Neste blog utilizo textos e imagens retiradas de diversos sites na web. Se os seus autores tiverem alguma objecção, por favor contactem-me, e retirarei o(s) texto(s) e a(s) imagem(ns) em questão.
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23 maio 2013

Uma vitória chochinha, chochinha

Por José António Saraiva in jornal Record 

É uma prova com 16 equipas e 30 jogos – e no fim o campeão é o FC Porto.” Assim se podia definir a Liga portuguesa. 

Aconteça o que acontecer, o Porto é (quase) sempre campeão. O Benfica pode jogar melhor, marcar mais golos, ter um futebol mais entusiasmante, mas não serve de nada. 

Na véspera do jogo com o Estoril, o treinador portista tinha dito que o Benfica ganharia “de qualquer maneira”. Afinal foi o Porto a ganhar de qualquer maneira em Paços de Ferreira. De um erro clamoroso do árbitro à passividade da equipa da casa, viu-se de tudo na capital do móvel. “Ou vai ou racha”, é o lema do Dragão. 

Que diferença entre o Estoril que empatou na Luz e o Paços de domingo passado! Uns pareciam ter tomado cafés duplos, corriam endiabrados, os outros pareciam encharcados em Xanax. 

De todos os modos, pode dizer-se que esta época acrescentou prestígio ao Benfica, que brilhou nacional e internacionalmente, e não trouxe quase nada ao FC Porto. A prova disso é que o Benfica quer conservar o treinador, mesmo perdendo, e o Porto quer despedi-lo, mesmo ganhando. Sente-se que o Benfica está em crescendo e o Porto em declínio. Matic e Lucho ilustram esta verdade: um evoluiu e mostra-se pujante, o outro é um talento já cansado. 

Esta vitória do Porto no campeonato faz lembrar o título de Trapattoni no Benfica: os portistas festejaram mas não gostarão de recordar esta época. Foi um êxito envergonhado. Uma vitória chochinha, chochinha. 

Agora, para a época terminar “em beleza” para o Benfica, só faltava perder a Taça de Portugal no minuto 90+2.

27 maio 2012

Saudades de Abel

Crónicas de Daniel Oliveira, in Record, 

A final entre o Sporting e a Académica acabou em festa. Festa em Coimbra, claro está. Como muitos sportinguistas, senti-me frustrado. Haveria, na minha expectativa, alguma soberba. Talvez a mesma que levou o Sporting à derrota. Ainda assim, ninguém roubou aquele dia à Académica. Porque tem sido essa, com raríssimas exceções que critiquei, a cultura do Sporting.

Na mesma semana, o FC Porto perdeu o título de basquetebol. E bastou essa derrota e umas palavras menos agradáveis do treinador benfiquista para que o pavilhão Dragão Caixa se transformasse em cenário de guerra campal. Perante isto, o que fez Pinto da Costa? Pôs-se, como faz sempre, do lado da violência. Indignado por a polícia ter impedindo que os jogadores do Benfica fossem atacados pela multidão em fúria, dirigiu às forças da ordem a sua ira de mau perdedor. Compreendo que tenha saudades do guarda Abel e da conivência das forças de segurança com a sua falta de escrúpulos. Compreendo que ameaças sobre jornalistas seja a ideia que tem do que deve ser a segurança pública. Entendo, por isso, a sua estupefação por a polícia ter defendido os jogadores em risco.

Já aqui deixei várias vezes nota de qual é o meu problema com o FCP. Não é com o clube, o melhor, há alguns anos, no futebol nacional. Não é com a cidade, de que gosto muito. Não é seguramente qualquer simpatia pelo Benfica (que também já fez gracinhas destas). É o facto de este senhor, ao mesmo tempo que, com toda a legitimidade, levava o Porto para o topo do futebol nacional, ter transformado o ambiente no desporto profissional numa coisa irrespirável. O papel de Pinto da Costa no episódio de quarta-feira, que obrigou os novos campeões a receberem a taça no balneário, é apenas mais um triste exemplo da falta de classe deste dirigente.

26 maio 2012

O inimigo e o rival

António Pedro Vasconcelos, in Record

1. Pinto da Costa anda tão aliviado com a vitória num campeonato em que o seu clube foi despudoradamente ajudado dentro e fora das quatro linhas (o árbitro principal está dentro do campo, mas os auxiliares estão fora), e tão abatido com a falta de entusiasmo que a equipa e o treinador suscitam nos adeptos, que se sente obrigado a inventar todas as semanas uma nova facécia, um insulto soez dirigido ao clube da capital que, de há três anos para cá, já não o deixa dormir descansado.
Com a aura de impunidade de que se rodeou, PC voltou à carga, desta vez para fazer um trocadilho com o famoso adágio popular que diz que “vozes de burro não chegam ao céu”, assegurando que “vozes de burro não chegam à UEFA”. O chefe do FCP referia-se ao facto de Pedro Proença, árbitro que ele venera e protege (se há uma qualidade que não se pode negar-lhe é ser reconhecido com os amigos), ter sido nomeado para arbitrar a final da Champions, o que provaria o infundado das acusações de parcialidade sempre que este árbitro internacional apita jogos do Benfica.
Este dichote merece reflexão. Que “vozes de burro não chegam ao céu” sabemos há muito, desde que PC prometeu o campeonato de 2009/10 ao seu amigo Pedroto e Deus não lhe deu ouvidos. Também sabemos as vozes que o país inteiro ouviu nas escutas do Apito Dourado não chegaram onde deviam. Mas a afirmação de PC deve-lhe ser devolvida: o que leva um árbitro internacional a fazer arbitragens tão descaradamente tendenciosas sempre que apita jogos do Benfica?
2. O que mais pode acontecer ao Sporting? Depois do caso Pereira Cristóvão, que ainda ensombra a direção, depois da desastrosa contratação de Domingos (o roupeiro Paulinho vem agora declarar que nunca mais lhe apertaria a mão), Sá Pinto acabou por revelar as suas limitações como treinador: na tática, na motivação, na histeria com que viveu o jogo, na forma como descartou responsabilidades no final. A perda da Taça foi um golpe fatal num clube histórico que vive tempos difíceis. A venda do lateral-direito da Seleção Nacional a preço de saldo não será um triste sinal do descalabro?

