Neste blog utilizo textos e imagens retiradas de diversos sites na web. Se os seus autores tiverem alguma objecção, por favor contactem-me, e retirarei o(s) texto(s) e a(s) imagem(ns) em questão.

25 maio 2012

“Foi uma vitória desportiva, uma vitória da verdade”

“A minha primeira palavra não pode deixar de ser de orgulho, de admiração, de agradecimento a todos vós pela vitória, mas sobretudo pelo exemplo que nos deixaram.

Deram a todo o país uma demonstração clara de tudo quanto ao longo de anos temos vindo a denunciar.

A vossa vitória de ontem não foi apenas a vitória desportiva, não representou apenas o 23.º título a nível do basquetebol, foi uma vitória da verdade, da coragem, foi a vitória de quem soube sofrer as consequências de ir ganhar a uma casa que não tem dignidade nas derrotas!

Parabéns Carlos por seres o treinador e o homem que és!

Parabéns à equipa, porque ontem deram uma enorme demonstração do que é o Benfica!

O que ontem se passou no Dragão é uma vergonha para o Desporto, para o país, uma vergonha para as instituições desportivas!
Só não é uma vergonha para quem não tem, nem nunca teve vergonha na cara!

O que alguns fizeram ontem, mas também na véspera do jogo, foi demasiado grave para ficar impune.

E ainda têm a lata de falar de apagões? Quando a sua história foi marcada por fruta, corrupção e compadrio?

Têm a lata de falar de verdade desportiva quando o seu sucesso foi construído com base na maior mentira do desporto português?

O sistema ainda não acabou. O sistema de hoje continua construído na intimidação, na violência, nos favores.

As nossas razões podem não chegar à UEFA, como não chegaram as “escutas da fruta”, como não chegaram para a justiça portuguesa as “escutas do café com leite”!

Mas nós não vamos parar enquanto não limparmos o desporto português.

Burros não são os que acreditam na mudança.

Burros são os que acreditam que isto nunca vai mudar!

Burros são os que acreditam que a impunidade vai durar para sempre!

Mas será que alguns dirigentes deste país só gostam da actuação da Polícia quando esta os avisa que tem de fugir para não serem presos?

Na vida como nos livros:

Um ladrão não deixa de ser ladrão por declamar poesia!

Um ladrão não deixa de ser ladrão por ir ao Papa!

Um fugitivo da justiça não o deixa de ser apenas porque alguns juízes decidiram assobiar para o lado!

Posso garantir-vos que vamos continuar a denunciar e a combater o sistema, o tempo que for necessário, seja no Basquetebol, no Futebol, no Andebol ou no Hóquei!

Alguns muros já caíram, mas não vou descansar enquanto houver árbitros, delegados e dirigentes que tenham medo, que se sintam condicionados por ameaças e represálias.

Não vou descansar enquanto algumas Federações continuarem a ter medo de agir com liberdade. Só espero que o sistema não venha agora a atacar no Hóquei, porque não tenham dúvidas de que vamos estar muito atentos!

Para o Carlos Lisboa e toda a equipa, o meu muito obrigado pela maneira como vestiram a camisola. Pela forma como lutaram durante o jogo e pela forma como souberam sofrer depois do jogo.

O vosso exemplo orgulha o Clube, orgulha os benfiquistas e orgulha todos aqueles que gostam de ganhar limpo!”

