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05 setembro 2010

O nosso Alzheimer esqueceu Torres

Quando José Torres morreu, ontem, já se tinha esquecido de nós. Também nós nos tínhamos esquecido dele. Mas há uma injustiça nesta comparação. Alguma vez teve ele razões para falar de nós, de olhos acesos e agradecidos? Não, nunca lhe demos nada. Já o contrário não é verdade. Uma noite do Outono de 1965, estou na Luz, no meu primeiro jogo ao vivo pelo clube que me fizera agradecido ao futebol. Era contra o Manchester United, noite dedicada a revelar um cometa, George Best, e hora e meia de eclipse de Eusébio, Coluna, Simões e José Augusto. E estando tudo a correr mal (acabaria num desastroso 1-5), ao quarteto talentoso só importava, bola no pé, centrá-la para a única esperança, que morava, mesmo nas horas más, no alto daquele corpo pernilongo e tímido, Torres. Meses depois, Portugal-Brasil, Mundial 66, Inglaterra. O nosso terceiro golo, começou de um remate de Eusébio, de ângulo impossível, que o guardião Manga defendeu para canto. Sozinho, Eusébio não conseguira. Eusébio marcou o canto, a bola foi à cabeça de Torres, que a colocou no exacto sítio da primeira tentativa - e, dessa vez, Eusébio fez o mais belo dos seus golos e todos correram a abraçá-lo. Ninguém ligou ao desconjuntado, ainda mais desconjuntado porque de braços longos e felizes no ar, Torres, o mais perfeito companheiro, bom para ajudar e para esquecer, o bom gigante que tornava os outros grandes.

04 setembro 2010

O futebol português despede-se do 'bom gigante'

Torres, velha glória de Benfica e selecção, coleccionou golos, títulos e elogios à sua personalidade. Morreu aos 71 anos.

Era alto e bondoso - chamavam- -lhe "bom gigante" -, mas o futebol português esqueceu-se dele após Saltillo e o avançar galopante da doença de Alzheimer. Hoje, todos o recordam: José Torres, antigo futebolista e seleccionador nacional, morreu ontem, aos 71 anos.

O nome de Torres confunde-se com a história do futebol nacional dos anos 60. O "bom gigante" (1,91 metros de bondade, nas palavras dos amigos) não jogou nas finais da Taça dos Campeões Europeus ganhas pelo Benfica em 1961 e 62, mas esteve nos outros momentos todos: as finais perdidas em 1963, 65 e 68, o 3.º lugar da selecção no Mundial 1966 e nove campeonatos nacionais dos encarnados.

Nessa altura, ao lado de Simões, Eusébio e José Augusto, Torres compunha o "ataque infernal" do Benfica e da selecção nacional. E é isso que José Augusto recorda, em declarações ao DN: "Vivi com ele os melhores momentos da minha carreira. O Torres foi um colega excepcional, com um percurso brilhante e muito meritório."

A carreira futebolística de Torres foi uma soma de jogos (384 por Torres Novas, Benfica, Vit. Setúbal e Estoril, 34 pela selecção), golos (217 pelos clubes, 14 pela "equipa das quinas") e títulos (nove campeonatos, três taças, e outros troféus menores pelo Benfica). Mas os elogios fúnebres detêm-se noutra faceta: a sua personalidade. "Era um grande amigo, sensato, humilde", diz José Augusto. "Era solidário, alegre, e tinha um sentido de humor fantástico", acrescenta António Simões. E José Augusto explica: "No Benfica, éramos colegas de quartos e éramos os reis das brincadeiras. Sonhávamos de noite para fazer de dia."

A bonomia manteve-se mesmo quando Torres deixou os relvados e se fez técnico. "Mais parecia um pai do que apenas um treinador", contou Carlos Manuel à Lusa. O antigo médio foi o autor do golo que apurou Portugal para o Mundial 1986, quando José Torres era seleccionador e, ante um cenário de muito difícil qualificação, apelou: "Deixem-me sonhar."

O sonho cumpriu--se, mas o Mundial foi marcado pelos problemas de disciplina e organização no estágio da selecção em Saltillo (algo que ainda causa mágoa nos amigos de Torres, como Simões). Desde aí, o "bom gigante" virou-se mais para outra paixão, a columbofilia. Até que a doença lhe tirou a autonomia e a memória, "sem que recebesse a homenagem que lhe faltou em vida", lamenta José Augusto. O último adeus a Torres é hoje, às 11.30, no Cemitério da Amadora.