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23 abril 2012

Descrentes

Crónicas de Domingos Amaral, in Record

From: Domingos Amaral
To: Jorge Jesus

Caro Jorge Jesus
Ontem, quando o Marítimo marcou o seu golo, reduzindo para 2-1, e tu retiraste de campo Aimar e Saviola, os descrentes enfureceram-se, pensando que ainda íamos perder os três pontos. Havia, há sempre, algumas razões para tal fúria. É um pouco estranho que apenas a 4 jornadas do fim se vejam a jogar na primeira equipa jogadores como Saviola, Capdevila e até Matic, que nos últimos tempos tem jogado bem melhor que Javi. Não foi muito inteligente da tua parte ter insistido tanto e tantas vezes em Emerson, um jogador medíocre e pouco esperto; ou ter apostado constantemente num Rodrigo que estava em baixo de forma depois da pancada que levou na Rússia. Capdevila, com a sua experiência, evita muita trapalhada naquele flanco, e Saviola, com os seus truques, inventa um jogo diferente, imprevisível e mais perturbador para os adversários.
Contudo, a descrença acumulada, e a frustração sentida por muitos benfiquistas, em especial no campeonato, não nos podem toldar o julgamento ao ponto de cegarmos por causa de substituições. Minutos depois, (o futebol é cheio destas ironias) Rodrigo marcou um golito, Bruno César outro e o Marítimo foi vencido e convencido, e nós continuamos na luta.
É isso que é essencial percebermos: este campeonato ainda não acabou! Há ainda jogos muito difíceis para todos e não podemos por tudo em causa agora. Temos, todos mas sobretudo tu, de acreditar até ao fim, até ao último minuto possível, que ainda podemos ser campeões e que este campeonato se pode decidir ao sprint. Quanto aos ajustes de contas, esses fazem-se no fim.

14 fevereiro 2012

Obrigado

Crónicas de Domingos Amaral, in Record

From: Domingos Amaral

To: Pablo Aimar

Caro Pablo Aimar

Um dia, com imensa pena, vamos ver-te partir. Regressar a casa, à tua pátria, quem sabe ao teu River Plate do coração, para por fim arrumares as botas. Nesse dia, vamos agradecer-te, vamos homenagear-te, vamos aplaudir-te todos de pé, num adeus sentido e emocionado. Nesse dia, vamos sentir saudades da tua arte, da tua humildade, do teu profissionalismo. Nesse dia, vamos sentir saudades do teu amor pelo nosso país, aonde tu e a tua família se sentem tão bem e toda a gente gosta de ti. Nesse dia, vamos sentir saudades do teu comportamento, em campo e fora dele, da tua forma honesta de jogares. Nesse dia, vamos sentir saudades das tuas tabelinhas, das tuas danças com a bola nos pés, dos teus passes de morte, da tua visão de jogo, da tua solidariedade para com os teus companheiros. Nesse dia, felizes, vamos dizer bem alto: eu sou do tempo de Aimar, eu vi o puro talento neste estádio a quem tu dás ainda mais luz, eu vi um homem cavalheiro como poucos com o emblema do Benfica ao peito, em vi um génio a honrar a nossa camisola. Nesse dia, vamos dizer que contigo ganhámos muito, títulos e taças, e que contigo sonhámos e os sonhos tornaram-se realidade, e o Benfica jogava como nós sempre imaginámos desde miúdos e ganhava e marcava golos, muitos golos. Nesse dia, vamos sentir um vazio nos nossos corações e no nosso meio-campo, vamos procurar-te com os olhos e tu não vais estar lá para nos resolver as nossas aflições e os nossos jogos e vamos ter saudades, tantas saudades que até vão doer. Graças a Deus, este não é ainda esse dia. Obrigado Pablo, por passares mais um ano connosco.

