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04 março 2011

Benfica vs. Bayern. Uma passadeira vermelha para o árbitro

Há 35 anos, o escocês John Gordon precisou de dois batedores da polícia para chegar a tempo de apitar o jogo dos quartos-de-final da Taça dos Campeões


Com o técnico jugoslavo Milorad Pavic ao leme, o Benfica recupera a hegemonia perdida (para o Sporting) e ganha o campeonato nacional em 1974-75, que lhe garante o acesso directo à Taça dos Campeões da época seguinte. Aí o Benfica já é outro, com Mário Wilson a substituir Pavic, de malas aviadas para o Málaga.

A pré-época começa na Indonésia, com um empate (0-0 com a selecção de Jacarta) e uma vitória (2-1 aos argentinos do Rosario Central). Segue-se França, onde o Benfica perde 2-0 com Humberto Coelho. "Serão quatro longos anos fora de casa, mas já sonho com o regresso ao Benfica", desabafa o defesa-central português, transferido nesse Verão para o Paris SG. Que não estava qualificado para nenhuma das três competições europeias. O Benfica, esse, sim. E as primeiras duas eliminatórias na Taça dos Campeões são esquisitas. Na primeira, 7-0 ao Fenerbahçe na Luz e 0-1 em Istambul, onde Jordão recusa dar a bola ao árbitro no final do jogo e é suspenso um jogo pela UEFA por comportamento incorrecto. Curiosamente, da Hungria viria o adversário seguinte do Benfica. Na Luz, 5-2. Em Budapeste, está 2-0 para os magiares aos 51 minutos. Mais um golo e adeus Europa para o Benfica. Para agravar a situação, o médio Vítor Martins é expulso aos 60 minutos. Com menos um, o Benfica sofre o 3-0 de Dunai II aos 65'. Com calma, Nené faz o 3-1 (73') e silencia o Ujpest Stadion.

Garantido o apuramento para os quartos-de-final, ao Benfica resta esperar pela sorte no sorteio. Pela frente tem St. Etienne, Bayern Munique, Dínamo Kiev, Hajduk Split, Real Madrid, Borussia M'Gladbach e PSV Eindhoven, que eliminara os encarnados na época anterior (0-0 na Holanda e 2-1 na Luz). Ao Benfica sai-lhe a fava do Bayern Munique de Die Katz (o gato) Maier, Kaiser (imperador) Beckenbauer e Der Bomber (bombardeiro) Müller, entre outros artistas fisicamente superiores aos outros, e tecnicamente também, razão pela qual são bicampeões europeus. Na Luz, o Benfica de Mário Wilson trava os bávaros (0-0). À falta de golos, sobram elogios para os guarda-redes Bento e Maier. "A nossa táctica foi não perder mas ainda tivemos uma ou duas oportunidades de golo bem salvas pelo vosso guarda-redes", sintetiza Diettmar Cramer, treinador dos alemães. Já Mário Wilson deixa escapar: "O grande culpado deste zero a zero foi Maier."

A tudo isto contrapõe o árbitro escocês John Gordon, encantado com a luz de Lisboa e o caminho para a Luz. Duas coisas diferentes, atenção. "Precisei de dois batedores da polícia para chegar a horas ao estádio. Lisboa é encantadora, tem muita luz, porque os prédios são claros e basta um raio de sol para iluminar a cidade. E depois aquela multidão na rua a puxar pelo Benfica." O i fala então com Artur Correia, o ruço, lateral-direito do Benfica desse tempo, que nos confirma a "viagem" do árbitro. "Estagiávamos sempre na Linha e a viagem do hotel para o estádio era um caos. Às vezes ficávamos uma hora presos no autocarro, à espera que a polícia desbloqueasse a situação. Porque as pessoas faziam cordão humano, puxavam por nós, gritavam os nossos nomes. Aí já começávamos a ganhar o jogo." À excepção deste: 0-0. Na RFA, 5-1 para o Bayern, que se sagraria tricampeão europeu.

29 dezembro 2010

Jorge Jesus. O primeiro e último dérbi pelo Sporting

Dezembro. Ora aí está a data mais propícia para falar de Jesus. Por isso, nada melhor que evocar o 28 de Dezembro... Sim, sim, 28 de Dezembro, ou julgavam que estávamos a escrever sobre outra data qualquer?

Há 35 anos, em 1975, nesse tal dia 28, realizou-se o dérbi Benfica-Sporting, na Luz, para a 14ª jornada do campeonato nacional. O resultado foi o menos aliciante de todos (0-0) e este jogo podia perder-se no tempo, como muitos outros que não passaram à história por este ou aquele motivo. Podia... mas o i não vai deixar que isso aconteça. O excesso de curiosidades impede-o. Sobretudo se tivermos em conta que não havia um nulo entre Benfica e Sporting há 17 jogos, desde 1969, e que o leão Da Costa falhou uma grande penalidade, aos 30 minutos. Mas isto são peanuts.

Na altura em que Da Costa marcou o penálti, já Sporting e Benfica haviam feito uma substituição cada, com as saídas de Malta da Silva - naquela tarde a defesa-direito, empurrando Artur Correia para a esquerda - e Manuel Fernandes. E um tal Jesus entrou para o lugar do Manel, aos 28' (bem dissémos que este número era importante).

Exactamente, é mesmo assim como está a ler, o actual treinador do Benfica já jogou um dérbi, e fê-lo com a camisola do Sporting, há precisamente 35 anos. Como não há bela sem senão, Jorge Jesus saiu antes do fim.

E é aí que reside a curiosidade-mor daquela tarde: no seu único dérbi, JJ entrou (para substituir o lesionado Manuel Fernandes) e saiu (substituído por Baltasar). Ao todo, foram 52 minutos em campo, que ainda lhe garantiram elogios dos jornais desportivos de então.

De 0 a 5, o "Record" deu-lhe nota 3: "Foi de uma utilidade total. Não quebrou o ritmo da equipa e saiu esgotado pelo esforço positivo dispendido". Também "A Bola" elogiou Jesus, com nota 5, no máximo de 10. "Quando entrou, o Sporting continuou a jogar como se nada tivesse acontecido."

Nessa tarde, sem qualquer cartão exibido pelo árbitro César Correia, de Faro (outra "excentricidade"), o Sporting apagou a Luz e disso se aproveitou o Boavistão de José Maria Pedroto para se assumir como líder da liga na passagem de ano para 1976, com o 9-0 à CUF.

No final do campeonato, as contas foram outras, com o Benfica de Mário Wilson a sagrar-se campeão nacional e o Sporting de Juca a fazer a pior campanha de sempre no campeonato, com o quinto lugar que o atirou para fora das competições europeias. E Jesus, um médio mais em jeito que em força, não se impôs naquele tridente do meio-campo (Fraguito, Nélson e Valter), o que motivou a transferência para o Belenenses.

Dos 12 jogos efectuados de leão ao peito, só um foi a titular, precisamente na sua estreia oficial, em Alvalade, com o Beira-Mar (2-0), resolvido com dois autogolos. De resto, 11 presenças como suplente, uma deles a dar golo, à Académica, em Coimbra. Precisamente a cidade que viu Virgolino Jesus, pai de Jorge, lesionar-se na perna direita em Abril de 1945 e nunca mais representar o Sporting. Virgolino esse que marcou na estreia pelo Sporting dos Cinco Violinos (4-3 ao Atlético, na Tapadinha) e jogou dois dérbis com o Benfica numa época em que não havia cá substituições.

26 dezembro 2010

Eusébio. "Em 15 anos que joguei no Benfica, o FC Porto nunca ganhou"

Eusébio é um prato. E não dizemos isto só porque o entrevistámos na Tia Matilde, durante a hora (adiantada) de almoço. É a pura convicção do i. Eusébio é um prato, expressão que indicia divertimento e afabilidade. Vamos por partes: o i quer entrevistá-lo a propósito da sua chegada a Portugal, fez 50 anos no dia 15, e telefona-lhe. Assim, sem passar por ninguém. Do outro lado atende Eusébio, como um comum mortal. E toda a gente sabe que Eusébio não é um qualquer. É O Eusébio, com "o" maiúsculo. O Eusébio que ainda hoje suscita admiração e é reconhecido em qualquer parte do mundo, seja na Bósnia, na Venezuela ou no Vietname.

