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11 outubro 2010

Está tudo na mesma


Mais escutas sobre o processo Apito Dourado entram no circuito público por bênção de novas tecnologias de comunicação. Em rigor, a única novidade prende-se com os diálogos. No resto, tudo como antes, com os artistas habituais. Apenas os actores secundários se revezam, naquele papel de coitados, qual deles mais se curva no pedido de protecção no apelo aos bons desempenhos dos homens do apito. Dá a ideia de algum poder insondável, que ninguém com atribuições para tal é capaz de identificar, acusar e condenar: se uma pessoa de muitas e ricas influências, se uma organização secreta, se um sistema clandestino. Ou… se é tão-somente a fervilhante imaginação de um pequeno país, onde todos se conhecem e se invejam e em que as discussões no quintal do vizinho são o bálsamo que alivia as dores que atormentam a nossa própria casa.

Vivemos num estado de direito, como insistente e pedagogicamente ouço dizer a propósito de tudo e de nada, não vá o cidadão comum, pouco identificado com a complexidade das leis, pensar que este rectângulo na ponta ocidental da Europa se orienta ainda pelas regras do distante far west, em que no acto de julgar, apurados os factos, depois de pesadas circunstâncias agravantes e atenuantes, se absolvia o autor do disparo e se condenava a vítima pelo crime de intromissão abusiva na trajectória da bala.

Tornou-se uma inutilidade desperdiçar tempo com as escutas a partir da altura em que meia dúzia de tribunais a sério, como lhe chama Miguel Sousa Tavares, as ouviram, analisaram e decidiram: não valem nada. O problema é que quem se considera minimamente identificado com as questões do futebol português, e não tem a sua capacidade auditiva prejudicada, identifica facilmente os intervenientes e percebe, mesmo através de frases tolamente criptografadas, o alcance dos diálogos, não no acessório, mas no essencial: O esquema, o arranjo, o estratagema, a batota…

O assunto está resolvido, porque vivemos num Estado de Direito. As escutas devem ser destruídas e os desobedientes punidos. Pessoalmente, porém preferia viver num estado de verdade, de justiça, como gostaria que ela fosse, irrepreensivelmente justa e não resultado de aplicação cega, e também surda, de leis e mais leis, algumas cujas interpretações convidam a interminável espaço de discussão… e nenhuma consequência.

Desiluda-se quem pensar que, apesar do barulho provocado, o Apito Dourado vai contribuir para a purificação do ambiente futebolístico. As escutas agora apresentadas como novas apenas oferecem coisas velhas: as conversas e… os intérpretes, entre administradores, directores, amigos e afins, quase todos da área social do FC Porto.

No DN de domingo reparei em uma notícia sobre um procurador adjunto suspenso por um ano, dado ter pretendido vender um bilhete para o concerto de Madonna por 450 euros quando o preço era de 60. Estamos a falar de um procurador adjunto, por isso sugere a prudência e devido recato. Espantoso é o facto de o magistrado apanhado ter pretendido inverter os papéis. Isto é, transferir o ónus de quem vendeu, para quem comprou, com o objectivo de desmascarar uma ilegalidade, o inspector da ASAE. A proposta de demissão de funções foi atenuada para um ano de suspensão, o que significa que o dito procurador, mais mês, menos mês, volta a andar por aí, em funções, legitimado pela lei, mas não pela moral. É como no futebol, continuam também por aí, ufanos e ilibados. Nada mudou.

Com a irritação que o caracteriza quando se cruza com o Benfica, Domingos Paciência anunciou que pretendia sair da Luz com cinco pontos de vantagem. Perdeu, mas não se convenceu. Disse ele que o pessoal de Jesus acabou o jogo encostado à sua área, amedrontado, por certo, e a queimar tempo. É a opinião dele. A minha diverge: pelo que vi na televisão, sugiro a Domingos a humildade que tem tido noutras situações e agradeça a quem quiser por não regressar a Braga com outra derrota pesada no bornal. Não lhe retiro o mérito, mas a sorte foi boa companheira. Uma coisa é deixar andar, jogar para o empate ou apostar no erro contrário (Braga); outra, substancialmente diferente, é assumir a iniciativa desde o primeiro minuto, jogar declaradamente para vencer, construir várias oportunidades de golo (Benfica).

27 maio 2010

Antes e depois de Jorge Jesus - Por Fernando Guerra

Por Fernando Guerra in A Bola

JORGE JESUS deve sentir-se um homem feliz. Recebeu de braços abertos a primeira oportunidade que lhe deram para se tornar campeão nacional, e soube merecê-la. Entregaram-lhe valioso grupo de jogadores e foi capaz de formar uma boa equipa, empreitada que, apesar de aparentar facilidades, repetidamente fracassou no passado recente por variadíssimas razões, algumas bem estranhas. O Benfica ganhou com a contratação de Jesus e este talvez nem se dê conta do salto fantástico que a sua já longa carreira registou neste último ano.

Não é campeão quem quer, mas quem pode, e a Jesus, embora ele o desejasse intensamente, nunca antes lhe fora entregue a responsabilidade de gerir um projecto futebolístico vocacionado para o sucesso. Este foi apenas o primeiro. O futuro é aliciante e oferece-lhe desafios irrecusáveis, menos pelo dinheiro e mais pelo prazer. Na interessante entrevista publicada hoje em A Bola, o treinador benfiquista surge com um discurso diferente, mais ordenado e seguro. Num clube com a grandeza do Benfica a noção de crescimento não se consegue medir, não há limites para a ambição. Jesus entendeu isso muito depressa. Se há meia dúzia de meses as prioridades ainda o atormentavam, agora tudo se lhe afigura claro: ganhar todos os jogos, em todas as frentes, até na Liga dos Campeões. Foi com esse arrojado espírito de conquista que Mourinho se notabilizou e se impôs ao Mundo.

13 maio 2010

Mais tento na língua - Por Fernando Guerra

Por Fernando Guerra in A Bola

O Benfica conquistou o seu 32.º título nacional sem deixar rasto de dúvidas nem pecados. Ganhou porque foi o clube que apresentou em competição o quadro de jogadores mais competente e mais valioso, o que praticou o futebol de mais alta qualidade, o que somou mais pontos e o que marcou mais golos. É avassaladora a superioridade benfiquista dentro do relvado, porque fora dele a estratégia foi diametralmente oposta. Não entrou em polémicas, não promoveu conversas turbulentas, nem discursos irreflectidos. Em nada contribuiu para o ambiente de má vizinhança no futebol.
Jorge Jesus pode ter muitos defeitos, mas adquiriu por direito, neste momento de celebração, o papel de protagonista. Luís Filipe Vieira entregou-lhe um plantel de luxo, vocacionado para o triunfo, mas desarrumado. A precisar de alguém que pudesse retirar de um motor de elevada potência o rendimento máximo, ou próximo, suficiente para sufocar os mais sérios adversários de uma Liga com condições para acelerar o passo, mas teimosamente agarrada aos conceitos gastos do passe curto, do truque, do jeito, da intriga de botequim ou da traição de vão de escada…

Jesus poderá não ser um mestre de cerimónias, nem desfrutar no interior de classe de treinadores de amplas simpatias, mas soube aproveitar o divino convite que Vieira lhe fez. Com trabalho sério, abraçou o principal objectivo, e repetidamente anunciado: o título nacional. Agora, por força das circunstâncias, ele próprio já aumentou o grau de exigência, embora continue a não ser muito explícito quanto às prioridades.

