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17 maio 2010

Notas breves de uma semana especial - Por Fernando Seara


Por Fernando Seara in A Bola

1 Visita do Papa Bento XVI. Uma surpresa para quem não compreende a forças indómita da fé e o reencontro dos portugueses com as suas raízes profundas. Emocionante a missa em Lisboa, com o Cristo-Rei ao fundo como guardião e protector das duas centenas de milhar de pessoas que encheram o Terreiro do Paço e artérias adjacentes. Do Cais das Colunas, onde gerações de portugueses se fizeram ao mar, Bento XVI apelou à universalização da esperança, feita da paz no coração dos homens. Os três mais emblemáticos e representativos clubes desportivos de Lisboa lá estiveram, dando testemunho de apreço, de respeito e de carinho pelo Papa. A delegação do Benfica, constituída pelo presidente da Fundação Benfica, Carlos Móia, pelo vice-presidente Rui Gomes da Silva, pelo director desportivo, Rui Costa, pelo capitão da equipa de futebol profissional, Nuno Gomes, e por um conjunto de crianças das escolas, não escondeu a emoção de um momento que, seguramente, terá sido marcante para todos.

2 As eleições da Liga. E tudo prossegue como se nada tivesse acontecido. O Regime Jurídico das Federações Desportivas não se cumpre. A Federação Portuguesa de Futebol vê o seu Estatuto de Utilidade Pública Desportiva suspenso por incumprimento da obrigação legal de, dentro do prazo estipulado, compatibilizar os seus Estatutos à nova Lei. A nova Lei desmantela a bicefalia orgânica na Disciplina e na Arbitragem entre Federação e Liga. Ou seja, irão ser eleitos dois órgãos — Comissão Disciplinar da Liga e Conselho de Arbitragem da Liga — cuja existência viola objectivamente preceito legal expresso. E tudo continua como se tudo isto fosse normal, como se a imperatividade legal fosse uma coisa relativa, como se o futebol estivesse num outro mundo que não o do Direito e da autoridade do Estado.

3 Final da Taça de Portugal. Grande a epopeia do Desportivo de Chaves. Num ano desportivo particularmente complexo, com descida de Divisão e submerso numa gravíssima crise financeira, conseguiu a força e a capacidade para, por vez primeira na sua história, chegar ao Jamor. E, como ensina a história do futebol, aqui tudo é possível. Será, obviamente, uma luta desigual. David contra Golias. Mas não pode a equipa do Porto pensar em vitórias antecipadas, nem em facilidades consentidas. O Chaves, como é próprio dos transmontanos, não se verga, nem nunca abdica de lutar. Deixará a pele no relvado, mas obrigará o Porto a jogar o seu melhor. Poderá ser um bom espectáculo. Esperemos que sim. Pela competição, pelo futebol, pelos clubes em compita e pelos portugueses que bem precisam de lavar os olhos da angústia de um dia-a-dia sem rumo e de futuro incógnito.

4 A Selecção Nacional. Todos lhe desejamos sorte. Todos torceremos pelo seu êxito. Todos queremos que o nome do nosso País ecoe em glória pelos Estádios da África do Sul. Todos respeitamos a competência e os pergaminhos técnicos e científicos do seleccionador. E todos vamos acompanhar o estágio da Selecção na atractiva cidade da Covilhã. Que, tal como Viseu o fez, vai acolher com hospitalidade e fervor o conjunto dos jogadores escolhidos por Carlos Queiroz. Sabemos que as opções do seleccionador não foram consensuais. Cada um de nós, vestindo a cor da nossa paixão clubística, gostaria de ter mais jogadores do Benfica, do Sporting ou porventura do Guimarães. Mas, a partir de agora, o nosso clube é a Selecção Nacional. Temos o direito a sonhar e acreditamos que, ao contrário do que alguns julgam, podemos ser uma das surpresas do Mundial da África do Sul. Para já, a Covilhã acolhe apenas sete dos vinte e quatro escolhidos. Só lá para o fim da semana, que agora arranca, a Covilhã e a Serra da Estrela acolherão os restantes dezassete, alguns deles nas disputas finais das competições em que ainda estão envolvidos os seus clubes. O certo é que estamos a um mês — menos um dia — do nosso arranque no Mundial da África do Sul e logo contra uma das principais equipas africanas. Aquela que tem como um dos símbolos Didier Drogba, o avançado que permitiu, ontem, ao Chelsea tornar-se no sétimo clube inglês a conquistar a dobradinha. Os nossos olhares, e a partir da próxima semana de parte da imprensa desportiva internacional, estão centrados na Covilhã. Bem merece o interior de Portugal esta prenda. Uma prenda que a região serrana vai aproveitar e reconhecer.

5 A visita do presidente do Benfica a Timor. Eis o exemplo claro de que o desporto se não esgota na competição, nem nas questões que a rodeiam. A recepção apoteótica de Luís Filipe Vieira nas ruas de Díli tem um significado que ultrapassa o estritamente desportivo. O Benfica, queiram ou não, continua a ser um factor agregador da identidade portuguesa.

6 Morreu o Doutor José Luís Saldanha Sanches. Que se saiba não era um adepto de futebol. Aliás, muitas e muitas foram as suas denúncias sobre factores de corrupção que o perpassam. Mas era um homem vertical e de carácter. Foi, essencialmente, um homem de bem. Este o epitáfio que certamente preferiria.

26 abril 2010

Uma época para recordar - Por Fernando Seara


Por Fernando Seara in A Bola

1 O Sport Lisboa e Benfica, pelo que fez nesta época, merece o título de campeão nacional de futebol. Escrevo antes de partir para o Estádio da Luz e ser um dos 65 mil que esgotámos um dos mais belos anfiteatros do mundo. E escrevo antes do apito inicial do árbitro e com a convicção profunda que conquistaremos mais 3 pontos frente a um, decerto, aguerrido Olhanense. Vou com a mesma fé de muitas outras deslocações e com a consciência de que somos, que somos todos nós, o 12.º jogador. Algumas vezes realcei, aqui, o bom futebol que a equipa comandada por Jorge Jesus ia realizando, jornada após jornada, sem vacilações nem precipitações. Mas ninguém me ouviu dizer que o meu clube já era campeão antes de tempo. Em primeiro lugar, por respeito aos adversários directos, em segundo porque acredito que arriscamo-nos a perder quando queremos ganhar demais, como dizia La Fontaine. Faço-o hoje porque entendo que, independentemente do resultado de mais logo entre a Naval 1.º de Maio e o Sporting de Braga, só um verdadeiro cataclismo futebolístico ou um fenómeno paranormal poderá impedir a soma de pontos necessários à vitória final.
E é partindo destes pressupostos que tenho de começar por destacar um dado fundamental nesta campanha. O total das assistências no Estádio da Luz superou, este fim-de-semana, o milhão de espectadores. Uma marca a todos os títulos notável em Portugal, mas que não deve disfarçar o facto de, na presente época, ter havido um decréscimo significativo de assistências nos jogos da primeira Liga, com as excepções do Benfica e do Braga. Sinais de uma crise que todos os portugueses sentem bem, mas que, ainda assim, foi possível debelar para os lados da Luz à custa do imenso potencial humano adepto do clube da águia. E não é de mais realçar que a actual direcção encarnada sempre confiou na dinamização desta realidade, particularmente Luís Filipe Vieira. O presidente do Benfica acreditou, desde o início, que a construção do actual projecto só poderia seguir em frente com todos os benfiquistas e soube criar as condições de confiança e credibilidade para que a resposta, agora, esteja bem à vista de toda a gente.

2 No início desta época havia, pois, de conjugar uma exemplar organização desportiva e do futebol a todas as outras reformas estruturais que se vinham fazendo de há uns anos para cá. A escolha de Jorge Jesus, e o pagamento da respectiva cláusula indemnizatória ao Sporting de Braga, poderá então ter parecido a alguns um acto de gestão fútil e desproporcionado. Agora, nove meses depois, prova-se que a contratação do novo técnico terá sido um dos melhores investimentos da SAD encarnada. A organização da equipa, o seu modelo de jogo atacante e vistoso, a capacidade de motivação psicológica dos jogadores e os altíssimos níveis competitivos que demonstraram não 11 mas perto de 20 atletas, a sua pronta predisposição para o sacrifício físico e psicológico de, muitas vezes, ficar sentado no banco, demonstram bem a capacidade de liderança humana e os conhecimentos técnicos de Jorge Jesus.

3 No início da época, uma das primeiras de há muitos anos em que não houve casos nem questões laterais durante o estágio e jogos de preparação, poucos acreditavam em certas opções ou na motivação de alguns jogadores. Falo de Javier Saviola, Fábio Coentrão ou Pablo Aimar. Di María continuaria a ser um brinca na areia inconsistente. Houve mesmo quem dissesse que César Peixoto e Weldon, por exemplo, não eram jogadores para o Benfica, que Ramires era um desconhecido que vinha cansado do Brasil. E que Javi García, se o Real Madrid não o quis, era certamente por alguma coisa… Vitória após vitória, exibição de nível atrás de outra, os jogadores do Benfica demonstraram que formavam um verdadeiro colectivo, onde as qualidades e classe individuais tornam-se muito mais evidentes. Mais do que as vitórias, esta equipa conseguiu mostrar altos níveis de intensidade de jogo e exibir um futebol bonito sem nunca esquecer a objectividade necessária. E não esquecendo as lideranças de Luisão, de Nuno Gomes, de David Luiz e, ainda, de Quim e a redescoberta da capacidade concretizadora de Cardozo e a raça de Carlos Martins, Rúben Amorim ou Maxi Pereira.

