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19 março 2011

Três candidatos ao troféu das equipas humanas


Podem até minimizar a proeza do trio português na Liga Europa, dizendo que a prova é da segunda divisão, mas nem por isso o facto de termos três equipas em competição nos quartos-de-final deixa de ser digno de nota, pelo menos para quem cresceu a ver ingleses, italianos e alemães a dominar a Taça UEFA e sempre bastante felizes por isso. E a questão é que o futebol europeu não está dividido em primeira e segunda divisões, consoante se joga na Champions ou na Liga Europa: o que há é uma meia dúzia de colossos (Real Madrid, Barcelona, Chelsea, Manchester, Arsenal, Inter e eventualmente Milan ou Bayern), que tornam a Champions proibitiva para as equipas apenas boas.

O vencedor da Liga Europa é uma espécie de campeão das equipas humanas e, apesar do desdém com que Robben encara a possibilidade (dada a quase certa ausência do Bayern da próxima Champions), ganhar a prova é um motivo de orgulho. E, além de a Liga Europa permitir a Portugal fazer mais pontos do que a Champions, a parte boa é que basta olhar para o histórico da competição para se concluir que ter três equipas nos quartos-de-final corresponde (com raras excepções) a ter pelo menos uma equipa na final.

O mais provável é, por isso, termos Europa até Maio. E, tal como em Espanha se fala na hipótese de um cruzamento entre Real Madrid e Barcelona, é inevitável que em Portugal se anteveja um Porto-Benfica já no sorteio de hoje. Não era bom. É que os dois podem (o Braga, enfim, já pode um pouco menos) chegar até ao fim.

09 novembro 2010

Até à goleada

A questão fica mais fácil de entender se a personalizarmos. O que foi mais importante para a goleada do FC Porto sobre o Benfica: a inspiração de Hulk, como pretendeu fazer crer Jesus, ou a invenção do treinador do Benfica, que por isso mesmo teria apontado o dedo ao avançado portista? Mas além de assim lhe darmos laivos de injustiça, pois apagamos da fotografia todos os outros intervenientes, esta é uma questão de resposta impossível. Há mérito do FC Porto, com Hulk à cabeça mas muita gente a seguir-lhe as pisadas, e há demérito do Benfica, com a catástrofe estratégica introduzida pelo treinador a ganhar peso na pálida imagem deixada no relvado. Uma coisa começa onde acaba a outra e, sim, ambas foram muito importantes na forma como decorreu o clássico.

O mais fácil é destacar o mérito do FC Porto. A forma fantástica de Hulk, bem à vista no modo como deixou David Luiz parado na arrancada para o primeiro golo. Mas também a inspiração de Belluschi, que partiu o central adaptado benfiquista ao meio com a simulação que conduziu ao segundo tento. Ou ainda a segurança de posse de bola que João Moutinho dá à equipa. Bem como a disciplina táctica que esta mostra sempre, mérito de André Villas-Boas, que mudou a cara de um onze que era mais dado à velocidade das transições e que agora está melhor em ataque organizado e no momento defensivo. Aliás, o mérito de Villas-Boas não pode esgotar-se no jogo de anteontem, porque o FC Porto foi anteontem igual ao que tem sido quase sempre.

Mas a pergunta é legítima: renderia o FC Porto tanto sem as invenções de Jorge Jesus? Teriam Hulk e Belluschi tantas facilidades nos dois primeiros golos contra um lateral rotinado e veloz nos espaços curtos como Coentrão? Provavelmente não. E esta sublimação da componente estratégica do jogo torna-se tanto mais incompreensível quando Jesus já tinha sofrido com ela em outras ocasiões: a última goleada encaixada pelo Benfica (os 1-4 em Liverpool) tivera a mesma marca, a mesma obsessão em montar a equipa não em função das suas qualidades mas a pensar na anulação das armas do adversário.

Em suma, o FC Porto é a melhor equipa do campeonato e em condições normais ganharia sempre o jogo - e isso é mérito de André Villas-Boas. Mas o Benfica esteve abaixo do que seria normal e por isso não só perdeu como foi goleado - e aí há algum demérito de Jorge Jesus.

13 setembro 2010

Arbitragem, sim, mas outras coisas também


Os erros de Benquerença ajudam a explicar a terceira derrota do Benfica em quatro jornadas de Liga, mas são curtos para justificar a posição complicada em que os campeões nacionais se preparam para entrar numa semana decisiva... em Setembro. É que, tendo havido clara influência da arbitragem na derrota de ontem, há mais que isso no campeonato fraquinho que está a ser feito pela equipa de Jesus.