O Eusébio que foi eleito pela FIFA como o nono melhor jogador de todos os tempos no século XX. À sua frente, Pelé (que pede uma batelada de dólares por cada entrevista), Cruijff (é difícil falar com alguém que divide os seus dias entre o golfe e o... golfe), Beckenbauer (Munique é já ali, mas o Kaiser "só com marcação, se faz favor"), Di Stéfano (o presidente honorário do Real Madrid tem mais do que fazer do que dar entrevistas, a não ser que seja um evento-homenagem), Maradona (alguém tem aí o telefone do Fidel?), Puskas (só está entre nós no pensamento), Platini (é o presidente da UEFA e "três occupé") e Garrincha (é de outro mundo, e se não fosse fintava os jornalistas cá com uma pinta...). O que nos deixa no nono classificado do top da FIFA: Eusébio. Que atende o telefone na boa, como se fosse o Manel ou o Jaquim.

Aqui está o ponto de partida para a expressão "Eusébio é um prato": o assessor de Eusébio é o próprio Eusébio da Silva Ferreira. Atende o telefone, ouve e diz de sua justiça. O i quer entrevistá-lo na segunda-feira à noite, dia 13. Resposta dele: "Não, não pode ser. Daqui a 15 minutos, começa o Manchester United-Arsenal. Tenho de ver esse jogo. Liga-me amanhã." Muito bem, que seja na terça-feira, 14. "Hoje? Não, não dá. Então agora vou almoçar e depois tenho de ver [por momentos, ainda temi o pior e que fosse o Motherwell-Hearts, da Escócia] a meia-final do Mundial de clubes [Mazembe-Internacional]. A ver se amanhã nos entendemos, ok?" Okay, Eusébio. "Quando? Hoje? Ehhh, desculpa lá, mas não vai dar. Tenho de ver Rapid Viena-FC Porto [Liga Europa]." Mas desta vez lançamos um contra-ataque, que julgávamos ser venenoso. Qual quê! "Amanhã, quinta-feira? [a falar baixinho mas a pensar alto] às 18h, é o Levski-Sporting [com voz normal] O Sporting joga e tenho de ver. Isto está engatado. Amanhã ou depois, passa pela Tia Matilde à hora de almoço e estou lá, de certeza." Dito. E feito. É sábado, dia do Benfica-Rio Ave, e Eusébio lá está, como prometido, no balcão da Tia Matilde. Quando nos vê, não se deixa surpreender (pudera!) e diz com um sorriso: "Estava difícil, hein! Mas como vês, deu tudo certo."

O i senta-se ao lado dele. Eusébio está sentado, à espera do almoço. É cumprimentado por todos aqueles que lhe passam ao lado. Há quem o chame Eusébio ou king. Dá para tudo. Eusébio, como um rei, estica sempre o polegar em sinal de ok. Nós bem dizíamos, é um prato. E, durante uma hora, a conversa é deliciosa. Eusébio fala com calma. Avança como se fosse um extremo, às vezes recua, que é como quem diz rectifica, depois avança novamente e fala sem parar, ziguezagueando pelo vocabulário à procura da melhor palavra para qualificar este ou aquele ou para definir um ou outro momento, seja glorioso ou simplesmente anedótico. Eusébio é um prato. Já tínhamos dito? A sua memória tem não sei quantos megas de ram. Aí está outro dado que o enobrece: fala do que sabe, com pormenores incríveis. Com ele, não há cá reticências. Quando o seu almoço chega ao balcão, serve-se e tapa o copo de água com um guardanapo. Vai começar a falar... mas o seu raciocínio é interrompido pelo toque do telemóvel. É o Luís Piçarra. O toque do telemóvel, claro. "Sou do Benfica/E isso me envaidece/Tenho a genica/Que a qualquer engrandece/Sou de um clube lutador/Que na luta com fervor/Nunca encontrou rival/Neste nosso Portugal". Eusébio olha para o monitor, atende, fala de mansinho e adia a conversa para outra altura. Agora, é a hora do i. Finalmente.

Isso é o "Ser Benfiquista"...

Sim. Do Luís Piçarra! Nem imaginas o frisson que a música causava a nós, jogadores, antes dos jogos. Estávamos ali perfilados, com o adversário e os árbitros, de repente os altifalantes davam a música, nós ficávamos em pele de galinha e era como que entrássemos em campo já a ganhar. Fosse quem fosse. O Sporting ou o Real Madrid.

Pois, é curioso que fala nisso, porque vai ao encontro de uma das minhas perguntas: como é possível o Eusébio ter estado 15 anos no Benfica e só ter perdido seis jogos em 275 no Estádio da Luz? E como é que o Eusébio marcou em quatro dessas derrotas?

A sério? Seis? E já foram muitas [e ri-se com vontade]. Com quem foram?

Santos de Pelé (2-5) e FC Porto (1-2) em 1962, Sporting (0-2) em 1963, outra vez Sporting (2-4) em 1965, Manchester United (1-5) em 1966 e Ajax (1-3) em 1969.

[Eusébio olha para o ar e começa a falar só para si, mas alto] Desses seis, só dois foram para o campeonato nacional [FC Porto e Sporting-65]. O Santos, para a Taça Intercontinental. Manchester United e Ajax, para a Taça dos Campeões. E esse 2-0 com o Sporting para a Taça de Portugal. Ganhámos lá, em Alvalade, por 1-0, golo do Águas. Depois, perdemos 2-0. Dois do Figueiredo. Olha, foi essa vitória que nos tirou da final da Taça de Portugal mas permitiu ao Sporting ganhar 4-0 ao V. Guimarães e garantir o lugar na Taça das Taças, que haveria de levantar na época seguinte. Nada mal, ajudámos o Sporting, não foi?! [e ri-se mais ainda, entre dois toques do Luís Piçarra].

Porque é que disse "fosse quem fosse: o Sporting ou o Real Madrid"?

O Sporting, porque representei-os em Lourenço Marques, agora Maputo, e porque sempre foi o grande rival do Benfica. Nas 15 épocas de Benfica, fomos campeões nacionais 11 vezes e eles quatro. O FC Porto nunca foi campeão português no meu tempo. E também raramente me ganhou. Na Luz, já vimos, só uma vez. E lembro-me de uma outra vez, bem mais pesada: 4-0 nas Antas. Quatro golos do Lemos. Lembro-me perfeitamente do Rui, que era o guarda-redes do Porto, a dizer-me isso: ''Este ano é nosso'' [esse 4-0 foi em Janeiro de 1971 e estávamos na 18.ª jornada, pelo que faltavam oito para acabar o campeonato, aí liderado por Sporting, com três pontos de avanço sobre V. Setúbal, Benfica e FC Porto]. Eu disse-lhe: ''cuidado com isso, Rui. Ainda vamos ser nós os campeões.'' E fomos mesmo campeões [com três pontos de avanço sobre o Sporting, quatro sobre o FC Porto e sete sobre o V. Setúbal]. No dia em que nos sagrámos campeões, na última jornada, 5-1 à Académica [e faz o gesto de cinco com a mão direita, depois de pousar o garfo no prato], o Rui ligou-me para casa, porque naquela altura não havia nada de telemóveis: ''Tinhas razão. Vocês foram mesmo os campeões. Parabéns.'' Foi um gesto bonito, o dele.

E o Real Madrid?

O quê?

E o Real Madrid? Disse "fosse quem fosse...

