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10 maio 2011

O desastre e o exemplo

Um adepto benfiquista que passe hoje os olhos pela equipa de Jorge Jesus é capaz de sofrer de imediato um ataque de pânico.

Roberto é “aquele” guarda-redes. Maxi termina contrato em 2012 e tem-se recusado a renovar. Luisão já vai nos 30 anos. Jardel parece bom rapaz. Fábio Coentrão está de saída. Javi García não é o mesmo da época anterior. Salvio é do Atlético Madrid. Carlos Martins não faz esquecer Aimar. Gaitán tem dias. Cardozo está no fim da linha. Saviola evaporou-se. Os “reforços” Fernández e Carole são… o que são.

No último jogo, em Braga, o banco do Benfica era este: Moreira, Airton, Jara, Roderick, Felipe Menezes, Sidnei e Kardec. O quadro, de facto, não é animador. Mesmo assim, o presidente Luís Filipe Vieira mantém a confiança em Jorge Jesus – e é isso que vai reforçar na segunda-feira, ao vivo e a cores, quando finalmente falar na Benfica TV.

Um adepto portista que passe os olhos pela equipa de André Villas-Boas fica com a certeza de que vai poder continuar a dormir descansado nos próximos tempos. Helton personifica a segurança. Sapunaru está como o aço. Rolando é cobiçado pela Juventus. Otamendi parece uma muralha. Alvaro Pereira um maratonista. Fernando é omnipresente. Guarín cospe fogo.

Moutinho está a fazer a melhor época de sempre. Varela é talento explosivo. Hulk é um monstro. Falcão é tudo. No último jogo, em Vila-Real, o banco do FC Porto era este: Beto, Maicon, Sereno, Walter, James Rodríguez, Souza e Ruben Micael. O quadro não podia ser mais favorável. Mesmo assim, o presidente Pinto da Costa – já com o título de campeão nacional recuperado e com as finais da Taça de Portugal e da Liga Europa para disputar – não está satisfeito. Vai avisando que André Villas-Boas, Hulk e Falcão são para ficar no Dragão e ainda lhes acrescenta craques como Iturbe, Kelvin e Kléber, já garantidos para 2011/12.

Este é o resultado de dois modelos de gestão com marcadas diferenças. Nem é preciso perguntar para se saber quem, no FC Porto, valida qualquer contratação. No Benfica, pelo contrário, os responsáveis demitiram-se das suas responsabilidades e ficaram na mão de Jesus, que lhes tinha oferecido um título e prometido o céu. Conclusão, deram-lhe tudo e ficaram sem nada.

10 janeiro 2011

O peso da herança

A saída de Di María continua a ser uma indisfarçável pedra no sapato dos responsáveis do Benfica. Seis meses depois da partida do argentino para Madrid, não é ainda possível perceber de que forma irá Jesus resolver os (des)equilíbrios – ofensivos e defensivos – a partir do lado esquerdo. Vamos por partes. Gaitán foi a primeira solução identificada para eliminar o problema que iria nascer com a venda do “abre-latas” ao Real de José Mourinho. Não houve qualquer dúvida em assumir que o esquerdino encontrado na Bombonera chegava para cumprir exatamente o mesmo papel que estava entregue a Di María. Mas também não foi preciso esperar muito tempo para se perceber que, afinal, se tratavam de jogadores com características muito distintas. Di María rompe por qualquer lado e desequilibra um jogo numa ação de 1x1, é velocíssimo, tem passada larga, chega à linha de fundo três, quatro, cinco, seis vezes durante os 90 minutos. Gaitán é feito de outra matéria. Menos explosivo, mais fino, prefere a bola no pé e tem tendência natural para pisar terreno interior. Não é preciso ser treinador de futebol ou agente FIFA para chegar à conclusão que Gaitán se sente mais confortável como falso avançado ou mesmo playmaker. Quem joga na esquerda, tem a esquerda. Quem joga no meio, tem o campo todo. Foi sempre assim. E há quem precise de liberdade e raio de ação largo para poder explodir. Está aqui um desses casos.

Houve outras soluções pensadas e testadas para o lugar. Fábio Coentrão, por exemplo. Ainda se estava no verão e já Jesus, antecipando um quadro de dúvidas, dava voltas à cabeça para conseguir clonar o Benfica da última época. Coentrão teria capacidade para assumir a substituição de Di María? Aparentemente, sim. Na prática, não. Está lá a velocidade, provavelmente até mais, mas falta o drible em espaço curto para ultrapassar blocos baixos e linhas demasiado juntas. Ainda fez a posição em meia dúzia de jogos, mas rapidamente voltou à defesa. Mais uma carta fora do baralho.