Há, primeiro, um Benfica menos capaz de desequilibrar. O jogo de ontem foi exemplo: teve quase o dobro dos ataques, mas menos finalizações que o adversário, que até beneficiou das melhores ocasiões de golo não concretizadas. E das razões para este menor rendimento não falaram Luís Filipe Vieira, Rui Costa ou Jesus.

Ora essas razões são múltiplas. Começam na saída de Di María (as acelerações nos últimos metros não estão a ser substituídas por nada de semelhante), continuam na ligeira quebra de rendimento de Aimar (que aliás já se notara na segunda metade da época passada) e na estrondosa queda de Cardozo (ainda o Mundial? Não...), passam ainda pelo maior conhecimento que os adversários têm da forma de jogar da equipa e terminam num factor tão aleatório como a sorte.

Basta recordar o início da época passada (empate frente ao Marítimo aos 87' e vitória em Guimarães aos 90') e compará-lo com este (derrota com a Académica nos descontos e com o Guimarães aos 83') para concluir que nem a sorte quer nada com o Benfica. Ou quis demais há um ano.

02 setembro 2010

Somos bons, mas ninguém nos liga nenhuma - Por António Tadeia in O Jogo

No mesmo dia em que Portugal tinha três treinadores presentes no fórum de elite da UEFA, um dos mais representativos clubes do futebol nacional, no caso o Sporting, teve de recorrer à bolsa de desempregados para completar o seu plantel, suprindo lacunas há muito identificadas pelo seu técnico. São sinais contraditórios de um futebol que se vai perdendo nessas peculiaridades, porque infelizmente não consegue ter estatuto ao nível do dos seus treinadores.

Em Nyon, Jorge Jesus repetiu, com razão, que os treinadores portugueses são dos melhores do mundo. Para o provar, ali estava ele, que, vindo da via prática, investiu bastante na formação teórica, a ponto de se poder definir a si próprio como "catedrático" dessa ciência que é o futebol. Mas lá estava também Jesualdo Ferreira, que fez a via inversa: da formação teórica à familiarização com o balneário. E, sobretudo, lá estava José Mourinho, o homem que melhor faz a síntese entre os dois mundos.

No entanto, um futebol que gera treinadores deste nível (e que deu dois Bolas de Ouro da FIFA nos tempos recentes) não tem depois o poder para seduzir jogadores de "top". Falta de poderio financeiro devido um mercado insípido? Falta de visibilidade internacional devido às más decisões e à falta de ambição dos seus dirigentes? Sim, de tudo um pouco. Mas o facto de clubes como o Sporting e o Benfica serem preteridos na mente de jogadores internacionais por Hércules ou Birmingham devia levar a uma discussão nacional.

18 agosto 2010

Um campeão que não se questiona. Mas devia... - Por António Tadeia

Por António Tadeia in O Jogo

Roberto não teve um pingo de culpa nos golos da Académica na Luz: ambos têm Sidnei escrito no rótulo, além do mérito de quem os marcou. Mas, se até teve direito a folga na que tem sido a sua maior dor de cabeça quando toca a fazer a análise dos jogos do Benfica, Jorge Jesus não terá na mesma tido uma noite isenta de ralações. É que, somado ao verificado na Supertaça, este é o segundo desaire do campeão em dois jogos oficiais.

Há sinais capazes de suscitar preocupação muito para lá da polémica à volta do guarda-redes de que Jorge Jesus nunca abdicará (pelo menos enquanto os especialistas o reclamarem) e começam exactamente nessa arrogância técnico-táctica de um colectivo que foi indiscutivelmente superior à concorrência em 2009/10 mas que parece agora reclamar uma inimputabilidade própria de quem não admite sequer ser questionado.

É verdade que, tal como Jesus previra na véspera, o Benfica de ontem teve muito que ver com o que começou a época anterior: muita presença na área adversária, a dar a ideia de massacre; esperança nos ressaltos, fruto dessa presença maciça; elevada intensidade de jogo, mas ainda alguma descoordenação, a permitir as saídas do adversário. A base está lá.

Mas depois há pormenores. E sem o dinamismo de Ramires, sem as acelerações de Di María, com Aimar em baixo e abdicando da inteligência posicional de Jara e de um sistema que o aproxima (e a Saviola) de Cardozo, que até foi o mais trabalhado na pré-época, este Benfica rende menos.