05 outubro 2011

Rotatividade


From: Domingos Amaral

To: Saviola

Caro Saviola

Quando já corriam rumores de que o Benfica te iria vender em janeiro, insatisfeito com a tua produção, eis que dois belos golos à Saviola mudam o clima. Sempre me pareceu que o que te faltava era confiança e que o regresso aos golos iria levantar a nuvenzita negra que parecia pairar, mas a verdade é que há algo mais relevante para explicar o teu relativo ocaso do que apenas a ausência de golos. Chama-se rotatividade, e é uma gestão de jogadores que Jesus aprendeu a fazer, depois de ter falhado rotundamente o ano passado. É certo que este ano há mais e melhores jogadores, mas também há mais habilidade nas trocas. Embora não mexa na baliza – só joga Artur –, e mexa pouco na defesa – além do quarteto titular só jogaram Ruben Amorim, Jardel, Capdevilla, julgo que um jogo cada um –, daí para a frente há mais danças. Javi, Matic, Witsel, no meio, e também Aimar a fazer uma perninha; nas alas Gaitán, Nolito, Bruno César, e só não joga Enzo Perez porque se lesionou; à frente Cardozo, ora Aimar ora tu, e agora também Rodrigo. É muita e boa rotação. Nunca se deve mudar toda uma equipa, mas se em cada jogo mudarem três jogadores, já se consegue que todos descansem e todos joguem. O reverso da medalha é que cada um joga menos jogos, como foi o teu caso. Mas o importante é a equipa, e que tranquila ela está! Não houve, portanto, nenhum apagão de Saviola. Houve foi rotatividade, e noites mais inspiradas do que outras. Ontem foi a tua noite e ainda bem. Que tenhas muitas destas é o que te desejo.

31 agosto 2011

Bem-vinda!


"From: Domingos Amaral
To: Luz Jardim Amaral

Minha querida filha
Nasceste numa quarta-feira à noite, precisamente às 22h52, como o teu irmão Duarte sempre lembra. Enquanto a tua querida mãe Sofia esperava pela sua cesariana, na companhia das tuas avós e tias e da tua irmã mais velha, Carolina (a Leonor ainda é pequenina e ficou em casa), eu e o Duarte demos um saltinho ao estádio do Benfica. Foi rápido e fácil, apenas uma pequena caminhada, pois tu estavas pronta a nascer precisamente no Hospital da Luz, que é mesmo ao lado da nossa catedral, o Estádio da Luz. Mas foste muito querida em ter esperado por nós, em ter-nos deixado assistir a um belo jogo do Benfica. É, aliás, magnífico sinal teres nascido numa grande noite europeia, em que tudo correu bem à nossa família e ao Benfica. Que fantástica jogatana, que excelente equipa que se está ali a formar! Foi essa a conclusão que eu e o teu irmão retirámos de um jogo onde Jesus espantou definitivamente os fantasmas que nos assombravam este início de época. Enquanto crescias na barriga da tua mãe, muitos apostavam numa saída desgraçada de Jorge Jesus ainda em setembro. Não aconteceu e ainda bem. Sabes, querida filha, ele é um bocado teimoso mas quando acerta não há melhor, e o Benfica dele enche-nos o coração de alegria, tal como o teu nascimento. E foi por tudo isto, a que alguns chamam coincidências mas ambos sabemos que é destino, que a tua mãe e eu decidimos chamar-te Luz. Nome lindo, pequeno e simples, ao mesmo tempo forte e essencial à vida e (aqui só entre nós que ninguém nos ouve), glorioso! Um nome que a ti muito bem fica. Mil beijos do pai."

25 julho 2011

Novos ricos


From: Domingos Amaral

To: Luís Filipe Vieira

Caro Luís Filipe Vieira

Quando estamos mortos de sede, o primeiro copo de água é fantástico, o segundo necessário, o terceiro um pouco forçado e o quarto insuportável. Chama-se a isto a lei das utilidades marginais decrescentes, e também se pode aplicar à dor.

À primeira, dói muito; à segunda, ainda dói; à quarta ou quinta vez, já não dói nada. Vem isto a propósito do suposto “desvio” de Alex Sandro e Danilo do Benfica para o FC Porto. São mais dois numa longa lista de “desviados”, sempre apresentados como um “drama” pela comunicação social, mas para nós nem chegam a um beliscão. Ainda para mais neste caso.

Senão vejamos: à esquerda, em poucos dias, o Benfica contratou baratinho um bom lateral, campeão de França (Emerson); e muito barato um excelente lateral, campeão da Europa e do Mundo (Capdevila). À direita, não precisávamos de comprar ninguém porque temos, apenas, o melhor lateral a jogar em Portugal, e um dos melhores do Mundo (Maxi Pereira). Portanto, o FC Porto gastou 23 milhões de euros, leiam bem, 23 milhões de euros (!) para “desviar” dois jogadores de que o Benfica ou não necessitava, ou substituiu num abrir e fechar de olhos! Ainda bem que o senhor não enfiou esses barretes.

Se o FC Porto se transformou num capitalista barrigudo e novo rico, com charuto na boca e notas a transbordar do bolso, é lá com eles. Eu ainda sou do tempo em que o FC Porto comprava laterais por 500 mil euros e os vendia por 15 milhões, como Cissokho. Agora, compra-os quase ao preço que antes os vendia. Merece, sem dúvida, o prémio da melhor gestão. Em Portugal e arredores.