Não sei se Jesus já se deu conta disso, mas não é vergonha ser campeão pela primeira vez aos 55 anos. Jesualdo Ferreira foi-o aos 59 e… nas duas épocas seguintes. O treinador benfiquista, se a humildade nunca o abandonar, reúne, por isso, condições óptimas para o igualar, ou até suplantar, e, porque não, reacender a chama europeia que a maldição Guttmann apagou um dia. Desafio mais entusiasmante que este será difícil…

JORGE JESUS o campeão, mas Domingos Paciência é a revelação, ou confirmação, como se quiser, por ter empreendido, com admirável sucesso, obstinado cerco ao primeiro lugar que durou na prática um campeonato inteiro. No entanto, o treinador do Sporting de Braga talvez não tenha entendido que há vitórias que extravasam em significado e importância a história de um vulgar jogo, de aí não valorizar devidamente o facto do emblema minhoto, mesmo segundo, ter conseguido a sua melhor classificação de sempre e de pela primeira vez ter entrado nas eliminatórias de acesso à Liga dos Campeões. Em vez de se empenhar na proclamação destas conquistas, que o são, cai no vazio da insinuação pouco clara ou da referência deselegante ao Benfica, transformando intervenções institucionais em amontoado de frases inflamadas, à semelhança das grosserias que tanto gozo parecem divertir os Super Dragões. Falta-lhe moderação no que diz. Pensava que Domingos Paciência se libertara desses tiques tribais. Escrevi-o há uma semana, convencido, pelo mérito do seu trabalho, que abandonara tais preconceitos e reclamara a sua independência intelectual. Talvez me tenha precipitado. A vida de um treinador é ingrata, feita de subidas espectaculares e quedas brutais. Hoje, Domingos opta por uma linguagem de arrogância e cai no despropósito de reivindicar o mesmo estatuto de quem apontou (só!) mais 30 golos do que a sua equipa. Há meia dúzia de meses, porém, estava com um pé fora do Braga, após de ter falhado o apuramento para a Liga Europa. Amanhã, como será? Não sei, mas creio que excelente oportunidade se lhe depara para cativar Pinto da Costa. Basta garantir a participação na Champions e manter-se na frente da classificação da Liga. Como? Convença o seu presidente (ou um deles…) a investir no reforço da equipa. Talvez lhe entreabram então uma porta no Dragão. Não é isso o que mais deseja?...

P. S.: Para mim a Selecção Nacional continua a ser muito importante. Queiroz decidiu e eu aceito, mas vejo mal, por motivos que já aqui expressei, a chamada de Miguel. Ponto final.

22 abril 2010

O grande desafio de Jesus - Por Fernando Guerra


Por Fernando Guerra in A Bola

COMO é que se mede o valor de um treinador? Pelas vitórias, pelos títulos? De facto o único dado objectivo de aferição é precisamente esse, a riqueza do currículo, embora de uma falibilidade perversa, na medida em que o futebol vive atolado em exemplos que a contrariam. A mesma linha de orientação aplicada com idêntico rigor pela mesma pessoa em dois clubes distintos, num pode ser a porta que se abre para o êxito, no outro a causa da ruína. O currículo é tão-somente peça importante de selecção, pois será preferível contratar alguém com tendência para ganhar do que um incorrigível perdedor...
Nesta matéria, o consenso é algo de muito vago, quase irreal. Como todos nos achamos no direito de avaliar, o mais problemático é encontrar duas mentes em consonância, dada a tendência em carregar de defeitos a quem o vizinho só nota virtudes...

Treinadores bons, mesmo bons, dos inquestionáveis, dos que em cinco pelo menos quatro estão de acordo, assim de repente, os dedos de uma mão devem chegar para os referenciar. Fabio Capello, José Mourinho, Marcelo Lippi, Guus Hiddink e... fico-me por aqui. Depois há outros que me parecem igualmente fantásticos mas em relação aos quais as opiniões divergem. Ferguson, sim, mas só trabalhou no Manchester United; Rafael Benitez, duas conquistas na Europa mas em Inglaterra é um zero no comando do Liverpool; Wenger, um especialista na descoberta de talentos, mas não ganha campeonatos; Guardiola, excelente, mas com este Barcelona é simples, tem de passar por outra experiência. Podia ficar aqui o dia todo a escrever nomes, Van Gaal, Trapattoni, Rijkaard, Ancelotti, Le Guen, Blanc, Ranieri ou Pellegrini, que jamais se chegaria a conclusão alguma. São todos respeitáveis cidadãos, mas desgraçadamente apenas bons treinadores, o que é de menos para pôr todos os adeptos de um clube a pensar da mesma maneira...

PORTUGAL não se limita a Mourinho. Sinceramente, julgo haver motivos para esperar coisas boas, como diria Artur Jorge, de nova geração emergente, onde cabe gente desde Carlos Carvalhal, Jorge Costa, Paulo Sérgio, Paulo Duarte ou Daúto Faquirá até Vítor Pereira ou Leonardo Jardim. Não esquecendo, claro, o que considero já agradáveis confirmações: Domingos Paciência e Paulo Bento. No entanto, a estrela da companhia tem sido Jorge Jesus, o mestre de coisas que não se ensinam nas universidades, como maravilhosamente foi definido pelo professor Manuel Sérgio. Misteriosa é a desconsideração com que sempre o encararam, ao ponto de só agora, em fase tão adiantada da carreira, lhe ter sido dada uma grande oportunidade. Tal como se verificou com Jesualdo Ferreira, o qual, por razões que a razão desconhece, amealhou o primeiro campeonato meia dúzia de dias antes de assinalar o seu 60.º aniversário. Não é pecado nenhum , por isso, assumir que também Jesus teve de esperar uma eternidade até lhe serem proporcionadas as necessárias condições de trabalho para um projecto sério, de ilimitada ambição desportiva.

Com os pés na terra e os olhos no futuro, Luís Filipe Vieira agarrou num caso esquecido e transformou-o numa fonte geradora de riqueza incalculável. É firme intenção do presidente do Benfica fornecer ao treinador por si escolhido a possibilidade de se tornar no português com mais conquistas em campeonatos nacionais. É este, na verdade, o mais aliciante desafio que se coloca a Jorge Jesus, o de ser capaz de desenhar um novo ciclo e suplantar em número de títulos os até agora recordistas, ambos ao serviço do FC Porto, Artur Jorge (1985, 1986 e 1990) e Jesualdo Ferreira (2007, 2008 e 2009). Em relação a este, com uma diferença significativa: quando no próximo dia 9 de Maio se disputar a derradeira jornada da Liga e, como tudo leva a crer, o Benfica for aclamado campeão, Jorge Jesus estará a cerca de dois meses de completar o seu 56º aniversário. Como conta o anúncio da Caixa, também para ele a vida de treinador vitorioso pode começar aos 55. Muito a tempo de alterar a história...