Ah, está bem. Desde que me lembro da minha existência [Eusébio nasceu em Janeiro de 1942], o Real Madrid sempre foi a equipa. A máquina. E o Di Stéfano o meu grande ídolo. Eu estava em África e ouvia falar muito do Di Stéfano, do senhor que ele era, do futebol que ele jogava. Não o via a jogar, claro, mas os jornais que chegavam a Lourenço Marques, com dois ou três dias de atraso em relação à data da edição, noticiavam as façanhas do Real Madrid, a equipa que dominava o panorama europeu, como se viu com a conquista das cinco Taças dos Campeões seguidas [entre 1956 e 1960]. E o Di Stéfano era o meu ídolo.

E calhou logo encontrá-lo na sua primeira final europeia, em 1962!

Pois foi. Ganhámos 5-3, a perder 3-2 ao intervalo com três golos do Puskas. Na segunda parte, demos a volta e marquei dois golos, um deles de penálti. Antes do jogo, eu disse ao Coluna para pedir autorização ao Di Stéfano que me desse a sua camisola número 9 no final. Jogámos, ganhámos e, quando o árbitro apitou para o fim, lembrei ao Coluna o pedido da camisola. Lá fomos e o Di Stéfano, cabisbaixo mas afável, deu-me a camisola. Vê lá, tinha acabado de me sagrar campeão europeu e só queria a camisola do Di Stéfano. Está guardada, e é uma relíquia.

Já naquele tempo era costume trocar de camisola?

Não muito, mas eu era novo e o Di Stéfano era uma referência. Ainda hoje é! Aquele era o momento.

Trocou com mais quem?

Tanta gente. Hilário, do Sporting.

E voltámos ao Sporting. Por muitos defesas que o tenham marcado, foi um guarda-redes que ficou célebre por sua causa: o Damas!

Grande amigo. Havia uma rivalidade dentro de campo pelas equipas que representávamos mas a nossa amizade era superior a tudo isso. Quando nos encontrávamos por acaso em Lisboa, íamos almoçar ou jantar ou as duas coisas com as nossas famílias. Juntos, vivemos grandes tardes. Na Luz, em Alvalade, no Jamor. Grande homem, grande guarda-redes.

O Damas também ficou conhecido como o Eusébio do Sporting. Aliás, imagine Portugal sem Eusébio. Não havia estátua Eusébio no Estádio da Luz, não havia Damas como Eusébio do Sporting, não havia jogador português no top 10 dos melhores de sempre do século XX, provavelmente o Sporting tinha ganho mais campeonatos, o Benfica menos... Pergunta: se o Eusébio não tivesse vindo para Portugal, o que estava agora a fazer?

A jogar futebol. Acredita em mim. O meu futuro seria sempre futebolista. Há até uma história curiosa. A minha mãe nunca me quis deixar ir embora de Lourenço Marques. Aos 15 anos, a Juventus, a Juventus de Itália, ok?, queria contratar-me, porque um olheiro deles, que tinha sido um conhecido guarda-redes italiano da Juventus, viu-me e disse-lhes que havia ali um rapaz com potencial, que seria bom aproveitar enquanto eu estivesse incógnito. A Juventus chegou-se à frente mas a minha mãe não quis ouvir nada nem ninguém.

Como eram esses tempos em Lourenço Marques?

Grandiosos. Lembro-me dos jogos que fazíamos. Lembro-me de procurar meias, enrolá-las todas, misturá-las com papel de jornal e daí fazer uma bola. E lembro-me também dos nossos concursos. Quem ganhasse, comia dez castanhas!

Como é que era isso?

Eram concursos de habilidade. Tínhamos de fazer corridas com distâncias pré-definidas a dar toques naquelas bolas [e começa a explicar por gestos, com as duas mãos]. Primeira prova: 20 metros. O primeiro a dar chegar à linha da meta sem deixar a bola e trocá-la do pé direito para o esquerdo o maior número de vezes possível qualificava-se para a fase seguinte, que era a prova dos 50 metros, daí para os 100 e acabávamos nos 200 metros. Sempre na mesma coisa: pé direito, pé esquerdo, pá, pá, pá, pá [as mãos a bater uma na outra fazem eco na Tia Matilde] até cortar a meta. Aquilo eram tardes a fio, dias seguidos, meses, anos... O vencedor ganhava castanhas que assávamos ali na hora, mas nunca, nem por uma vez, o vencedor ficou com todas as castanhas. Qualquer que fosse o vencedor, dividia-as com todos os outros. Ehhh, grandes tempos [olha em frente, para uma parede vazia de conteúdo, mas os olhos transmitem emoção]. Cá em Portugal, o meu treino era outro, claro.

Então?

No final de cada treino, eu ficava no campo a treinar remates. Punha dez bolas ao longo da grande área e ia rematando à baliza. Pá, pá, pá [a Tia Matilde não estremece com o eco, mas pouco falta], pé direito, pé esquerdo, ao ângulo superior, rasteiro ao poste mais distante. Fazia este exercício dez vezes por dia, o que dava cem remates no total. Dez à vez, depois ia buscar as bolas, porque não havia cá apanha-bolas nem nada, não é? Distribuía as bolas outra vez pela área e pá, pá, pá, pá.

Um dia destes, vi uma fotografia sua à baliza. O Eusébio tinha estilo, hããã!

[sem mexer as pernas nem os pés, move o tronco para direita e para a esquerda] O treino de guarda-redes era o melhor para os rins, para os abdominais. Para ficar definitivamente em forma, ia à baliza na parte final dos treinos e dizia ao Simões para me atirar bolas para o lado esquerdo e para o lado direito. Com a mão, mas também em jogadas de um para um. E eu atirava-me aos pés dele.

Podia então ter defendido a baliza do Benfica naquela final da Taça dos Campeões com o Inter, em Milão, quando o Costa Pereira se lesionou?

Sim, podia.

Bem... se fosse, a sua lenda era maior ainda: ir à baliza numa final da Taça dos Campeões. E se não sofresse nenhum golo, como aconteceu com o Germano? Aí então...

Nessa final com o Inter, havia três hipóteses: eu, o Cavém e o Germano. Como estávamos a perder e precisávamos de dar a volta, eu fiquei na frente e lá foi o Germano para a baliza, que manteve o 1-0. Ele já estava a coxear e sem hipótese de acompanhar o arranque de algum adversário.

Sabe qual foi o guarda-redes a quem marcou mais golos?

Não.

Ao Américo, do FC Porto.

Quantos?

17.

Estivemos juntos no Mundial-66. Belo guarda-redes. Porto e Sporting sempre estiveram bem representados na baliza.

Tirando o Damas, quem se destacava mais? Carvalho, Octávio de Sá, Carlos Gomes...

O Carlos Gomes [e olha para a frente, como se o estivesse a ver naquele preciso momento]. Uma vez, quando ele defendia o Atlético, treinado pelo José Águas [1961-62], o intervalo de um jogo com o Benfica demorou mais tempo que o habitual. A PIDE estava na Tapadinha e ia levá-lo para interrogatório. Mas só depois do jogo. Ao intervalo, um amigo dele, que também era meu, alertou-o para isso, meteu-o na bagageira de um boca de sapo [Citröen] e lá foram para Badajoz. O Carlos Gomes foi parar a Marrocos, a jogar no Tânger. E o intervalo desse jogo demorou sei lá o quê. Quando o Atlético entrou em campo, o Carlos Gomes já estava a caminho de Badajoz. Sabes porque é que o Carlos Gomes está aqui? [e aponta para a cabeça]

Não faço ideia. Sei que ele sempre foi irreverente e que jogava de preto, em protesto com o amadorismo do futebol e dos seus dirigentes.

Não [e esboça um sorriso largo]. Lembro-me dele era eu um miúdo de oito anos e ia ver com o meu tio os particulares das equipas portuguesas em Lourenço Marques. Era um costume, e antes dessa equipas regressarem a Portugal, ainda iam à África do Sul para ganhar mais um cachet. Lá, os negros não podiam jogar. Lembro-me que o Sporting jogou em Lourenço Marques com o Jorge Mendonça e na África do Sul não o pôde fazer. Eles tinham um campeonato para brancos e outro para negros. Mas porquê? Se somos todos iguais: brancos, pretos, amarelos, azuis... Na África do Sul, era assim. E lembro-me que o Atlético Clube de Portugal [faz questão de repetir o nome do clube] chegou à África do Sul e voltou logo para Portugal, porque recusou as imposições dos sul-africanos, de jogar sem o Ben David, que era cá um jogador [quatro golos em seis internacionalizações por Portugal, entre 1950 e 1952]. Mas volto ao Carlos Gomes.