16 junho 2011

Tridente


From: Domingos Amaral

To: Luís Filipe Vieira, Rui Costa, Jorge Jesus

Caros Luís Filipe Vieira, Rui Costa e Jorge Jesus. Como os senhores decerto já repararam, está há várias semanas em curso a grande operação “VAMOS DESESTABILIZAR O BENFICA”. Depois de uma época que foi, todos o reconhecemos, francamente dececionante, há quem aposte na fraqueza e deseje ardentemente a vossa destruição. O mundo do futebol idolatra a força, e agora a força está, ao que parece, toda no Norte. A cada vez mais poderosa máquina de propaganda do FC Porto, com os seus escribas e serviçais, não descansará enquanto não vos destruir, bem como certa comunicação social, sempre pronta para causar danos, e certos empresários, sempre prontos para vos sorver as finanças. O descalabro do Benfica interessa a muitos.

A sequência de “casos” tem sido imparável. Primeiro, o “caso PJ”, cheio de “luvas”, “burlas” e outros horripilantes pecados. Depois, o “caso Coentrão”, intencionalmente inflamado com a nitroglicerina do costume. Pelo meio, os infindáveis casos das mil e uma “contratações”, com magotes de jogadores a entrarem todos os dias para o nosso plantel. E também o “caso Nuno Gomes”, para perturbar ainda mais as emoções dos sócios.

A intenção é óbvia: fragilizar-vos. Minar o tridente. Abalar um, dois, ou os três. Tentar que a vossa união se quebre. Tentar que Jesus desista, que Rui Costa se afaste, que Vieira ceda. Tentar, tudo por tudo, que até ao final do verão, na pior das hipóteses, o Benfica entre em convulsão.

Perante este cenário, só há uma resposta possível. Cerrar os dentes, cerrar as fileiras e aguentar. Os senhores, os três, têm de se unir, com laços de cimento se for preciso, e nem por um momento ceder a esta onda maligna. Espero que tenham força mental para lutar contra este bombardeamento permanente. O que não nos mata torna-nos mais fortes. E um Benfica forte incomoda muita gente...

09 maio 2011

Fica Jesus


From: Domingos Amaral

To: Luís Filipe Vieira

Caro Luís Filipe Vieira

Escreveu Mário Zambujal que o amor é como o leite: nasce fresco, depois ferve, torna-se morno e, no fim, azeda. Jesus e o Benfica são um amor assim. Depois das paixões e dos orgasmos espetaculares, os erros, as raivas e as mágoas. Mas (não o sabemos todos?) só dura quem supera o mal. Pessoa dixit: “Quem quer passar o Bojador tem de passar além da dor.”

No futebol, tal como num casamento, há limites mínimos. Para mim, já o escrevi aqui, treinador que garante a Champions deve ficar. Jesus conseguiu, apesar de tudo, melhor que Quique, Camacho ou Fernando Santos. A questão não é pois se “deve ficar”, mas “como deve ficar”. E aí há muito a mudar.

Primeiro, os jogadores. Não deve permanecer quem não tem talento (Roberto, Kardec, Filipe Menezes, Sidnei, Luís Filipe ou Weldon) ou motivação (Cardozo); e só deve vir quem tem ambos. Depois, a tática. O 4x4x2 deve tornar-se matreiro e contido, com menos ataque à maluca e mais posse de bola. A seguir, o planeamento da época. É preciso começar bem, manter e acabar melhor. O sabor amargo pode vir no meio, não no princípio ou no fim, como esta época.

Em quarto lugar, altere-se o “posicionamento” do Benfica. O FC Porto é uma “superequipa” e estamos a milhas do colosso. Não somos já “o maior e melhor clube”, mas apenas um aguerrido “challenger”. Quem defender o contrário viverá numa perigosa ilusão.

Por fim, mude-se o discurso. Não quero “ganhar a Champions”, ter “a equipa mais cara de sempre”, ou um “mestre das táticas”. Bastam-me golos e espetáculo, um Jesus trabalhador e humilde e já agora, como dizia o outro, concentradíssimo. Não um clone de Mourinho, mas um Wenger.

22 março 2011

Honra


From: Domingos Amaral

To: André Villas-Boas

Caro André Villas-Boas

Apesar do título estar decidido, como aqui previ no final da quarta jornada (!), há ainda uma questão pendente entre o teu FC Porto e o meu Benfica. Lembras-te da tua provocação quando falaste em 10-1 no score entre os dois clubes? Certamente que sim. Foi enviesada, pois só levavas em conta o único jogo da era Jesualdo que te dava jeito. E deu mau resultado, pois a seguir perdeste.