24 maio 2012

Campeões! . Fotos




11 maio 2012

Neblina

Crónicas de LF, in Vedeta da Bola, in Jornal O Benfica

O processo Apito Dourado mostrou-nos a forma como certos clubes se movimentavam nos bastidores, e traficavam influências com vista à viciação de resultados desportivos. Dirigentes desportivos recebiam árbitros em casa nas vésperas de jogos, ofereciam-lhes prostitutas após os mesmos, adulteravam processos disciplinares, instrumentalizavam jornalistas, etc. Ficou à vista, e ao ouvido, de todos, que havia quem não olhasse a meios para atingir os seus fins, que havia quem fosse capaz de tudo para chegar às vitórias. À semelhança do que aconteceu em tantos outros casos no nosso país, questões processuais chocaram de frente com o apuramento da verdade, e promoveram a impunidade generalizada - aspecto que serviu para o branqueamento daquelas vitórias e daqueles títulos, convidando, simultaneamente, a que tais práticas continuassem, ou até que se intensificassem. 
A quem conheça um pouco da história da corrupção no desporto internacional (e, infelizmente, já houve vários e diferentes casos), não surpreenderia também que a vertente ligada à arbitragem, então desmascarada, fosse apenas a ponta de um iceberg onde outro tipo de elementos se misturasse. Dito de outro modo, quem acompanhe, por exemplo, o ciclismo e os seus frequentes casos de doping, sabe que o tipo de controlo feito no futebol não passa de uma brincadeira de crianças, à qual muitas práticas ilícitas, e actualmente bastante sofisticadas, podem facilmente escapar. E, quem tenha lido alguma coisa sobre o fenómeno das apostas ilegais (por exemplo na Ásia, mas também na Itália ou na Alemanha), perceberá como a um defesa-central, ou a um guarda-redes, é fácil fabricar um resultado, prejudicando a própria equipa, a troco de dinheiro, de um contrato, de uma relação privilegiada com determinado empresário, de uma boa crítica num jornal, ou até de uma ameaça. 
Quem já se mostrou capaz de corromper, e vive da impunidade de um sistema judicial obsoleto, não pode pois esperar as nossas felicitações, mas sim a nossa desconfiança.