07 abril 2010

Tão amigos que eles eram... - Por Fernando Guerra

Por Fernando Guerra in A Bola

CAIU o biombo que desde o dia 31 de Outubro do ano passado escondia despudorado clima de hipocrisia feito de uma amizade de conveniência que outro alcance não teve senão o de juntar interesses e reunir forças contra adversário comum, o Benfica. À entrada para a folclórica jornada do túnel, bracarenses e benfiquistas dividiam o primeiro lugar, com o dragão a três pontos e a perceber já, sem necessidade de explicações adicionais, que a capacidade competitiva da equipa de Jorge Jesus era imensa e reconhecidamente superior à de Jesualdo Ferreira, colocando em risco muito sério o objectivo supremo do segundo 'penta', mas à saída, apesar de toda aquela trapalhada e da vitória bracarense, a verdade é que não foram capazes os portistas de retirar grandes dividendos do trambolhão da águia pelofacto de, por coincidência dos diabos, terem fraquejado em casa, diante do simplório Belenenses. Em termos práticos, significava que o FC Porto se mantinha na terceira posição, agora a cinco pontos do líder (Braga) e a dois do segundo (Benfica).
Foi aqui que luminosa ideia adquiriu forma. Resignados os patrões do dragão por não possuírem plantel com cabedal suficiente para, sem ajudas, ter sucesso desportivo na luta com a águia, a solução que mais lhes agradou apontou para descarado namoro com o Sporting de Braga, encarado como figura decorativa na corrida do título, mas interessante do ponto de vista estratégico, para morder os calcanhares ao Benfica, incomodá-lo, travá-lo, de maneira a dar tempo à reorganização portista. Previram tais mentes de inteligência à prova de bala o colapso bracarense, a desaceleração encarnada e a recuperação portista a horas de inverter a situação, segurar a hegemonia recente e... disparar para o 'penta'. O problema é que o Braga não caiu, o Benfica não fraquejou e... o Porto não se levantou.

Oclube presidido por António Salvador tem-se revelado em todas as ocasiões fiel escudeiro. Até na reacção ao indeferimento do recurso apresentado por causa do castigo a Vandinho, a culpa não pertenceu ao Conselho de Justiça da FPF, que o confirmou, mas sim à Comissão Disciplinar da Liga, que o aplicou. Se for para agradar ao FC Porto, que mal tem atirar a culpa para cima das costas de Ricardo Costa? É para isso que servem os aliados... De aí confessar o meu espanto com as mais recentes declarações do treinador portista, ao agitar uma vaga de poeira sobre o êxito bracarense no jogo de domingo diante do Guimarães. Disse ele, imagine-se, que o Braga ganhou 'um desafio muito complicado, com situações não muito claras'. Falou ainda de terceiros e de quartos e deixou no ar outras insinuações de interpretação duvidosa. Afinal, o que se passa? Tão amigos que eles eram e... zangaram-se de repente. Quem quis Jesualdo atingir?

1-O árbitro? Lembro que foi o mesmo que na primeira jornada se esqueceu de marcar um penalty a favor do Benfica, precisamente no dia em que ao Paços, lembram-se?, Xistra descortinou falso fora-de-jogo em lance de golo iminente. Escrevi (A BOLA de 18 de Agosto) que a Liga estava armadilhada e que numa classificação adaptada (pelos árbitros) o FC Porto partia com mais um ponto e o Benfica com menos dois.

2- O Renteria, por ter simulado o penalty que determinou a vitória do Braga? Mas esse foi o Porto que o emprestou no mercado de Janeiro para reforçar a equipa de Domingos Paciência (não foi utilizado no Dragão, mas jogou na Luz, com certeza...).

Confusões... Só não entendo por que razão Jesualdo continua a aceitar papéis que o comprometem e escapam à sua área de intervenção. Devia limitar-se às questões técnicas, até para se proteger. No resto, outros que se mostrem. Aliás, na estrutura profissional portista existe a figura de um director-geral (Antero Henrique) que faz lembrar o Pedro Barbosa do Sporting... Nunca dá a cara.

06 março 2010

Nove finalíssimas

Por Fernando Guerra in A Bola


ESTÁ a ficar extraordinariamente curiosa a ponta final da Liga, com três pretendentes ao título, dois mais adiantados, outro mais atrasado e, por isso, na necessidade de recorrer a amigos, vizinhos ou simples conhecidos, no sentido de lhe facilitarem a aproximação aos da frente. É como se tratasse dos últimos dez quilómetros de uma corrida de ciclismo, onde os favores se negoceiam e as ajudas são bem-vindas. Talvez à luz deste raciocínio consigamos descortinar explicações para alguns procedimentos recentes na esfera do futebol. Há duas jornadas, na deslocação a casa do FC Porto, Domingos resolveu inovar na táctica. Pela primeira vez deixou Meyong de fora com uma ideia qualquer que deu no que se viu: goleada. Mas não faz mal. «Ainda bem que o que se passou no Dragão foi agora, pois dá-nos tempo para corrigir o que esteve mal», disse o treinador. Para este fim-de-semana, de novo FC Porto visitado, o Olhanense também inovou e pela primeira vez viajou de avião com o objectivo de, na versão oficial, ter mais tempo de descanso para o jogo com o Belenenses que só se realizará daqui a uma semana. Sábia medida!... Jesualdo está tão preocupado que até optou para fazer descansar titulares já a pensar no encontro da Champions com o Arsenal, na terça-feira. Entretanto, Jorge Costa continua a sonhar em treinar o FC Porto, clube a que pertence quase metade dos jogadores do Olhanense e cujo presidente agradece veneradamente o convite que lhe foi endereçado para almoçar no Dragão, estádio que, também pela primeira vez, vai ser palco de um jogo a meio da tarde.
Indiferente a tantas curiosidades, afirmou Di María que os jogadores do Benfica não esperam facilidades e que estão preparados para disputar nove finais até ao fim. Como as coisas andam, porém, talvez seja melhor prepararem-se para finalíssimas…

10 fevereiro 2010

O jeito que dá Calabote!...

Em mais de 50 anos não conseguiram os partidários do dragão descortinar uma relação entre feitos desportivos do Benfica e eventuais favores de arbitragem

Por Fernando Guerra in A Bola

SE alguém se der ao trabalho de questionar quem lhe aparecer pela frente, minimamente identificado com os segredos do futebol, sobre o caso Calabote creio que a maioria responderá já ter ouvido falar, sem se perder em pormenores, por ignorância, outra franja incomensuravelmente menor será capaz de situar os acontecimentos, embora de forma vaga, e uma outra dirá não saber o que se passou a não ser que se tratou de um esquema para favorecer o Benfica.
Estamos a falar de algo que aconteceu há mais de 50 anos, em 22 de Março de 1959. Eu próprio, já em lista de espera para reforçar a equipa da terceira idade, na minha memória apenas guardo indecifráveis sinais de uma história misteriosa, mal conhecida e que, em consequência, tem dado origem, através dos anos, a muitas outras histórias de duvidoso rigor.

Precisamente no dia 22 de Março de 2009 foi publicado em A BOLA um trabalho assinado pelo meu camarada Carlos Rias a propósito do cinquentenário de uma data, de um jogo e de uma arbitragem, focos alérgicos da comichão intensa e continuada que há tanto tempo incomoda as facções mais corrosivas da turba antibenfiquista. Nele se refere o que esteve na base da irradiação, um «problema moral» provocado pelo árbitro ao não mencionar no relatório que o Benfica-CUF principiara «cerca de dez minutos depois da hora marcada e teve um prolongamento de cinco ou seis minutos». Mas também se recorda que no antigo semanário Tal & Qual, Calabote, falecido em Janeiro de 1999, com 81 anos, afirmara que «a testemunha que serviu para o acusar foi o locutor da rádio em serviço no jogo do FC Porto, e nem havia delegado ao jogo na Luz». Enfim...

Se trago o assunto à colação é tão-somente por ter sido apresentado há dois-três dias na cidade do Porto um livro justamente com o título Caso Calabote, da autoria do jornalista João Queiroz, fruto de demorada e profunda investigação e a quem desejo sucesso editorial.

