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13 maio 2010

SLB e a justiça - Por António Simões


Por António Simões in A Bola

O Benfica andara anos a fio a correr atrás de angústias sem perceber que o cerne das mágoas era o brilho de um passado longínquo que lhe iludia os dirigentes em grandezas e glórias presumidas, postiças, autistas. Mas desta vez, eu vi logo: quando Jorge Jesus chegou à Luz levava o futuro na palma da mão – porque nele há duas coisas imprescindíveis num grande treinador: saber muito de futebol e mais ainda de homens. Ah! E uma verdade indiscutível na cabeça: o pessimismo e a cegueira nunca ganharam um jogo. No FC Porto, diferente era a alma de Jesualdo Ferreira, a acanhar-se. Pela sua personalidade, o estilo atrevido, Jorge Jesus foi agitando o inconsciente colectivo dos benfiquistas – num truque capaz de salvar pelo coração o clube da desolação. No FC Porto, Jesualdo Ferreira não – continuou a acreditar que no futebol a paixão ou a ousadia podiam valer menos que o medo ou o calculismo. Decorreu a temporada. Com a sua confiança, Jorge Jesus disparou talentos, soltou pernas, encheu pulmões, empurrou sortes – e pôs o Benfica em linha que nunca perdeu: o grupo era sempre o mais importante – mas importante para exaltar o jogador e nunca deixar esconder o craque. Foi atirando para cima as suas notas artísticas – e para o céu, a avermelhar-se, o sonho, às vezes histérico, dos adeptos. O FC Porto titubeou, as obsessões tácticas de Jesualdo Ferreira roubaram-lhe futebol e boas ideias. Depois? Era tarde – e independentemente do Dr. Ricardo Costa ter transformado o direito em ciência criativa e dos castigos e lesões, aconteceu a justiça no campo. Sim, o melhor FC Porto da época pode ter sido três ou quatro vezes melhor que o melhor Benfica da época, mas o pior FC Porto foi três ou quatro vezes pior que o pior Sporting – e, tão irregular, não podia ser campeão! Por isso não tem direito à vitória moral que tenta arrastar da esquizofrenia do túnel, de lhe terem tirado Hulk de uma ilusão incrível. E como o futebol, cruel, tem fraca memória, se o bode expiatório já tiver o ferrete: JF – a culpa foi de Jesus...

15 abril 2010

Ocuparam a sede do partido de Franco quando mataram o Rei e lá nasceu o SL Benfica - Por António Simões


Por António Simões in A Bola

O Sport Lisboa era de Belém e não tinha campo. Mirabolantes algumas histórias dos seus primeiros tempos – em que as balizas se montavam e desmontavam para treinos e jogos e as redes eram da pesca. Como o Sport Benfica tinha campo e sede de luxo, mas não tinha jogadores, fundiram-se. E o que era para ser o Sport Clube de Lisboa e Benfica acabou à última hora por ser... Sport Lisboa e Benfica.

Aurélio Paz dos Reis ganhou fama e fortuna como comerciante de flores que criava no jardim do seu palacete, no Porto. Era da maçonaria – e envolveu-se na revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891. Alargou o negócio à estereoscopia – a fotografia em relevo -, na sua loja de máquinas de escrever passou a vender igualmente películas da Lumière & Jougla.

De súbito, saltou-lhe, ousada, a ideia: comprar cinematógrafo aos irmãos Lumière. Largou, então, para Lyon – quando lá chegou os Lumière disseram-lhe que não vendiam a máquina por dinheiro nenhum, que fora promessa feita ao pai. Paz dos Reis, não desistiu – e acabou por descobrir em Paris o cronofotográfico que os irmãos Werner inventaram entretanto. Foi o que trouxe para o Porto, revolucionário.

Deu-lhe, pomposo, outro nome: kinetógrafo português. E a 12 de Novembro de 1896, apresentou no Teatro do Príncipe Real, vários «quadros de fotografias em movimento», um deles era sessão de Jogo do Pau em Santo Tirso. Levou a novidade a Braga – e ao Brasil. No Rio, o negócio falhou, pô-lo em stand by, retornou ao Porto, dedicou-se ao comércio de automóveis Minerva - e quando a monarquia caiu chegou a vereador da Câmara Municipal.

Algures por 1896, Manuel Maria da Costa Veiga conhecera em Lisboa Edwin Rousby. Chamavam-lhe O Electricista de Budapeste, uns diziam que era húngaro, outros que era americano. Viera a Portugal como agente de Robert Williams Paul, tentando vender a sua última invenção: o Paul-Acres Camera, «máquina de filmar cujas imagens eram passadas em peep-show, uma caixa fechada dentro da qual se via o filme através de um óculo».