Ok. Carlos Gomes, então

Num jogo desses, ele foi expulso de campo. E eu lembro-me, tão bem, mas tão bem, da malandrice dele. [Eusébio faz o gesto do árbitro "para a rua", porque ainda não havia cartões, e traça uma grande área imaginária com talheres, pratos e copos, sem tirar o guardanapo de cima daquele que tem água] Ele foi da baliza até à bandeirola de canto e daí até ao meio-campo sempre pela linha, sem nunca sair do campo. Estavam todos a olhar para ele, a ver quando saía para recomeçar o jogo. Quando ele chegou ao meio-campo, desapareceu rumo ao balneário. Quando cheguei a Portugal, vi-o e disse para mim ''olha quem é ele''.

Quando chegou a Portugal... Ainda se lembra do primeiro jogo que viu do Benfica?

Claro. Cheguei numa quinta-feira [15 de Dezembro], depois da mais longa viagem de sempre. Acho que foram 30 ou 31 horas de avião. Tantas escalas... Só me lembro de uma: Dacar [Senegal].

E depois?

Bem, cheguei a Lisboa à noite e do aeroporto fui para o Lar do Jogador, onde conheci todos os jogadores e mais o treinador, o Bela Guttmann. Sabes que ele nunca me tratou por Eusébio? Nunca! Era sempre o menino. O menino tem de ir connosco, o menino tem de fazer isto, o menino tem aquilo... Do Lar do Jogador, viajei para a Covilhã. Apanhei o comboio aqui [e aponta lá para fora, para a Estação do Rego]. Fazia cá um frio lá em cima. Quis ir-me embora. De lá, da Covilhã, e até de Portugal. Foi o Coluna que me sossegou. Eu conhecia-o de Lourenço Marques e as nossas famílias davam-se bem. Eu até tratava a mãe dele por tia. E o meu irmão deu-me uma carta para lhe entregar no dia em que o visse em Lisboa. Nesse jogo na Covilhã, começámos a perder mas ganhámos 3-1.

Chegou em Dezembro de 1960 mas só se estreou em Junho de 1961.

Sim, houve muita burocracia pelo meio, entre Sporting, Benfica, federação... Em Junho, lá me estreei. A 1 de Junho, no dia seguinte ao Benfica ter ganho a primeira Taça dos Campeões [3-2 ao Barcelona, em Berna]. A Federação Portuguesa não quis adiar o jogo e o Benfica apresentou a equipa B. Perdemos 4-1, nos Arcos.

Mas o Eusébio marcou um golo [o 473.º e último golo oficial de Eusébio pelo Benfica, em Março de 1975, também foi com o V. Setúbal, mas já no Bonfim]

Sim, o 3-1.

E também falhou um penálti?

È verdade, defendido pelo Félix. O pai do Mourinho.

Falhou mais penáltis?

Um para o Maló, da Académica [na Luz, em Outubro de 1966: 2-1 para o Benfica]. E outro para o União de Almeirim.

Como é que é?

Para a Taça de Portugal, com o União de Almeirim [32 avos-de-final, a 9 de Fevereiro de 1969]. Ganhámos 8-0, eu já tinha marcado três ou quatro, não me lembro bem [foram três, e vale a pena dizer que Eusébio marcou 18 em nove jogos nessa edição da Taça, que o Benfica levantou, numa final com a Académica, que meteu prolongamento e só se evitou um segundo jogo por-culpa-vocês-sabem-de-quem]. E houve um penálti. Eu fui batê-lo e o guarda-redes disse-me que o pai dele estava no Estádio da Luz. Eu então disse-lhe que ia atirar para aquele lado [Eusébio aponta o seu lado direito] e ele foi lá buscá-la. Eu e ele tirámos fotografias, com o pai também, e, durante essa semana, ele virou herói nacional, com reportagens numa série de jornais. Foi engraçado [e sorri largamente, como se lhe estivessem a dar uma Bola de Ouro].

Seis derrotas na Luz, 11 títulos de campeão nacional em 15 épocas, três penáltis falhados, duas Botas de Ouro [melhor marcador europeu] e uma Bola de Ouro [melhor jogador da Europa para a France Football]. Que carreira. Falta-lhe alguma coisa?

Já que fala nisso... Podia ter ganho duas Bolas de Ouro.

Pois. Ganhou uma em 1965, com oito pontos de vantagem sobre Facchetti, lateral italiano do Inter. Mas perdeu a de 1966, para Bobby Charlton. Por um ponto, não foi?

Sim. Um ponto.

E o voto foi de um jornalista português, o Couto e Santos, do Mundo Desportivo. Ele votou no Bobby Charlton em primeiro lugar, eu em segundo [em 1966, Charlton foi campeão do mundo e eleito o melhor jogador pela FIFA numa prova em que Eusébio foi melhor marcador destacado, com nove golos em seis jogos]. O Charlton acabou com 81 pontos, eu com 80. Se ele votasse em mim, seria o contrário: eu 81, o Charlton 80.

E alguma vez falou com Couto e Santos sobre isso?

Siiim. Ele sempre me disse que votou no Charlton porque julgava que eu ia ganhar com avanço. Como é que alguém pode pensar isso numa votação secreta? E o que é que eu podia fazer-lhe? Nada, não é? Apenas perguntei-lhe e ele respondeu-me desta forma. Se ele votasse, eu seria o primeiro jogador a ganhar a Bola de Ouro duas vezes seguidas.

A Bola de Ouro perdida para o Bobby Charlton. Mais alguma coisa que lhe falta? Li algures que nunca jogou com o Matateu.

É verdade, o Matateu. Ele nunca jogou comig... Desculpa, eu nunca joguei com o Matateu. Assim é que é, assim é que se deve dizer: eu nunca joguei com ele. Só uns treinos na selecção portuguesa, com o Peyroteo a treinador. [E o Luís Piçarra entra novamente pelos nossos ouvidos dentro... Eusébio é ou não é um prato?]

14 dezembro 2010

Ganha bem mas não alegra


Benfica vence Braga (2-0) e continua na Taça.

Podia ser um grande jogo – havia até quem dissesse, com exagero, que se tratava de uma final antecipada – mas não foi assim. Por um lado, porque o Benfica está a milhas do “outro” do ano passado e reeditar a excelência do seu futebol não foi, por isso, mais uma vez, possível; por outro, porque o Braga, sem sete dos seus habituais titulares, também não podia dar corpo ao verdadeiro arsenal de outras contendas.

A única coisa que ainda se aproximou do passado recente foi o nervosismo de alguns intérpretes no momento do regresso às cabinas, ao intervalo. Naquele que ficou conhecido como o episódio do túnel. Aí, temeu-se o pior, já que, minutos antes, tinha havido um desentendimento entre Coentrão e H. Viana que alastrou de imediato aos restantes. A pronta intervenção de Rui Costa e outros responsáveis dos dois emblemas evitou, porém, males maiores.

Então já o Benfica ganhava, com excelente golo de Saviola, curiosamente obtido numa altura (38’) em que o Braga começava a denunciar maior atrevimento ofensivo, depois de Domingos haver constatado que a sua equipa, de recurso como já se disse, tinha no fim de contas aguentado o balanço inicial de um Benfica nada convincente: muito mexido no meio, sim, mas pouco perigoso na frente de ataque.

A saída precoce de Luisão, após remate muito intencional a que Artur Moraes se opôs bem, terá também pesado nessa decisão mais aventureira dos bracarenses, embora o substituto Sidnei se tivesse mostrado à altura. Mas a esse empertigamento, se bem que intermitente, do Braga soube responder, de igual modo “soluçante” o Benfica, impulsionado ora pela magia de Aimar, ora pelo arreganho de Carlos Martins (cujos excessos não se recomendam) a que Cardozo, desta vez, não deu seguimento.