O livro ainda não li, mas espero fazê-lo em breve. O tema cativa e acredito que daqui a dez, vinte, trinta anos vai continuar a temperar animadas conversas, decerto bem mais elevadas que as que por aí se têm escutado...

De toda a maneira, não pude deixar de captar o sentido de oportunidade do apresentador da obra, Rui Moreira, prestigiada figura da vida portuense e distinto colunista de A BOLA, a quem leio todas as semanas com atenção. Como o tema central tinha a ver com Inocêncio Calabote aproveitou logo para fazer a ligação ao túnel de Braga, ao Benfica e aos erros que segundo ele beneficiam o clube da Luz... Bom, insisto na minha. Isso foi há mais de 50 anos, e se, desde então, não conseguiram os partidários do dragão, geralmente atentos e sagazes, descortinar segundo caso, susceptível de permitir uma relação entre algum feito desportivo do Benfica e eventuais favores do pessoal do apito, é porque de facto não existe.

Em contrapartida, orientando o azimute para outras direcções, explodem vários, igualmente interessantes, muito mais recentes e de fácil pesquisa: caso Calheiros ou caso Silvano; caso Correia ou caso Gonçalves; caso Silva ou caso Guímaro. É só escolher...

OBelenenses definha, a caminho da despromoção. É uma equipa sem alma. Desperdiçou uma grande penalidade e fechou o livro. Nem a jogar contra dez se entusiasmou. Precisava de ganhar, como de pão para a boca. Não foi capaz, e percebe-se. O Sporting de Braga é de outro campeonato. Já nada tem a ver com quantos se esgotam na luta pela manutenção. Domingos Paciência já o declarou, e provou-o no Restelo: é candidato ao título. Ponto final.

07 fevereiro 2010

Conveniências



Por Fernando Guerra in A Bola

NADA do que está a passar-se no futebol português, à revelia de princípios a que todo e qualquer desiderato desportivo deve subordinar-se, constitui motivo de admiração para quem minimamente se interessa pelo fenómeno.
Já se sabia que muitas situações estranhas emergiriam se o investimento feito pelo Benfica no reforço do seu quadro de profissionais tivesse retorno imediato, através de melhores resultados, de mais pontos e do acesso ao topo da classificação.

Já se sabia que o FC Porto, obstinado na conquista de outro 'penta', iria activar toda a sua oleada máquina de influências e arregimentar os aliados possíveis para manter desimpedido o caminho que eventualmente o conduzirá a esse desígnio supremo.

Só não se sabia que o Braga resistiria tanto tempo no primeiro lugar, proeza que lhe permitiu adquirir o estatuto de intérprete especialmente privilegiado nessa luta titânica entre águia e dragão. Mas era previsível que o FC Porto arrancasse célere à descoberta de conforto em ombro amigo assim que percebesse não dispor, sozinho, de argumentos suficientemente fortes para travar a ascensão do Benfica. Fê-lo, sem mais demoras, desfrutando de esperada e simpática disponibilidade por parte do presidente bracarense, o qual, sem que fosse necessário pedir-lhe, e a propósito de mero folclore, falou em «manobras estranhas e inqualificáveis que estão a ser urdidas nos corredores do poder tendo apenas um objectivo: parar o Sp. Braga». E empurrar o Benfica, deduzo...

Nenhuma surpresa até aqui, portanto. Apenas falta descobrir se Salvador tem a noção de estar a fazer de papel de embrulho: utiliza-se enquanto for preciso e depois... deita-se fora.

03 fevereiro 2010

Queda do império dos segredos


Por Fernando Guerra in A Bola

OUVI, ontem, voz identificada com o universo portista, dizer que não é a primeira vez que se depara o fracasso ao emblema do dragão em processo negocial de aquisição ou cedência de jogadores. Isso verifica-se, por não ser possível prever sempre os comportamentos, nem controlar os interesses envolvidos, de aí que nenhum escândalo emane pelo simples facto de Kléber não se ter sentido suficientemente entusiasmado, nos números e nos objectivos, presumo, para aceitar o que lhe foi proposto. Intrigante, sim, terá sido o modo como tudo foi tratado, sem a segurança e a discrição que têm funcionado como bandeira de apreciada e sólida organização, principalmente ao nível da eficácia. Neste sentido, a preocupação da voz incide sobre outro deslize, mais grave do que a falha da contratação, o de não se ter resguardado da opinião pública o insucesso da operação. Este sim, pecado sem direito a remissão, por se captar através dele mais um sinal prenunciador da iminência de derrocada de um império que ao longo dos anos tem transformado o segredo em principal fonte energética para a sua sobrevivência. Na verdade, algo de misterioso acontece. Sucedem-se as incoerências, as distracções e as roturas a ritmo diabólico, faltando saber se é essa tempestade na cúpula a contribuir para o período de menos fulgor futebolístico ou se é a insuficiente resposta que tem sido dada face aos melhores rendimentos de Braga e Benfica que está a provocar uma discussão de comadres na administração e zonas envolventes com o perigo de, no meio de tamanho rebuliço, se descobrirem algumas verdades…
Numa sociedade que só aprendeu a viver em circuito fechado, devem ser fortíssimos os fundamentos que conduziram ao pedido de demissão de Fernando Gomes, de aí duvidar que qualquer explicação séria consiga resumir-se a uma recusa na aceitação de gastos suplementares e não previstos com contratações que a suprema autoridade presidencial, com a prosápia habitual, declarara desnecessários.

«Podemos estar descansados e dizer que não precisamos de ir ao mercado para retocarmos uma equipa que foi pensada correctamente para toda a época» (frase com mês e meio de vida).

Erro de avaliação imperdoável, com medição incorrecta da capacidade competitiva de Braga e principalmente, de Benfica.

«Não contrato jogadores para mim ou por pura diversão. E como Jesualdo Ferreira não me pediu reforços, não vejo porque haveria eu de os contratar» (frase com mês e três dias de vida).

Jesualdo tem ficado todos os anos sem as peças mais importantes do plantel, Pepe, Paulo Assunção, Bosingwa, Ricardo Quaresma e, esta época, Lisandro López e Lucho González, e nunca se lamentou, começando de novo, até agora, com notáveis resultados. Portanto, das duas uma, ou alguém se sobrepôs ao presidente e ao treinador, promovendo as operações de compra e venda sem dar cavaco, ou Jesualdo disse que não ao chefe e que sim a algum subalterno influente.

Voltando a Fernando Gomes, pessoa que me garantem muito respeitada junto das instituições financeiras, não sei se ficou mais incomodado por, eventualmente, ter visto atropelada a sua política de contenção ou se por ter visto o seu nome envolvido nas escutas, naquele diálogo com um empresário que lhe falou em deusas, em pedidos de bilhetes e em outras indecências. Essas promiscuidades podem alimentar o modo de vida de uns, mas não têm cabimento na de outros. No futebol não há santos, mas continua a haver princípios e valores que resistem a todos os maus tratos.

PS. Outro segredo que se esboroa: há sinais de desassossego no balneário do FC Porto. Muita preocupação em desvalorizar o que se observou no túnel da Luz através dos defensores do regime e nenhum cuidado em controlar as cenas do quotidiano azul-e-branco. Bruno Alves e Raul Meireles ficaram de fora da convocatória para o jogo com o Sporting. Um por opção, outro por lesão... Ou será que exorbitaram as suas competências? Se sim, com o apoio de quem?