Contudo, consolidar é pertinente. Eu explico: na época passada, em três jogos, o Benfica ganhou dois (na Luz, por 1-0, e no Algarve, por 3-0) e apenas perdeu no Dragão, por 3-1. O score dessa época é-nos assim favorável com 2-1 em vitórias e 5-3 em golos.

Depois, chegaste tu, ganhaste 2-0 em Coimbra, para a Supertaça, 5-0 em casa para o campeonato, perdendo depois, no Dragão para a Taça, por 0-2. Este ano, o score de vitórias está pois em 2-1 para ti, e 7-2 em golos.

Consolidemos agora as duas épocas: até aqui, em seis jogos, há 3 vitórias para cada lado, e o goal-average é favorável ao FC Porto, com 10 marcados contra 7 sofridos. A tua brincadeirinha dos 10-1 já parece intelectualmente desonesta, não é verdade?

Mas, olhe-se ainda para este essencial detalhe: desses seis jogos apenas um foi na Luz. E três foram no Dragão. Portanto, para as contas estarem fechadas, faltam os dois embates na Luz que aí vêm. Só aí, caro amigo, se poderá ver quem foi melhor, esta época ou, se preferires, no consolidado das duas! E, prometo-te que, para o Benfica, é uma questão de honra ganhar esses dois confrontos. Iremos encher a Luz para te fazer engolir a fraude aritmética dos 10-1. E provar que o que hoje alguns chamam, com um deslumbramento pacóvio, de “mind game”, às vezes não passa de uma mera “chico-espertice”.

05 março 2011

Parabéns


From: Domingos Amaral

To: André Villas-Boas

Caro André Villas-Boas

Uma das coisas divertidas do futebol é a forma como um adepto de um clube – no meu caso, o Benfica – se torna num fervoroso adepto do clube que está a jogar contra o nosso maior rival, neste caso o teu FC Porto. Chega a ser hilariante. Nos últimos tempos, torci fervorosamente por equipas pelas quais não sinto um pingo de emoção num dia normal. Roí as unhas pela Naval e pelo Nacional; saltei no sofá, querendo intensamente que o Braga marcasse primeiro; torci-me durante cinquenta minutos, rezando que o Olhanense mantivesse o empate a zero. O futebol tem destes absurdos: é uma suave loucura, uma doidice inevitável mas a maior parte das vezes inútil. E, este ano, tem sido sempre assim, inútil. Ao contrário do que possas pensar, eu não sou cego, e sei bem a qualidade do teu FC Porto. Mas, que posso eu fazer quando a emoção me tolda a razão? Torcer, como um desesperado, pelos que já jogaram contra ti e pelos que virão a jogar de seguida, como o Guimarães, o Leiria, a Académica, sei lá mais quem, qualquer um que te possa sacar pontos! É esse o mistério deste desporto. O Miguel Esteves Cardozo disse um dia que a vida era uma boa merda, pois por um lado era boa, por outro uma merda. Para mim, o futebol também é assim, uma boa merda. É bom à segunda é à quinta, quando ganha o Benfica; é merdoso ao sábado, quando tu ganhas. Tenta compreender: vinte e um jogos sem perder? É pá, isso devia ser proibido…

PS: Parabéns pá, e agora tenta lá igualar o Jimmy Hagan a ver se és capaz!

09 fevereiro 2011

A ferida


From: Domingos Amaral To: André Villas-Boas

Caro André Villas-Boas

Nos últimos vinte e cinco anos, só me lembro de ganhar três vezes ao FC Porto em sua casa. A vitória de César Brito e Eriksson, a vitória de Koeman e Nuno Gomes, e agora a vitória de Jesus e os seus apóstolos. São, é verdade, poucas vitórias, mas é exatamente a sua raridade que lhes dá um valor extraordinário e inesquecível. Rebentei de alegria na quarta-feira, e se Cardozo tivesse metido o terceiro teria tocado no céu. Por todas as razões: pelo gozo que dá vencer em casa do rival maior, pelo orgulho que tive no meu Benfica, mas sobretudo porque era uma vitória essencial para que o impossível passasse a ser mais possível.

É verdade: a vitória do Benfica mudou, para já, a narrativa da época. Até aqui, tínhamos um Braga dececionante, um Sporting em calvário, e um Benfica que começara muito mal e fora derrotado por ti duas vezes, uma das quais de forma humilhante. A narrativa era a de um FC Porto praticamente imbatível, que a irrelevante derrota com o Nacional não afetara. Agora, a narrativa mudou. Ao vencer-te em casa, o Benfica retirou-te a vantagem psicológica que tinhas, e introduziu as dúvidas no teu universo. Agora, serás tu a jogar sobre brasas, a temer, a cada momento, a perda de pontos.

