês também já teve uma passagem fracassada pela Juventus...

Vem isto a propósito, como é óbvio, de Roberto, que em poucos dias se transformou no ódio de estimação dos benfiquistas.

Recordemos o processo da sua contratação. Jorge Jesus nunca confiou suficientemente em Quim e o Benfica foi ao mercado procurar um guarda-redes de dimensão internacional. Deu-se então a coincidência de o Atlético de Madrid estar com um número elevado de jovens guarda-redes de qualidade. Mas De Gea, que é de facto um superdotado, tinha-se transformado num jogador demasiado caro (é seguido pelo Manchester United), enquanto Asenjo, que era o titular da selecção de esperanças espanhola e tinha custado cinco milhões de euros, havia sofrido uma lesão que só deverá estar curada dentro de um ou dois meses.

Havia também Joel Robles (19 anos), mas Jorge Jesus preferiu a maior experiência de Roberto, que acabara de fazer uma segunda volta espectacular e salvar o Saragoça de descer de divisão. O técnico (tal como nós) observou inúmeros jogos e ouviu a opinião de muita gente. Parecia ser uma aposta segura. As coisas não correram bem, Roberto não teve suporte psicológico para lidar com a pressão e ultrapassar os erros. Provavelmente, vai ter de sair. Mas continuo seguro de que é (ou vai ser) um bom guarda-redes.

20 agosto 2010

Jorge Jesus e a síndroma do sucesso no Benfica - Por Bruno Prata


Por
Bruno Prata in Público

Quem não consegue entender o insucesso dificilmente estará preparado para conviver com a vitória, e o Benfica, mais do que os reforços anunciados em catadupa pela imprensa, precisa de tranquilidade para descobrir o porquê das suas recentes maleitas. Porque o sucesso poucas vezes é uma via de sentido único e, ao invés, possui uma enorme e estranha capacidade de esconder as imperfeições e os vícios. É esse o actual desafio de Jorge Jesus: provar que também sabe lidar com a síndroma do sucesso.

A minicrise benfiquista tem sido principalmente relacionada com as transferências de Di María e Ramires e com a ausência de substitutos à altura. O Benfica joga sem asas - foi o diagnóstico quase generalizado, como se o voo esplêndido que o clube da águia realizou na época passada tivesse dependido exclusivamente dos seus médios-alas.

É verdade que o primeiro dava verticalidade, fantasia e ajudava a resolver os problemas com iniciativas individuais quando mais nada parecia resultar. Por isso é que foi eleito o melhor jogador do último campeonato. É também sabido que o brasileiro garantia uma rara intensidade e disponibilidade física. Mas também é verdade que o Benfica fez bons jogos e somou vitórias em jogos em que não contou com eles, não podendo as suas ausências servir para justificar a insípida exibição frente ao FC Porto e, menos ainda, a última e escandalosa derrota na Luz.

Perto do final da época passada, soube-se que o Benfica contratara Nicólas Gaitán por 8,4 milhões, antecipando assim a saída de Di María. Isso foi confirmado por Jorge Jesus, quando assumiu ser ele o sucessor do reforço do Real Madrid. O que se lê e ouve agora? Que o Benfica volta a procurar um substituto de Di María, sucedendo-se as manchetes em torno dos negócios quase feitos e depois falhados. A última versão é que talvez seja melhor comprar um defesa-esquerdo (Traoré, do Arsenal) e fazer subir no campo Fábio Coentrão, como se isso não ameaçasse deitar ao lixo todo o trabalho que, ao fim de muitos anos, permitiu que Portugal voltasse a ter um lateral-esquerdo de dimensão internacional.

É verdade que Gaitán tem estado a recuperar de uma lesão e, por isso, impedido de confirmar a qualidade revelada no Boca Juniors. É também sabido que se trata de um jogador jovem (mas com um futebol já mais adulto do que revelava Di María quando chegou à Luz) e com características diferentes das do seu compatriota argentino. Mas não era mais razoável dar-lhe tempo para se adaptar e enquadrar numa nova forma de jogar do que entrar em desespero e ir a correr ao mercado? Claro que sim, a não ser que se esteja já à procura de uma segunda alternativa, principalmente depois de César Peixoto ter voltado a deixar claras as suas insuficiências ao treinador que lhe deu a enésima oportunidade.

Já no que respeita a Ramires, parece sensato que o Benfica tenha procurado um substituto à sua imagem. Podia ter sido Wesley (Santos), Willians (Flamengo) ou Maylson (Grémio), mas acabou por ser Salvio. O jogador emprestado pelo Atlético de Madrid é mais um jovem de 20 anos que Jesus terá de depurar, opção com vantagens e prejuízos óbvios. Para além disso, é mais um jogador à imagem de Di María do que de Ramires, não deixando, por isso, de ser uma opção interessante. Rúben Amorim era uma alternativa credível ao agora jogador do Chelsea, mas não é a mesma coisa, enquanto Carlos Martins rende mais em terrenos interiores. Mas estamos a discutir somente uma posição numa equipa que ainda há 15 dias era apontada como superfavorita à renovação do título e que, nas palavras do seu treinador, não despreza sequer a eventualidade de fazer história na Champions.