11 maio 2012

Benfica não aprende

Crónicas de Rui Santos, in Record

O Benfica jogou muito e jogou pouco e as arbitragens provocaram-lhe dano (na segunda metade da Liga). O Sporting teve altos e baixos e as arbitragens provocaram-lhe dano (principalmente no arranque da Liga). O FC Porto nunca jogou muito bem ao longo da época e as arbitragens não lhe provocaram dano. Estes são os factos. E a pergunta é... porquê? Porque, no tempo certo, para além das minudências que se costumam discutir " à mesa do café", Pinto da Costa atacou os pilares do "centralismo". Do país e do futebol. Sem medo, com determinação, perseguindo um ideal, fazendo amigos entre os inimigos, reunindo "fiéis" à volta da sua causa.

Pinto da Costa está na fase final da sua "empreitada": o "poder futebolístico" há muito que deixou de estar em Lisboa. Começou com o trabalho realizado nas associações (Adriano Pinto e Lourenço Pinto, mais dois Pintos, tiveram acção incansável), passou pela criação da Liga (através do projecto embrionário do Organismo Autónomo, do qual PC chegou a ser presidente) e pela "coexistência pacífica" com o Boavista (Valentim Loureiro como parceiro e nunca como "adversário-inimigo"); foi importante a criação da sede da Liga no Porto, depois dos constantes ataques às finais da Taça de Portugal, no Estádio... "em Oeiras". A cereja no topo do bolo será alcançar o Benfica em número de campeonatos. Faltam 6. Não parece impossível.

O mito

Crónicas de José António Saraiva, in Record


Mais uma vez o FC Porto venceu um jogo com a tripla “Hulk/penálti/expulsão de adversários”, que levou a equipa à conquista deste campeonato. A grande dúvida para a próxima época, além da ação dos árbitros, reside pois na pergunta: o que será o FC Porto sem Hulk?

O Sporting reentrou nos carris com Sá Pinto (quem diria?) e parece capaz de discutir a próxima Liga. Trata-se de uma equipa matreira, que defende com muitos e é velocíssima a explorar o espaço nas costas dos adversários.

O Braga pagou na parte final da época a felicidade que teve durante muitos jogos, vencendo 13 vezes consecutivas. É também uma equipa manhosa, que se fecha bem atrás e explode quando parte para a frente.

Finalmente, o Benfica. O jogo com o Leiria mostrou que o “grande plantel” do Benfica é um mito. Artur e Maxi são ótimos, mas Luisão e Garay são lentos e o lateral-esquerdo não existe. Javi García baixou muito, Witsel é bom mas às vezes parece perdido, Matic tem dias e Aimar precisa de ser gerido com pinças. No ataque, Gaitán é muito dotado mas intermitente, Nolito é aproveitável mas trapalhão, Nélson Oliveira está verde, Rodrigo acabou em S. Petersburgo, Saviola mostrou por que foi pouco utilizado, Cardozo é desconcertante, Bruno César é o mais regular mas não é um fora-de-série.

O Benfica precisa de uma renovação no plantel. Repare-se que nenhum avançado ganhou no um-para-um contra os juniores do Leiria! Assim, ou a dinâmica coletiva funciona e a equipa faz exibições brilhantes, ou não engrena e não tem jogadores que resolvam os jogos. Essa foi uma grande limitação este ano face ao FC Porto, que quando faltava o coletivo tinha Hulk para resolver.

O excêntrico

Crónicas de João Querido Manhã, in Record

A crise da União de Leiria, repleta de situações tragicómicas, deu a conhecer, em fecundas entrevistas, a personalidade mirabolante do novo líder do futebol nacional, uns meses depois de eleito para presidente da Liga num processo a que o público e os meios tinham dispensado pouca atenção. Mário Figueiredo é, afinal, um combatente em cruzada pela distribuição equitativa dos direitos de televisão, que merece ser acompanhado, pois promete frequentes momentos de grande hilaridade – um novo Robin dos Bosques que quer tirar aos grandes para dar aos pequenos.

Figueiredo defende com entusiasmo o seu “conteúdo” e assume uma comparação arrasadora: a Liga espanhola é menos competitiva que a portuguesa. Pretende que a massa financeira cresça com o alargamento da Liga, partindo do princípio de que os clubes acrescentados fazem aumentar as audiências. Exige que os clubes grandes recebam menos direitos de televisão, para se aproximarem dos que recebem menos. E está convencido de que existem televisões para continuar a pagar para transmitir um campeonato desacreditado pelas arbitragens e pelo tráfico de influências.

E, empunhando a bandeira dos clubes revoltosos, acha que tem nas mãos uma indústria florescente, pujante e organizada. Considera até que pode prosseguir alegremente uma estratégia de confrontação aos clubes “dominantes”, que os jogadores do seu núcleo de eleitores podem jogar sem receber salário ou que uma equipa com meia dúzia de juniores amadores numa competição profissional seja preferível a uma honesta declaração de falência.

Acrise do futebol português é tão aguda, que não há tempo para rir com o rumo do seu líder, que ainda se expressa como aquele excêntrico do anúncio do Euromilhões. As decisões que estão a ser tomadas já não têm retorno, vão passar a dirigentes vindouros uma herança sem salvação, exceto para os que já se encostaram aos milhões da UEFA. A brincadeira do alargamento é tão perigosa que justificaria, desde logo, a reserva de bens pessoais dos dirigentes envolvidos como garantia de cobertura das dívidas obscenas que se preparam para agravar, na maior das impunidades.