Agora, serás tu a recear a desestabilização da defesa, a falta dos talentos, a ansiedade no grupo. Por mais que tentes negá-lo, há uma “ferida” sim, e só Deus sabe se vai sarar ou abrir mais. Daqui para a frente ninguém sabe o que irá acontecer, mas tenho a certeza que, a partir de agora, todas as noites antes de adormeceres te vais lembrar que, até ao fim da época, ainda vais ter de jogar na Luz duas vezes...

18 janeiro 2011

Ópera na Luz


From: Domingos Amaral

To: Oscar Cardozo

Caro Oscar Cardozo
É bom ver-te de regresso aos golos, especialmente quando são bonitos, como os que marcaste ao Olhanense. Era um dos meus desejos para 2011, e, a acreditar na amostra desta semana, teremos Cardozo para o que falta desta época. Cardozo e, ao que parece, muitos mais. Para além de tudo o que aconteceu de errado desde julho, uma coisa foi também evidente: na primeira metade da época, a maioria dos grandes jogadores que fizeram o excelente Benfica campeão andou apagadíssimo. Tu foste um deles, e até és dos poucos com desculpa, pois tiveste dura lesão. Mas por onde andaram Maxi Pereira, Luisão, David Luiz, Javi García, Aimar e Saviola? Que eu me lembre, apenas Carlos Martins e Fábio Coentrão arrancaram bem, embora ambos tenham quebrado um pouco antes do Natal. Agora estão todos de regresso, em subida nítida de rendimento, e o Benfica parece outro. Com Roberto mais bem treinado, e com Gaitán e Sálvio a mostrarem que afinal têm muito futebol nas botas, abre-se uma autoestrada de golos e de esperança na Luz. O Benfica já acelera, já massacra, já goleia, já empolga, e já mete de novo muito medo aos adversários. No momento em que Villas-Boas, magoado, se queixa dos assobios dos seus próprios adeptos, e à defesa diz que não pode golear sempre e lhes sugere a ópera, eu apanho a deixa e acrescento: se alguém quiser vir à ópera, que venha à Luz, onde Saviola é o barítono, tu és o tenor, há maestros para todos os gostos, solistas endiabrados e um coro afinadíssimo. Melhor que ir ao S. Carlos é de certeza.
P.S. De repente, sinto que há quem vá sofrer muito mais do que nós até ao final da época…

11 janeiro 2011

10-1


From: Domingos Amaral

To: André Villas-Boas

Caro André Villas-Boas

És um pouco novo para viver dos rendimentos, mas contudo foi isso que fizeste ao lembrar que, nos últimos três confrontos com o Benfica, o FC Porto leva uma vantagem de 10-1. Ora, o passado em futebol não passa de uma estatística, e viver dos rendimentos é um expediente pouco fiável, como o Benfica bem sabe. Ter sido campeão o ano passado não nos evitou nada este ano.

Portanto, o passado serve para atirar à cara dos adversários, como um insulto, mas enquanto estratégia comporta um risco, pois ao falarmos nele subtilmente revelamos o quanto tememos o futuro. Só os gabarolas, na ânsia do seu próprio deslumbramento, acham que a História se repete, e a tua frase soou a isso: gabarolice.

A verdade é mais profunda, e mais perturbadora para o teu FC Porto. Há jogadores influentes lesionados, como Falcão ou Alvaro Pereira; outros fora de forma, como Varela e os Rodríguez; e Hulk e Moutinho acusam já desgaste. Desde a vitória contra o Benfica, como alguns notáveis portistas esta semana avisaram nos jornais, a tua equipa “perdeu gás”, e tem almas “deslumbradas” consigo mesmas. E Sporting ou Paços de Ferreira já mostraram como se pode baralhar este dragão.

Para mais, dos 10-1 que falas, 3-1 foram inúteis, e 2-0 foram a conquista da que é, sempre, a taça mais fácil do ano, pois decide-se só num jogo. Para as 16 finais que te faltam, tal passado não te serve rigorosamente de nada. Picar o Benfica, além de ser o teu entretenimento semanal favorito, revela o teu pavor profundo, a vertigem que te assalta a psique. Quem tem medo do amanhã, enche a boca com o que se passou ontem.