4 Por tudo isto, e porque se trata de um trabalho de mérito, custa-me sinceramente que uma pequena minoria insista ainda em denegrir as vitórias do Benfica em 2009/2010. Eu admito que haja até quem, por obsessão clubística, insista em não reconhecer o mérito da equipa da Luz, como eu prontamente aceitei o mérito de outros noutras épocas futebolísticas. O que já não posso aceitar, com cordialidade, são as constantes insinuações a manobras extrafutebol e às arbitragens, obviamente para justificar os próprios insucessos e esquecer os excelentes espectáculos de futebol que a equipa do Benfica produziu numa época para recordar e repetir já para o ano…

5 As arbitragens estão e estarão sempre no centro da polémica em torno do futebol. E há que aceitar este facto. Ainda recentemente, no Inter de Milão contra o Barcelona, a maioria do mundo viu o banho táctico com que José Mourinho manietou a equipa de Guardiola. Claro que os catalães preferiram desculpar-se com Olegário Benquerença. Claro que a arbitragem do nosso compatriota teve erros. Mas dizer que foi por aí que o Inter se superiorizou ao Barcelona é o mesmo que ignorar a capacidade de trabalho e o estudo sério das coisas do futebol. Como disse Snejider, um dos craques do clube italiano depois de ouvir Mourinho durante duas horas antes do jogo: «Foi fantástico. Antes de entrarmos em campo já sabíamos exactamente como lhes íamos ganhar».

6 Hoje, à tarde, o Pavilhão Atlântico vai encher-se, não para um espectáculo musical, nem para qualquer actividade política. Os amantes do futsal vão poder assistir a uma final entre duas das mais poderosas equipas da Europa. E nós, benfiquistas, lá estaremos a apoiar os nossos jogadores com a mesma convicção e a mesma fé com que ontem enchemos o Estádio da Luz. É aquela força imensa que merece soltar-se a qualquer momento. Com a consciência que vamos viver, entre hoje e o 1.º de Maio, a semana em que se exaltam a liberdade e o trabalho. E também o desporto sentiu a liberdade e reconhece o valor do trabalho.



12 abril 2010

Eu estive lá - Por Fernando Seara


Por Fernando Seara in A Bola

1
Eu estive lá. Nessa quinta-feira fria que se viveu na cidade dos Beatles. Recordando-os, diria que o estado de espírito que se viveu naquelas bancadas coloridas por muitos vermelhos, ou melhor, por vermelhos de muitos tons, variou entre o Imagine, o Let it be e o Give me peace at chance. Todos imaginámos, de um lado e do outro, que a qualidade das nossas equipas se evidenciaria no relvado e permitiria a passagem da eliminatória. Depois, todos entendemos que o jogo ganhou vida própria, fruto das muitas circunstâncias que se foram vivendo e reflectindo no comportamento das equipas e dos jogadores. Desde o primeiro golo — e que estranho que foi — à reacção do Benfica, ao segundo golo — que gelou a alma benfiquista —, ao fantástico livre de Cardozo — que tudo voltou a questionar —, à reacção final, calculista e fria, do Liverpool. E, finalmente, por entre tanta e tanta emoção, perante um jogo disputado e aceso, com domínio territorial do Benfica e a exuberante rapidez do contra-ataque inglês, todos aguardámos uma paz final, paz que enobreceu os contentores, dignificou as equipas e salvaguardou a honra internacional de clubes com um historial tão rico como aqueles que desfilaram na passerelle de Anfield.

2
Eu estive lá. Com milhares de portugueses. Alimentando um sonho comum: o regresso do Benfica ao topo do futebol europeu. O resultado foi pesado demais para quem tanto porfiou. Ao contrário de muitos críticos, não vi nem apatia, nem menos apetrechamento táctico, nem poupança de esforço. Jorge Jesus montou a equipa com uma lógica perceptível. Tapar os flancos e contrariar o balanço do futebol do adversário. A força física e capacidade defensiva de David Luís garantia-lhe isso à esquerda e a polivalência e rapidez de Ruben Amorim, combinado com um Ramirez mais rotinado nas dobras defensivas do que Di Maria, assegurava-lhe esse desiderato à direita. Jesus sabia — e demonstrou sabê-lo — que o grande adversário do Benfica neste jogo seria a rapidez dos ingleses. Quis prevenir, reforçando o meio-campo e dando músculo às laterais. O problema, a meu ver, não foi, porém esse. Foi um Liverpool com uma exibição inteiramente conseguida e um Benfica exaurido de muitos jogos, pondo alma nas pernas e fazendo das tripas coração. Ver Luisão em manifesto esforço e sacrifício, como Cardozo, como Ramirez, como Javi Garcia, como Di Maria, dando tudo o que podiam, mas não podendo ultrapassar as debilidades humanas que lhes prendiam os músculos e lhes causticavam as pernas. Porventura à excepção de David Luiz, sempre em jogo e sempre em campo, sempre à procura da bola, sempre em velocidade, imune ao sofrimento e inconformado com o destino, o Benfica esgotou-se em campo. Jorge Jesus tinha avisado. 24 horas de repouso e recuperação teriam feito a diferença. E, demonstradamente, tinha razão.

3
Eu estive lá. E vi o convívio entre os adeptos de ambos os clubes, a camaradagem entre claques, sem violência, sem crispação, sem azedume. Estavam ali para assistir e participar num grande jogo de futebol. Por isso, ouviam-se aplausos indiferenciados a jogadas de espectáculo, aos artistas que marcavam o seu talento desenhando lances e passes naquele tapete verde que recebeu intérpretes de eleição como tal reconhecidos por um público também de eleição. Assistir a esta vivência colectiva e contagiante — em que, no final do jogo, mais tristes uns, mais contentes outros, todos festejaram em conjunto a festa do futebol — num País e numa cidade que viveram, combateram e venceram o hooliganismo constitui um sentimento reconfortante e esperançoso. É certo que no Reino Unido governava então Margareth Tachter; É certo que não se entreteve em discussões e grandes e sofisticadas laborações legislativas; É certo que o Estado assumiu muitos dos poderes públicos que estavam entregues às federações; É certo que fechou estádios, impôs jogos à porta fechada, criou bases de dados de delinquentes desportivos, impediu entradas em recintos desportivos, lembrou, enfim, o movimento desportivo de que nada poderá justificar a violência e que o Estado não pode deixar de utilizar os poderes necessários para a combater. O resultado está à vista. Os estádios estão cheios. A festa do futebol regressou. Os desordeiros não cabem neste ambiente.

4
Eu estive lá. E vi as manifestações de desagrado dos adeptos do Liverpool relativamente ao domínio accionista do clube por interesses americanos. Não é só o patriotismo — ou uma certa imagem dele — a falar. É a concepção de que o futebol não pode ser apenas e somente negócio. O futebol sem paixão, sem alma e sem chama definha. E dominar um clube implica partilhar estes mesmos sentimentos e não considerar o jogo como uma mera actividade económica. A emoção faz parte deste mundo. E só quem a sente e vive pode exercer o seu domínio. Esta a última lição de Anfield.

5
Quando regressei sexta-feira a Sintra, um miúdo abeirou-se de mim com ar apreensivo e perguntou-me: «Presidente, vamos ganhar ao Sporting, não vamos?». Respondi-lhe: «Claro que sim. Então não vez a águia Vitória sobrevoar o Estádio da Luz mesmo em noites de vendaval?» E na próxima terça-feira lá estarei para assistir a mais uma grande exibição desta equipa que não sucumbe nem se apaga. Como diz o nosso hino, «ser benfiquista é ter na alma a chama imensa»!

6
Eu estive lá. Na primeira final da Taça de Portugal de futebol feminino no Estádio Nacional e que opôs o Boavista ao 1º de Dezembro. O 1º de Dezembro, um dos clubes emblemáticos de Sintra, venceu, goleando, e com muito mérito, a edição deste ano. Para além dos cumprimentos à estrutura directiva e técnica, permitam-me que evidencie duas jogadoras. Em primeiro lugar, a mulher do jogo: Carla Couto. Em segundo lugar, o último jogo oficial, nesta competição, de uma das grandes senhoras do futebol feminino em Portugal, Carla Cristina. Valeu a pena ter estado lá.

30 março 2010

A honra ao poder e o assalto - Por Fernando Seara



Por Fernando Seara in A Bola

1 Para alguns a honra é a poesia do dever, como escreveu um dia alguém. Mas para outros, a honra observa-se como vemos as estrelas: de longe, muito longe mesmo. No caso dos primeiros incluo Hermínio Loureiro, presidente demissionário da Liga de clubes. Os segundos, não merecem ser nomeados. Tenho o grato prazer de conhecer Hermínio Loureiro de há vários anos a esta parte. E pressinto que o gesto que agora entendeu dever assumir, concorde-se ou não, é certamente fruto de uma situação extrema.
No meu entendimento, a demissão de Hermínio Loureiro foi um grito de revolta, o murro na mesa que urgia dar perante o conjunto de factos que ocorreram nos últimos tempos e que culminaram com as decisões finais dos casos Hulk e Sapunaru. É também a afirmação do princípio da responsabilização política que não é muito habitual nos tempos que correm, seja nos meios políticos, económicos e financeiros ou no próprio desporto. A demissão ocorre obviamente na sequência de um acórdão do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol em que o deliberado extravasa a justiça desportiva. Principalmente pelas consequências que derivam da mesma decisão do órgão máximo da justiça desportiva portuguesa.