Depois de ver um jornalista ser agredido em directo, em pleno relvado das Antas, vou surpreender-me com quê? Mas há quem tenha a memória curtinha…

19 janeiro 2010

Belo exemplo de coerência...


A transferência de Rúben Micael passa a ser uma das mais caras de sempre no mercado interno português

Por Fernando Guerra in A Bola


PIMENTA MACHADO, antigo presidente do Vitória de Guimarães, inventou uma frase que pegou de estaca: o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira, e vice-versa. Pretendia ele alertar para a pouca ou nenhuma credibilidade de muitos dos peões em livre circulação pelas artérias mal iluminadas do país-futebol. Durante anos, foi escandaloso o ambiente de impunidade em relação a todo o tipo de atropelos que o negrume da noite escondia. Hoje, porém, as coisas já não se nos deparam com esse desaforo. Existe, pelo menos, o mínimo de vergonha, mas não é só. Mesmo a conta-gotas, há gente nova que aparece e consegue impor-se. O processo de modernização avança. Devagar, mas avança, tornando irreversível a renovação ao nível das mentalidades e dos procedimentos. Não sei quando, mas pressinto que esteja próximo. E não serei o único a captar os primeiros e discretos sinais desses ventos de mudança, de aí alterações comportamentais sugeridas pela prudência, espécie de jogada de antecipação de modo a atenuar a confrontação com o inevitável.
A teoria de Pimenta Machado foi chão que deu uvas. Agora, investe-se nas boas práticas. Os presidentes esmeram-se nas atitudes e debitam discursos cautelosos. Afirmar uma coisa no sábado e outra no domingo... nem pensar. Apenas precisaram de aprender com os políticos e adaptar a técnica da retórica às idiossincrasias do fenómeno futebolístico. Razão por que se tornou complexo interpretar as mensagens da alguns presidentes. É preciso descodificar as entrelinhas na medida em que nem sempre se regista uma sequência lógica entre o que se apregoa e o que se faz; sem entrar no campo da batota, obviamente... Vejamos:

1.º exemplo — «Neste momento, podemos estar descansados e dizer que não precisamos de ir ao mercado para retocarmos uma equipa que foi pensada correctamente para toda a época», declaração proferida no dia 16 de Dezembro de 2009, na Euronext Lisboa, durante a sessão especial de mercado regulado para apresentação dos resultados da Operação Pública de Subscrição do empréstimo obrigacionista do FC Porto SAD 2009-2012

2.º exemplo — «Não contrato jogadores para mim ou por pura diversão. E como Jesualdo Ferreira não me pediu reforços, não vejo por que haveria eu de os contratar», declaração proferida no dia 29 de Dezembro de 2009 pela mesma pessoa.

3.º exemplo — «Não temos nada a ver com as compras dos rivais de Lisboa. Se há lá petróleo, é com eles. Aqui não há. Somos realistas e confiamos no grupo», declaração proferida no mesmo dia da anterior e ainda pela mesma pessoa.

Alguém ousa uma explicação? Ora bem, o FC Porto não precisava de recorrer ao mercado de Inverno por ter formado o seu plantel com rigor, visando toda a época e não apenas parcelas, mas como ninguém se recordará já dessa mascarada manifestação de firmeza, e os pontos e as exibições pouco têm colaborado, qual o pecado de ir ao Nacional comprar a sua principal figura? Nenhum, embora deva concluir-se ter-se tratado de uma operação de iniciativa presidencial, mais como resposta aos atrevidos aplausos com que os adeptos leoninos premiaram a actuação de Rúben Micael em Alvalade do que, propriamente, por necessidade do plantel portista, dado ter sido dito que Jesualdo Ferreira não fizera qualquer exigência nesse ou noutro sentido em matéria de aquisições. Compreendeu o treinador, por certo, eventual situação de aperto financeiro no dragão, cujo chefe supremo, profundamente crítico do esbanjamento dos clubes da capital, não resistiu ao característico toque de ironia: deve haver petróleo em Lisboa... Só em Lisboa? Então pode o FC Porto deixar voar a sua felicidade por ser-lhe permitido socorrer-se de outra fonte de riqueza não menos valiosa. Caso contrário, ter-lhe-ia sido muito complicado pagar três milhões por 60 por cento do passe de Rúben Micael o que, mais euro menos euro, corresponde a uma das mais caras transferências de sempre no mercado interno português.

Olha para o que eu digo mas não repares no que eu faço. Reforços? Não queremos, proclamou ele. Vê-se!

Pergunta: qual o nome deste belo exemplo de coerência?

17 janeiro 2010

Sem paz



Por Fernando Guerra in A Bola

CUMPRIDA a primeira parte da Liga, preparemo-nos para a segunda, intensa, decisiva e ameaçada por discórdias habilmente engendradas à maneira dos maus velhos tempos, em que alguns defendiam que para conquistar títulos era mais importante investir em cumplicidades com poder de influenciar classificações do que propriamente em formar boas equipas para ganhar, sem truques, no campo.

Há um ano, por esta altura, liderava o FC Porto, com 31 pontos, tendo imediatamente atrás Benfica e Sporting, ambos com 30. Agora, Sp. Braga e Benfica dividem o primeiro lugar (36 pontos), mais quatro que o FC Porto (32) e doze que o Sporting (24). A preocupação de Jesualdo nada tem a ver com o espectacular comportamento da equipa bracarense, pois se assim fosse ter-se-ia oposto a tamanha generosidade do FC Porto, ao reforçá-la com a cedência do avançado Renteria. O receio de Jesualdo é apenas um e chama-se Benfica, por ter entendido já que, com ou sem Hulk, a questão é irrelevante, não possui argumentos, no espaço estrito do rectângulo de jogo, para contrariar o óbvio: a maior qualidade futebolística do plantel benfiquista. Jorge Jesus, por sua vez, também já viu que, se o normal de-senvolvimento do campeonato não for perturbado por fenómenos estranhos, basta-lhe manter o mesmo ritmo competitivo para, sem sobressaltos, ser campeão nacional. Porque possui melhores jogadores. Aparentemente simples, numa país com normais regras de conduta. Mas, quando se fala de futebol e de rivalidades, Portugal acentua a sua triste diferença. Basta reparar nas últimas intervenções de Pinto da Costa. Enquanto ele pensar que tem graça e sentir que pode vociferar o que lhe apetece, não haverá paz na modalidade.

26 dezembro 2009

Jovens e nobres



Por Fernando Guerra in A Bola

SÃO talentosos, pensam as palavras e expressam uma ambição capaz de abraçar o mundo. Pudera, com a divinal aptidão para a prática do futebol que até a olho nu se lhes reconhece, não é possível determinar-lhes limites numa actividade profissional que ambos adoram. David Luiz (22 anos), transformado à força em adorável mau da fita na Liga, sabe, todos sabemos, que, um dia destes, receberá carta de chamada de mercado endinheirado a que os clubes portugueses, mesmo em período de abundância, não podem resistir. São as regras...
Os mais ricos, geralmente, apoderam-se dos melhores. E o central brasileiro é um deles. Nada de preocupações, porém. A saída é uma inevitabilidade, mas nunca de mãos a abanar: primeiro, quer dar de presente o título à nação benfiquista, depois fala-se sobre o assunto....

A muitos quilómetros de distância, Di María (21 anos) não produziu exactamente o mesmo discurso, mas aproximou-se muito. No argentino tudo é encanto, mas daquele pé esquerdo brota fascínio arrebatador. Ninguém lhe fica indiferente, nem Ferguson, nem Ancelotti, nem, aposto, Mourinho.