Mário Figueiredo desafia a PPTV (tem dificuldade em pronunciar Olivedesportos), partindo da premissa de que foi Joaquim Oliveira quem levou o futebol português à falência. Ora, não foi.

Na verdade, a sobrevivência da maioria dos clubes, incluindo os grandes, nos últimos 25 anos só foi possível pelo financiamento dessa entidade, também chamado de FMI do futebol, sem culpa da gestão desvairada e criminosa de tais fundos. O que o estrambótico presidente da Liga propõe agora, quando a maioria dos clubes ainda tem de ressarcir o magnate por quatro ou cinco anos de receitas adiantadas, é a repetição do que outro visionário fez há 12 anos, quando, igualmente na crista de uma onda revolucionária, decidiu rasgar uns contratos. A Figueiredo só lhe falta, por estes dias, um lema do tipo “um euro é um euro”.

10 maio 2012

Liberdades

Crónicas de João Gobern, in Record

O comportamento de alguns sectores de público, alegadamente organizados, no jogo do passado sábado no Estádio da Luz chega para reativar uma velha discussão: a das liberdades de um sócio ou adepto, vindo normalmente a tiracolo a questão do bom senso.

Antes de mais nada, convirá confinar a “polémica” a quem a merece. Pela simples razão de que, como mostra a evidência, subsistirem clubes em que as mais elementares regras da democracia estão longe de uma aplicação regular (e muito menos continuada), em que há plebiscitos e não eleições, em que há horas e dias marcados para se sentir o ondular entusiasta das “vagas de fundo”. Esses, sinceramente, não contam para este caso, por mais que se multipliquem as manobras de diversão.

Por outras palavras, bem pode um notável adepto de um clube vir anunciar que nunca foi condicionado no que disse e escreveu. É possível que seja verdade – e eu não quero fazer aqui juízos de intenção –, mas a figura em questão sabe que há alguma vantagem em viver a 300 quilómetros do olho do furacão e sabe que, em temporadas não muito distantes, foi considerado oposicionista ao “regime”. Um seu parceiro, cada vez mais porta-voz e cada vez mais emblemático na rota dos sucessos, também não esquecerá a fase em que se deslocava com proteção contratada e sob ameaças da “guarda pretoriana” com ligações ao seu clube. O mesmo que, num ápice, num passe de mágica, numa reviravolta da fortuna, acabou por condecorar como exemplar aquele que até então era um prevaricador.

Benfica e Sporting (e mais alguns clubes de menor dimensão) são, portanto, aqueles que se debatem com os espinhos da democracia. Tenho dúvidas que já tenham aprendido a passar do respeito (mesmo resignado) pelas opiniões internas contrárias ao melhor dos momentos: o do aproveitamento das opiniões internas contrárias. Sucede que a oposição benfiquista, em concreto, tem usado táticas de guerrilha e feito incursões próximas do terrorismo. No primeiro quadro inscrevem-se as frases de calúnia espalhadas pelas paredes e as entrevistas – cheias de soundbyte e vazias de conteúdo – que alguns “notáveis” vão semeando, quase sempre casuísticas e nulas na proposta de soluções. É fácil: aprende-se na política, é só transferir. No segundo, fia mais fino: o triste espetáculo (bem orquestrado mas malsonante) durante todo o jogo com a União de Leiria, com cânticos insultuosos até à própria equipa que estava em campo, é um disparate, uma vergonha, uma quebra das regras elementares de comportamento. Há muitas ocasiões e espaços para pôr em causa o trabalho de uma direção, de um técnico, de um núcleo de jogadores. Escolher o tempo de um jogo para contestar é tão-só uma imbecilidade. Ainda por cima manipulada.

28 abril 2012

Lugar na história

Crónicas de João Gobern, in Record

Primeiro: pior do que os “tabus” dos políticos, só mesmo esses mal amanhados jogos de reserva mental nos dirigentes desportivos, à espera “do momento”, da “vaga de fundo”, do “eu ou o caos”. Tudo familiar, infelizmente. Segundo: tão mau quanto um país democrático sem oposição é o aceitar da gestão de um clube sem ideias alternativas ou complementares, meio caminho andado para o autismo (passe a expressão e fique o conceito). Terceiro: um contrato de treinador de futebol é tão válido como as leis laborais portuguesas, e tão perene como os “direitos adquiridos”. Quer dizer: aplica-se até que se levantem “superiores interesses”, venham eles dos ditames de uma troika qualquer ou do bramido das massas ululantes.
Por estas três premissas quis chegar à atual situação do Benfica, que se deixou cair na asneira de marcar eleições para outubro, já em plena época. Pergunto: sendo legalmente inatacável, será eticamente defensável o sumário despedimento do atual treinador, com hipóteses de rumar a outra casa – sabendo-se, ainda por cima, que Pinto da Costa não desdenha a aproximação, uma vez que se verá obrigado a desfazer um nó chamado Vítor Pereira, para sossego dos adeptos e das finanças portistas – com pesada indemnização (sete milhões?), com recomeço de todos os processos ainda antes de solidificado um modelo de jogo, com perda das inegáveis vantagens que Jorge Jesus (a par das falhas, já lá vamos) já demonstrou, e dentro de campo? Da mesma forma, num momento em que a chamada nação benfiquista espera uma prova de força a valer – depois dos falhanços com as arbitragens, com a gestão do plantel, de Enzo Pérez a Ruben Amorim, com o “mandato dos êxitos desportivos”, com as outras modalidades – do seu presidente, será tolerável que este hipoteque parte do futuro do clube com a timorata assinatura de um desvantajoso contrato com a Olivedesportos?
São apenas duas questões das muitas que podem separar Luís Filipe Vieira da grandeza. O homem que teimou no novo estádio, que hoje não se discute, que credibilizou financeiramente o nome do Benfica depois de todas as aventuras, que voltou a edificar o clube em termos europeus e que – com a ajuda de Jesus – revelou a capacidade para os indispensáveis negócios da sobrevivência, que denunciou (sozinho) o Apito Dourado, já tem lugar na História. Sem oposição à vista, falta-lhe um passo para a grandeza: aceitar o diálogo, aproveitar sugestões, preocupar-se mais com o adversário externo do que com as reticências internas. Começar por não delapidar os poderes do sucessor – que até pode ser ele próprio – é um bom princípio. Fortalecer a estrutura é um imperativo. E não ouvir sempre os mesmos um sinal exterior de democracia. Será?