28 dezembro 2010

Playboy do Freixo


Caro Pinto da Costa

Além de ter dado um excelente presidente do seu clube, o senhor teria dado um excelente dono da “Playboy” portuguesa. É pena a revista ter fechado por cá, caso contrário eu sugeria o seu nome para o cabeçalho. É que o senhor parece o Hugh Hefner, o dono da “Playboy” original, que sempre fez gala em aparecer rodeado de bimbas loiras, namoriscando-as em público. Tal como o saudoso JFK, presidente dos EUA, a lei que comandava a vida de Hefner era: “em todas as frentes…e em todas as traseiras”! Parece-me que o mesmo se passa consigo. Aos 70 e tal anos, o seu fulgor masculino não cessa de nos surpreender. Ele é Carolinas, ele é Fernandas, marcha tudo. Recentemente, foi uma tal de Andreia, ao que parece rapariga de programa, como tão bem dizem os brasileiros, que no “Secret Story” da TVI revelou ao país uma tórrida paixão pela sua pessoa. Os indígenas inicialmente pasmaram mas, bem lá no fundo, adoraram. Os “machos-alfa” sempre fascinaram a populaça, e o senhor é uma espécie de Berlusconi luso, dono de um clube vencedor mas sem a chatice de ser primeiro-ministro, coisa que dá muito trabalho e dores de cabeça. À sua roda, como planetas à volta do Sol, move-se uma constelação de putinhas tristes, e à sua altura só mesmo Cristiano Ronaldo, mas esse ainda vive na idade em que o peru se excita por tudo e por nada. Ninguém deve estranhar pois que, da Ribeira até à Foz, a imagem de playboy do Freixo complete, e amplifique, a de herói mitológico da bola. Como dizia o Jorge Perestrelo: “é disto que o meu povo gosta.”

21 dezembro 2010

Falar verdade


From: Domingos Amaral
To: Jorge Jesus

Caro Jorge Jesus
Churchill disse um dia que a verdade era a primeira vítima de uma guerra, e sendo o futebol uma espécie de jogo de guerra, é natural que poucas vezes os seus intervenientes digam, pelo menos em público, a verdade. Os discursos de treinadores, jogadores ou presidentes, ou são estratégias de motivação das equipas ou tentativas de desestabilização dos adversários ou dos árbitros. Contudo, em certos momentos é essencial falar verdade.
Ora, finalmente, e ao fim de cinco longos meses, desceste da torre de marfim e reconheceste o óbvio: subiste demasiado as expectativas, por um lado, e a equipa ainda não está bem, por outro. A euforia depois do título cegou-te, e foi doloroso o choque da realidade, com derrotas atrás de derrotas, mas o teu teimoso estado de negação só adiou as coisas. Foi tardia esta verdade, mas só ela pode libertar a equipa, e tentar relançá-la. Embora ainda perca muito facilmente o controlo dos jogos (final da primeira parte com o Rio Ave), desconfie de si própria, e não saiba estar a perder sem se angustiar, reconhecer tais verdades só fortifica o Benfica.
Só identificando as fraquezas se pode trabalhar para as eliminar, como se fez, e bem, no caso do Roberto, que parece outro. Desejo-te boas férias de Natal, e espero que as aproveites para distinguir o trigo do joio e revitalizar o balneário.
Se fores lúcido e motivado, pode ser que ainda seja possível mordermos os calcanhares ao FC Porto. Em meados de 1942, também ninguém acreditava que Churchill ganhasse a guerra, mas ele reconheceu a verdade, e as coisas mudaram…

13 dezembro 2010

Picareta Falante


From: Domingos Amaral

To: André Villas-Boas

Caro André Villas-Boas
Algures na década de 90, Vasco Pulido Valente batizou genialmente António Guterres como “picareta falante”. Quando penso em ti, é disso que me lembro. Calado tantos anos à sombra de um gigante, chegaste a Portugal com uma necessidade infinita de afirmação e uma vontade irreprimível de palrar. Com a excitação juvenil de quem abandonou recentemente uma estranha prisão, a tua língua soltou-se.
Em pouco mais de um ano, ouvi-te arengar sobre tudo e mais alguma coisa. Discursas sobre o Benfica, muito, mas também sobre o Sporting, sempre em picanço; teorizas as falhas da Liga Europa, explicas a teoria do caos no futebol, gabas as metodologias dos treinos, defendes a primazia do coletivo sobre o individual, classificas os clubes que vêm da Champion como “frustrados”, reforças os grandes méritos de Jesus (dias depois de o ter humilhado), relembras os castigos da época passada, e opinas sobre arbitragens, Vítor Pereira, Benquerença, Jorge Silva ou Elmano Santos. Munido de mil e uma ideias, raciocínios e pontos de vista, peroras aos microfones, lançando bicadas à direita e à esquerda, como a picareta falante.
A princípio, isto irritava-me. Depois, passou a cansar-me, e só me apetecia perguntar, como o rei Juan Carlos fez certo dia a Hugo Chavez: “Por que no te calas?”. Mas, agora já te acho graça. Na verdade, perante a penúria que tem sido este campeonato, se não fosses tu e as tuas inventivas teses, esta época não tinha ponta por onde se lhe pegasse. Bem hajas, por entreter o povo com a tua retórica malabarista.