Para melhor mostrarem a sua novidade, fizeram várias filmagens em Portugal, uma Tourada à Antiga Portuguesa no Campo Pequeno – e A Praia de Algés na Ocasião dos Banhos, nesse trecho de um minuto, como todos os demais, «as atracções foram a ginasta Amparo Aguilera e o actor Jaime Silva, artistas do Real Coliseu». O exibidor era, claro, Costa Veiga. Mas, ao saber que Paz dos Reis se tornara ele próprio «caçador de imagens», decidiu fazer o mesmo – e em 1899 comprou num leilão protótipo do «mecanismo de Paul». Implantara-se já como empresário do «mundo do espectáculo», conseguira financiamento para construir o Teatro Avenida, inaugurara o Éden Concerto – e abrira em Cascais a Esplanada D. Luís Filipe, onde exibia os filmes que Rousby e Paul lhe enviavam do estrangeiro. Fundou a Portugal Filmes em Algés – e a sua primeira produção foi Aspectos da Praia de Cascais: D. Carlos a banhos, o chique do veraneio, o glamour do Sporting Club na Parada...

Contudo, nada disso teve o impacto de uma outra coisa, que em 1904 empolgou uma certa Lisboa: o animatógrafo, assim se chamou às salas destinadas a projecções de cinema. O primeiro foi o Salão Ideal, lançado por João Freire Correia, dono de um estúdio de fotografia na Rua da Prata, em Lisboa - e que em 1910 assinaria o primeiro documentário verdadeiramente desportivo em português: A Corrida de Automóveis na Rampa da Pimenteira, fundara já a Portugália Films, associado a Manuel Cardoso Pereira. As primeira entradas para o Salão Ideal custavam seis vinténs – mas durante largo tempo «a moral e os bons costumes» marcaram o animatógrafo como «símbolo de escândalo, interdito às meninas de sociedade» porque a «obscuridade das salas» era «propícia à sedução e à intimidade».

Modéstia de Cosme Damião e prisão de Cruz Viegas

Foi nesse ano de 1904, a 28 de Fevereiro, que antigos alunos da Casa Pia e jogadores do Grupo dos Catataus se juntaram na sala de reuniões da Farmácia Franco para fundarem um novo clube. Primeira sugestão de nome: Grupo de Football Lisboa. José da Cruz Viegas, então aspirante do exército, que na I Guerra Mundial cairia, prisioneiro, nas masmorras dos alemães, contrariou-a com curioso argumento: «As iniciais dariam GFL, talvez aparecesse alguém a suor que se trataria da Guarda Fiscal de Lisboa».

Falou-se em Grupo Sport Lisbonense – e em Grupo Sport Lisboa se ficou, não muito depois já era simplesmente Sport Lisboa.

A Cosme Damião coube redigir a acta da fundação – mas por modéstia não escreveu nela o seu nome. Logo se acertou que presidente seria José Rosa Rodrigues, o mais velho dos irmãos Catataus; que o símbolo seria uma águia - «por significar elevação de propósitos, largo espírito de iniciativa e ânsia de subir o mais alto possível»; que a divisa seria Et Pluribus Unum como apologia de união na comunhão de sentimentos. As cores, escolheu-as Cruz Viegas: vermelho e branco por «traduzir alegria, colorido e vivacidade e ser fonte de entusiasmo».

Bola em segunda mão, 1500 réis...
Compraram-se camisolas de flanela na Alfaiataria Nunes e uma bola em segunda mão ao Cricket Club por 1500 réis. As redes eram umas que tinham sido usadas na pesca da corvina, na Trafaria – e para os jogos e treinos, que se faziam, ali mesmo em Belém, numa faixa de terreno junto da linha de comboios para Cascais, montavam-se e desmontavam-se as balizas, havia um carpinteiro que recebia 50 réis pelo trabalho. Para o banho usava-se a água de um poço, um moço retirava-a com um balde e despejava-a pela cabeça abaixo dos jogadores.

A 1 de Janeiro de 1905, fez-se o primeiro jogo «formal», contra o Campo de Ourique. Treinador foi Manuel Gourlade – e o SL venceu por 1-0. Nesse, como em vários outros jogos seus esteve apenas um polícia à guarda, pelo serviço lhe deram 500 réis – e o Sport Lisboa criou igualmente o hábito de oferecer lanches aos adversários, nos seus primeiros documentos de contabilidade há despesas de 4,5 litros de vinho por 540 réis e de 36 sanduíches por 1800 réis.

O truque da sede dos franquistas
A 19 de Maio de 1906, D. Carlos colocou ponto final ao rotativismo entre regeneradores e progressistas que vinha de 1893 – nomeando João Franco para primeiro-ministro. Ele prometeu governar, liberal, democrata, à inglesa – mas depressa passou a governar, autocrático, ditador, à turca.

Semanas depois, a 26 de Julho, fundou-se o Sport de Benfica, José Duarte foi o seu primeiro presidente. Três meses volvidos sucedeu-lhe Luís Carlos Faria Leal, major do exército – e em Maio de 1907, o SB por 40 mil réis ao ano, tomou posse de terreno da Quinta da Feiteira onde montou campo de futebol de 120 por 79 metros.