Trancas à porta

Crónicas de Leonor Pinhão, in A Bola

Tal como o País tem medo de viver sem a 'troika', também o Benfica tem medo de romper com a Olivedesportos. Portanto, enquanto não resolverem isto...
1. «Uma imagem vale por mil palavras», é uma frase atribuída a Napoleão Bonaparte. E quem somos nós para desmentir o Imperador dos franceses?
Bonaparte não era parvo nenhum. Era até, nalgumas coisas, um homem muito à frente do seu tempo. Imagine-se só que o velho preceito napoleónico resistiu dois séculos e até se aplica às nossas futebolices contemporâneas.
Como, por exemplo, à imagem do abraço entre Vítor Pereira e Pedro Proença, assim que o árbitro (que era, esclareça-se, o próprio Pedro Proença) deu por terminado o jogo da festa dos campeões. É fair-play! E já lá vão 607 palavras com esta introdução.
Napoleão nasceu talhado para grandes tiradas. Nunca saberemos, no entanto, se teria algum jeito para legendas de fotografias. Ou até atrevimento para sonhar com diálogos de terceiros.
Atrevo-me eu:
Proença - Ahhhhhhhhh!
Pereira - Meu caro, folgo em verificar que tem os rins no sítio!
O Napoleão é que a sabia toda...
Com isto gastei 998 palavras das 1000 concedidas pelo Imperador. Está tudo dito.
2. Os protestos anónimos directamente dirigidos à figura de Luís Filipe Vieira prosseguem a cada jogo do Benfica, fora de portas ou em casa.
Na manhã de sábado as paredes das redondezas do Estádio da Luz surgiram pintadas de fresco com frases retiradas de entrevistas do presidente do Benfica, declarações proferidas em tempos mais ou menos recentes e, no que é importante, em tempos de maior optimismo, quer do presidente quer dos adeptos.
Sim, porque a nenhum presidente passaria pela cabeça prometer um Benfica de igual para igual a um Real Madrid se não houvesse da parte da malta uma grande disponibilidade para a fantasia e uma enorme queda para a fanfarronice.
E fanfarronice, aliás, é a doença infantil do benfiquismo.
E vir agora acusar o presidente de excesso de veleidades parece despropositado e, de algum modo, injusto.
É verdade que o futebol infantiliza tudo e todos: desde os dirigentes que prometem aos adeptos aquilo que os adeptos querem ouvir, aos adeptos que se não virem materializar-se o que gostaram de ouvir não hesitarão em dizer aos dirigentes o que os dirigentes não querem ouvir. A frase é bastante mais intrincada do que a situação, ainda bem.
A situação é apenas e lamentavelmente prosaica.
No meu Benfica ideal (e cada adepto tem o direito legítimo, conferido pela paixão, de sonhar com o seu muito próprio ideal de Benfica) nada disto não se passaria assim.
Já que querem pintar as paredes, pois que sejam espertos, façam-no na altura certa.
Tomemos por exemplo uma das frases pintadas na Luz: «Não negociarei com a Olivedesportos, 2011». Não teria sido melhor, se acreditam na efectividade da campanha, tê-la pintado logo em 2011, como lembrete, e lembrete-diário ali escarrapachado à vista de todos e do próprio destinatário, do que esperar um ano e meio para atirá-la à cara do presidente numa hora má, como remoque?
Por ter perdido o Campeonato graças a uma conjugação de absurdos com diversas origens - ainda que perfeitamente identificáveis -, o Benfica está zangado consigo próprio. Estas crises poderiam até ser oportunidades excelentíssimas para ousar medidas verdadeiramente fracturantes se aplicadas ao edifício-geral do futebol português. Não é assim que tem acontecido e temo que, uma vez mais, não vá acontecer.
O Benfica, aliás, está como o país.
O país perdeu a soberania. Faz o que a troika manda porque lhe foi inculcado o pavor de um futuro sem a dita troika, sem consideração dos parceiros, sem crédito bancário, sem euros, sem com que pagar dívidas, obras e salários.
É o que se passa com os clubes portugueses na sua relação com a Olivedesportos. Aliás, ainda bem recentemente, António Oliveira, co-fundador da empresa, actualmente afastado, disse clarinho: «A Olivedesportos é o FMI do nosso futebol».
E, aparentemente, nem o Benfica, que é o maior clube português, escapa a esta dependência que, vá lá saber-se porquê, é sempre pintada em tons de cor-burro-quando-foge em nome do grande serviço social prestado ao país pela Olivedesportos ao permitir, generosamente, que os clubes possam viver. E viver com a consideração dos parceiros, com crédito bancário, com euros com que pagar as dívidas, as obras e os salários.
Tal como o país tem medo de viver sem a troika - e depois, como é que é? - também o Benfica, pelas mesmas razões, tem medo de romper com a Olivedesportos.
Portanto, enquanto não resolverem isto não me venham cá falar das próximas revoluções.
E isto só se resolve com coragem. A coragem, no entanto, é um atributo bastante diferente da fanfarronice, como o mais vulgar dicionário é capaz de explicar.
3. Se exceptuarmos umas curtas e inócuas declarações à TV-Odivelas, Luís Filipe Vieira tem optado pelo silêncio neste  rescaldo do campeonato. Há quem ache mal. Há quem ache que o presidente devia expressar publicamente aos benfiquistas umas palavras de consolo, de explicação ou mesmo o assumir individual e colectivo do falhanço na Liga.
Vieira, porque é o presidente do Benfica, saberá, certamente, o que está a fazer e as razões deste seu prolongado silêncio.
E pode até refugiar-se naquele velho ditado popular: casa roubada, trancas à porta.
No entanto, há muitos perigos neste mutismo.
Por exemplo, o perigo do espaço destinado nos noticiários às questões políticas e de comunicação do Benfica passarem a ser ocupados, na ausência do chefe, por subalternos disponíveis a colmatar em termos públicos o momentâneo recato presidencial.
E foi nesse sentido que na semana passada, António Carraça, director-geral do clube, foi com a melhor das intenções aos estúdios da Benfica TV. Contudo, na tentativa de animar as hostes, saiu-lhe logo a frase fatal:
«Se o Benfica prosseguir neste caminho, com a mesma filosofia e o mesmo projecto, poderá competir pela conquista da Liga dos Campeões num curto espaço de tempo».
Pronto. Lá estamos nós outra vez no campo da fanfarronice, essa doença infantil do benfiquismo.
Com o respeito devido a António Carraça, mais lhe valia ter ficado calado. A ele e a nós, os que somos do Benfica, e que logo tivemos de aturar as inevitáveis graçolas dos nossos amigos do adversário...
-Então o Carraça diz que vocês para o ano até vão ganhar a Liga dos Campeões!
Mas será que esta gente não aprende nada? Nunca?
4. Curiosamente, em Alvalade surgiram também umas paredes pintadas com anti-louvores a Godinho Lopes e a Paulo Pereira Cristóvão. Na sua essência são frases bem mais desagradáveis do que as frases pintadas do outro lado da Segunda Circular (que, como se diz, é a tal linha que separa a Liga dos Campeões da Liga Europa) e dirigidos a Luís Filipe Vieira.
Enquanto, o presidente do Benfica tem vindo a ser confrontado com as suas próprias palavras. Godinho Lopes e Pereira Cristóvão foram confrontados com gravíssimas acusações de práticas e de carácter.
Só no FC Porto nada disto acontece. Suspeito que deve ser por terem ganho o campeonato.
O único funcionário portista sempre disponível para a indiscrição total é o simpático austríaco Janko que não se consegue conter em ocasião alguma. Agora foi contar a um jornal do seu país, Die Presse, que há colegas seus que se querem ir embora porque gostavam de ingressar num «clube de topo absoluto».
E Janko diz estas coisas todas sem precisar de pintar uma única parede. É a diferença que faz ser campeão.
PS - É oficial: o Sporting não quer o árbitro João Ferreira na final da Taça Cardinal.