06 dezembro 2010

Saber perder


From: Domingos Amaral

To: José Mourinho

Caro José Mourinho
Notável, a forma como reagiste à maior derrota da tua carreira, a goleada de segunda-feira em Camp Nou. A digestão foi fácil, disseste, porque a tua equipa jogou muito mal e o Barcelona muito bem; e também porque não houve razões de queixa da arbitragem ou bolas ao poste. Tiro-te o meu chapéu, em dose tripla. Primeiro, porque é verdade, o Real esteve muito fraco e o adversário muito inspirado. Depois, porque discutir as vitórias alheias, barafustando contra árbitros ou alimentando polémicas estéreis, é a melhor forma de encapotar as fraquezas, negando a realidade, e isso é o mais habitual, principalmente entre os lusitanos. Ao surpreenderes toda a gente com a verdade, mataste qualquer discussão. Apenas cinco dias depois do jogo, já passou, não ficou nenhum trauma ou celeuma. Foi brilhante a forma como retiraste a pressão à tua equipa, diluindo a dor de 5 golos em 5 minutos. E, em terceiro lugar, tiro-te o meu chapéu porque ao dizeres o que disseste, provas que és mesmo o melhor do Mundo, pois evoluíste. No Porto, no Chelsea, mesmo no Inter, havia sempre em ti um perfume de mau perder. Agora, há maturidade e verdade. Como dizia Darwin, quem sobrevive não são os mais fortes, mas os mais adaptáveis…
A diferença cá para os nossos é abissal. Jesus, depois de levar 5 do FC Porto, só falava em Hulk, justificando-se, metendo os pés pelas mãos, vergado e humilhado. Villas-Boas, por seu lado, por cada empate enlouquece e é expulso, levando-nos a questionar o que faria se tivesse perdido. Que diferença…

30 novembro 2010

Maus negócios


From: Domingos Amaral

To: Luís Filipe Vieira

Caro Luís Filipe Vieira

O dramaturgo Oscar Wilde disse um dia que “o dinheiro não traz felicidade, compra-a”, verdade que não se verificou, este ano, no Benfica. A abundância, em vez de remédio, tornou-se um veneno. De nada valeu, como o sr. disse, ter “a equipa mais cara de sempre”. Subiu demasiado as expectativas, o que só aumenta a frustração atual.

Seis meses depois, são evidentes os maus negócios. As contratações de Roberto e Jara, e provavelmente de Gaitán, custaram de mais e provaram de menos. A renegociação com Jesus tornou-se também um profundo desapontamento. No início da época passada, ele prometeu que a equipa ia jogar o dobro. Assim aconteceu. No final do ano, já campeão, quis ganhar mais, e acenou com o fantasma do FC Porto, que supostamente o queria contratar. O senhor assustou-se e foi na conversa. Aumentou-o e assistiu, pasmado, a um estranho fenómeno: a equipa entrou em colapso. Estranho paradoxo: o treinador é aumentado para o dobro e passa a render metade.

Para mais, há um rumor perturbador, que nunca foi desmentido. Conta-se que os jogadores se revoltaram porque os prémios por terem sido campeões eram infinitamente menores que o do treinador. Não sei se é verdade, mas se for, talvez explique o apagão geral de Maxi, Luisão, David Luiz, Javi García, Saviola, Aimar, Cardozo, e o mal-estar entre eles e o treinador. Money rules the world…E agora? Olhe, resista à depressão, cerre os dentes e obrigue-os a lutar até ao fim. Mau negócio mesmo é nem ficar em 2.º lugar.

22 novembro 2010

O queque azul


From: Domingos Amaral
To: Rui Moreira

Caro Rui Moreira

Na última crónica, em p.s., sugeri que o senhor se colocasse a 20 metros, para eu lhe atirar bolas de golfe, tal como os Super Dragões fizeram ao Roberto. Era uma provocaçãozinha brincalhona, uma bravata inofensiva, mas não era um insulto pessoal. Para meu espanto, e qual fidalgo atingido pelo ferrete da desonra, o senhor rebentou de raiva ao ler-me. Na sua prosa do jornal “A Bola”, perturbadíssimo, dispara-me uma rajada de insultos. Espuma, e nem refere o meu nome; bufa, e chama-me “vintém”; vocifera, e diz que de mim “exala um terrível fedor”; e por fim explode, acusando-me de “proselitismo anacrónico, patético e provinciano”.