Nem eu nem a esmagadora maioria dos portugueses conhece o conteúdo integral do acórdão do Conselho de Justiça. Em jeito de conclusão, a partir de tudo o que foi publicado, extraio que a questão central radica na definição da figura do steward, ou assistente de recinto desportivo, como interveniente no jogo ou como equiparado a espectador. Isto é público. E não ignoro que a decisão do Conselho de Justiça, mesmo que tenha sido proferida por unanimidade — o que desconheço — terá certamente motivado uma saudável discussão entre os membros daquele órgão. Estou convicto que o acórdão do Conselho de Justiça será igualmente fundamentado quanto o que foi proferido pela Comissão Disciplinar da Liga de clubes.

Se a diferença entre os dois é, como creio que aconteceu, apenas quanto à integração disciplinar dos assistentes de recintos desportivos, o certo é que, até como decorre da confirmação da suspensão do jogador Vandinho do Sporting de Braga, deve-se suscitar brevemente a questão da suspensão preventiva de jogadores que cometam certo tipo de actos, suspensão aprovada em Assembleia Geral da Liga de clubes, por impulso, recordemos, do FC Porto. Mas a partir desta questão jurídica, permitam-me três notas complementares.

O futebol português está cheio de situações em que o Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol revogou total ou parcialmente muitas deliberações do próprio Conselho de disciplina da mesma Federação ou, mais recentemente, da Comissão Disciplinar da Liga de clubes. Há processos famosos que a minha memória regista, alguns dos quais em que fui directo interveniente.

A segunda nota serve para evidenciar que a deliberação do Conselho de Justiça representa, na minha modesta opinião, a primeira parte do assalto ao poder à presidência da Liga. Todos sabemos que o dr. Hermínio Loureiro passou a ser mal amado por alguns protagonistas do nosso futebol e todos lemos, nas últimas semanas, nomes de candidatos reais, putativos e auto-candidatos à liderança da Liga. Rui Alves, Fernando Gomes ou José Couceiro são nomes escutados e, em certos casos, já sujeitos a aprovações prévias. Mas nesta sede acredito que ainda há muita água para correr por baixo de algumas pontes, sejam elas, por exemplo, do Freixo ou da Arrábida.

A última nota diz respeito ao dr. Hermínio Loureiro. Acreditou na Liga de clubes e dedicou-se a ela. Acreditou que podia arranjar patrocínios e conquistou-os. Acreditou que podia fazer uma mudança nas mentalidades mas, aqui, constatou que o peso de algumas personalidades não o permitiria. Acredito que escutou, no momento da demissão, palavras confortáveis de muitos dirigentes de clubes e, naturalmente, dos seus colegas da Direcção da Federação Portuguesa de Futebol. Mas o que permanece certo é que soube sair da mesma forma como entrou, com a dignidade intacta de um homem da Beira. É que todos sabemos que aquilo que se aprende no berço nos acompanha até à hora da morte. Mesmo que alguns, noutras situações, nos toquem com a faca nas costas. Mas isso são já outros contos que ficarão para a nossa memória, sempre muito selectiva…

2 A derrota do Sporting no estádio dos Barreiros na última sexta-feira vem confirmar a certeza de que há uma verdadeira revolução silenciosa em Alvalade. É que nem a eliminação frente ao Atlético Madrid, nem o confuso caso Izmailov, conseguem explicar uma oscilação tão grande nas exibições e nos resultados obtidos pela equipa durante o consulado de Carlos Carvalhal, porventura o menos culpado por toda a irregularidade manifestada em campo. E estou em crer que até ao final da presente época muitas e diversificadas serão as novidades oriundas de Alvalade. A derrota na Madeira evidencia uma relativa intranquilidade exibicional, porventura motivacional. Mas é bom recordar que o que importa a muitos sportinguistas é uma palavra do seu próprio lema: honra.

3 A vitória do Benfica ontem à noite frente a um Sporting de Braga que mostrou, principalmente na segunda parte, a qualidade superior que vem evidenciando nesta Liga abre-nos a janela do título. Foi uma vitória justa mas que mostrou de vez em quando um Benfica com uma natural ansiedade. Mas ontem no estádio da Luz ganhámos mais um assalto na luta pelo título que ambicionamos. Foi um jogo de competitividade elevada, um dos grandes jogos deste campeonato. Honra à equipa vencida. Honra, muita honra ao Benfica vencedor. Em que o golo foi do capitão, recordando-nos aquele outro bem decisivo frente ao Sporting no último campeonato que conquistámos.

22 fevereiro 2010

Por cá e por lá



Por Fernando Seara in A Bola

1 Portugal vive um momento histórico complexo e perigoso. A autoridade do Estado parece ter sucumbido à praça pública que domina e condiciona pela sua frenética vozearia. A Polícia vive da coragem e do voluntarismo dos seus agentes, lutando em completa desigualdade contra fenómenos de criminalidade organizada e enfrentando uma lógica desculpabilizadora do infractor e responsabilizadora da acção repressiva que dela se espera. Os tribunais são quotidianamente desautorizados pela perspectiva primária de um justicialismo de pacotilha próprio de uma sociedade que troca os valores pelas emoções, a justiça pela paixão, a verdade pelo rumorejo. Seria um milagre que a Justiça Desportiva escapasse a esta onda avassaladora de desconfiança e incompreensão.

2 O Acórdão proferido pela Comissão Disciplinar da Liga sobre o Caso do Túnel da Luz constitui um exemplo de preocupação em alcançar a decisão justa. Será, certamente, criticável, como criticáveis são todas as análises de facto e todas as decisões de direito. Mas merece respeito e ponderação. São 122 páginas que reúnem uma fundamentação exaustiva na apreciação da prova, um estudo credível e apurado dos regimes legal e regulamentar aplicáveis, um labor indiscutível de coerência, de pormenor, de cuidado e de rigor. Foi objecto de deliberação unânime, sem oposições ou reservas. Consubstanciou uma condenação radicada em factos concretos e não em suposições ou deduções. Não é inexpugnável. Nenhuma sentença o é. Mas é um acto de seriedade e de competência. Pelos factos detalhadamente descritos e provados condena os jogadores do Futebol Clube do Porto que comprovadamente agrediram o agente de recinto desportivo, numa atitude que não poderia deixar de ser censurada. Como todos admitem e reconhecem. O que causaria espanto e perplexidade seria se, perante aquela situação, tal não acontecesse. Mais questionável já é a sanção aplicável ao Benfica, reconhecendo-se, por um lado, que em nada contribuiu, por acção ou omissão, para os acontecimentos e, por outro, imputando-se-lhe comportamento negligente. Incongruência dificilmente perceptível.

3 Mas de todos os factos em análise o que verdadeiramente se estranha é a omissão de qualquer sanção aos dirigentes do Futebol Clube do Porto que nada fizeram para impedir todo este lamentável episódio. Como se estranha que jogadores que assim se comportaram sejam objecto de homenagem interna, como se de vítimas se tratassem, e não alvo de sancionamento disciplinar interno por comportamento impróprio que lesou gravemente os interesses desportivos e económicos da sua entidade patronal. Ou seja, parece estar já a ser fabricado um discurso de justificação de insucesso, com base na velha teoria do inimigo externo, considerando que o mundo inteiro está contra o Porto clube, o Porto cidade e até, delirantemente, contra o Porto Região Norte. Este discurso é velho de décadas. Tem autor e rosto. Mas quando Pedroto treinava, o futebol era diferente, as SAD's não existiam e não estavam cotadas em Bolsa. Os interesses económicos tinham outro peso. Os empresários pouca influência. Os fundos de investimento nenhuma participação. Os direitos de transmissão televisiva inexistiam, com um só canal público. Por isso, tudo parece deslocado. Esta onda de pronunciamentos sobre o acórdão da Comissão Disciplinar, com algumas opiniões de ilustres juristas e até Doutores em Direito que podem ser contraditadas por outras de igual valor e idêntico quilate, esquece que o futebol carece também de autoridade e de respeito, principalmente quando em causa estão actos fundamentados, criteriosos e assumidos de rosto inteiro, sem subterfúgios nem jogos de espelhos. Tudo o resto, desde as declarações de jogadores até tomadas de posição de dirigentes, é um pouco mais de folclore neste mundo de demasiada cenografia.