Benfica não aprende

Crónicas de Rui Santos, in Record

O Benfica jogou muito e jogou pouco e as arbitragens provocaram-lhe dano (na segunda metade da Liga). O Sporting teve altos e baixos e as arbitragens provocaram-lhe dano (principalmente no arranque da Liga). O FC Porto nunca jogou muito bem ao longo da época e as arbitragens não lhe provocaram dano. Estes são os factos. E a pergunta é... porquê? Porque, no tempo certo, para além das minudências que se costumam discutir " à mesa do café", Pinto da Costa atacou os pilares do "centralismo". Do país e do futebol. Sem medo, com determinação, perseguindo um ideal, fazendo amigos entre os inimigos, reunindo "fiéis" à volta da sua causa.

Pinto da Costa está na fase final da sua "empreitada": o "poder futebolístico" há muito que deixou de estar em Lisboa. Começou com o trabalho realizado nas associações (Adriano Pinto e Lourenço Pinto, mais dois Pintos, tiveram acção incansável), passou pela criação da Liga (através do projecto embrionário do Organismo Autónomo, do qual PC chegou a ser presidente) e pela "coexistência pacífica" com o Boavista (Valentim Loureiro como parceiro e nunca como "adversário-inimigo"); foi importante a criação da sede da Liga no Porto, depois dos constantes ataques às finais da Taça de Portugal, no Estádio... "em Oeiras". A cereja no topo do bolo será alcançar o Benfica em número de campeonatos. Faltam 6. Não parece impossível.

O mito

Crónicas de José António Saraiva, in Record


Mais uma vez o FC Porto venceu um jogo com a tripla “Hulk/penálti/expulsão de adversários”, que levou a equipa à conquista deste campeonato. A grande dúvida para a próxima época, além da ação dos árbitros, reside pois na pergunta: o que será o FC Porto sem Hulk?