23 abril 2012

Descrentes

Crónicas de Domingos Amaral, in Record

From: Domingos Amaral
To: Jorge Jesus

Caro Jorge Jesus
Ontem, quando o Marítimo marcou o seu golo, reduzindo para 2-1, e tu retiraste de campo Aimar e Saviola, os descrentes enfureceram-se, pensando que ainda íamos perder os três pontos. Havia, há sempre, algumas razões para tal fúria. É um pouco estranho que apenas a 4 jornadas do fim se vejam a jogar na primeira equipa jogadores como Saviola, Capdevila e até Matic, que nos últimos tempos tem jogado bem melhor que Javi. Não foi muito inteligente da tua parte ter insistido tanto e tantas vezes em Emerson, um jogador medíocre e pouco esperto; ou ter apostado constantemente num Rodrigo que estava em baixo de forma depois da pancada que levou na Rússia. Capdevila, com a sua experiência, evita muita trapalhada naquele flanco, e Saviola, com os seus truques, inventa um jogo diferente, imprevisível e mais perturbador para os adversários.
Contudo, a descrença acumulada, e a frustração sentida por muitos benfiquistas, em especial no campeonato, não nos podem toldar o julgamento ao ponto de cegarmos por causa de substituições. Minutos depois, (o futebol é cheio destas ironias) Rodrigo marcou um golito, Bruno César outro e o Marítimo foi vencido e convencido, e nós continuamos na luta.
É isso que é essencial percebermos: este campeonato ainda não acabou! Há ainda jogos muito difíceis para todos e não podemos por tudo em causa agora. Temos, todos mas sobretudo tu, de acreditar até ao fim, até ao último minuto possível, que ainda podemos ser campeões e que este campeonato se pode decidir ao sprint. Quanto aos ajustes de contas, esses fazem-se no fim.

29 março 2012

Tudo em aberto para Londres

Crónicas de Alexandre Carvalho, in Record, 

Ponto prévio: A exibição do Benfica com o Chelsea merecia um resultado diferente daquele que ficou para a história (0-1).
Nesse sentido, e tendo como base esta primeira ideia, a deslocação a Londres só pode ser encarada com confiança redobrada. Aliás, no jogo da Luz, o Benfica provou, por um lado, que está ao nível dos melhores clubes da Europa e, por outro, que o Chelsea não é o bicho papão que muitos apontavam. Além do mais, com os valores individuais que Jorge Jesus tem à disposição, vencer em Stanford Bridge não é, de todo, uma missão impossível.
No encontro da 1.ª mão, Gaitán e Maxi Pereira merecem especial destaque. O primeiro pela forma sempre acutilante como deixou em sentido a defesa dos blues e o segundo pela consistência e profundidade que transmitiu ao corredor direito. Se os olhos de vários colossos ingleses já estavam colocados no internacional argentino (com o Man. United no topo da lista), então agora o apetite terá ficado irrefreável.
Em contrapartida, e sem estar a querer bater, ainda mais, no “ceguinho”, Emerson é, sem sombra de dúvida, o elo mais fraco das águias. Ramires fez o que quis do compatriota e, numa análise meramente superficial - a qual carece de um acompanhamento pleno da capacidade de treino do defesa -, é difícil perceber o que vê Jorge Jesus no ex-Lille. Aliás, com o atual elenco encarnado, pergunto-me: O que seria este Benfica com Fábio Coentrão no lado esquerdo?

09 março 2012

O sonho de volta

Crónicas de José António Saraiva, in Record

Quando o Benfica estava a fazer uma época de sonho, a tragédia abateu-se sobre a equipa.

Tudo começou em S. Petersburgo, quando Bruno Alves investiu brutalmente contra Rodrigo e o afastou do jogo. Tive logo a perceção de que a sorte para o Benfica estava a mudar.

Primeiro foi a derrota através de um golo estúpido no dealbar desse jogo na Rússia, depois foi o desaire em Guimarães, o empate em Coimbra e a derrota contra o FC Porto, em que tudo sucedeu: a lesão de Aimar, a lesão de Garay, a expulsão de Emerson e um golo em fora-de-jogo.

Nesta fase decisiva da época, tudo correu mal ao Benfica: as arbitragens, uma expulsão cirúrgica e muitas lesões. Javi García (uma pedra decisiva) esteve três jogos fora, Garay (que era o melhor defesa) foi para o estaleiro, Aimar (que é insubstituível) está outra vez magoado, Rodrigo (que estava a ser o melhor avançado) ficou a 50% depois da agressão em S. Petersburgo.

Foi demais!

Depois disto, só faltava Jesus sair para a destruição ser completa. Para chegar ao fim um projeto que custou tanto a construir e projetou tantos sonhos.

A esperança voltou a renascer na noite de ontem, com a vitória sobre o Zenit. Quatro dias depois da infortunada derrota com o FC Porto, este sucesso teve uma grande virtude: inverteu um ciclo maldito. E esclareceu uma dúvida: a equipa não estava afinal mentalmente tão fraca como se temia.

Daqui para a frente, o Benfica tem ainda tudo em aberto: a Liga portuguesa e a Champions League.

E se a Champions é uma lotaria, no nosso campeonato uma coisa é certa: se o Benfica ganhar todos os jogos até ao fim, tem grandes hipóteses de ser campeão. Se não ganhar, a culpa é sua..."