Outra falácia que começa a propagar-se é a de que o Benfica passou a estar pior servido na baliza com a troca de Quim por Roberto. Os 8,5 milhões de euros que custou o espanhol foram, de facto, muito dinheiro, ainda por cima por um guarda-redes desconhecido para boa parte dos adeptos. Mas nem isso devia toldar a lucidez aos que conhecem as regras do marcado e sabem bem que comprar em Espanha é sempre mais exigente do ponto de vista financeiro. E isso acontece precisamente por dar mais garantias de qualidade, como ficou provado nos casos de Aimar e Saviola. É verdade que começou mal e que, com isso, se deixou intranquilizar mais do que seria suposto. Mas não parece curial que se lhe aponte o dedo mesmo quando fez duas enormes defesas e esteve tecnicamente perfeito e sem qualquer responsabilidade nos dois golos da Académica. Ainda não garante pontos, como é desejo de Jesus, mas lá chegará se lhe derem tranquilidade e tempo.

As outras razões que normalmente são apontadas por muitos dos que fazem o diagnóstico ao momento benfiquista é o desgaste físico dos "mundialistas" (notório no caso de Maxi Pereira) e a eventual menor concentração de jogadores que brilharam e ajudaram à conquista do último título e que agora são alvo do assédio dos grandes colossos europeus. Estarão neste lote, por exemplo, David Luiz, Luisão e Cardozo.

Uma e outra coisa podem ter influência, mas não justificam as más exibições generalizadas e a má forma de outros, como Sidnei, Peixoto, Carlos Martins, Saviola e até Javier Garcia (a sua exibição ajudou a perceber porque é que Jesus começou por apostar em Airton, que ainda precisa de ser trabalhado, mas tem tudo para se tornar num "6" de eleição). E muito menos explicam como é que Coentrão esteve no Mundial, surgiu abúlico frente ao FC Porto (não colhe a explicação de que isso aconteceu por ter jogado onde jogou anos a fio) e agora apareceu fresco e fiável como nunca perante a Académica.

A verdade é que, depois de um pré-época intensa e de relativo sucesso, o Benfica, em poucos dias, sofreu duas derrotas em jogos oficiais em que pareceu fazer tudo em esforço, como se as chuteiras pesassem chumbo. Uma realidade que indicia uma crise que se vê com frequência em Itália, onde os jogadores são sujeitos a grandes "tareias" na pré-época. Não deve ser esse o problema do Benfica, porque a sobrecarga pode contribuir para a falta de intensidade e de fiabilidade no passe, mas não justifica as falhas de concentração, os desequilíbrios defensivos e as falhas nos lances de bola parada.

O problema parece ser de outra monta, mais de índole psicossomática, eventualmente relacionado tanto com alguma soberba dos mais autoconfiantes como, por outro lado, com o medo dos que temem não ser capazes de repetir o êxito. Tem cura. E é capaz de ajudar se Jorge Jesus for capaz de lhes explicar, mesmo sem citar Winston Churchill, que o sucesso é também a capacidade de ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo...


22 dezembro 2009

Coragem e coerência de Jorge Jesus foram premiadas

Por Bruno Prata in Público

1. A vida de um treinador é feita de altos e baixos, de elogios fáceis e também de incompreensões, sendo ainda verdade que há diversos caminhos possíveis que podem ser trilhados por um técnico para atingir o sucesso no futebol. Mas há algo que normalmente acompanha os verdadeiros vencedores: a coragem e a confiança férrea nas suas próprias ideias. É isso que deve principalmente ser tributado a Jorge Jesus, que frente ao FC Porto pode bem ter dado um passo decisivo para interromper o ciclo de conquistas do rival nortenho.

E o técnico benfiquista começou a consegui-lo mesmo antes do início do confronto na Luz, ao não ter dúvidas em manter a coerência táctica e o modelo de jogo. Sem Di Maria e o seu substituto natural (Fábio Coentrão), recorreu à terceira opção e apostou num jogador (Urreta) que foi o primeiro a reconhecer ter ficado surpreendido com a decisão. É também assim que se conquista o respeito e a consideração de um balneário.

2. Jesualdo Ferreira foi (e vai continuar a ser) julgado por ter voltado a optar por Guarín em detrimento de Belluschi. Mas quem não cede a leituras primárias e esteve atento ao que se passou na Luz terá percebido que o problema não esteve aí. A presença do argentino não teria, por si só, resolvido nada. Os problemas que o FC Porto revelou foram mais profundos e difíceis de resolver. Ao contrário do que é habitual, o FC Porto perdeu no tabuleiro mental. E isso é que foi verdadeiramente surpreendente e decisivo.

3. Está a tornar-se moda os presidentes despedirem os técnicos, ao mesmo tempo que os elogiam. Depois de Bettencourt foi a vez de Viana do Carvalho vir dizer que João Carlos Pereira tinha meia equipa lesionada e que nem o melhor treinador do mundo daria a volta à situação do Belenenses. Então por que o despediu?