O Sporting reentrou nos carris com Sá Pinto (quem diria?) e parece capaz de discutir a próxima Liga. Trata-se de uma equipa matreira, que defende com muitos e é velocíssima a explorar o espaço nas costas dos adversários.

O Braga pagou na parte final da época a felicidade que teve durante muitos jogos, vencendo 13 vezes consecutivas. É também uma equipa manhosa, que se fecha bem atrás e explode quando parte para a frente.

Finalmente, o Benfica. O jogo com o Leiria mostrou que o “grande plantel” do Benfica é um mito. Artur e Maxi são ótimos, mas Luisão e Garay são lentos e o lateral-esquerdo não existe. Javi García baixou muito, Witsel é bom mas às vezes parece perdido, Matic tem dias e Aimar precisa de ser gerido com pinças. No ataque, Gaitán é muito dotado mas intermitente, Nolito é aproveitável mas trapalhão, Nélson Oliveira está verde, Rodrigo acabou em S. Petersburgo, Saviola mostrou por que foi pouco utilizado, Cardozo é desconcertante, Bruno César é o mais regular mas não é um fora-de-série.

O Benfica precisa de uma renovação no plantel. Repare-se que nenhum avançado ganhou no um-para-um contra os juniores do Leiria! Assim, ou a dinâmica coletiva funciona e a equipa faz exibições brilhantes, ou não engrena e não tem jogadores que resolvam os jogos. Essa foi uma grande limitação este ano face ao FC Porto, que quando faltava o coletivo tinha Hulk para resolver.

O excêntrico

Crónicas de João Querido Manhã, in Record

A crise da União de Leiria, repleta de situações tragicómicas, deu a conhecer, em fecundas entrevistas, a personalidade mirabolante do novo líder do futebol nacional, uns meses depois de eleito para presidente da Liga num processo a que o público e os meios tinham dispensado pouca atenção. Mário Figueiredo é, afinal, um combatente em cruzada pela distribuição equitativa dos direitos de televisão, que merece ser acompanhado, pois promete frequentes momentos de grande hilaridade – um novo Robin dos Bosques que quer tirar aos grandes para dar aos pequenos.

Figueiredo defende com entusiasmo o seu “conteúdo” e assume uma comparação arrasadora: a Liga espanhola é menos competitiva que a portuguesa. Pretende que a massa financeira cresça com o alargamento da Liga, partindo do princípio de que os clubes acrescentados fazem aumentar as audiências. Exige que os clubes grandes recebam menos direitos de televisão, para se aproximarem dos que recebem menos. E está convencido de que existem televisões para continuar a pagar para transmitir um campeonato desacreditado pelas arbitragens e pelo tráfico de influências.

E, empunhando a bandeira dos clubes revoltosos, acha que tem nas mãos uma indústria florescente, pujante e organizada. Considera até que pode prosseguir alegremente uma estratégia de confrontação aos clubes “dominantes”, que os jogadores do seu núcleo de eleitores podem jogar sem receber salário ou que uma equipa com meia dúzia de juniores amadores numa competição profissional seja preferível a uma honesta declaração de falência.

Acrise do futebol português é tão aguda, que não há tempo para rir com o rumo do seu líder, que ainda se expressa como aquele excêntrico do anúncio do Euromilhões. As decisões que estão a ser tomadas já não têm retorno, vão passar a dirigentes vindouros uma herança sem salvação, exceto para os que já se encostaram aos milhões da UEFA. A brincadeira do alargamento é tão perigosa que justificaria, desde logo, a reserva de bens pessoais dos dirigentes envolvidos como garantia de cobertura das dívidas obscenas que se preparam para agravar, na maior das impunidades.

Mário Figueiredo desafia a PPTV (tem dificuldade em pronunciar Olivedesportos), partindo da premissa de que foi Joaquim Oliveira quem levou o futebol português à falência. Ora, não foi.