Outro com viagem garantida para um dos tubarões do futebol europeu, mas a seu tempo. Para já, o Manchester United, ou outro da mesma linhagem, vai ter de esperar. Como David Luiz, igualmente Di María quer ficar na memória dos benfiquistas, por ter gerado milionário encaixe financeiro, sim, mas, principalmente, por ter contribuído para a explosão desportiva do clube. Por isso, antes de voar sabe-se lá para onde, quer ser campeão pelo Benfica. Que os nossos miúdos os tomem como exemplo: pelo menos na coragem e na dignidade com que vivem a profissão. Têm nobreza!...

19 dezembro 2009

Desafiar o futuro


Por
Fernando Guerra in A Bola

OS sorteios parecem-nos sempre maus. E se não forem maus… avisamos que podiam ser melhores. Bons, nunca, mesmo que o adversário seja inequivocamente mais fraco. Quem atesta essa debilidade? O futebol é ninho de enganos e de temores. Desconfiamos de todos. Sonhamos com fantasmas e carregamos angústias pelos medos que nos espreitam lá fora. Aonde? Em lado nenhum, a não ser em mentes agrilhoadas a conceitos que já deviam ter ardido na fogueira das inutilidades. Há quem lhes chame superstições. O problema do futebol português reside, de facto, nas mentalidades, na relutância em aceitar os desafios do futuro, em explorar o desconhecido. Continua tudo igual, ou quase, ao que se pensava, dizia ou escrevia há dez anos. Retoca-se a maquilhagem, somente… Mas a esperança há-de vencer o fatalismo. O saber há-de impor-se à incompetência. Este sorteio europeu foi bom!
FC Porto-Arsenal. Muito difícil? Com certeza, a nível tão alto não podia esperar-se outra coisa. Dois jogos palpitantes, exigentes e com estádios cheios.

Sporting-Everton. O adversário inglês que o Benfica enxovalhou na fase de grupos (5-0 em Lisboa e 2-0 em Liverpool). Igualmente complicado, mas excelente oportunidade para as 'estrelas leoninas' mostrarem, lá dentro, o que verdadeiramente valem. Se for tanto quanto se tem propalado, o sucesso está garantido.

Benfica-Hertha. Por capricho, o opositor do leão no grupo da Liga Europa (vitória em Lisboa, 1-0, e derrota em Berlim, 0-1), último do campeonato alemão, semi-despromovido. Não há comparação entre os dois. Incontestável o favoritismo encarnado.

De que nos queixamos, afinal? Os títulos não se oferecem, conquistam-se!

08 dezembro 2009

O (novo) mau da Liga

Por Fernando Guerra in A Bola

Villas Boas, que insondáveis propósitos transformaram em treinador maravilhoso, procura imitar o antigo chefe. Se não na riqueza do trabalho, por total impossibilidade de avaliação em três-quatro jogos, único registo conhecido no seu currículo, pelo menos no folclore do discurso. Diz ele, sem ponta de despudor, que sofrer quatro golos à chuva, diante de um adversário em gestão de energias, que ora enfrentava a molha para mais um golito, ora se recolhia e arranjava coragem para outro, em consequência de tão desagradável noite, diz, recordo, que já viu equipas serem goleadas na Luz, mas a Académica, não. Pelo contrário, tratou-se, em seu entender, de uma derrota pedagógica, para através dela medir a qualidade da sua equipa. Enfim, divagações de circunstância, não mais do que isso, de quem, sem nada ter provado ainda em matéria de treino e de resultados, um dia destes deparou-se-nos vestido de fada, com uma varinha mágica para acorrer a problemas ao domicílio. Sofrer quatro golos, ou perder por quatro, é vulgar num jogo de futebol? Pois é, basta olhar para os principais campeonatos europeus... Quatro golos marcaram o Dortmund, na Alemanha, o Santander, o Maiorca e o Real Madrid, em Espanha, e o Manchester United, em Inglaterra, e destes nem todos podem gabar-se de nenhum ter sofrido. Mas Villas Boas é capaz de estar correcto, estivesse o piso em melhores condições e outro galo cantaria. Foi ousado ao atacar o facto: não é só o relvado de Alvalade que está mau, o do Benfica, também. Presumo, por raciocínio primário, que bom esteja apenas o do FC Porto, onde conseguiu marcar por duas vezes... A propósito, jura quem sabe, ou julga saber, que Villas Boas recusou o convite do Sporting por estar na lista do dragão, e em posição privilegiada para suceder a Jesualdo Ferreira, o treinador no mundo com mais pseudo-convencidos candidatos a ocuparem-lhe o lugar. Tenho dúvidas acerca deste cenário, talvez até mais do que o próprio treinador maravilhoso da Académica, o qual, como medida cautelar, já começou a agradar ao eventual futuro patrão, criticando o mauzão do árbitro por ter beneficiado o Benfica ao não assinalar uma grande penalidade provocada por David Luiz. «Podia ser o 3-1», recorda. Pois podia, e depois?... As faltas são para ser marcadas, como é óbvio, mas será que admitiu a hipótese de virar o resultado? Claro que não, foi só para ter graça...
Deste Benfica-Académica extrai-se, no entanto, conclusão a suscitar inquietação e reflexão. Tem a ver com a tendência cada vez mais forte de atribuir a David Luiz o papel de mau da fita na Liga. O brasileiro joga sempre nos limites, seja qual for o opositor, fruto da sua irreverência e da sua inexcedível vontade de ganhar. É um campeão que transborda talento. Para ele, o máximo é o ponto de partida, não de chegada. Carrega os defeitos e os excessos de um jovem de 22 anos que trata o sucesso por tu. Precisa de ser aperfeiçoado, somente isso. Vai no quarto cartão amarelo, e merecidos, por certo. O que se questiona são os critérios. No ano passado, por exemplo, o central benfiquista, depois de prolongada ausência, em 19 jogos da Liga, viu os mesmos quatro amarelos, mas, comparativamente, Bruno Alves, em 30 jogos, com as características que se lhe conhecem, só por três vezes foi admoestado.
Coisas práticas, a quinze dias do Benfica-FC Porto sabe-se que David Luiz está em risco e Bruno Alves não. O que significa que, na próxima jornada, em Olhão, aquele grupo que Jorge Costa acusou de alguma falta de qualidade, por acaso numa altura em que a maioria dos jogadores emprestados pelo dragão estava na Selecção, e que depois de ter feito a vida negra ao Sporting em Alvalade recebeu o FC Porto e... foi o que se viu, no campo e fora dele, com Pinto da Costa a falar do orgulho em estar «intrinsecamente ligado aos últimos êxitos do Olhanense», nada de bom se augura aos benfiquistas.
Aposto que tudo vai melhorar entre os algarvios, até a gripe.
Jesus que se acautele; a percentagem de David Luiz ver o quinto amarelo e ser excluído do jogo com o FC Porto é elevada. Mesmo que sejam mil os avisos, do outro lado há sempre alguém com jeito em provocar... até à reacção fatal...