4 Os jogos europeus disputados pelas equipas portuguesas foram o melhor contributo para o respeito pelos árbitros nacionais. O que se passou no Estádio do Dragão, em Liverpool, em Munique e em Berlim — entre os jogos que tivemos a oportunidade de ver — foram hinos à incompetência dos árbitros. Mas também vimos em Milão, num frente a frente entre dois colossos do futebol mundial, o AC Milan e o Manchester United, uma actuação competente, reconhecidamente competente, do quarteto português liderado por Olegário Benquerença. E que viu, até, Sir Alex Ferguson reconhecer a justeza da expulsão, por duplo cartão amarelo, do seu jogador Carrick. Constatamos, assim, que se fala mais alto, com voz mais forte e para consumo interno, nas desconfianças de actuações de árbitros, o que perturba, sem sombra de dúvidas, a credibilização de cada competição. É o que acontece entre nós, tal como em Espanha ou em Itália. Mas se aquilo que todos vimos, quer na Liga dos Campeões, quer na Liga Europa, tivesse ocorrido na Liga portuguesa, meu Deus, cairia o Carmo e a Trindade. Decorrendo sob a égide da UEFA, tudo passa com um vago lamento… É o nosso fado. Mesmo nosso. Só nosso.

5 Por cá, discutimos a disciplina, as arbitragens e outras questões que nos abalam a emoção e perturbam a paixão. Por lá, lá por fora, vemos e calamos. Calamos mesmo. Mas, hoje, não podemos deixar de endereçar uma imensa palavra de solidariedade à Madeira pela tragédia que a atingiu. O desporto, todo o desporto português, deve desencadear um abraço imenso. Um imenso abraço de solidariedade.

02 fevereiro 2010

Corrida a três


Por Fernando Seara in A Bola

1 O Clube Desportivo de Santa Clara, dos Açores, está a festejar o seu 89.º aniversário. Clube ecléctico e com um largo historial, é o mais representativo do futebol açoriano, tendo sido aqui que Pedro Pauleta iniciou a sua carreira de jogador federado. O Santa Clara foi fundado num bairro de gente humilde, maioritariamente composto por pescadores, mas soube sempre adaptar-se às novas realidades e desafios. Nos dias de hoje, 89 anos depois, a realidade do Santa Clara apresenta uma imagem renovada, apresentando-se como um dos expoentes máximos do serviço público que os movimentos associativos prestam aos cidadãos, neste caso ao nível do desporto e da actividade física dos habitantes da Ilha de São Miguel. Insularidades à parte, é bom tomar conhecimento destas realidades que, visando o bem comum, persistem em manter-se e a evoluir por muitas que sejam as adversidades dos tempos que correm. Parabéns, Santa Clara!

2 No arranque das festividades deste 89.º aniversário, participei, na última sexta-feira, a convite simpático da Direcção do Santa Clara e da comissão organizadora das mesmas, num interessante colóquio que teve como palco o hospitaleiro auditório da Universidade dos Açores. Escutámos o sentimento desportivo do navegador solitário Genuíno Madruga que, com as suas duas voltas ao mundo, levou o abraço açoriano aos diferentes mares que defrontou. Mas, ao mesmo tempo, pressentimos o anseio que invade o treinador do Santa Clara, Vítor Pereira, quer na busca do desejado resultado desportivo de subir à principal Liga, como também na reflexão acerca da urgência de mais infra-estruturas desportivas para o clube mais representativo da Região Autónoma dos Açores. Mas, se o nosso, aqui de A BOLA, Fernando Guerra, e uma das referências do jornalismo desportivo açoriano, João de Brito Zeferino, me permitem, o centro das atenções foi o Pedro Pauleta. O embaixador do desporto e do turismo açoriano, o desportista exemplar, o cidadão humilde e responsável e, acima de tudo, o homem que sente as suas raízes e que no regresso saudado a casa procura motivar os jovens para o desporto mas, antes de mais, lhes diz que a escola é o primeiro espaço para o êxito. Para o êxito como cidadão, pressuposto para o êxito desportivo. As onze horas que passei, numa corrida contra o tempo, na ilha de S. Miguel, levam-me a acreditar que para o ano, no momento do 90.º aniversário, as gentes do Santa Clara terão um sorriso acrescido e a diáspora açoriana razões para, através do futebol, sentir que também partilha os grandes palcos deste desporto universal. Pedro Pauleta bem poderia, no final do debate, sentir-se feliz. O reconhecimento pelo seu passado e a importância do seu contributo presente percorreram o auditório da Universidade dos Açores.

3 Foi incontestável a vitória do Sporting de Braga sobre o homónimo lisboeta que, assim, interrompeu uma série de jogos vitoriosos sob o comando de Carlos Carvalhal. Naquele que era considerado o jogo grande desta jornada, os minhotos impuseram os seus atributos de equipa unida, plenamente consciente do que se está a passar no relvado e, acima de tudo, muito ambiciosa. Mesmo sem o chamado domínio territorial do jogo, os comandados de Domingos Paciência revelaram argumentos individuais e colectivos para continuarem a bater-se, de igual para igual, jornada após jornada, com Benfica e Futebol Clube do Porto, lançando a pressão de ganhar sobre os seus mais directos adversários no topo da tabela classificativa. E o mérito por esta atitude cabe inteiramente ao seu treinador que, assim, se revela como mais um jovem quadro técnico em ascensão no panorama do futebol português, mantendo a sua equipa blindada de todas as questões colaterais ao jogo jogado no relvado e que têm sido sobejamente ventiladas na Comunicação Social. Ao futebol o que é do futebol, à Justiça o que é da sua alçada. Mas sempre com a convicção que o direito tem que vencer o torto. Todo e qualquer torto!

4 Os dois principais jogos de ontem, o da Choupana e o do Estádio da Luz, permitem antecipar uma corrida a três pelo título de campeão nacional nesta época desportiva. Foram dois jogos com golos bonitos, principalmente os dois de Carlos Martins. Mas, também, foram dois jogos em que sentimos a falta de uniformidade da arbitragem portuguesa. Houve lances idênticos julgados de formas diferentes. Decisões tomadas sob o ponto de vista disciplinar que, num relvado, foram desculpadas e, em outro, foram sancionadas com cartões. Em ambos os jogos, duas das equipas intervenientes terminaram com menos um jogador. Mas é indiscutível que, na Madeira, Manuel Machado tem razões para se recordar do jogo de ontem, no seu regresso ao banco na competição profissional de futebol. É um regresso que todos saudamos. Mas é um regresso que nos mostrou que, por vezes, era bom que Cristo descesse à terra. Para ver o torto. E para, uma vez mais, proclamar a justiça e a verdade.

5 No futsal foi o domínio ibérico. A Espanha venceu e Portugal conquistou a medalha de prata. Agora, nos próximos tempos, vamos ouvir falar, e muito, do mundo ibérico. Pelo menos em termos de futebol. É o novo iberismo a sonhar com a organização do Campeonato do Mundo de futebol em 2022. Em razão das lógicas continentais. E serão três campeonatos até lá.

24 janeiro 2010

Solidariedade e justiça



Por Fernanado Seara in A Bola

1 A tragédia do Haiti sensibilizou toda a opinião pública mundial. Ninguém, absolutamente ninguém, consegue permanecer insensível aos milhares e milhares de dramas humanos que nos são transmitidos em directo pelas televisões. Como alguém dizia, o destino tem sempre um lado de incompreensibilidade e outro de ironia. As grandes catástrofes geralmente atingem quem menos preparado está para as suster. A pobreza parece favorecê-las e atraí-las como um íman. A realidade, porém, é outra e brutal. Os anacronismos constituídos por muitos países, submersos na corrupção, dominados pelo crime, subsistindo à custa da opressão dos povos, sem Estado, nem organização, nem condições mínimas de dignidade asseguradas às suas populações emergem como capa de revista nos momentos em que se transformam em notícia. No ínterim a comunidade internacional vai esquecendo-os. O Haiti, outrora colónia francesa e entreposto de escravos, tem uma história dramática de existência e de ostracização. Foi preciso um terramoto devastador para nele repararmos de novo. Pode ser que por entre os escombros renasça uma realidade diferente e que a centena de milhar de mortos dê um futuro diferente aos que, por sorte ou milagre, sobreviveram. Perguntarão o que têm estas considerações a ver com o desporto. Tudo. O desporto é um fenómeno universal, expoente de humanidade e de solidariedade. Isto mesmo será vivenciado hoje, pela iniciativa da Fundação Benfica e dos amigos de Zidane. Este jogo confere completo sentido à designação que nós, benfiquistas, damos ao nosso estádio — a Catedral. A Catedral do futebol e, sendo Catedral, um espaço de convergência, de acolhimento e de compaixão. A Catedral da Luz irá receber os melhores dos melhores da última década futebolística. Grandes estrelas que demonstram ser grandes homens. Unidos na alegria do jogo e no amor ao próximo. Convergentes no fazer bem e no bem fazer. Para deleite dos nossos olhos e auxilio dos que sofrem. Que ninguém falte. Independentemente de clubismos e de paixões. Parabéns à Fundação Benfica e aos meus amigos Luís Filipe Vieira, Carlos Moía e Rui Costa. Lá estarei para os aplaudir e dando algo a quem necessita de tudo.