08 março 2012

Nota artística


Crónicas de João Gobern, in Record

Parece sina: três quartos de hora de sofrimento, porfiados, diligentes, empenhados, sonhadores, até que Maxi Pereira lá estava no sítio a que os avançados não chegaram para fazer um golo. Depois, mais 45 minutos arrastados ao segundo, ligada muito cedo a “tração atrás”, prejudicada o espetáculo em função da solidez recuada, com Matic em campo ao lado de Javi e com os dois alas (Nolito e Bruno César) alertados para missões defensivas, até que Nélson Oliveira – à terceira – acabou com as reticências, legítimas para quem queria sair de um ciclo terrível mas não sabia se o conseguia alcançar.

Ao contrário do que aconteceu com o FC Porto, em que o Benfica teve de correr atrás de um golo de desvantagem e de um arranque muito melhor do adversário, os encarnados puderam e souberam ser pacientes, equilibrando uma postura coletiva cuidadosa e concentrada com a expectativa de que algum das individualidades (Gaitán, Witsel, Rodrigo) estilhaçasse a muralha defensiva dos russos. Desta vez não houve romantismos – em vez da troca de Aimar por Rodrigo, foi o jovem espanhol, mesmo aniversariante, quem abriu caminho à presença de Matic. Mesmo sem Garay, a defesa do Benfica (com Jardel a dizer que é bombeiro para estes incêndios) mostrou uma concentração rara, algo que tanto pode avaliar-se pela escassez de trabalho a que Artur foi submetido, como pela falta de oportunidades reais do Zenit. Ou seja, sem deslumbrar, sem se aproximar dos vendavais que já provocou esta época, o Benfica muniu-se – inteligentemente – de uma frieza que só foi interrompida por um emotivo pedido de apoio de Luisão ao público, já a segunda parte ia alta. Sabendo que não podia contar com o génio de Pablo Aimar, repartiu as suas tarefas por Witsel (um artista-operário com todas as potencialidades para fazer história no clube) e por Gaitán (não só a recuperar nos desequilíbrios estonteantes que provoca, mas muito capacitado de que também era preciso integrar o espírito de corpo). Mais: desta vez, todas as substituições de Jorge Jesus devem ser aplaudidas. Pena que, mais uma vez, o “numerus clausus” não tenha abrangido Javier Saviola.

Parece-me legítimo que o Benfica sonhe com a ajuda da fortuna no sorteio – se escapar a Barcelona e Real Madrid, ganha direito à ilusão. Afinal, em duas épocas consecutivas, a equipa de Jorge Jesus chega, primeiro, à meia-final da Liga Europa (é ver onde andam os dois finalistas…) e coloca-se agora entre as oito melhores equipas europeias. Num momento em que o campeonato parece ter outro destino, salvaguarda a maquia que a Champions lhe atribui. Salvo melhor opinião, é a segunda grande vitória de um mesmo dia, depois de recusar a proposta da Sport TV. Mas isso só se verá mais adiante.

14 fevereiro 2012

Obrigado

Crónicas de Domingos Amaral, in Record

From: Domingos Amaral

To: Pablo Aimar

Caro Pablo Aimar

Um dia, com imensa pena, vamos ver-te partir. Regressar a casa, à tua pátria, quem sabe ao teu River Plate do coração, para por fim arrumares as botas. Nesse dia, vamos agradecer-te, vamos homenagear-te, vamos aplaudir-te todos de pé, num adeus sentido e emocionado. Nesse dia, vamos sentir saudades da tua arte, da tua humildade, do teu profissionalismo. Nesse dia, vamos sentir saudades do teu amor pelo nosso país, aonde tu e a tua família se sentem tão bem e toda a gente gosta de ti. Nesse dia, vamos sentir saudades do teu comportamento, em campo e fora dele, da tua forma honesta de jogares. Nesse dia, vamos sentir saudades das tuas tabelinhas, das tuas danças com a bola nos pés, dos teus passes de morte, da tua visão de jogo, da tua solidariedade para com os teus companheiros. Nesse dia, felizes, vamos dizer bem alto: eu sou do tempo de Aimar, eu vi o puro talento neste estádio a quem tu dás ainda mais luz, eu vi um homem cavalheiro como poucos com o emblema do Benfica ao peito, em vi um génio a honrar a nossa camisola. Nesse dia, vamos dizer que contigo ganhámos muito, títulos e taças, e que contigo sonhámos e os sonhos tornaram-se realidade, e o Benfica jogava como nós sempre imaginámos desde miúdos e ganhava e marcava golos, muitos golos. Nesse dia, vamos sentir um vazio nos nossos corações e no nosso meio-campo, vamos procurar-te com os olhos e tu não vais estar lá para nos resolver as nossas aflições e os nossos jogos e vamos ter saudades, tantas saudades que até vão doer. Graças a Deus, este não é ainda esse dia. Obrigado Pablo, por passares mais um ano connosco.

10 fevereiro 2012

Os "direitos" do Benfica

Crónicas de Rui Santos, in Record,

Luís Filipe Vieira (LFV) foi à RTP fazer um último "aviso à navegação" sobre os direitos televisivos, mas toda a gente já percebeu que o presidente do Benfica "afrouxou" na sua luta contra aquilo que venho chamando os "miasmas do sistema". E isso tem muito a ver com a derrota que Pinto da Costa lhe infligiu na época passada, depois de um começo desastroso em que a estratégia de afrontar a arbitragem e o FC Porto não lhe creditou qualquer benefício – pelo contrário, até algum ridículo e desprezo, como ficou evidente no rescaldo do "apagão" e dos festejos (regados) dos campeões nacionais.