A perder pela tangente, o Braga tentou na parte final forçar o prolongamento. Esteve bem perto de o conseguir, num desvio de Alan, a obrigar Júlio César à defesa da noite. Mas seria o Benfica a chegar ao 2-0, aproveitando precisamente o adiantamento do adversário no terreno, com Salvio no papel de desequilibrador. Na sequência do lance, Aimar faria então o golo do descanso.

Vitória, portanto, merecida do Benfica, pelo seu maior caudal de jogo e oportunidades criadas mas, importa sempre sublinhá-lo, frente a um Braga sem mais de metade dos seus habituais “guerreiros”. E o facto de o Benfica ter registado o triplo de faltas (21 contra 7) também é capaz de querer dizer alguma coisa...

28 outubro 2010

Johnny Haynes. "O Eusébio só ganha 50 libras por mês? Eu faria greve"


Eusébio nasceu em Janeiro de 1942. Quando chegou a Portugal via Lourenço Marques, em Dezembro de 1960, só tinha 18 anos. Menos de um ano depois, em Outubro de 1961, já era o novo Pelé. À conta dos três golos ao Santos de Pelé em pouco mais de um quarto de hora num torneio internacional em Paris, mas também de outros dez marcados no campeonato em meia dúzia de jogos.

Esta pontaria assinalável para um jovem tão inexperiente mereceu a convocatória para a selecção nacional, chamado por Fernando Peyroteo, outro fura-redes. A estreia foi amarga, na surpreendente derrota com o Luxemburgo (2-4), na qualificação para o Mundial-62. Três semanas depois, Eusébio encarou Wembley (2-0 para a Inglaterra) e foi a última vez que se ouviu o seu nome. A partir daí, foi Pantera Negra. Por culpa de Walter Winterbottom, seleccionador inglês, que gritava a plenos pulmões para Flowers.

"Flowers, look at the Black Panther." Flowers é o defesa do Wolves, marcador de Eusébio, campeão mundial em 1966 sem jogar um minuto - só recebeu a medalha de campeão em Junho deste ano, por cortesia de Gordon Brown. E Black Panther é o Pantera Negra, ou Eusébio, anteriormente conhecido como Pérola Negra, alcunhado pela imprensa francesa em Junho de 1961 (à conta do tal hat trick com o Santos de Pelé), que calou Wembley duas vezes, com remates ao poste.

Pois bem, o Black Panther, com 19 anos e no primeiro ano de profissional pelo Benfica, ganhava quatro contos, qualquer coisa como 1357 euros à luz do que se ganha hoje. Embasbacados com o talento de Eusébio, os ingleses festejaram a qualificação para o Mundial-62 no Chile, claro, mas preferiram enaltecer as qualidades daquela força da natureza. E o capitão Johnny Haynes estava mais que admirado. Perguntou tudo ao enviado especial do jornal "A Bola" e quando soube do salário dele, soltou: "Cinquenta libras? Eu fazia greve." E ele, Haynes, sabia do que falava.

Mais conhecido como maestro, foi uma espécie de Beckham dos anos 50/60. Pelé diz que ele foi o melhor passador que já viu, e Haynes foi o primeiro jogador a fazer publicidade, para a Brylcreem, um produto masculino para o cabelo. Além disso, Haynes, companheiro de Bobby Robson no Fulham, clube que representou por 18 anos, está na história do futebol inglês por ter sido o primeiro a ganhar 100 libras por semana, precisamente a partir de Agosto de 1961, quando se registou um entendimento entre a Associação de Jogadores e a Federação para a abolição do tecto salarial de 20 libras.

Tommy Trinder, folclórico presidente do Fulham, disse logo que Haynes valia o triplo. Errado. Valeu o quíntuplo. De 20 para 100 libras. E Haynes disse não ao Milan, que oferecera 800 mil libras para o Fulham, o que quebraria o recorde de transferências da época (menos de metade naquela época) e faria dele o jogador mais bem pago do mundo. Haynes não quis. Preferiu o Fulham, onde jogou oito épocas na 2.a divisão, durante as quais, curiosamente, foi o capitão da selecção. Nessa qualidade, insurgiu-se contra o salário de Eusébio. Que depressa foi aumentado. E porque dinheiro traz felicidade, o Benfica e a selecção portuguesa foram felizes à conta dos remates de Eusébio. Aqueles da bola ao poste e (já agora) os outros que deram golo.

14 abril 2010

Benfica mantém avanço - Por Rui Tovar


Por Rui Tovar in Sapo

Sporting não correspondeu aos anseios do Norte do País.

A equipa da Luz ganhou mais uma "final" do campeonato, ao derrotar, ontem, os "leões" (2-0), e voltou a repôr a diferença de seis pontos sobre o Braga, quando, nesta altura, estão apenas 12 em disputa. A esperança dos arsenalistas reside agora em Coimbra e no Dragão, se não houver a candidatar-se algum visitante mais codicioso, para não dizer "danado para o despautério".

Para o encontro com o velho rival, havia a curiosidade de saber quem Jorge Jesus faria avançar para o lugar de Saviola, definitivamente KO. Optou por Éder Luis, colocando Carlos Martins na posição 10 e deixando Aimar no banco, reserva de luxo para qualquer eventualidade, como veio a verificar-se. Já Luisão recuperou sobre a hora, enquanto há muito a lateral direita estava reservada para Amorim, por castigo de Maxi.

No Sporting, todos os jogadores estavam à disposição, excepto o castigado Izmailov, para além de mais repousados. Carvalhal fez uso de Abel e J.Pereira para o corredor direito, de Grimi e Yannick para o esquerdo e com Moutinho no meio, no apoio directo a Liedson. Mendes e Veloso davam corpo a um 4x2x3x1, mais cauteloso que o esquema do adversário, mas a permitir rápidos desenvolvimentos sempre que na posse de bola.

E, na 1ª parte, tirando os primeiros 10 minutos de maior assomo benfiquista, o Sporting procurou jogar no meio-campo contrário e conseguiu-o, vindo até a ganhar um bom número de pontapés de canto, pormenor revelador da insistência ofensiva dos de Alvalade. Quanto a ocasiões de golo, porém, é que a coisa esteve de fraca maré. De parte a parte.

Mas no 2º tempo, tudo se modificou. Aimar rendeu Éder e logo aí o Benfica subiu de tom. O tom de Luisão também não lhe ficou atrás, numa entrada sobre Liedson, como que a marcar o "andamento" para a nova metade. A verdade é que o Sporting revelar-se-ia neste período muito mais inibido e sem capacidade para chegar à baliza de Quim, enquanto o Benfica - mais adiantado no terreno - pegou no jogo e surgiu com outra disposição e muito maior dinâmica colectiva.

Mesmo assim, foi necessária uma iniciativa individual, neste caso do sempre inconformado e mui "eléctrico" C.Martins, para o Benfica chegar ao golo. Rompeu bem pela direita, para Coentrão continuar e Cardozo concluir, com desvio oportuno. Carvalhal não demorou a reagir e, de imediato, Saleiro entrou a render Abel, numa louvável tentativa de discutir o assunto. Mas sem resultado.

A culpa foi de Ramires e da sua visão de jogo, ao explorar muito bem a colocação dos centrais contrários, que não souberam anular, com fora de jogo, a intervenção de Aimar. Este, partindo de trás, só teve de isolar-se no corredor central, contornar R.Patrício e atirar para as redes, já de ângulo pouco famoso. Estava encontrado o vencedor, que pouco tempo restava já para o final.

Longe da excelência de outros espectáculos já apresentados esta época, o Benfica foi, ainda assim, um justo vencedor, por aquilo que fez na 2ª parte, período no decorrer do qual foi claramente superior. Mas que a equipa dá mostras de alguma intranquilidade, talvez como reflexo do desgaste que a acomete, isso também parece indiscutível.