2 Muito foi dito e escrito sobre o momento difícil que atravessa o Sporting. Os acontecimentos de quarta-feira não indiciam nada de bom. Mas tenhamos alguma distância e prudente reserva. Não sejamos precipitados nos juízos e nas valorações. Desconhecemos até agora a versão de Sá Pinto. Mas todos, todos em uníssono, insistem em crucificá-lo. Atribuem-lhe responsabilidades e culpas não em função dos factos, que, em rigor, se ignoram, mas do seu passado, qual mácula que o acompanha para todo o sempre. Insurrecto uma ou duas vezes, insurrecto toda a vida. Pior. Insurrecto uma vez, presumível responsável em todos os incidentes em que seja envolvido. Ora, isto nem é justo, nem é sério. Sá Pinto poderia não ser, na óptica de alguns, a escolha ideal para a direcção desportiva do Sporting. É um homem sanguíneo e impulsivo. Mas o que se sabe foi que advertiu publicamente Liedson pela sua atitude de impetração dos sócios que assobiavam o seu guarda-redes num lance inconcebível de desleixo e falta de concentração, dizendo-lhe que o descontentamento do público é merecedor de respeito porque é ele o destinatário último do trabalho de todos. Quis reunir a equipa após um jogo em que a permissividade, falta de empenho e facilitismo dos jogadores foram evidentes. Um jogador reage mal e tudo termina numa triste e indecorosa cena de pugilato, ignorando-se quem a começou. Episódio que tendo ocorrido no interior do balneário — que se deseja estanque — foi difundido no exterior com a rapidez de um meteorito. Se tudo isto ocorresse numa empresa, a reacção do director seria acatada e, se fosse excessiva, seria objecto de intervenção correctiva da administração. Se um trabalhador se insurgisse ostensivamente contra um director e o agredisse seria objecto de um processo disciplinar e de uma sanção de despedimento com justa causa. Aqui tudo ocorreu ao contrário. Porquê? Muito simplesmente porque a figura de director desportivo é mera retórica e o conceito de activo que consubstancia Liedson obriga a entidade patronal a consentir-lhe tudo, evitando, ao limite, a sua desvinculação que conformaria milhões de euros perdidos. Ora, Liedson sabe disto. Como todas as grandes estrelas. Dominá-las, impor-lhes regras de disciplina e de respeito, não é fácil e está ao alcance de poucos. São necessárias estruturas complexas e altamente profissionalizadas para o fazerem. E, sobretudo, estruturas dotadas de autoridade exercida verticalmente e sem fissuras, sabendo o jogador que acima dele se encontra uma cadeia hierárquica unida e que não claudica. Ora, esta é a grande diferença do Sporting de hoje para o Benfica e para o FC Porto. Paulo Bento foi massacrado por assumir tudo a uma vez. Sá Pinto foi corrido como bode expiatório de um situação que não conseguiu dominar. Carlos Carvalhal não ganhou ainda a autoridade necessária para dominar o balneário. E a administração vê-se perdida neste cenário. Independentemente da sanção que for aplicada a Liedson, o simples facto de, depois de agredir o director desportivo em funções, permanecer em Alvalade revela a perpetuação da indisciplina que vem vitimando o Sporting, mesmo perante a obstinada cegueira de alguns e o facciosismo exacerbado de outros que não lhes permite ver os exemplos bons que existem ao seu lado.

3 Este episódio justificou e fez compreender todas as atitudes assumidas por Paulo Bento. O tempo deu-lhe razão. Ou, como diz o povo, a verdade é como o azeite e vem sempre ao de cima.

27 dezembro 2009

Boas festas



Por Fernando Seara in A Bola

1 O relvado do estádio da Luz, no domingo passado, recebeu o clássico disputado entre o Benfica e o Futebol Clube do Porto, longe das excelentes condições que habitualmente proporciona para a realização de um jogo de futebol. Claro que a modalidade foi inventada na pluviosa Inglaterra, ainda no século XIX, e é um desporto eminentemente de ar livre. Porém, e bem, a natural evolução competitiva, táctica e física, desaconselha a utilização de relvados em muito mau estado, tendo em conta o valor superior da saúde e segurança dos atletas. Mas em diferentes momentos do jogo de domingo, e perante os intensos dilúvios que têm caído um pouco por todo o país, dei por mim a pensar na falhada cimeira de Copenhaga e, mais importante, nas alterações climáticas que mudarão a face do planeta a curto e médio prazo e, inevitavelmente, do próprio futebol. Sem querer alinhar numa visão catastrófica, considerei então ser indiscutível que também este fenómeno já sentido à escala global, acabará por trazer alterações evidentes à prática desportiva disputada ao ar livre. E não falo apenas em arquipélagos como os de Tuvalu ou das Maldivas, em risco de verem o seu território literalmente erradicado deste nosso mapa mundi. Mesmo no nosso burguês conforto europeu, e perante a radicalização de uma crescente alternância entre nevões imprevisíveis, pluviosidades intensas e secas extremas, divaguei um pouco sobre o que acontecerá aos calendários competitivos, aos próprios treinos e, claro, aos belos relvados naturais que agora conhecemos como palco do futebol de alto nível. Será que estamos condenados à relva artificial? Será que conseguiremos inventar algo que resista a condições atmosféricas extremas? Terão os recintos de ser integralmente tapados? E será que isto não irá mudar a face do futebol, tal como o conhecemos agora? Interroguei-me, assim, se os meus netos irão ver o mesmo jogo que desde sempre me apaixona e como serão as condições de vida objectiva que terão de enfrentar a nível ecológico no seu quotidiano. E agora, tarde de mais para voltar atrás, há que não continuar a meter a cabeça na areia…

2 Mas o futebol e as suas incidências concretas influenciam igualmente o clima social e humano. Antes do jogo, alguns benfiquistas confessavam a sua «descrença», ao invés dos adeptos do Futebol Clube do Porto, plenamente confiantes. No final, assistiu-se a uma total inversão dos sentimentos. Sendo verdade que muito ainda há para jogar nesta época, é certo que a barreira psicológica do Natal, ou de fim de ano, apresenta-se plenamente favorável ao Benfica, como não se via já de há alguns anos a esta parte. Pelo contrário, no campo portista começa a ser cada vez mais visível a contestação, justa ou não, a algumas opções do técnico Jesualdo Ferreira e à política de contratações do clube. E estes são factores que permitem prever uma segunda volta da Liga muito disputada e sempre pautada pela grande surpresa da temporada, o Sporting Clube de Braga de António Salvador e Domingos Paciência, equipa embalada por um crescente entusiasmo da cidade e da comunidade bracarense. Embora já muito afastada da luta pelo primeiro lugar, acredito contudo que a equipa do Sporting, ao contrário do que por aí se vai dizendo, fará uma grande segunda volta nesta Liga, exercendo um papel determinante na divisão de pontos e no condicionamento psicológico e desportivo dos seus adversários. Por tudo isto, julgo que teremos uma interessante disputa até Maio, mesmo nas vésperas do Mundial da África do Sul.

3 Quase inacreditável é a reserva de admiração que o jovem Lionel Messi sofre no seu próprio país natal. A Europa e todo o Mundo curvaram-se perante a categoria e o exemplo profissional do astro do Barcelona que herdou do nosso Cristiano Ronaldo o título de melhor do mundo. Mas, seja pelo golo que marcou à equipa argentina que disputou com o Barcelona a final do Mundial de clubes, seja por outra coisa qualquer, o certo é que o título de melhor desportista argentino do ano acaba de ser atribuído a Del Potro, um excelente tenista, mas apenas 5º no ranking mundial ATP. Sabe-se, de há muito, que santos da casa não fazem milagres… Mas o nacionalismo, na sua faceta exacerbada, apenas contribui para que, neste caso, esteja a ser cometida uma grande injustiça sobre um dos mais fantásticos e criativos futebolistas que emergiram nos últimos anos.

4 Mas, hoje e agora, sentimos os ecos da alegria do nascimento do Deus Menino que em Jesus se fez Homem e portador do inestimável dom da Paz. A Mensagem do Natal é da mais belas elegias ao amor e à solidariedade. Para nós, cristãos, todos sentimos a verdade de sermos membros de um só corpo, filhos do mesmo Pai e irmãos em Cristo Jesus. Esse sentimento, verdadeiro, autêntico, expresso em tantas e tantas formas, é um alimento de esperança que nos faz enfrentar as enormes dificuldades que se adivinham com a serenidade possível. E também no desporto — semeado hoje em dia por tantos fenómenos de violência, de agressividade, de corrupção e assolado pelo flagelo do doping, como se a vitória, por si só, fosse o princípio e o fim de tudo — precisa de sentir a essência da beleza impar desta mensagem natalícia. A reaproximação dos homens pelo desporto, o reencontro das virtudes fundadoras do olimpismo, a redescoberta das virtudes libertadoras da prática desportiva serão decorrências de uma visão da sociedade e do Mundo como nos foi revelada naquela noite em Belém. É, pois, com a convicção que está nas mãos e na vontade de todos e de cada um renascermos em cada dia para uma vida de paz, de fraternidade e de solidariedade, que desejo a todos os desportistas Boas-Festas e um Ano realmente Novo.