08 agosto 2010

Um pouco de revolta, muito de organização - Por António Tadeia


Por
António Tadeia in O Jogo

Olhava-se para a capa de ontem de O Jogo e, entre os onzes projectados para iniciarem a Supertaça, só um jogador trazia agarrado o rótulo do custo zero: Varela. E o extremo-pechincha saiu do Municipal de Aveiro como melhor em campo, fez o que quis da defesa do Benfica e foi decisivo na forma como o FC Porto subjugou um Benfica amputado das asas que lhe davam dimensão, isto é, dos insubstituídos Di María e Ramires.

Parece-me claro, porém, que não terá sido a "desqualificação" a motivar Varela para o superjogo que fez, tal como a repetida insegurança mostrada por Roberto nas saídas dos postes não terá a ver com um qualquer aburguesamento causado pelos oito milhões e meio de euros que custou ao Benfica, mas sim com uma lacuna que ele já teria antes. Tudo para dizer que a vitória portista pode até ter tido, como disse Villas-Boas, mostrando compreender as dinâmicas internas do clube, um pouco de "grito de revolta". Mas se tivesse de escolher uma palavra para definir o modo como o FC Porto ganhou, não a procuraria no campo da emoção. A conquista teve muito de racional: teve organização e convicção a contrapor à ansiedade provocada pelo 0-1 madrugador e às dúvidas de um campeão nacional à procura de uma ideia ou de quem saiba interpretar a que lhe servia como uma luva.

Por isso mesmo, a vitória do FC Porto é a vitória de quem montou a equipa e desenhou a estratégia. É de Villas-Boas, que assim até pôde sair por cima da polémica com Mourinho: pacificando.

28 julho 2009

Crónicas de António Tadeia


A velocidade como imagem de marca

Por António Tadeia in O Jogo


O Benfica de Jorge Jesus ainda não joga o dobro do que fazia na época passada - até por lhe faltar esse "pormaior" de mostrar o seu valor em competição - mas já tem uma imagem de marca: velocidade. O controlo dos ritmos de jogo ainda não é totalmente eficaz, sobretudo porque lhe falta saber jogar mais devagar, mas sempre que a bola chega aos pés de Di María, Aimar ou Saviola, a equipa pode dar início a um carrossel vertiginoso, ainda que nem sempre preciso. É que, já diz o povo, "depressa e bem não há quem".

A maior arma ofensiva do Benfica passa pela aceleração do jogo assim que a bola entra no último terço do campo. Aimar e Saviola são exímios em jogar ao primeiro toque e Di María, ainda que mais lento a soltar a bola, imprime ao jogo acelerações igualmente difíceis de contrariar. Aliás, a contratação de Weldon insere-se nesta lógica, pois é um jogador que tem na recepção e na velocidade os pontos fortes. E o mesmo sucede com a passagem de Nuno Gomes para terrenos mais recuados, onde não tenha de jogar tanto de costas para a baliza e onde faça valer a sua inteligência no passe - embora possa jogar na frente, sobretudo em jogos onde seja necessário acalmar o ritmo, surgirá também algumas vezes como duplo de Aimar.

Este é, porém, um Benfica com defeitos. O próprio Jorge Jesus já identificou um: a pouca capacidade para controlar a posse de bola e os ritmos quando não tem Aimar e Saviola. Quer isto dizer que, se não joga a 200 à hora, o Benfica tem dificuldades para jogar dentro dos limites normais de velocidade. A progressiva integração de Ramires e Javi García pode dar uma ajuda neste particular, mas continua a faltar quem saiba jogar como um 10 de contenção, quem seja capaz de abrandar o jogo e beneficiar a segurança da circulação naquela posição. Carlos Martins, que mais vezes tem substituído Aimar, também é mais forte em ataques rápidos, quando lhe sai bem a transição, do que em ataque organizado. Por isso, a única resposta no actual quadro de jogadores pode muito bem ser Ramires, que Jesus fez jogar a 10 durante parte do desafio com o Atlético de Madrid - ainda que aí os objectivos fossem recuperar no marcador.

Depois, a facilidade que a equipa tem mostrado para as tais rápidas trocas de bola que são já a sua imagem de marca é facilitada pelo facto de os três médios que jogam à frente do "6" estarem sempre muito próximos uns dos outros, sem aproveitar toda a largura do campo - essa será a missão dos defesas-laterais - e, sobretudo, perdendo eficácia em transição defensiva, sempre que o adversário consegue virar o jogo de lado com rapidez. Para evitar ser surpreendido por equipas com boa qualidade de passe e boa transição atacante, o Benfica precisa de melhorar muito a primeira zona de pressão, quase sempre feita por Saviola, Cardozo e um dos alas. E isso só se consegue de uma forma: pelo treino. Daí que, estando melhor, este Benfica ainda não esteja totalmente afinado. O contrário é que seria estranho.