Quanto ao título, embora a disciplina de Matemática ainda não tenha concedido o seu aval, as cadeiras de Lógica e de Cálculo de Probabilidades asseveram que a coisa não está nada mal encaminhada.

23 março 2010

BENFICA LEVA A TAÇA

Por Rui Tovar in sapo.pt

Primeiro troféu da época foi para a Luz.

Três-a-zero foi o resultado com que o Benfica se impôs ao FC Porto, na final da Taça da Liga, ontem cumprida no Estádio do Algarve. Uma prova que o Benfica ganhou pela segunda vez consecutiva nas três edições já disputadas. Mas, ao contrário do ano passado, o triunfo de agora foi conseguido de forma merecida e indiscutível. E com tudo a correr de feição, o que também ajuda sempre.

Condicionado pelo jogo de quinta-feira passada, em Marselha, Jorge Jesus viu-se obrigado a proceder a muitas alterações na equipa. Uma situação que não é nova esta época, face aos inúmeros compromissos e à necessária rotatividade daí resultante. Contudo, para além dos habituais preteridos, neste caso J.Garcia, Ramires, Saviola e Cardozo, novidade foi, sobretudo, a presença simultânea de Aimar e C.Martins, com a frente de ataque reduzida a um só elemento, Kardec.

Já o FC Porto manteve M.Lopes, na lateral direita, e viu regressar como trinco o insubstituível Fernando. Na frente, a lesão de Varela foi resolvida com a inclusão de Bellushi, numa função de maior polivalência na direita, com o apoio de Ruben e Meireles, no miolo, e de Falcão e Rodriguez, na frente.

Começou mais decidido o FC Porto, dando a ideia de querer "agarrar" no jogo logo de início, pertencendo até a Rodriguez o primeiro remate de perigo a que Quim se opôs com determinação. Mas foi o Benfica, que ainda não tinha chegado à baliza contrária e que pouco fizera para justificar o que quer que fosse, que inaugurou o marcador. Uma "pedrada" de Amorim, é certo, mas que não isenta de culpas o guardião Nuno.

Um golo que teve o condão não só de dar confiança a um Benfica mais cauteloso do que o costume - por força da tal jornada europeia - como ainda fez perder as estribeiras ao FC Porto. De facto, embora não deixasse de tentar contrariar o ascendente do adversário, a formação de Jesualdo terá sido traída pela falta de serenidade de alguns dos seus jogadores mais influentes, casos de Meireles e, sobretudo, Bruno Alves.

Foi precisamente a castigar um derrube (com pisadela) de Meireles a C.Martins que este, do livre respectivo, aproveitou para fazer o 2-0, mesmo ao findar do 1º tempo. Não ganhou grande coisa o FC Porto com as substituições para a outra metade do jogo. Se Fucile foi mais interveniente que M.Lopes, já Valeri não veio acrescentar nada ao apático Ruben Micael, também ele responsável pelo fraco rendimento do sector intermediário dos "dragões".

O Benfica controlava o jogo e, mesmo então, não se encolheu nas opções. Pelo contrário, as alterações feitas aproximaram-no do figurino habitual. Primeiro, com a entrada de Saviola (por Aimar) a refazer o "2" da frente, com C.Martins no apoio. Depois, as chamadas de Ramires e Cardozo completaram o quadro. Só faltou J.Garcia render Airton para o Benfica retomar o "onze" do costume.

E foi com tudo já consumado que o Benfica fixou o resultado, por Cardozo, mas após uma boa iniciativa de Amorim, com Saviola a ajudar. O Benfica terminou em beleza e ganhou com toda a justiça. É verdade que contou com aquilo a que se chama "a sorte do jogo", mas, para lá disso, foi também a melhor equipa.

05 março 2010

Chalana. "Qual Chalanix, qual quê! Em Bordéus, era o Vatanen"

Por Rui Miguel Tovar in ionline

Há 25 anos o extremo estreou-se em França, depois de muitas entorses. E multas por dizer a palavra Benfica

Bordéus, 1984. Por uns momentos, esqueça a colheita de qualquer tipo de vinho desta região e imagine uma conferência de imprensa do clube da cidade com dois homens de bigodes farfalhudos. Um deles é Claude Bez, presidente. Um homem gordo, que se passeava pelas ruas de Bordéus, com um chapéu de cowboy, quase sempre ao volante de um Cadillac, e que soltava sonoras gargalhadas à medida que ia cumprimentando toda a gente com uma forte palmada nas costas. O outro é Fernando Chalana, a quem os franceses tinham ficado rendidos nesse Verão de 1984, quando Portugal deu algum espectáculo na fase final do Eu
ropeu. Apesar de nunca ter jogado em Bordéus (só em Estrasburgo, Marselha e Nantes), Chalana ficou conhecido em toda a França. Fosse pelo seu toque de bola, pelas arrancadas ou pelo seu bigode - e isto num duplo ponto de vista: metafórico (dar um bigode à concorrência, que era o seu repetitivo prato do dia) e literal (aqueles pêlos entre o nariz e a boca fizeram as delícias dos jornalistas franceses, que o apelidaram de Chalanix).

Ao mesmo tempo que Platini sai de França, na troca St. Étienne-Juventus, o presidente Bez muda de posição dentro do Bordéus, de tesoureiro para presidente. E os seus sonhos, outrora megalómanos, tornam-se realidade. A um jovem treinador sem currículo mas com um ar respeitável (Aimé Jacquet, seleccionador da França campeã mundial em 1998) junta-se uma série de craques, dos centrais Battiston e Trésor aos avançado Dieter Müller e Lacombe, passando pelo meio-campo, que era "apenas" a zona mais requintada de todas, com o talento do drible curto de Tigana, Giresse, Girard e Chalana.

Quando passam 25 anos desde a estreia do português (o único jogador e, quem sabe?, habitante de Bordéus que desafiava o bigode de Bez na estética), num Marselha-Bordéus, ganho pelos visitantes por 1-0, o i falou com Chalana a propósito dessa aventura pela casa do vinho, onde o extremo passou três épocas, de 1984 a 1987.

De que se lembra da experiência em Bordéus?
Ainda em Novembro do ano passado visitei a cidade, a convite da actual direcção do clube, para assistir ao Bordéus-Juventus da Liga dos Campeões. Fazia 25 anos que fomos eliminados pela grande Juventus de Platini, Cabrini, Scirea, Boniek e Rossi nas meias-finais da Taça dos Campeões e o Bordéus lembrou-se de juntar toda aquela equipa que os defrontou para um jantar de confraternização. Foi uma agradável surpresa. Porque voltei a ver amigos, como Lacombe, Battiston, Tigana, Giresse, e também porque voltei àquela cidade. E como aquilo está mudado! Sobretudo a parte nova que se esticou para a frente, para trás e para os lados. Aquilo que era descampado, agora é ocupado por zonas residenciais e comerciais. Quis ir a um restaurante português, que era onde almoçava e jantava quase sempre, e perdi-me, veja lá! Tive de telefonar a outro português para me orientar. Depois lá dei com o restaurante, que está na mesma. Felizmente. Soube-me bem voltar a sentar-me naquele lugar ao pé da lareira. Aquela era a minha mesa. Pergunte ao Toni e ao Jesualdo Ferreira [treinador principal e adjunto do Bordéus em 1994]. Quando eles iam lá, o dono dizia-lhes sempre que era a mesa do Chalana. São estas coisas que ficam.

Também ficou com lugar reservado no coração dos adeptos do Bordéus?
Sim, tenho a certeza. Cada vez que me lembro de algumas situações, até me arrepio todo.

Tais como?
A minha apresentação à imprensa foi uma confusão com jornalistas e mais jornalistas. Eles eram franceses e portugueses, todos ali misturados. A sala parecia pequena com tanta gente. Depois, o meu primeiro treino foi a pagar. Eram 10 francos para cada pessoa que me quisesse ver. E digo-lhe que aquilo estava composto. E o aquilo era um centro de treinos que, repare bem, em 1984, já tinha 12 campos relvados! Nos jogos os adeptos cantavam o meu nome, tal como os dos outros jogadores, mas o meu era novidade para mim, porque em Portugal isso ainda não se fazia. Nem na Luz, onde os adeptos puxavam muito pela equipa.