Na verdade, a sobrevivência da maioria dos clubes, incluindo os grandes, nos últimos 25 anos só foi possível pelo financiamento dessa entidade, também chamado de FMI do futebol, sem culpa da gestão desvairada e criminosa de tais fundos. O que o estrambótico presidente da Liga propõe agora, quando a maioria dos clubes ainda tem de ressarcir o magnate por quatro ou cinco anos de receitas adiantadas, é a repetição do que outro visionário fez há 12 anos, quando, igualmente na crista de uma onda revolucionária, decidiu rasgar uns contratos. A Figueiredo só lhe falta, por estes dias, um lema do tipo “um euro é um euro”.

10 maio 2012

A credibilidade da arbitragem

Crónicas de Vítor Serpa, in A Bola

Há muito tempo que a credibilidade do sector da arbitragem não era tão baixa. A parte final do campeonato trouxe-nos uma chuva de erros grosseiros com incidência directa em alguns resultados, além de nomeações inexplicáveis, como foi exemplo significativo a de Paulo Batista para o Marítimo-FC Porto. Daí ter-se criado um clima de inevitável suspeição, que foi naturalmente aproveitado pelos que não atingiram os seus principais objectivos. 

Em Portugal, ao contrário da maioria dos países europeus, onde o futebol continua a dominar o interesse maior do povo, a arbitragem tornou-se um sector muito sensível, após terem sido conhecidos casos concretos que apontavam claramente para sinais de corrupção e de tráfico de influências. Seguiu-se, então, um período de acalmia e de recuperação da dignidade e da credibilidade dos árbitros. Porém, nos últimos tempos, as coisas pioraram. Erros difíceis de explicar à luz do simples erro humano, decisões deploráveis, como o de secretismo das análises dos delegados, silenciamento das respostas a todas as dúvidas e inquietações, aproximaram a arbitragem de um género congregação secreta, deixando demasiada margem à imaginação de cada um, desde o regresso de influências maléficas à perversão. Insistimos: é absolutamente necessário e urgente uma mudança de atitude e de comportamentos. Os árbitros têm de voltar a dar sinais claros de que o futebol pode e deve confiar neles. Primeiro, porque a grande maioria merece esse reconhecimento; depois, porque o futebol português não resistiria a um regresso a tempos de tão má memória.

Liberdades

Crónicas de João Gobern, in Record

O comportamento de alguns sectores de público, alegadamente organizados, no jogo do passado sábado no Estádio da Luz chega para reativar uma velha discussão: a das liberdades de um sócio ou adepto, vindo normalmente a tiracolo a questão do bom senso.

Antes de mais nada, convirá confinar a “polémica” a quem a merece. Pela simples razão de que, como mostra a evidência, subsistirem clubes em que as mais elementares regras da democracia estão longe de uma aplicação regular (e muito menos continuada), em que há plebiscitos e não eleições, em que há horas e dias marcados para se sentir o ondular entusiasta das “vagas de fundo”. Esses, sinceramente, não contam para este caso, por mais que se multipliquem as manobras de diversão.

Por outras palavras, bem pode um notável adepto de um clube vir anunciar que nunca foi condicionado no que disse e escreveu. É possível que seja verdade – e eu não quero fazer aqui juízos de intenção –, mas a figura em questão sabe que há alguma vantagem em viver a 300 quilómetros do olho do furacão e sabe que, em temporadas não muito distantes, foi considerado oposicionista ao “regime”. Um seu parceiro, cada vez mais porta-voz e cada vez mais emblemático na rota dos sucessos, também não esquecerá a fase em que se deslocava com proteção contratada e sob ameaças da “guarda pretoriana” com ligações ao seu clube. O mesmo que, num ápice, num passe de mágica, numa reviravolta da fortuna, acabou por condecorar como exemplar aquele que até então era um prevaricador.