Essa estratégia saldou-se por um logro absoluto e LFV alterou comportamento(s) e procedimentos. O "porta-voz" João Gabriel recolheu-se, Rui Costa já se havia encolhido e a estrutura, que chegou a ter naqueles elementos duas "pedras angulares", passou a rever-se, "oficialmente", no discurso do seu presidente, "assessorado" para as questões financeiras por Domingos Soares de Oliveira, e nas intervenções de Jorge Jesus, escorado pelos restantes elementos da equipa técnica e por António Carraça – e moderado pela influência do "mourinhista" Manuel Sérgio.

O Benfica reduziu o ruído das suas intervenções e concentrou-se no objectivo de participar activamente nas alterações de liderança desencadeadas, primeiro, na Liga e, a seguir, na FPF, sempre convicto de que Fernando Gomes, ex-administrador da SAD do FC Porto, era o homem certo para protagonizar os "novos tempos" do futebol português.

O Benfica, depois de ter chamado à razão, com alguma violência dialéctica, o ex-presidente da Comissão de Arbitragem da Liga, colocando-o "em sentido", empenhou-se profundamente na recondução de Vítor Pereira como "homem forte da arbitragem", agora no seio da FPF. E não foi por acaso, certamente, a declaração de LFV na entrevista de terça-feira à RTP segundo a qual "não voltarei a falar de arbitragens até que esteja concluída a profissionalização do sector". Quer dizer: o maior sossego denunciado pelo presidente do Benfica – em ano de eleições – pode muito bem estar relacionado não apenas com a longevidade do cargo e com uma indiscutível capacidade de "aprender com os erros", mas também com uma sossegada arbitragem para as bandas da Luz.

Luís Filipe Vieira não se cansa de proclamar o seu empenhamento na defesa dos "direitos" do Benfica. E entre esses estão naturalmente... os televisivos. Não acredito, apesar da velada e mui romântica "ameaça" na "erre-tê-pê", que LFV accione a "bomba atómica". O Benfica pode ser, para a "Brand Finance", a 28.ª marca mais valiosa do futebol europeu em 2011, mas quem "viu tudo" desde o começo foi Pinto da Costa, que se apressou a negociar com Joaquim Oliveira 80% do valor a contratualizar pelos encarnados. O Benfica, amarrado à Olivedesportos, nunca receberá mais de direitos televisivos aquilo que encaixam, por exemplo, o Rennes, o Bordéus e o Villarreal. Resta saber se a receita a assegurar pela Benfica TV não seria suficiente para LFV passar a condicionar todo o mercado. As contas estão feitas, mas, à cautela, LFV já veio dizer que o assunto tem de ficar encerrado... este mês. Em Março há duas visitas do FC Porto. Pois.

07 janeiro 2012

Real politik


Crónicas de João Gobern, in Record


Ficou célebre o comentário do professor universitário sobre a tese do aluno. Esclareceu o docente que a tese continha ideias boas e ideias originais – pena que as boas não fossem originais e que as originais não fossem boas… É deste episódio lapidar que me recordo sempre que assisto ao triste espectáculo das fúrias legislativas, de febres que atacam homens de bem que se transformam rapidamente em pistoleiros normativos, capazes de disparar em todas as direções. Estudam pouco e sabem menos, conseguindo aquele extraordinário tempero português que é colocar académicos e teóricos de um lado e agentes e técnicos do outro, como se não fossem todos indispensáveis. Depois, quando é preciso um álibi final, nomeia-se um grupo de trabalho que se limita a repetir os desejos do poder ou que tem o seu trabalho condenado ao lixo.

Infelizmente, esta epidemia ameaça chegar ao mundo do futebol. Soubemo-lo através de Jorge Jesus, que veio trazer a público um estudo ou uma proposta ou uma ideia ou lá o que é, com o objetivo de valorizar o jogador português. Tenho como bom o conceito de que o campeonato nacional só é competitivo, respeitado e suscetível de atenção externa, por causa das mais-valias internacionais que por aí andam e às quais se juntam os talentos portugueses, muitas vezes ávidos de emigrar, não para clubes de primeira linha mas para ordenados com que dificilmente podem sonhar (em média) por cá.

Haverá certamente formas de regulamentar a utilização dos homens da casa. Mas querer restringir a contratação de estrangeiros aos atletas internacionais parece apenas um assomo de arrogância, demonstrativo de que as palavras austeridade e contenção ainda nos não são familiares e capaz de confundir a nossa capacidade de contratação com a dos ingleses, o que é um desvario.

Jorge Jesus teve o cuidado de dizer que, por cá, somos também formadores de jogadores estrangeiros. Os exemplos a favor deste argumento são muitos. Mas basta pensar em Hulk, que só chega a internacional brasileiro graças ao crescimento e à exposição no FC Porto. Luisão e David Luiz são contabilidade positiva para o Benfica. Van Wolfswinkel precisou do Sporting para aparecer nas cogitações dos responsáveis holandeses para o Euro que aí vem. Mais: alguém duvida que gente como Belluschi, Javi Garcia, Nolito, Ínsua, Rinaudo traz mais perfume e mais combatividade ao futebol nacional?

Acredito muito mais no bom senso – e, já agora, na negativa ao alarmismo que faz do jogador português uma espécie em extinção, algo que é desmentido pelo bom comportamento das selecções – do que na regulamentação por iluminados. Espero que o tempo do “orgulhosamente sós” tenha passado de vez. E desejo que outras vozes se juntem à de Jorge Jesus, antes que se mate a galinha dos ovos de ouro.

03 janeiro 2012

O grande líder


Crónicas de João Gobern, in Record,


Estes dias de trégua servem para arrumarmos as despedidas, para pacificarmos as lembranças e para listarmos os desejos para o que aí vem. A mim, por exemplo, deu-me para recordar uma noite quente de junho de 2009 em que, com surpresa, vi o dirigente de um grande clube desportivo, homem tido como poderoso, sagaz, irónico e implacável, atravessar toda a sala de um restaurante – adequadamente chamado Líder –, da mesa em que jantava até à minha, estender-me a mão, sentar-se diante de mim e ficar à conversa comigo e com os meus (seletos) parceiros de circunstância.