Mas também é verdade que se lesionou muitas vezes e nunca rendeu aquilo que se esperava?
Da mesma forma que lhe digo que as infra-estruturas do Bordéus eram espectaculares, também há um contraponto em relação ao departamento médico. Eram amadores. Que saudades do meu querido amigo José Luís [médico do Benfica naquela altura].

Porquê?
Que eles eram amadores? Ah, sei lá. Quando toda a gente diz para aí que eu fui operado aos ligamentos e ao menisco, digo--lhe que isso é mentira. Nunca fui operado a nada disso.

Mas então como explica só 18 jogos em três épocas?
Muitas rupturas. E os médicos do Bordéus não sabiam dar a volta à questão. Por isso queria curar-me no Benfica. Mas bastava falar no Benfica para o presidente [Bez] me chamar ao seu gabinete e toma lá uma multa.

O Bez chateava-o constantemente?
Não, nada disso. Só quando eu dizia a palavra "Benfica".

Mas qual era o problema dele?
Simplesmente era assim. Era um personagem sui generis. Conheci-o em Lisboa, quando ele negociou o meu passe com o Fernando Martins, do Benfica, depois do Europeu de França.

De clubes interessados, só havia o Bordéus?
Não, ainda havia a Roma e o Barcelona. Mas o Barcelona contratou o Maradona, que até era mais ofensivo que eu, e aí escolhi o Bordéus. Toda a gente diz que houve muito dinheiro envolvido na transferência [220 mil contos para os cofres do Benfica, que serviram para concluir as obras do terceiro anel do Estádio da Luz], mas sabe que ainda não recebi a última tranche desse contrato. Nem vou receber, como é óbvio.

E o ambiente na equipa?
Sempre espectacular. Sobretudo o Lacombe, que é hoje director do Lyon. Estava sempre a puxar-me para jantares em casa dele. Mas os outros também eram sensacionais e apoiaram-me sempre. Quer saber uma coisa: lá eu não era o Chalanix, nem o Cyrano de Bergerac [pelo seu nariz]. Era o Vatanen [Ari Vatanen, finlandês, campeão de ralis em 1981, ao volante de um Ford Escort]. Num treino na neve, eu corria mais e driblava melhor que todos os outros. E o Battiston pôs-me a alcunha.

Como era Aimé Jacquet?
Ah, um senhor. Um verdadeiro gentleman. Cumprimentava todos os jogadores, um a um, olhos nos olhos, e dizia-nos as coisas da forma mais tranquila.

Lembra-se de algum jogo especial?
Sim, um em Dniepr, antiga URSS, agora Ucrânia, nos quartos-de--final da Taça dos Campeões. Fomos a penáltis. Antes de Jacquet decidir em alta voz os cinco marcadores, levantei o dedo e disse-lhe que queria marcar o último. Ele ficou surpreendido. Foi 5-4 e eu marquei o último, garantindo a qualificação para o tal jogo com a Juventus.

Nessa altura, já era Vatanen?
Sim, o Vatanen. A neve de Bordéus chegou antes da de Dniepr.

11 dezembro 2009

Eusébio: "Até o guarda-redes deles veio cumprimentar-me"



Por
Rui Tovar in ionline.pt

Há 35 anos, o Pantera Negra marcou o melhor golo da sua carreira. Eleito por ele mesmo. Foi ao La Chaux-de-Fonds

Eusébio da Silva Ferreira. O tempo não vai conseguir apagar este nome. À conta dele, Portugal é conhecido em todo o mundo. Por causa dele, a história do futebol nacional mudou radicalmente.

Quando chegou a Portugal, em 1960, o Sporting era rei e senhor, com nove campeonatos nacionais contra sete do Benfica. No reinado de 15 épocas do Pantera Negra, o Benfica sai fortalecido, com 11 campeonatos e cinco Taças de Portugal, mais duas Taças dos Campeões, e deixa a concorrência para trás - o Sporting, nesse mesmo período, só ganhou quatro campeonatos e outras tantas Taças de Portugal. Em 1975, quando Eusébio abandona o clube da Luz, o Benfica é o clube de Portugal mais admirado em todo o lado, situação que ainda persiste nos tempos que correm. Para evidente dor de cotovelo dos rivais.

E, atenção, que o cotovelo foi uma das poucas partes do corpo com que Eusébio não marcou nenhum dos seus 727 golos dos 715 jogados ao longo da magnífica carreira. O pé direito foi a maneira mais comum que o avançado português encontrou para se expressar diante da baliza e é dele (pé direito) que hoje falamos para descrever o seu melhor golo. Eleito pelo próprio.

OCORRÊNCIA Foi a 9 de Dezembro de 1964, quando o Benfica goleou 5-0 os suíços do La Chaux-de-Fonds para a 2.ª mão dos oitavos da Taça dos Campeões.

Aos 52 minutos, já com 2-0 no marcador, um lançamento de Cruz encontrou Eusébio. Este dominou a bola com um pé e com o outro passou-a por cima (o vulgo "cabrito") do central Koisard, depois sobre o lateral esquerdo Deforel e rematou de forma fulminante à entrada da área - tudo isto sem deixar a bola cair no chão.

"Foi o meu melhor golo, sem dúvida. Mantenho essa opinião desde que o marquei e não a alterei depois disso", garante Eusébio ao i, devidamente sustentado pelos seus companheiros de então, como Simões. "Aquilo foi uma obra de arte. Só mesmo quem viu é que pode vibrar com essas memórias. Mas, na altura, os jogos não davam na televisão e o mediatismo era mais pelos jornais."

CONCORRÊNCIA De volta a Eusébio. "É um golo inesquecível porque o guarda-redes [Eichmann] veio cumprimentar-me logo a seguir e disse-me que nunca teria defendido aquela bola." Depois, a piada oportuna: "Não me posso envergonhar do adversário. Foi o último jogo deles na Europa."

É verdade, sim senhor. O La Chaux-de-Fonds só fez seis jogos na Europa, dois deles em Portugal (0-5 em Matosinhos com o Leixões em 1961), e está actualmente na 2.a divisão suíça. Mas na 1.ª do pé direito de Eusébio.

25 novembro 2009

Jesus: o autogolo na vida do rei dos golos



Por Rui Tovar in ionline.pt

O Benfica marca que se farta na Liga Sagres e na Liga Europa mas o último golo da carreira do seu treinador foi na própria baliza. Há 27 anos


Manuel Fernandes (244 golos), Domingos Paciência (144), Jorge Costa (20), Van der Gaag (17), Paulo Sérgio (16), Jorge Jesus (13), Augusto Inácio (9), Carlos Brito (6), José Mota (2), Lito (2) e Carlos Carvalhal (1). Dos actuais 16 treinadores da Liga Sagres, 11 marcaram na 1.ª Divisão como jogadores, mas só um é que fez autogolo.

Falamos de Jorge Jesus, também conhecido como JJ, o treinador do Benfica mais goleador dos últimos tempos, com 51 golos em 17 jogos, incluindo todas as competições. Foi há precisamente 27 anos, no dia 21 de Novembro de 1982, durante o Portimonense-Vitória Setúbal (1-0), para a 10.a jornada da 1.ª Divisão.

O Benfica de Eriksson ganhara 1-0 em Vila do Conde, com Nené a facturar. O Sporting batera o Boavista por 4-2, com golos do trio famoso (Manuel Fernandes, Jordão e Oliveira, que já aí acumulava as funções de treinador). O FC Porto de António Morais, na ausência de José Maria Pedroto, doente, despachara o V. Guimarães de Manuel José (3-1) com bis de Gomes. Ou seja, todos os nomes do futebol português deram que falar. Por isso, Jesus não podia, de uma maneira ou outra, faltar à chamada. E foi assim que marcou o último da carreira na 1.ª Divisão. Não festejou, está visto!