06 dezembro 2009

Protagonismos e protagonistas



Por
Fernando Seara in A Bola

1 Incontornável o comentário sobre o duelo dos eternos rivais. O Sporting-Benfica de sábado, dia 28, não constituiu qualquer surpresa. Nem para mim, nem, estou convicto, para Jorge Jesus. O Sporting jogava, efectivamente, a sua derradeira oportunidade de almejar atingir o topo da classificação e de ainda alimentar expectativas de disputa da Liga. Os jogadores sabiam que em causa estava mais do que um derby, mas o seu brio profissional e a sua reconciliação com os adeptos que, por muitas voltas que se dêem, continuam a ser determinantes na lógica de contratualização de todas as equipas. Carvalhal conhecia que do resultado dependia o seu estado de graça e a tranquilidade necessária para o desenvolvimento do seu trabalho. Por tudo isto, o Sporting exultou com o empate. Um empate que, nestas precisas circunstâncias, lhe soube a uma pequena vitória. Não contra o Benfica (que não foi nem se sentiu derrotado) mas contra a adversidade, as contingências e os muitos e prolixos maus augúrios. O Benfica reconquistou um grande jogador. Quim demonstrou à saciedade que é o melhor guarda-redes português. Precisava de uma exibição de «fazer o olho». E teve-a. Queiroz sabe, melhor do que ninguém, do que precisa para a campanha da África do Sul. Quim dará confiança. É um dos poucos guarda-redes portugueses que oferecem garantias de desempenho e tranquilidade exibicional. Certamente como Eduardo. Embora com características, experiências e qualidades diferentes.

2 O Benfica está a atravessar a fase que Jesus previu no início da época competitiva. Os adversários já conhecem a exuberância do jogo do Benfica, jogam numa lógica de redução de espaços e marcações apertadas, usando, por vezes, de alguma violência e tentam assim evitar as explosões desse grupo de artistas que é a sua linha avançada. As exibições têm sido, por isso, mais parcimoniosas. Mas não menos empenhadas, nem esforçadas. A pujança física e a capacidade técnica estão lá. Como o fio de jogo, a consistência e a vontade de vencer. Com o capitão Luisão e o reagrupamento da defesa, estou convicto que prosseguirá este Benfica o seu rumo em busca do título que merece e tanto deseja.

3 Curiosa a estatística publicada sobre os jogos da Liga. A equipa do Benfica de Jesus — o tal treinador que muitos etiquetavam, com base numa afirmação sua, como desconhecedor do fair-play — exibe o melhor comportamento disciplinar. Ainda que não pare o jogo por causa das cenas de cinema que alguns jogadores teimam em desempenhar no campeonato português, utilizando a simulação de forma despudorada.

4 Lionel Messi venceu, este ano, a Bola de Ouro. Indiscutível a sua genialidade. O argentino é um jogador raro. Alia a sua qualidade e fantasia ao trabalho colectivo e a uma humildade e simplicidade enternecedoras. Messi é a anti-vedeta. E ao sê-lo granjeia simpatias, adesões e fiéis. A sua introversão, o seu apagamento externo, a sua reserva pública cria nele uma auréola que o promove, o eleva e o prestigia. Cristiano Ronaldo será, com Messi, o jogador destes tempos. Não sei quem será melhor ou pior. Jogam de forma diferente, em esquemas tácticos diferentes, com características diferentes. São ambos os melhores. Ninguém o duvida ou questiona. A diferença entre estes dois génios do futebol está nas suas personalidades. Ao contrário de Messi, Ronaldo é a estrela e gosta do brilho de ser a estrela. É exuberante, glamoroso, chamativo. Capitaliza o protagonismo e a exibição. Vive a vida com a alegria com que joga. São o ponto e o contraponto. Como o foram Ingrid Bergman e Elisabeth Taylor e o são Woddy Allen e Francis Ford Coppola. Mais, Ronaldo criou uma indústria em redor do seu nome que vive e se alimenta da sua exibição permanente. E aqui radica, precisamente, a preocupação de equilíbrio que deve ter. Nunca permitir que o acessório — essa indústria — se sobreponha ao principal — jogar bom futebol. Porque a sua estrela advém dos relvados e é nos relvados que, semana após semana, é posta à prova.

5 Este mundo está louco. Thierry Henry reconheceu publicamente ter cometido uma falta que o árbitro não assinalou e assim marcado um golo mal validado. Foi mais longe, expendendo que, em abono da verdade desportiva, o jogo deveria ser repetido, pondo, com essa afirmação, a Selecção Francesa de cabelos em pé. Henry assumiu o que poucos jogadores assumem. Uma genuína preocupação pela preservação dos valores da ética desportiva. Ora bem. O que deveria merecer profundos elogios pela dignidade do seu comportamento mereceu o contrário. Segundo se lê nos jornais, o presidente da FIFA, na véspera do sorteio do Mundial, instaurou um processo disciplinar ao jogador, o qual, com alguma probabilidade, o poderá impedir de na mesma participar. É, realmente, tempo de refundar a estrutura internacional do futebol e afastar estes suseranos que se perpetuam nas organizações delas fazendo feudos inexpugnáveis onde tudo é permitido, mesmo ao arrepio dos princípios enformadores do Desporto e em violação de todos os ordenamentos jurídicos.

6 Lá estaremos na África do Sul, quase repetindo o mesmo grupo do Mundial de 1966. Será uma oportunidade de, no confronto com o Brasil, saber que hino cantarão Pepe, Deco e Liedson. Mas sei bem que farão tudo pela vitória de Portugal. Mesmo contra a sua Pátria. Porque esta não se escolhe. Acontece.

30 novembro 2009

Empate e luta



Por Fernando Seara in A Bola

1 Neste fim-de-semana, Portugal e Espanha estão a viver dois jogos apaixonantes. Ontem, tivemos o nosso Benfica-Sporting. Hoje, na Catalunha, teremos um vibrante Barcelona-Real Madrid. Ao longo da semana a importância destes dois jogos foi uma realidade quer na imprensa generalista quer, naturalmente, na imprensa desportiva.
Constatei tal importância a partir de Granada — um património mundial que vale a pena visitar de dia e à noite! — e numa semana em que o Barcelona cilindrou o Inter, de José Mourinho. Mas, mesmo em semana de Champions, as atenções concentravam-se nos dois confrontos deste final de semana. O que significa que, apesar do valor económico da Liga que dá milhões, as grandes disputas internas concentram as principais atenções. É o localismo que ainda domina, fruto da história e da proximidade, das disputas e das diversões, dos próximos e dos adversários, dos nós e dos eles. E em que a tradição nas famílias se sente, se pressente e percebe. Como bem entendi, ontem pela tarde, quando me despedi do meu neto, do Alexandre Maria. Com quase três anos já percebeu que o avô sofre e muito, pelo Benfica e que o pai, torce, o suficiente, pelo Sporting. Mas ambos com a consciência que o futebol é um espaço de liberdade e de alegria. Com momentos de dor, é claro. E de exaltação. Por tudo isto cada derby é um jogo vivido e sentido. São jogos em que há memórias ( e temos tantas, tantas mesmo!), em que a paixão é exagerada ( ou não seria paixão), que permite o humor (mas só humor), que suscita , em certos momentos, a consciência da humilhação. E em que temos sempre novidades. Aqui foi o primeiro derby de Carlos Carvalhal. Que já mostrou o seu dedo na constituição da equipa. Em Barcelona será o regresso pleno à competição do nosso Cristiano Ronaldo. E no final de cada jogo está um dos encantos do futebol: o de cada um, consoante a sua cor, ter visto o jogo à sua maneira. Mesmo que, afinal, a paixão se tenha que deixar ultrapassar, num realismo assumido, pela razão. O que é indiscutível é que cada derby tem um antes, um durante e um depois. Tem a antevisão, a visão e a conclusão. Ou em rigor, as conclusões. E tem, sempre, a atenção. Dos milhares nas bancadas e dos milhões, dos muitos milhões, que em diferentes partes do mundo acompanham os jogos dos clubes (das marcas) do seu coração. Mas sempre com a consciência que para muitos dos intervenientes a bola é tudo. Tal como, aliás, nos recorda, sempre, Alfredo Di Stéfano: «A bola de futebol deu-me tudo o que eu tenho na vida— obrigada, velha!» E este sentimento é tão real que este fantástico jogador não deixou de colocar na sua casa de Madrid uma inscrição bem sugestiva: «Gracias, vieja». Foi tudo isto que sentimos , ontem, a partir de Alvalade. E será tudo isto que sentiremos, hoje, a partir de Barcelona. Com a consciência que as audiências serão bem diferentes. Mas com a certeza que nos recordamos das vitórias e procuramos esquecer as derrotas.

2 Este Sporting-Benfica terminou com um empate sem golos. O que não é um resultado comum nestes derbies. Todos recordamos jogos com alguns golos, em certos instantes de muitos golos. Todos temos memórias de encontros polémicos em que a cor do golo não se compatibilizava coma percepção da falta. Mas aqueles que acreditavam que iria ser um jogo de muitos golos não acertaram . Aqueles que diziam que não seria um jogo determinante têm razões para estar contentes. Aqueles que protagonizavam uma necessária redução da distância pontual do Sporting para a liderança da Liga terão que esperar por outra oportunidade. Aqueles que profetizaram o princípio da queda do Benfica, de Jorge Jesus, já perceberam que não acertaram. Aqueles que desconfiaram da indicação da Comissão de Arbitragem para a direcção do jogo, aceitarão que foi um exibição sem casos perturbantes. Foi, sim, um jogo em que a táctica venceu. Melhor: em que venceu a concentração. Houve acção permanente por parte do conjunto dos jogadores. Houve oportunidades para ambos os lados. E houve pressão. É que «futebol sem pressão é pelada». E neste derby houve corpo, houve luta e, até, houve, como no caso de Javi García, heroísmo. Agora é o tempo da reflexão. Do que se poderia ter feito e não foi. Do lance que se desperdiçou ao lance em que não se combinou devidamente. É o nosso tempo, depois do apito final, do treinador do sofá. Que é, também, um dos sortilégios deste futebol. Que junta todos na análise. Jovens e menos jovens. Homens e cada vez mais mulheres. De todas as raças e credos. De todos os espaços e origens. Ontem, em Alvalade. Com o nosso intenso localismo. Hoje, em Barcelona, com a certeza de um imenso globalismo. De Messi a Cristiano Ronaldo. Da disputa de duas cidades: Barcelona e Madrid. Com a convicção comum, seja em Alvalade seja em Camp Nou: «Beleza no futebol é fundamental!»