O meu espanto era ainda mais compreensível quanto, nas semanas anteriores, tinha havido um bate-boca público entre mim e esse agente desportivo, hoje cada vez mais próximo do estatuto “vitalício”. Tivemos, de resto, um rápido diálogo a respeito desses “confrontos”. Começou ele: “O senhor chamou-me obtuso”. Respondi eu: “E o senhor, presidente, chamou-me obeso”. Rematou ele: “Não se preocupe. A maioria das pessoas que nos ouviu ou leu não sabe o que nenhuma delas quer dizer…”.

Julguei que o assunto estava encerrado e o machado de guerra enterrado. Afinal, tudo se passara na mesa do grande Líder, o restaurante, que, na circunstância, era a minha casa. Puro engano: no final do jogo FC Porto-Marítimo, o homem que até há pouco olhava para um árbitro e via um herói, quis crucificar Duarte Gomes (e não só), por causa de um penálti não assinalado sobre Belluschi. No seu estilo gongórico, pediu que as imagens desse lance e de outros presenciados pelo juiz em questão fossem exibidos para essa espécie terrível dos comentadores, em especial “o senhor obeso da RTP Informação” – eu. Acontece que eu, que me orgulho de não usar palas nos olhos, tinha acabado de dizer que Duarte Gomes deixara por marcar um penálti evidente. Mais: o senhor obtuso do Estádio do Dragão ainda voltaria a dirigir-se a mim, mencionando a imagem que usei relativamente a Vítor Pereira, que deveria ter-se apresentado aos sócios e adeptos do FC Porto “de corda ao pescoço” (as aspas já lá estavam) e assim assumir a responsabilidade pela queda dos campeões nacionais na Champions. Qual é a dúvida, se pararmos de vez com as hipocrisias? Houve ou não falhanço, para o qual contribuiu o demérito do técnico? A exigente massa associativa do FC Porto está com Pereira? E este ainda estaria na cadeira dos sonhos de outrem se não resultasse de uma aposta pessoal (de emergência, é certo) do presidente?

Quando fui informado, dias depois, do novo raid do senhor obtuso, lamentei que, num mundo em mudança, haja quem já nada aprende... Sei, isso sim, é que tenho saudades do querido Líder – o restaurante, claro. E aproveito para desejar Bom Ano a todos. Até a Jorge Nuno Pinto da Costa.

01 dezembro 2011

A quem aproveita


Crónicas de João Gobern, in Record


Ponto prévio: a quem interessa, verdadeiramente, o conflito entre Benfica e Sporting? Já lá vamos – a propósito da caixa de segurança no Estádio da Luz e de todos os acontecimentos que culminaram num incêndio, há muito por apurar e pouco por especular.

Começo pelo bom senso que os responsáveis do Benfica não aplicaram. Tivesse a questão da caixa sido anunciada com tempo e/ou ensaiada/estreada noutra partida e ficavam automaticamente esvaziados os argumentos de princípio dos dirigentes e arautos do Sporting. Assim, lançaram mão ao grito da “provocação” e abriram as portas a um ambiente que descambou, como se viu. Ninguém pode pôr em causa que, de um ponto de vista teórico, o processo levado a cabo pelos benfiquistas é inatacável – a caixa teve o acordo da Liga, da polícia e dos bombeiros. Mais: é um sistema experimentado com êxito por essa Europa (a dita civilizada) fora.

Algo de muito diferente é o resultado prático. Primeiro, é inaceitável que espectadores munidos de bilhete válido e sem comportamento atentatório à segurança geral tenham sido privados de ver dois quintos do jogo, retidos numa vistoria sem meios humanos para dar resposta. Segundo, é condenável que se tenha alegadamente atirado com gente a mais para espaço a menos, anulando ou pelo menos minorando a mais-valia de segurança concretizada.

Tudo somado, nada justifica o vergonhoso final, epitáfio desajustado para um jogo que foi emotivo do princípio ao fim, em que qualquer das equipas podia ter vencido, em que o Benfica confirmou solidez e espírito de sacrifício e em que o Sporting sublinhou a candidatura ao título.

Estou certo que a Polícia investigará o que aconteceu na bancada, já condenado pelos bombeiros. Estou seguro que vamos continuar a ouvir falar dos “graves incidentes” em que estará envolvido Luís Filipe Vieira. Em qualquer dos casos, preferia ver e ouvir por mim próprio, para poder avaliar. Mas, acima de tudo, gostaria que os presidentes dos dois clubes dessem, já, o passo em frente para chegar à paz. Porque ambos sabem que o conflito que, por agora, vão mantendo e alimentando só interessa ao Senhor do Dragão. Ou alguém ouviu falar a sério nos insultos e na agressão a um jornalista? O suspeito do costume está habituado a passar entre as gotas de chuva. E a fazer rebentar as tempestades bem ao longe.

NOTA – Há uma rapaziada, tornada mediática via bola, que não vislumbra além do nariz. Ou seja, além do pequeno mundo do futebolês. Recomendo-lhes mais respeito quando falarem de João Gabriel, um dos melhores jornalistas portugueses do último quartel do século 20. Lidou com presidentes, com presos políticos, com as imensidões da vida. O futebol devia estar-lhe grato por andar por aqui.

25 novembro 2011

Missão cumprida


Crónicas de João Gobern, in Record

Claro que houve ocasiões de sufoco e – vários – suspiros de alívio, o último dos quais quando Berbatov, sedento de mostrar serviço ao patrão, fez a bola rasar a barra da baliza de Artur. Claro que a percentagem de posse de bola, o número de remates, a ideia de um caudal ofensivo dominante (embora se misturassem os momentos de mérito dos ingleses com as ocasiões em que o Benfica oferecia metros para cerrar fileiras, alternando sabiamente com a pressão alta, toca-e-foge que lhe permitiu chegar ao fim da partida sem bancarrotas na componente física) tombam para os habituais frequentadores do Teatro dos Sonhos. Daí a dizer que o empate da equipa portuguesa foi mera questão de sorte só revela desconhecimento ou má vontade.