24 novembro 2009

Aviso à navegação

Por Fernando Guerra in A Bola

Escreveu ontem Santos Neves, no seu Editorial, que há já quem tenha percebido como se trava a avalancha ofensiva do Benfica. Afinal, o Vitória de Guimarães apenas confirmou o que ficara em suspenso há uma semana, no jogo com a Naval. Para mim, a verdade é incontornável: os adversários, com treinadores minimamente hábeis para o desempenho da função e com dose suficiente de argúcia, tiveram tempo de sobra para esmiuçar, como é moda dizer-se, as concepções tácticas de Jesus na primeira dezena de jornadas, o que significa um acréscimo de dificuldades para quem se sente obrigado a ganhar e, ao invés, um maior conforto para quem, sem essa exigência a pesar-lhe, se limita a investir no desgaste do opositor e... sonhar com um golpe de sorte. Foi isso o que Paulo Sérgio fez. Estudou as movimentações das peças mais influentes da estrutura benfiquista e, aproveitando com subtileza a qualidade humana disponível, tratou de colocar os jogadores certos nos lugares devidos, todos com a lição estudada. Revelou perspicácia ao curto-circuitar as principais linhas de comunicação adversária e firmeza, embora com elevada dose de felicidade à mistura, no esquema como conseguiu sobreviver ao massacre vermelho.HÁ um ano, mais ou menos por esta altura, o Benfica sofreu humilhante derrota na Grécia, com Olympiakos (1-5), e em vez de se promover reflexão ampla e despretensiosa para descortinar as causas de inqualificável desempenho e medir as suas consequências no futuro imediato, optou-se pela decisão mais cómoda, que foi a de passar uma esponja sobre o assunto, colando-lhe imprudentemente, como a realidade veio a demonstrar, o rótulo de ocasional. Então, a 27 de Novembro de 2008, com nove jornadas cumpridas, o Benfica estava no segundo lugar, com 21 pontos, menos um que o líder, Leixões, e mais quatro que o FC Porto. Repare o leitor nas semelhanças...
Perder com o V. Guimarães correspondeu ao afastamento da Taça de Portugal, troféu que o Benfica não ergue desde 2004. Vai ter de esperar, portanto, mas por aquilo que foi sendo dito, antes e depois, não me parece que se tratasse de uma prioridade. Senão ter-se-ia assumido claramente a candidatura, sem meias palavras, e evitava-se aquele discurso envergonhado, de concorrente do meio da tabela, em que o objectivo supremo se esgota na aquisição do bilhete para a festa no mítico palco do Jamor. O Benfica, pela sua grandeza, pelo seu prestígio internacional, pela sua história, não pode ficar contente por desembarcar no apeadeiro. Deve ir até ao fim da linha. Ao título!
Foi no jogo de Braga que tudo começou. A primeira derrota na Liga e a prova do que seria possível, nas circunstâncias actuais, interferir no sistema de jogo normalmente utilizado por Jorge Jesus, um treinador merecedor da confiança da nação benfiquista mas, como todos os treinadores que se prezam, prisioneiro dos seus caprichos, ideia de que gosto e que roubei a Medeiros Ferreira, quando ele se esforçava por descodificar as invenções de Quique Flores. Caprichos esses que nem sempre resultam e costumam sair caro aos clubes, nos percursos desportivos ou nos investimentos financeiros. Foi Domingos Paciência o primeiro a fazer riscos nos desenhos tácticos de Jorge Jesus. Augusto Inácio imitou-o. Paulo Sérgio fez o mesmo e voltou a experimentar a eficácia da medida. Resultado? Duas derrotas e uma eliminação no espaço de três semanas. Acontece, mas a prudência reclama muita humildade na descoberta do que não está bem e igual disponibilidade na invenção de outras soluções. E de outras mais se necessário for. É este o fascínio do diálogo competitivo entre dois treinadores: um quer vencer, o outro não quer perder.
Aqui fica, pois, este singelo aviso à navegação, apenas isso: que não se repita o erro de há um ano e que de cada tropeção saiba Jesus extrair ensinamentos que permitam à equipa erguer-se e prosseguir na sua caminhada, mais forte e mais determinada.

13 outubro 2009

Crónicas

Pesadelo vermelho

Por FERNANDO GUERRA in A Bola

É o Sporting de Braga o dono do primeiro lugar da classificação, dois pontos acima do Benfica e cinco do FC Porto. Há um ano, também com sete jornadas cumpridas, o panorama apresentava duas diferenças: era o Leixões quem liderava, com o Benfica a um ponto e o FC Porto a cinco. Portanto, além de outro comandante provisório, a única variação prende-se com o encurtamento em um ponto na desvantagem da equipa de Jesualdo Ferreira em relação à de Jorge Jesus.
Não será possível, por isso, através deste breve exercício, descortinar explicação razoável para a inesperada alteração comportamental do presidente portista. Do ano passado, em situação ligeiramente mais problemática (quatro pontos de atraso), não há sinal de comentários com direito a registo nas nossas memórias, mas agora, por motivos que escapam, parece ter tido um despertar agitado vai para duas semanas.

Misteriosa reacção esta, por certo causada por medonho pesadelo, ainda por cima vermelho, que desde então tem subordinado o sentido das suas intervenções, como a que protagonizou no último fim-de-semana em que, num quadro de absoluto despropósito, e quando pretendia assinalar uma data de referência para o emblema do dragão, precisou de se pendurar nas asas da águia, adversário de estimação, para descarregar a inconveniência do discurso, no estilo e no conteúdo, gasto de tanto repetido, onde a ironia se disfarçou de piada fácil, apenas para consumo em inaugurações, festas e jantares.

Resquícios da pequenez que sempre caracterizou a sua política de conflitualidade, avessa à serenidade, à sensatez e à clareza, que tanto se reclamam para o futebol português, e ao mesmo tempo castradora do reforço da expansão portista. É notável o sucesso desportivo durante o seu magistério, mas tudo começa e acaba. Ora, como se adivinha a iminência de transição de ciclos a dúvida é saber como será quando abrandar a chama aglutinadora dos títulos. Quem vier a seguir que se amanhe...

PINTO DA COSTA deu muitas vitórias ao FC Porto mas não autorizou que ele crescesse quanto podia ou não considerou suficientemente relevante essa evolução; isto é, a de transformar um grande clube de implantação regional num outro de dimensão verdadeiramente nacional. Este salto teve condições favoráveis para ser dado, ou tentado, pelo menos, imediatamente a seguir à vaga de simpatia azul e branca que alastrou um pouco por todo o País em 2003, quando da conquista da Taça UEFA, em Sevilha. A ordem foi para travar, contudo, em obediência ao canhestro pensamento de «todos contra nós»...

Aliás, o FC Porto deve ser o único clube que ganha uma Liga dos Campeões e, em vez de festejar com a exuberância que o feito justifica, opta por destapar desavenças internas com o objectivo de desvalorizar o trabalho do treinador José Mourinho, o qual, recordam-se?, no regresso da Alemanha, abandonou o aeroporto pela porta do lado por forma a evitar encontros indesejáveis com a facção mais descontrolada de obediente claque. E quando se privilegia o choque de protagonismos e se diminui o significado do triunfo na mais destacada prova do continente europeu, chega-se à conclusão que o problema reside nas mentalidades, luminosas mas curtas. Engolidas pela eficácia da máquina futebolística por elas gerada...

CONTINUA por decifrar o enigma que envolve esta súbita obcecação de Pinto da Costa pelo que se passa trezentos quilómetros a sul. Será por o Benfica estar mais forte e a jogar bem? Será por Jorge se chamar Jesus e não Flores? Provavelmente, mas não é só. Às preocupações de fora acrescentam-se as de dentro trazidas pelo advento do processo de sucessão.

Talvez ele sinta a necessidade de fazer ou dizer qualquer coisa para fixar a confiança dos que ainda o seguem até de olhos fechados. Cada vez em menor número, porém, de que o resultado da eleição autárquica no concelho do Porto constitui a prova mais recente...