3 Nestes tempos complexos temos que agradecer, em cada dia, o sentido comum da vida. E partilhar as angústias das famílias daqueles que sofrem. Permitam-me que deseje um rápido e total restabelecimento a dois homens diferentes e que sentem de forma diversa o futebol. Um é profissional, treinador profissional: Manuel Machado. O outro é um adepto comum e um conselheiro a exercer funções de imensas responsabilidades, o juiz- conselheiro Mário Mendes. A ambos um rápido regresso às suas actividades e funções.

26 outubro 2009

Crónicas de Fernando Seara


Factos e protagonistas: A boa luz

Por Fernando Seara in A Bola

1-) Como compreenderão, não posso hoje esconder o gáudio que assola a minha alma benfiquista. A memorável noite a que assistimos na quinta-feira passada fez-me regressar às minhas infância e juventude, às noites mágicas, às célebres noites europeias que eram clarões de brilho que resplandeciam do Estádio apropriadamente designado da Luz. Sabemos todos que hoje os intérpretes são outros, como sabemos que os tempos são outros. Mas, nós benfiquistas, que passamos e sofremos tanto, reencontramo-nos perante a alegria contagiante deste punhado de jogadores que parece devorar a bola, sôfregos de glória, de reconhecimento e de triunfo. Sentimo-nos elevados ao céu, nos píncaros deste mundo cruel, que nos dá tão poucas razões para sorrir.

Conhecemos os repisados argumentos dos tradicionais detractores: o Everton jogou desfalcado, deu muitas facilidades, a defesa inglesa não existiu, etc., etc. Como se, num jogo de futebol, não fossem as forças de um a provocar as fraquezas do outro, ou como se o aproveitamento das debilidades do adversário não constituíssem mérito próprio, digno de registo e de reconhecimento.

Vá lá que a tese de que esta sucessão de resultados não passa de um mero «fogacho» se vai apagando. Não o fogacho, mas a tese. E de jogo para jogo todos vamos percebendo que há muito trabalho desenvolvido, muito treino de articulações e combinações, muita pedagogia e muita proximidade, muito espírito de equipa, muito trabalho psicológico e muita alma de vitória.

E, claro, depois a classe indiscutível de jogadores que valorizam de sobremaneira o Benfica e a Liga Portuguesa. Saviola, Aimar, Cardoso, Luisão, Javi Garcia, David Luiz, Maxi Pereira, Di María, fenómenos de recuperação futebolística a alto nível como Fábio Coentrão e Carlos Martins, e a confirmação de outros como Quim, Ruben Amorim e César Peixoto, sem desprimor para todos aqueles que, em momentos-chave, como Nuno Gomes ou Pedro Mantorras, alimentam a alma e suscitam alegria nas bancadas da Luz.

Jorge Jesus vai dando lições. De táctica, de técnica, de gestão de recursos humanos, mas, sobretudo, de humildade. No final do jogo não o vimos nem arrogante nem presunçoso. Porventura até o sentimos mais contido do que o costume no passado. Disse o que tinha de ser dito. Avisou que não merecia grandes encómios porque nada estava definitivamente ganho. Que o caminho era longo e os percalços aparecerão, mais tarde ou mais cedo, irremediavelmente. Que tudo se faz e se conquista com trabalho. Que os golos animam a equipa e os adeptos, mas é pela soma dos resultados que se alcança a vitória final. Também aqui, Jesus temperou as euforias e tentou que o Povo Benfiquista regressasse um pouco à terra. Mas, há que convir que é difícil fazê-lo com este tipo de exibições que se vão repetindo.

Ando muito pelas ruas. Vejo e falo com muita gente. A alegria estampada nos rostos dos benfiquistas é de uma luminosidade tal como há muito se não via. A responsabilidade da equipa em alimentá-la é grande. Mas queda já a gratidão desta reaquisição do nosso orgulho colectivo de adeptos de um clube com alma e chama de campeão. E essa está lá. Hoje não tenho dúvidas.

2-) A lesão prolongada de Pedro Mendes é uma má notícia para todos nós. Mas antes de mais para o próprio jogador. Quem assistiu aos jogos desta nossa renovada Selecção não ignora a importância pendular deste jogador. A sua eficácia, o seu sacrifício, a sua irrepreensível concentração e o seu rigor táctico foram características muito importantes nos últimos jogos da nossa Selecção. Será uma contrariedade que se espera não afecte a nossa presença na África do Sul. Está à beira de acontecer o quase milagre. E este deve-se à persistência e à resistência de um grande senhor do futebol que dá pelo nome de Carlos Queiroz.

3-) Curioso este fenómeno denominado Pedro Mendes. Discreto, parecia passar ao lado dos grandes palcos, vítima da sua personalidade anti-vedeta que constituiu handicap para muitos outros jogadores (veja-se o caso paradigmático de Pauleta no futebol português). Por outro lado, jogadores exuberantes que tiveram tudo e que se foram apagando num anonimato triste. Lemos agora que Quaresma, um desses jogadores — e que grande jogador foi e poderia ter sido — é pretendido pelo Nápoles. Esperemos que aí reencontre a boa luz que o faça de novo brilhar e a nós todos com ele.

4-) É já conhecido o novo Governo. Não é este o espaço próprio para o comentário político. Os indicadores recentemente conhecidos são de uma acrescida preocupação. A crise internacional já não dissimula dados que não podemos ignorar. O desporto não deixará de ser afectado. A todos os níveis. No momento em que escrevo esta crónica ainda ignoro quem assumirá a responsabilidade do Desporto, nem a sua inserção na orgânica do Governo. O certo é que os novos tempos impõem sérias reflexões sobre o papel do Estado no Desporto. Sobre os mecanismos e instrumentos de regulação. Sobre a própria organização desportiva. E a percepção das limitações de recursos que nos afectam não permitem nem aventuras nem demagogias. A situação de sobre-endividamento de muitos clubes e SAD's, os processos de insolvência que não tardarão em aparecer vão constituir realidades dolorosas que, ou se atalham e previnem, ou, seguindo a política do avestruz, se deixam avolumar até ao limite do incontrolável. E aí não há boa luz que nos valha…!

04 outubro 2009

Crónicas de Fernando Seara

O Rio de Janeiro continua lindo

Por FERNANDO SEARA in A Bola

1 A vida tem destas coisas. Os momentos de transbordante felicidade são interrompidos por episódios funestos. O carácter das pessoas e das comunidades descobre-se aí. Ou se reage e o episódio esfuma-se no ar, ou a presença de espírito é diminuta e as dificuldades crescem. Vêm estas considerações a propósito do AEK-Benfica. Foi um fim de tarde grego e aziago. Ao Benfica faltou a determinação, a energia e o arreganho que demonstrou em todos os restantes jogos. Na primeira parte pareceu uma sombra de si próprio, lembrando os dias sombrios de Quique. A segunda parte já foi diferente, tendo sido muitas as oportunidades de golo, enorme a qualidade do guarda-redes adversário e injusto o resultado. Esta, aliás, a opinião unânime dos comentadores. E se é certo que o Benfica realizou a pior exibição desta época, menos certo não é que o empate, ou mesmo a vitória, se ajustavam melhor ao fim de tarde ateniense.

2 Este jogo descobriu, porém, algumas debilidades que Jesus não deixará de corrigir. A defesa ainda carece da solidez que o balanceamento atacante da equipa exige. Não é uma questão de intérpretes ao centro — a classe de Luisão e a abnegação e coragem de um David Luiz (que, ou muito me engano, ou será dentro de poucos anos um fenómeno na Europa do futebol) constituem um dupla invejável em qualquer grande equipa europeia —, mas a lacuna ainda não inteiramente preenchida à esquerda que parece desequilibrar o sector e criar em todos os restante jogadores uma permanente necessidade de ir à dobra, abandonando posições que nem sempre têm tempo para recuperar. Evidentemente que o grande Javi Garcia vai dando para remendar tudo isto. Depois, o sistema de jogo é feito para os jogadores de génio que o Benfica tem. E há dias em que a inspiração escasseia. E a equipa ressente-se, embora possua antídotos para superar essas crises conjunturais. Ou seja, Atenas não deve ter contribuído para a diminuição da euforia que se regista em torno da equipa notável que o Benfica possui. Mas deve ser encarada como um acidente de percurso que fez os benfiquistas perceber que nem tudo está ganho e que, como todos, também aqueles jogadores, mau grado o seu esforço, têm dias melhores e dias piores. Ao fim e ao cabo, todos são seres humanos. Mas, amanhã, na capital do móvel voltaremos, estou firmemente convicto, aos golos e às vitórias. E com um estádio cheio, repleto de milhares de benfiquistas cheios de fé e em aliança indiscutível com a equipa. Atenas foi um alerta. Sério para a equipa e relevante para todos nós. Temos que acreditar sempre e apoiar, em todas as situações, a nossa equipa, os nossos jogadores, a nossa equipa técnica. Como mostraremos, amanhã, desde o momento do aquecimento até ao apito final do árbitro!