Desde logo por ignorar ostensivamente que o adversário do Benfica é campeão inglês, finalista vencido da última edição da Liga dos Campeões, dono de um palmarés que brilha tanto como a estabilidade (por favor, não confundir com pasmaceira ou imobilismo) garantida por um quarto de século com sir Alex Ferguson como condutor. Depois, por procurar desvalorizar uma missão de sacrifício que, tantas vezes, é o nosso (dos clubes nacionais e da Seleção, se quisermos falar verdade) antídoto quando confrontados com meios e poderes desmedidamente maiores do que os nossos. Ontem, essa sobrecarga, que se confunde com desempenhos de missões que favorecem o coletivo e prejudicam os indivíduos, acabou por haver alguma justiça poética no facto de Pablo Aimar, artista e maestro, ter podido faturar, numa rápida resposta ao golo da efémera vantagem do Manchester.

Especulações à parte, foi bonito ver os apoiantes lusitanos a conseguir calar Old Trafford. Agora, o Benfica depende apenas de si próprio – e de uma vitória face aos romenos – para chegar ao primeiro lugar no grupo, algo com que os mais otimistas dificilmente sonhariam. Vantagens? “Só” estas: jogar em casa a segunda mão dos oitavos-de-final da Champions e evitar, para já, confrontos com Real Madrid, Bayern Munique, Inter Milão e, provavelmente, Barcelona, Chelsea e Arsenal. Compensa…

Segue-se um dérbi lisboeta, invulgar pela proximidade pontual das equipas (diferença mínima) e pelo ânimo empolgado com que vão entrar em campo. Daqui até lá, que haja cuidados nas declarações e respeitinho entre as claques. Os craques hão-de fazer o resto.

NOTA – Mais logo, na Ucrânia, o FC Porto tem a primeira de várias finais – e não só para a Liga dos Campeões. Confesso: como adepto de futebol, é-me indiferente o destino de Vítor Pereira, que pode estar à beira da sentença. Mas deixo claro: como adepto de futebol, é fundamental ver renascer o campeão nacional. A caminho da ressurreição, que faz falta a todos.

31 outubro 2011

Novembro sangrento!

Crónicas de António Mendes,in Record


Apoel-FC Porto (dia 1),
Benfica
-Basileia (2),
Sp. Braga-Maribor (3),
Sp. Braga-Benfica (6),
Bósnia-Portugal (11),
Portugal-Bósnia (15),
Académica-FC Porto (19),
Sporting-Sp. Braga (20),
Manchester United-Benfica (22),
Shakhtar Donetsk-FC Porto (23),
Benfica
-Sporting (26),
FC Porto-Sp. Braga (27) e
Sp. Braga-Birmingham (30).

Enfim, peço desculpa por este longo ponto prévio, mas vale a pena fazer um “copy” e “paste” para a agenda!

É um novembro verdadeiramente sensacional de grandes jogos e jogos decisivos, com Benfica e FC Porto na Champions, o playoff da Seleção Nacional, o Sp. Braga a jogar tudo na Liga Europa com os 2 jogos caseiros, a Liga Zon Sagres ao rubro, apesar de estar duas semanas parada. O Benfica a visitar Braga e um fim-de-semana com clássico na Luz e os arsenalistas no Dragão. Ainda a Taça de Portugal, com a certeza de que ou Sporting ou Sp. Braga vão ficar pelo caminho e o FC Porto tem uma periogosa deslocação a Coimbra.

Com isto tudo, meus amigos, o mês de novembro pode ser já o mais decisivo da época e no meio disto tudo ainda há candidatos que apontam baterias para a FPF. O problema vai ser haver tempo para tudo, mas como sempre arranja-se, na certeza de que no início de dezembro pode haver cabeças a rolar, ou pelo menos momentos de pura reflexão, depois de tantos jogos com uma “bolinha” vermelha no canto superior direito. Que seja com toda a emoção!

29 outubro 2011

Gaitán, a nova joia encarnada

"Dentro de dois a três anos, Nico vai valer 40 milhões"
RAMÓN MADDONI, caça-talentos argentino
Record, 16 de junho de 2010

Esta podia ser a crónica da renovação anunciada. O Benfica e Nicolás Gaitán acertaram estender o vínculo que liga os encarnados ao internacional argentino por uma temporada, ou seja, até 30 de junho de 2016, algo que apenas surpreende os mais distraídos.

A renovação do contrato -- não tanto a duração do mesmo, mas a melhoria das condições salariais – era algo desejado por um jogador que se impôs facilmente, graças ao seu talento, como um dos esteios da formação comandada por Jorge Jesus. As conversas entre as duas partes já decorriam, pelo que o desfecho comunicado pela SAD da Luz à CMVM era o mais lógico.

Com este acordo, os responsáveis encarnados sossegam o extremo, que já está no radar de clubes europeus, Manchester United à cabeça. Esta era uma pretensão de Gaitán, que assim pode continuar focado nos objetivos dos encarnados, os quais seguem tranquilamente na Liga, na Champions e na Taça de Portugal sem derrotas e com as expectativas bem altas nesta temporada.

Sendo Gaitán elemento-chave na equipa, havia que fazer um esforço para recompensar, evitando que ficasse contrariado e com a cabeça longe da Luz. No futebol, não faltam exemplos de como os contratos nem sempre são respeitados.

Ao mesmo tempo, a SAD não toca no valor da cláusula de rescisão (45 milhões), tendo em conta a conjuntura que vivemos. Sendo algo indicativo, que confere poder negocial a quem vende, o Benfica indica ao mercado que Gaitán é um jogador valioso e, ao mesmo, não afugenta potenciais interessados.