Benfica e Sporting (e mais alguns clubes de menor dimensão) são, portanto, aqueles que se debatem com os espinhos da democracia. Tenho dúvidas que já tenham aprendido a passar do respeito (mesmo resignado) pelas opiniões internas contrárias ao melhor dos momentos: o do aproveitamento das opiniões internas contrárias. Sucede que a oposição benfiquista, em concreto, tem usado táticas de guerrilha e feito incursões próximas do terrorismo. No primeiro quadro inscrevem-se as frases de calúnia espalhadas pelas paredes e as entrevistas – cheias de soundbyte e vazias de conteúdo – que alguns “notáveis” vão semeando, quase sempre casuísticas e nulas na proposta de soluções. É fácil: aprende-se na política, é só transferir. No segundo, fia mais fino: o triste espetáculo (bem orquestrado mas malsonante) durante todo o jogo com a União de Leiria, com cânticos insultuosos até à própria equipa que estava em campo, é um disparate, uma vergonha, uma quebra das regras elementares de comportamento. Há muitas ocasiões e espaços para pôr em causa o trabalho de uma direção, de um técnico, de um núcleo de jogadores. Escolher o tempo de um jogo para contestar é tão-só uma imbecilidade. Ainda por cima manipulada.

28 abril 2012

Lugar na história

Crónicas de João Gobern, in Record

Primeiro: pior do que os “tabus” dos políticos, só mesmo esses mal amanhados jogos de reserva mental nos dirigentes desportivos, à espera “do momento”, da “vaga de fundo”, do “eu ou o caos”. Tudo familiar, infelizmente. Segundo: tão mau quanto um país democrático sem oposição é o aceitar da gestão de um clube sem ideias alternativas ou complementares, meio caminho andado para o autismo (passe a expressão e fique o conceito). Terceiro: um contrato de treinador de futebol é tão válido como as leis laborais portuguesas, e tão perene como os “direitos adquiridos”. Quer dizer: aplica-se até que se levantem “superiores interesses”, venham eles dos ditames de uma troika qualquer ou do bramido das massas ululantes.
Por estas três premissas quis chegar à atual situação do Benfica, que se deixou cair na asneira de marcar eleições para outubro, já em plena época. Pergunto: sendo legalmente inatacável, será eticamente defensável o sumário despedimento do atual treinador, com hipóteses de rumar a outra casa – sabendo-se, ainda por cima, que Pinto da Costa não desdenha a aproximação, uma vez que se verá obrigado a desfazer um nó chamado Vítor Pereira, para sossego dos adeptos e das finanças portistas – com pesada indemnização (sete milhões?), com recomeço de todos os processos ainda antes de solidificado um modelo de jogo, com perda das inegáveis vantagens que Jorge Jesus (a par das falhas, já lá vamos) já demonstrou, e dentro de campo? Da mesma forma, num momento em que a chamada nação benfiquista espera uma prova de força a valer – depois dos falhanços com as arbitragens, com a gestão do plantel, de Enzo Pérez a Ruben Amorim, com o “mandato dos êxitos desportivos”, com as outras modalidades – do seu presidente, será tolerável que este hipoteque parte do futuro do clube com a timorata assinatura de um desvantajoso contrato com a Olivedesportos?
São apenas duas questões das muitas que podem separar Luís Filipe Vieira da grandeza. O homem que teimou no novo estádio, que hoje não se discute, que credibilizou financeiramente o nome do Benfica depois de todas as aventuras, que voltou a edificar o clube em termos europeus e que – com a ajuda de Jesus – revelou a capacidade para os indispensáveis negócios da sobrevivência, que denunciou (sozinho) o Apito Dourado, já tem lugar na História. Sem oposição à vista, falta-lhe um passo para a grandeza: aceitar o diálogo, aproveitar sugestões, preocupar-se mais com o adversário externo do que com as reticências internas. Começar por não delapidar os poderes do sucessor – que até pode ser ele próprio – é um bom princípio. Fortalecer a estrutura é um imperativo. E não ouvir sempre os mesmos um sinal exterior de democracia. Será?