15 setembro 2009

Crónicas


O abono de família

Por Fernando Guerra in A Bola

Li numa peça de reportagem sobre o Belenenses-Benfica que o Restelo se transformou num estádio da Luz em pequeno, bancadas quase repletas, dois terços pintados de vermelho. Ambiente fantástico, à medida do peso institucional do jogo.
Igual, como refere o bicampeão europeu José Augusto, ao que se registava quando a presença do Benfica, independentemente do local e do nome do adversário, era sinónimo de lotação esgotada. Quase tudo girava em redor dele. Os tempos mudaram, é certo, e a crise directiva que se instalou no Benfica desde o princípio dos anos 90 do século passado (!) estendeu a passadeira ao aventureirismo, a gestões ruinosas, à perda de respeitabilidade e ao colapso desportivo, mas no essencial, isto é, na influência do emblema da águia no país futebolístico, o que mudou teve unicamente a ver com o seu desaparecimento dos palcos internacionais e da rotina de títulos.

O mercado arrefeceu, com reflexos negativos que abalaram o universo dos clubes de pequena e média dimensão, cujos dirigentes, os sérios, felizmente em maioria, digo eu, porque também há os artistas, os traficantes de promessas, à excepção das raridades madeirenses, seriam fortes candidatos a prémio se houvesse um Nobel para a imaginação: manter equilibrado o deve e o haver, honrar os compromissos assumidos, é tarefa hercúlea que merece admiração e reconhecimento. O Belenenses recebeu anteontem o seu abono de família da presente temporada, desta vez reforçado pela razão simples do Benfica estar a jogar bem, a ganhar, a marcar muitos golos, factores necessários para revitalizar a economia do futebol e... suficientes se esta tendência vitoriosa se mantiver e se os encarnados redescobrirem os caminhos por onde se passearam até 1990, quando compareceram na sua última final da Taça dos Campeões Europeus, em Viena. Ainda há poucos meses, numa entrevista muito interessante publicada em A Bola, o presidente do Campomaiorense, João Nabeiro, realçou esse aspecto, o de os clubes modestos viverem um ano à espera da visita do Benfica, por ser a única que lhes traz algum desafogo, por saberem que naquele mês haverá dinheiro para pagar os ordenados. Como isto é verdade nos bons e nos maus momentos, o volume do abono oscila em função da intensidade da vaga de optimismo que abraça a nação benfiquista.
O Belenenses teve sorte, mas regressa ao fim da fila. Possibilidade de outra casa cheia... em 2010/2011. Entretanto, outros esfregam as mãos de contentamento, desejosos que a euforia vermelha se mantenha em alta até, pelo menos, lhes tocar à porta. Afinal, o medicamento mais amigo da saúde financeira de pobres e remediados é um Benfica forte e triunfador, gerador incomparável de receitas. A propósito, trago à colação um jogo particular que, depois de ter vencido a Taça UEFA, em Sevilha, nobremente o FC Porto se disponibilizou a realizar no Estádio de S. Luís para ajudar o Farense. Resultado: ausência de público e um lucro simbólico de vinte euros para evitar o desconforto da palavra prejuízo.
Em teoria, por questões de rivalidade desportiva , apenas dragões e leões deveriam contestar os benefícios da supremacia benfiquista, mas na prática as coisas não são assim. Pelo meio, há um turbilhão de interesses empresariais, pessoais, até políticos, que enodoam as regras e se sobrepõem ao bem-estar dos próprios clubes.
Filipe Vieira desafiou a história ao candidatar-se a terceiro mandato. Da instituição maltratada e desacreditada que lhe caiu nos braços, nem vestígios. O Benfica de hoje recuperou a credibilidade e o apreço em todos os sectores da sociedade e a sua grandeza impõe-se com a confiança que o projecto em desenvolvimento autoriza.
A batalha decisiva está em marcha. Não se sabe quanto tempo vai durar, mas o avanço é irreversível. Finalmente, depois de experiências mal sucedidas, Vieira sente ter condições para colocar em cima da mesa o trunfo do mérito. Já é presidente do maior clube português e considerado um dos dez mais prestigiados no mundo. Agora, reuniu um plantel com argumentos para se bater com os melhores. Era o passo que lhe faltava dar!

12 setembro 2009

Crónicas

Luz nos túneis

Por Fernando Guerra in A Bola

AFINAL, esta comissão disciplinar da Liga corta a direito, em nome da verdade, sem olhar a nomes, sejam familiares, amigos ou delegados aos jogos. Ainda não consigo simpatizar com a figura do seu presidente, mas isso é problema meu. Onde vislumbro excessos de vaidade, às vezes sinais de petulância, outros vêem rigor, clareza, sentido do dever. O que verdadeiramente interessa, porém, é o lado objectivo da coisa, a isenção da comissão quando chamada a decidir sob apertado controlo de interesses que não só se colocavam acima da lei, em face do poder supremo outorgado pelos bajuladores da corte, sempre de mão estendida por um favorzito na volta do correio, como se julgavam com força para orientá-la a seu bel-prazer. Esse tempo acabou e nada melhor que utilizar como cobaia o clube português mais prestigiado no mundo para iluminar os acessos aos relvados e a outros locais. Daquele jogo (Benfica-Nacional) apenas registei o péssimo trabalho do árbitro, por acaso em prejuízo do Benfica. O resto... a comissão puniu sem olhar a quem. O delegado foi o último apanhado. Ponto de viragem! Aplausos! Só espero que daqui para a frente não mais falte luz, nem câmaras, nos túneis dos estádios porque, como a Nau Catrineta, alguns há que têm muito que contar, histórias de pasmar. De que Jesualdo Ferreira nunca ouviu falar... Pois é!

05 julho 2009

Crónicas

O maior!

Por Fernando Guerra in A Bola

Moniz sobressaltou o monstro, aparecendo de supetão como salvador desinteressado da pátria benfiquista. Carvalho incomodou-o, com campanha ruidosa e despida de credibilidade.
Vieira acariciou-o e pediu-lhe terceira oportunidade, generosidade que não encontra semelhança na história democrática do clube desde 1926: Sei que tenho pouco jeito para o futebol, já cá ando há oito anos, só ganhei um título, permiti que se contratassem cem jogadores, 33 portugueses e 67 estrangeiros, à média de 12 por ano, mas a partir de agora prometo mudar. Com Jesus, o melhor treinador português, seremos campeões por muitos anos.

O monstro, embora cansado de esperar, reflectiu e acedeu:

Está bem, sei que te falta argúcia para gerir o futebol, mas és sério e trabalhador. Acredito em ti, mas deves perceber que a tua margem de tolerância passa a ser igual a zero. Tem de ser assim. Esse projecto de que tanto falas ou dá frutos depressa ou ver-me-ei obrigado a substituí-lo.

Com infinita sabedoria, o monstro foi mais longe e decidiu:

Vais ganhar as eleições, não por seres o mal menor, mas por entender que, neste momento, continuas a representar o caminho por onde devemos seguir.

Convicto da decisão, o monstro chamado Benfica transformou um processo eleitoral de relativo interesse, em que o resultado oscilava entre o 9-1 e o 8-2, em manifestação de força inigualável em Portugal, expressa por massa de votantes única, com abrangência universal, através de participações nos cinco continentes.

Se o Benfica, mesmo afastado da discussão dos títulos nos últimos quinze anos, continua a ser o maior, imagina-se como será quando readquirir a sua vocação conquistadora...