3 Importantes, muito importantes, foram as restantes notícias provindas do universo benfiquista. Chegou aos 200.000 sócios. Meta fantástica. Principalmente num tempo e numa época em que cada cêntimo conta. É o resultado das vitórias e do futebol espectáculo. Mas é também a demonstração clara das potencialidades únicas que a marca Benfica possui. Não há como negá-lo. Segunda boa notícia: a preocupação da direcção desportiva em cativar os grandes talentos, com renovações contratuais feitas a tempo, adoptando cláusulas rescisórias com inegável significado económico. O Benfica está — e bem — a valorizar os seus activos.

4 Ainda neste capítulo, uma observação sobre Aimar. Escolha de Quique — que nunca o compreendeu —, martirizado por um passado de lesões graves e vítima na época pretérita de uma colocação posicional castradora, reencontrou-se consigo próprio, ganhou confiança, perdeu o medo, colocou-se no espaço certo e ei-lo, de novo, a envergar as cores da selecção argentina. Grande prémio para tanto sofrimento. Certamente Pablito não esquecerá o agradecimento devido a Jesus que o soube recuperar e tem gerido o seu esforço com inexcedíveis cautela e prudência.

5 O Rio de Janeiro conquistou a realização das Olimpíadas de 2016, ganhando a Chicago, Tóquio e Madrid. Foi uma vitória fantástica para os cariocas, para o Brasil e para a América Latina. Mas foi, essencialmente, uma grande vitória pessoal do Presidente Lula. Todos concordam que a melhor proposta, ao nível da concepção, da solidez, da inovação, do financiamento era a de Madrid. Como os observadores presentes anteontem em Copenhaga concordam que o comportamento estilo mega-star do Presidente Obama, demasiadamente convicto que a sua aura tudo vencia, foi contraproducente aos olhos do COI para a candidatura de Chicago, a primeira a ser eliminada. Mas o Brasil é o Brasil. É a potência emergente que, naquele espaço geopolítico, tem sabido constituir um bastião da democracia, não cedendo, nem por um milímetro, aos populismos e caudilhismos que perigosamente o rodeiam. Com esta vitória, quis o COI reconhecer ao Brasil a qualidade de potência mundial e de liderança regional. Fez muito bem. O desporto deve contribuir para o bem-estar dos povos e, por isso mesmo, a este nível, não pode alhear-se das questões políticas. Admirável o discurso final de Lula da Silva. Reconheceu que o seu país ainda é pobre, ainda é injusto, ainda é inseguro, mas que os Jogos Olímpicos contribuirão para minorar estas mazelas que ele — e com êxito — tanto tem tentado combater. Um discurso autêntico de um homem autêntico. Um exemplo de que como a vitória não deve alienar, nem sublimar a realidade. O Rio de Janeiro continua lindo, diz a canção. Será, nos Jogos Olímpicos de 2016, um inultrapassável espectáculo descrito, falado e cantado em português. Parabéns Brasil!

13 setembro 2009

Crónicas de Fernando Seara


Glórias e sensaborias

Por Fernando Seara in A Bola

1 Por muito que custe aos seus adversários nacionais, o Sport Lisboa e Benfica continua a figurar no top ten dos grandes clubes europeus. A Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFFHS) classifica-o como o nono clube europeu do século XX, muito acima do Porto (29.º) e do Sporting (47.º). É o peso da gloriosa história do Benfica que, ainda hoje, apesar de épocas e resultados menos conseguidos, o faz ser um dos grandes entre os maiores. Evidentemente que a IFFHS não contempla nos seus critérios os números referentes às assistências, à capacidade de mobilização, à dinâmica identitária de cada clube. Se o fizesse, seguramente o Benfica ascenderia alguns lugares e outros ver-se-iam ainda mais distantes. As demonstrações de fervor, de paixão e de entusiasmo clubista que inundam cada um dos jogos que o Benfica disputa, independentemente dos terrenos próprios ou adversários; as audiências televisivas que as suas transmissões registam, a agitação mediática que o envolve transportando-o para as parangonas como garantia de escoamento de edições de jornais, são sinais indiscutíveis de uma grandeza que é, em si mesma, a sua circunstância.

2 A Selecção Nacional é um tema incontornável. O apuramento para o Mundial continua incerto, aguardando por todas as definições a 10 de Outubro. É injusto desmerecer as últimas exibições, claramente conseguidas, como é impossível esquecer todas as outras, francamente apagadas e comprometedoras. A Selecção não é hoje a equipa que concita apoios e entusiasmos de outrora. Perdeu chama e, sobretudo, carisma. Nada disto colide com a qualidade técnica dos seus jogadores ou com a excelência profissional do seleccionador, amplamente reconhecida pelas maiores referências do futebol contemporâneo. Mas há coisas que não funcionam e harmonias que não se obtêm. Não é comum que a equipa representante de um País com tanta história no futebol se socorra da naturalização de um jogador estrangeiro para adquirir um atacante. Estas situações, pela sua singular natureza, sugerem que até nas selecções e nos seus critérios de escolha há estados de necessidade e sentidos de oportunidade. Independentemente do nome e caso em causa, gostaríamos muitos que não fosse assim. Que os viveiros dos clubes nacionais fossem capazes de projectar jogadores competentes e capazes de honrar a camisola nacional. E que não houvesse necessidade de actos e de factos, de múltiplos momentos para superar deficiências incontornáveis. E não falamos, apenas, de futebol. Olhe-se para outras modalidades onde encontramos naturalizações desportivas mais rápidas e sem que haja, neste âmbito, uma ponderação/avaliação desportiva global. Seria útil que as diferentes equipas técnicas nacionais — nas modalidades colectivas — possuíssem o engenho e a arte de encontrar sempre esquemas tácticos que se adaptassem às realidades humanas existentes. Sob pena de se multiplicarem as vozes de descontentamento e outras respeitantes à urgência desportiva para as naturalizações. É que não pode ser indiferente jogar por Portugal ou por outra selecção. Sabemos bem que na selecção de futebol tudo é discutido e discutível. As outras selecções não são objecto de tanta atenção, apesar de desencadearem, porventura, mais naturalizações. Mas é essa, sempre, a sua grande força. Por ser a equipa que simboliza a pátria desportiva que somos, dela exigimos muito. E todos temos idêntica legitimidade para criticar, aplaudir, censurar ou louvar. Todos os que somos portugueses e gostamos de futebol. É por isso que ninguém pode ficar empertigado com as observações que abundantemente são feitas sobre o empenho dos jogadores, sobre a falta de entrosamento em campo, sobre as deficiências de alguns sectores, sobre a pouca clareza de soluções adoptadas. A legitimidade para responder depende duma única circunstância — vitórias. E, por favor, dispensam-se as inacreditáveis (mas permanentes) discussões sobre prémios e vantagens económicas. Mal vai o País em que a representação nacional não tem significado sem aconchego económico. Não se fomente a mercenarização das selecções. De todas elas e não apenas, por mediática, a de futebol!

3 Ainda as selecções. Fantástica a exibição do Brasil frente à Argentina. Maradona foi um dos maiores jogadores do seu tempo. Mas o princípio de Peter também aqui se aplica. E nem todos os grandes jogadores se transformam em grandes treinadores. Com brincos ou sem eles. Como rapidamente perceberemos se Messi e companhia não conquistarem o acesso ao Mundial da África do Sul.

4 Luisão fez uma exibição imperial. Cada vez mais o patrão da defesa brasileira, perante um Lúcio manifestamente cansado (os anos pesam). E um golo. E que golo. E com alguns críticos internos a prepararem-se para meterem a viola num saco.

5 A propósito de golos, Cristiano Ronaldo ainda não emergiu no Real Madrid, como não se suplantou na Selecção. Há que dar tempo ao tempo. Ainda que se saiba que os castelhanos não são pródigos em indulgências. E Madrid não é fácil. Ronaldo está a viver o maior desafio da sua carreira. Caso ganhe terá o Mundo a seus pés. Caso perca corre um risco, porventura um sério risco. O que será uma pena para o futebol. Mas Cristiano, com a sua força e a sua raça, vai voltar aos golos e às exuberantes exibições. Acredito que, desde já, na Liga dos Campeões.

6 Ainda o Benfica. Recebemos o anúncio das renovações contratuais de Di María, Coentrão e Luisão até ao final do mês e da já consumada renovação de Cardoso. Interrogamo-nos como é possível persistir-se na ideia de que não há política desportiva. O investimento feito é muito. Mas as indicações que estes jogadores, bem como a generalidade da equipa, têm dado neste começo de campeonato auguram uma importante valorização de activos que renderá em tempo próprio.

7 A Liga regressou este fim-de-semana. De sexta a segunda-feira já temos o futebol interno. Todo ele. O profissional e o não profissional. O nacional e o distrital. O jovem, o muito jovem e o sénior. Em plena campanha eleitoral os estádios voltarão a encher-se com militantes e eleitores de todas as cores políticas. Adversários e correligionários lá estarão unidos num desígnio comum — ver as suas equipas ganhar. Aí está a magia do desporto. E do futebol em particular!