"Foi um azar tremendo. Acho que a bola nem sequer ia à baliza", desabafou Jorge Jesus, na altura médio do V. Setúbal, treinado por Manuel de Oliveira, à saída do estádio do Portimonense, consumada a derrota no último minuto. "Lutámos muito para sair daqui com um ponto, mas toda a estratégia ruiu no último instante."

Fatal como o destino O lance em causa ocorreu na sequência de um livre marcado por Raul Águas para a direita, onde surgiu Norton de Matos a fazer um cruzamento-remate. A bola, por capricho, bateu na perna direita de Jorge Jesus e traiu Padrão. Os portimonenses festejaram efusivamente e todos os elementos do banco de suplentes entraram pelo relvado dentro, à excepção do técnico Artur Jorge, que se manteve sentado e sereno. "Sempre fui assim, muito comedido. Até quando ganhei a final da Taça dos Campeões-87 pelo FC Porto. Mas por dentro sentia sempre uma alegria enorme", diz o próprio ao i.

Curiosidades Pois então, Jorge Jesus marcou 14 golos na 1.a Divisão, o último deles na baliza errada. Mas não há crise, porque esse campeonato, ganho pelo Benfica, registou mais dez autogolos além do de JJ. E o Portimonense, curiosamente, foi o maior beneficiado, por três vezes.

Outros Se Jesus esteve no sítio errado na hora errada, o que dizer então do defesa-central estorilista. Cansado? Porque foi ele o recordista de autogolos nessa época 1982/83, com um bis - em Portimão (0-6) e em Alcobaça (1-3).

Mas o mais engraçado é que até houve um jogo com três autogolos. Aconteceu no Varzim-Marítimo, 3-2, com os infelizes Beca (a favor dos poveiros) mais Lúcio e José Albino (para os madeirenses).

10 novembro 2009

Crónica de Rui Tovar


Benfica regressa ao topo

Por Rui Tovar in sapo.pt

Ontem, ia havendo escândalo na Luz.

Mais de 40 mil almas desesperavam com a persistência figueirense,
posta de parte que estava já a história da goleada inicialmente admitida. Naquela altura, a escassos minutos do fim, a família encarnada não era tão pródiga no pedir. Ansiava por um golito, um só, que lhe desse os três pontos e, com eles, lhe permitisse cavar distâncias em relação à concorrência.

Com Jesus por interlocutor, está provado, a prece torna-se mais fácil. Mesmo ao cair do pano, o pedido foi lá do alto atendido, como ficou provado naquele cabeceamento de Javi Garcia, nas alturas, a tornar desnecessária a estirada de Peiser. Assim conseguiu o Benfica a sua vitória (1-0) sobre a muito batalhadora equipa da Naval. Que lhe permitiu igualar o Braga no comando da prova.

O jogo não teve grande história. Os encarnados pressionaram desde o princípio e criaram ocasiões bastantes para chegar à vantagem. Contudo, na baliza da Naval esteve um guarda-redes francês muito inspirado, Romuald Peiser de seu nome, que a tudo se opôs com galhardia e pundonor, se os termos são suficientemente sonantes para caracterizar um trabalho que, por junto, rendeu umas sete defesas de categoria especial, afora os trocados.

O principal desinquietador voltou a ser Di Maria e o seu desconcertante pé esquerdo. Saviola também deixou a sua marca, num remate ao poste, mas foi Javi Garcia que, pela frequência, mais surpreendeu no capítulo do remate, assinando (com um bom "cursivo", diga-se) finalizações de muito respeito.

Face às ausências de Ramires e Cardozo, foram Amorim e Nuno Gomes os eleitos, voltando Coentrão à lateral esquerda, com Di Maria a completar o flanco. No resto, as figuras de proa do costume, que o momento não está para grandes invenções. Perante isto que fez a Naval?

Augusto Inácio, o experiente técnico da formação da Figueira da Foz, optou naturalmente por se apresentar reforçado à retaguarda, com uma segunda linha, próxima daquela, igualmente compacta e, na frente, Kerrouche e, às vezes, Marinho. Se não era o tal autocarro, não andava muito longe disso.

O Benfica sentiu sempre enormes dificuldades em entrar na área com a bola controlada, face ao bom (e denso) escalonamento defensivo contrário. E, nos "chuveirinhos" a que é norma recorrer nestas circunstancias, Gomis e Diego Ângelo estiveram muito bem, beneficiando também da ausência de Cardozo, que, no jogo aéreo, teria certamente uma palavra a dizer.

Di Maria voltou a fazer tremer o poste, mas, aos 88 minutos, já com as apostas atacantes todas jogadas e sem grandes vantagens que se visse, a resistência ruiu mesmo. Di Maria, sempre ele, marcou um livre e Javi fez o golo que levantou o estádio. Na resposta, Simplício, num remate acrobático, esteve quase a fazer o empate, o que teria constituído grande injustiça, se se atender à evidente diferença de produção das duas equipas.

01 setembro 2009

Crónicas de Rui Tovar


BENFICA ARRASA V.SETÚBAL

Por Rui Tovar in sapo.pt


Num campeonato muito calculista e defensivo, queixava-se meio mundo da falta de golos e eis que o Benfica responde à letra (e ao número), com nada menos de oito, frente a um V.Setúbal, que nem nas épocas mais atribuladas mostrou tanta fragilidade e descontrolo.
A marca fixou-se nos 8-1, mas os encarnados poderiam ter ido para lá dos dois dígitos, que, ontem, a coisa deu mesmo para tudo.

As fragilidades dos visitantes ficaram à vista logo no primeiro lance, com a defesa sadina a ver Di Maria, à vontade, dentro da área, a falhar o remate e o golo. Podia ter sido um lance fortuito de uma equipa apanhada a frio e apenas isso, mas esse sinal - confirmou-se mais tarde - foi o claro e inequívoco anúncio do que iria passar-se durante todo o jogo.

A superioridade da formação da casa nunca foi questionada, dada a força e maior clarividência do seu meio-campo e da interligação perfeita e constante com os homens mais adiantados. A isso juntou-se uma dinâmica linha de retaguarda, que, sempre a defender bem à frente, nunca concedeu espaços às escassas manobras dos sadinos nesses terrenos.

Assim, perante tamanho "pressing", o V.Setúbal viu-se obrigado a jogar muito atrás, quase sempre sobre a sua defensiva. E mal. Acossado por um adversário em noite de grande inspiração, o Vitória também não teve discernimento para utilizar outros argumentos que não fosse a rispidez. Por isso, na primeira meia hora, quatro dos seus atletas foram admoestados com o cartão amarelo, já depois das advertências verbais que Duarte Gomes entendera dirigir-lhes.

Mais do que os cartões, na 1ª parte, foram os golos. Os três primeiros em lances de bola parada (canto,livre e penalty), com Javi, Luisão e Cardozo na concretização, e Aimar nas assistências. Depois, Aimar fez o que quis a Djikiné, para Ramires concluir uma jogada de Di Maria e Cardozo. O eixo da defensiva de Setúbal estava de rastos, apesar de reforçado, e a conta subira para 5-0.

Só perto do intervalo, o Vitória chegou à baliza de Quim, vindo a repetir a graça, nos primeiros minutos após o descanso, ao desperdiçar uma boa ocasião, numa altura em que o Benfica estava decididamente balanceado na ofensiva. Jesus remodelou o lado esquerdo, com as entradas de Peixoto e Coentrão, e lançou ainda Nuno Gomes. O Benfica ganhou nova embalagem, que lhe proporcionou mais três golos. Cardozo festejou o seu primeiro "hat-trick" e Nuno Gomes voltou a marcar.

O Vitória alcançou o ponto de honra, por Hélder Barbosa, já sobre o final, antecipando-se a David Luiz e a Quim, subscrevendo a única coisa acertada que este V.Setúbal fez na Luz. Carlos Azenha não pôde, assim, dar uma alegria aos seus amigos, que dele tanto aguardam. O Benfica estava mesmo indomável.