Acabou por ser Gaitán a assumir a responsabilidade de criação pelo lado esquerdo durante a maior parte do tempo. Melhorou, foi crescendo até dezembro e terminou o ano em plano muito razoável. Só que a decisão de procurar um ala puro já estava tomada desde que se percebeu o erro de casting em que Jesus caíra. Por isso a chegada esta semana a Lisboa de José Luis Fernández. Mais um argentino, mais um esquerdino, mais um candidato a herdeiro de Di María. Se os observadores do Benfica acertaram, desta vez, com o perfil, então, sim, a equipa terá outras condições para evoluir e aproximar-se do seu figurino anterior – ganhando imprevisibilidade e largura que não tinha naquele lado. Em teoria será isto e, visto assim, é tudo fácil. O difícil é Fernández suportar, também ele, o peso de quem sucede a um dos melhores jogadores da atualidade.

Di María demorou três anos a fazer esquecer Simão Sabrosa. Custou, mas foi. Passaram apenas seis meses e sucedem-se os candidatos a fazer esquecer… Di María. Já foi Coentrão, já foi Gaitán e agora é Fernández. Nolito vem já a seguir.

06 dezembro 2010


A exibição do Benfica foi pobrezinha. Diria até que o campeão nacional já perdeu alguns jogos esta época actuando a um nível superior ao que registou ontem, na Luz, frente ao Olhanense. Mas no meio daquela mediania há um facto que deve servir para animar os adeptos encarnados: Cardozo e Saviola, juntos, são mesmo dinamite!
Não é que o atraso do Benfica na Liga decorra da prolongada ausência, por lesão, do goleador paraguaio. Na realidade, sem Cardozo, o Benfica apenas perdeu no Estádio do Dragão. Para além desse, venceu todos os jogos que realizou sem o seu avançado mais eficaz. Mas há uma outra realidade que entra pelos olhos: Kardec faz diminuir o peso de Saviola na equipa; enquanto Tacuara contribui exactamente para o contrário. E foi aí que esteve a principal diferença nos últimos dois jogos: no poder de fogo e na facilidade com que esta dupla foi capaz de recuperar a memória de 2009/10.
Na última jornada, em Aveiro, já tinham sido eles os goleadores de serviço. Contra o Olhanense voltou a dupla maravilha a fazer estragos e a carimbar a 9.ª vitória na prova (é a única equipa sem empates). Em noite de desacerto generalizado valeu, portanto, a inspiração do ataque e… os dois guarda-redes em campo: Roberto pela positiva e Moretto pelo frango com penas que permitiu aos encarnados desatarem um nó que já começava a apertar. Foi esse mesmo frango, de resto, que permitiu a Cardozo igualar Mats Magnusson como melhor marcador estrangeiro ao serviço do Benfica: 84 golos! A continuar a este ritmo nem parece muito arriscado calcular que possa chegar ao centenário algures entre o Carnaval e a Páscoa.
Uma palavra final para a contabilidade de que Jorge Jesus evocou na conferência de imprensa: com as mesmas 13 jornadas disputadas, os encarnados somam apenas menos três pontos (27) do que na época passada (30). Se não tivesse ido confirmar, garanto que não acreditava. É mesmo verdade.

23 novembro 2009

O Segredo



Por
Nuno Farinha in Record

Onde é que estava Fábio Coentrão em novembro de 2008? Assim de repente, não devem ser muitos a ter a resposta na ponta da língua. Ora bem, há exatamente um ano, o esquerdino parecia condenado ao esquecimento na segunda divisão de Espanha, em Saragoça, para onde tinha sido "enviado" ao abrigo do negócio que trouxe Pablo Aimar para a Luz.

As notícias desse período eram quase dramáticas para quem apostava tanto na explosão do talentoso rapaz de Caxinas: dificuldades de adaptação, problemas com a equipa técnica, saídas noturnas e poucos minutos de competição (em bom rigor, apenas participou num único jogo). Um desastre.

Novembro de 2009: é o jogador com mais assistências na Liga portuguesa, Jesus utilizou-o em nove das dez jornadas, o Benfica renovou-lhe o contrato até 2015 (com uma cláusula de rescisão fixada em 30 milhões de euros) e Fábio Coentrão ainda é, desde o passado sábado, o mais recente internacional A português.

Ora, como se processa uma transformação destas, que permite até recuar o jogador para defesa-esquerdo sem qualquer quebra de rendimento? Em primeiro lugar, porque há uma condição essencial: a qualidade está lá. Em segundo, porque Coentrão é apenas uma das várias unidades do Benfica a beneficiar da metamorfose do futebol encarnado.

David Luiz, Aimar, Di María ou Cardozo também valem hoje bastante mais do que há um ano. Isto é: estão todos muito bem, mas nenhum está melhor do que a equipa. É esta a regra mais valiosa do futebol moderno e a razão por que cada vez mais treinadores falam na importância de desvalorizar o "eu" para glorificar o "nós". Jesus mostrou-lhes o caminho.