À avalancha de palavreado, e à excitação, indignadíssima mas totalmente desnecessária, não tenciono responder na mesma moeda. O chá que em pequeno me deram a tomar teve, até certo ponto, o seu efeito. Não lhe envio de volta adjetivos grosseiros, nem insultos pessoais. Ao contrário do senhor, não perco a cabeça e as maneiras por dá cá aquela palha.

Não resisto, porém, a espetar-lhe um ferro curto. Diz o senhor que “não há pachorra” para mim. A expressão lembrou-me certas tias queques e os seus muito afetados lamentos, do tipo “ai filho, não há pachorra!”.

É o que o senhor é, não é verdade? Um queque, um queque azul. Ora, é precisamente por causa de tiques desses que duvido das suas ambições presidenciais no FC Porto. O povo azul e branco sempre desconfiou dos queques, por mais esforçados que eles fossem. O último que chegou a presidente teve o destino que todos sabemos.

15 novembro 2010

Tiro ao Roberto


From: Domingos Amaral

To: Comissão de Disciplina da Liga

Caros Comissários de Disciplina,

Pelos vistos, os senhores nunca pegaram numa bola de golfe, mas eu explico-lhes o que é uma bola de golfe: um objeto pesado e duro, que atirado a alta velocidade e a uma curta distância, se pode tornar numa arma mortífera. Pelos vistos, os senhores nunca levaram com uma nas costas, ou na cabeça, e portanto não acham isso muito grave. Contudo, o que se passou no passado domingo no estádio do Freixo foi um ato gravíssimo de violência, um atentado ao desporto.

Não viram? Eu conto: a claque dos Super Dragões, um bando de energúmenos e cobardes, atirou uma saraivada de bolas de golfe na direção do guarda-redes do Benfica. Esses perigosos projéteis não só perturbaram o Roberto, como o atingiram nas costas, tendo o jogo sido interrompido e ele assistido. A sua integridade física foi posta em causa, e só por acaso os danos não foram mais graves. Caso os senhores não saibam, se uma das bolas lhe tem acertado na cabeça, o guarda-redes do Benfica poderia estar hoje ferido gravemente, incapacitado para a sua profissão, ou até pior. Mas, é óbvio que para os senhores nada disto é grave e não merece mais que uma mísera multa.

Noutro país, o estádio do Freixo ficaria interdito uns jogos, mas os senhores voltaram a ser um órgão manso, cobarde, e nas mãos do FC Porto. E é graças a pessoas como vocês que a onda de violência azul e branco não vai parar.

PS: Srs. Miguel Sousa Tavares e Rui Moreira, têm coragem para se colocarem a 20 metros de mim, para eu vos atirar bolas de golfe? Pois, bem me parecia...

18 outubro 2010

Mortal Kombat


From: Domingos Amaral

To: Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira

Caros presidentes do FC Porto e do Benfica

À medida que se aproxima o jogo entre as duas equipas, no Dragão, o tom do confronto tem vindo a subir. Ele é ameaças, recordações de violências passadas, tudo numa grande caldeirada, como se viesse aí um combate mortal entre duas comunidades que se odeiam e guerreiam, e não apenas mais um jogo de futebol que existe todos os anos. Entrámos pois em espiral, numa escalada disparatada. Tem de ser assim sempre? Não, não tem. Pela minha parte, avanço com uma sugestão: todos os anos, antes da época começar, devia ser organizado um grande torneio de luta livre entre benfiquistas e portistas, algures num descampado, a meio do caminho entre Lisboa e Porto.

Na arena principal combateriam suas excelências os presidentes. Depois haveria arenas secundárias. Numa delas, a maior, defrontar-se-iam as claques, Super Dragões contra No Name Boys. Noutra, defrontar-se-iam Jesus e Villas-Boas. Mais ao lado, lutariam os vices Reinaldo Teles contra Sílvio Cervan. Depois haveria as arenas especiais, para os cronistas Manuel Serrão e António-Pedro Vasconcelos, e uma muito muito especial, e muito aguardada, para a refrega entre os televisivos Rui Moreira e Ricardo Araújo Pereira.

Seriam naturalmente combates até à morte, onde valia tudo menos tirar olhos, e desses combates estariam excluídos os jogadores, pois esses valem muito dinheiro e não são para estragar. Mas, se esse gigantesco Mortal Kombat existisse, pelo menos uma vez por ano, talvez a tensão descesse, e não passássemos o tempo nestas picardias desnecessárias e perigosas. Depois queixem-se.