03 setembro 2009

Crónicas

David Luiz, o protótipo do “capitão” à Benfica

Por Bruno Prata in O Público

Quem conhece os segredos do balneário do Benfica costuma relevar a importância que Luisão exerce não só nos relvados mas também junto dos seus colegas de equipa, e não só, até por força da condição de suplente do veterano Nuno Gomes. Mas, sem que se pretenda beliscar essa realidade, há uma personagem cada vez mais emergente no reino da Luz: David Luiz.
Se Luisão pode ficar como o último líder da fase das vacas magras, o seu compatriota mais novo parece ter o perfil ideal para se assumir como porta-bandeira de um período que adeptos e dirigentes benfiquistas crêem ser o início da fartura.

Mais tarde se verá até que ponto essa eventualidade se irá confirmar, sendo certo que o brasileiro pode, de facto, transformar-se no protótipo de “capitão” e líder carismáticos que o Benfica procura e não encontra desde João Pinto. Recuando ainda mais no tempo, talvez só valha a pena parar nos casos de Humberto Coelho e Veloso (Bento e Simão, por razões diferentes, não atingiram a mesma bitola), o que diz bem da falta de referências com que o clube da Luz se debateu nas últimas épocas, algo que ajuda também a explicar o insucesso desportivo.

Claro que há condicionantes capazes de complicar o que aprioristicamente parece muitas vezes saltar à vista. Léo, por exemplo, colhia a simpatia dos adeptos e da crítica, e nunca foi uma personagem muito simpática dentro do balneário benfiquista. Há inúmeros casos idênticos em vários clubes. Niquinha foi visto durante vários anos como o “capitão” e líder do Rio Ave, mas a sua personalidade criava várias antipatias junto de muitos dos colegas e até de dirigentes.

Luisão é uma voz muito respeitada na Luz, mas a sua personalidade também está longe de merecer a unanimidade, com excepção talvez junto do contingente brasileiro – isso era ainda mais flagrante no tempo em que Simão era o chefe do balneário. O mesmo acontece junto dos adeptos, até porque algumas das declarações públicas do internacional brasileiro nem sempre foram consensuais, principalmente as que deixaram evidente a vontade de se mudar para outras paragens. Mas as verbas oferecidas pelos clubes interessados foram sempre demasiado pequenas e pouco interessantes para um Benfica que parece ir optar antes por lhe satisfazer o desejo, legítimo, de ser aumentado.

O grupo é mais receptivo à liderança de Nuno Gomes, até porque para isso contribui a sua postura imaculada. Mas a sua posição de primeiro “capitão” é prejudicada pela cada vez mais rara utilização e pelo aproximar do final da carreira.

David Luiz já é o terceiro “capitão”. Isso não resulta tanto de ser já uma voz forte no grupo (o facto de só ter 22 anos funciona ainda como factor inibidor), mas principalmente da sua indubitável qualidade e da raça no campo. Uma e outra coisa ajudam a formar líderes de balneário. Aliás, não é por acaso que os responsáveis benfiquistas estiveram inclinados para ele (e também para Maxi Pereira) quando ainda havia dúvidas se Luisão iria mesmo deixar vaga a braçadeira.

Nas quatro épocas que leva na Luz, o jovem brasileiro lançado por Fernando Santos abonou ainda a seu favor um comportamento inatacável, sendo natural que aumente a sua influência e autoridade à medida que se torne cada vez mais uma pedra essencial. Ganhou ainda pontos pela forma como aceitou e se entregou à missão no lado esquerdo, mesmo que a posição de defesa-esquerdo fosse uma conveniência do colectivo e bem menos do jogador. A única dúvida tem a ver com a sua permanência no clube, sendo certo que o Benfica lhe prolongou até 2013 um contrato que está blindado com uma cláusula de 50 milhões de euros. Nada mau para quem chegou cedido por empréstimo pelo Vitória da Bahía (que detinha 50 por cento do passe com o empresário Giuliano Bertolucci, responsável pelas contratações de Ramires e Patric e que, no passado, já tinha ajudado a trazer Luisão, Alcides e Anderson).

David Luiz tem dados antropométricos adequados para a posição, designadamente o 1,89m de altura. É rápido, felino, sabe sair a jogar com a bola e tem a agressividade e o espírito de luta dos que nunca se dão por vencidos. É dos que preferem quebrar do que torcer e alguns excessos irão certamente ser temperados quando ganhar outra maturidade. Nessa altura, é bem provável que já seja unanimemente reconhecido como um dos melhores jogadores mundiais na posição.

Poucos clubes na Europa se podem dar ao luxo de ter um leque de centrais tão promissores. Para juntar à experiência de Luisão, o Benfica tem não só David Luiz, mas também Sidnei, que, aos 20 anos, já mostrou ter qualidade para dar e vender. E tem ainda o benjamim Roderick, que Jesus fez questão de ir buscar aos juniores e que parece ser uma réplica (fisicamente e não só) de Mozer, revelando um à-vontade e dotes físicos e técnicos raros num jovem de 18 anos. Miguel Vítor não ficou de fora por esquecimento. Independentemente da forma como se entrega ao jogo, pertence a outro campeonato.