Passou tempo com o Benfica a brilhar em ciclismo e atletismo – e a 31 de Janeiro de 1908 Franco convenceu o rei a promulgar decreto que permitia a deportação dos presos políticos para as colónias de África ou para Timor. Ao assiná-lo, D. Carlos largou, premonitório, num murmúrio:
- Assino a minha sentença de morte, mas os senhores assim o querem...

No dia seguinte, o rei e o príncipe real caíram às balas de dois carbonários. E ali mesmo, no olho da tragédia, ao avistar João Franco, Maria Pia, a velha rainha-mãe, praguejou, apontando para os cadáveres de D. Carlos e D. Luís Filipe estendidos no chão do Arsenal:
- A vossa obra, Senhor Presidente! Diziam que o senhor era o coveiro da monarquia. Foi pior. Foi o assassino de meu filho e de meu neto...

D. Manuel assumiu a coroa – e atirou João Franco para o exílio. Alguns dos membros do Centro Regenerador Liberal da Cruz da Pedra, o braço político franquista, que tinha a sua sede na Travessa de Sanches de Baena, eram também sócios do Sport Benfica - e Faria Leal contou não muito tempo volvido: «Porque os franquistas haviam abandonado, na retirada, armas e bagagens –numa simulada assembleia geral, aprovámos acta testamentária a considerar por herdeiro o Sport Benfica, que assim se viu pomposamente instalado, com uma sala de bilhar e um decente e moderno mobiliário...»

Tinha campo, tinha sede – só não tinha grandes jogadores de futebol. Cosme Damião, a alma do Sport Lisboa, também era um dos 129 sócios do Sport Clube de Benfica. E como o SL tinha jogadores, mas não tinha campo, lembrou-se de fundi-los.

António Freire Sobral apresentou em AG a proposta de junção e sugeriu o nome: Sport Club de Lisboa. Achou-se que ficaria melhor Sport Clube de Lisboa e Benfica – e a 13 de Setembro de 1908, ao oficializar-se a união, a designação que se acertou, à última hora, foi Sport Lisboa e Benfica.

720 réis por causa de um candeeiro
João José Pires, que a 28 de Junho fora eleito presidente do Sport Clube de Benfica, foi indicado primeiro presidente do Sport Lisboa e Benfica – após a fusão com o Sport Lisboa. Ao assumir o cargo teve de suportar dívidas que vinham de Belém: 157$500, sendo, por exemplo, 110 mil réis ao salão de jogos da Viúva Sena Cardoso e 47$500 a uma mercearia! Lá, no SL, criara-se, entretanto, outro costume: no final dos jogos, aos adversários ingleses, dava-se... uísque.

Pouco depois Cosme Damião, o capitão da equipa de futebol, pagou às Companhias Reunidas Gás e Electricidade 720 réis – por «prejuízos causados num candeeiro d´iluminação», uma bola que ele chutara violentamente, galgara a vedação do campo e partira globo e lâmpada!

Como Lisboa se iluminava...
A ideia de iluminar as ruas de Lisboa foi do intendente da polícia Pina Manique, no reinado de D. Maria I. Os primeiros apareceram por volta de 1780 – eram lampiões de azeite, suspensos em consolas, davam uma luz ténue, fusca, apenas. Já no século XIX substituiu-se o azeite por óleo de purgueira ou de baleia, mais barato, mas muito mais mal cheiroso – e houve um tempo em que também se tentou por petróleo.

Em 1848 havia em Lisboa 2168 candeeiros a óleo – e a Companhia Lisbonense espalhou pela cidade os «vaga-lumes» - que se acendidam manualmente. No ano seguinte eram já 402 os candeeiros a gás. Trinta anos depois, D. Luís ofereceu à Câmara Municipal seis candeeiros de lâmpadas de arco tipo Jablochkoff, que tinham sido usados na Cidadela de Cascais, por ocasião das festas de aniversário de D. Carlos. Eram iguais aos que, quatro meses antes se usaram para iluminar a praça do Teatro da Ópera em Paris – e foram instalados na rua dos Mártires, no Chiado, no Largo das Duas Igrejas e na varanda do Hotel Gibraltar.

As «velas Jablochkoff» eram de carbono – e não duravam mais de hora e meia. Por isso, para mantê-las acesas precisava-se de servente de escadote, sempre pronto, sempre alerta – que no fim da combustão de cada uma a substituísse.

João Rodrigues Ribeiro era padre, reitor do Liceu de Santarém – e «hábil mecânico». Celebrava missa com um cálice que ele próprio fabricara – e imaginou o «comutador automático» - que resolvia, de facto, a baixo custo e com grande simplicidade o problema da iluminação eléctrica de Jablochkoff. Em 1879, publicou o seu plano de «comutação de velas» no Jornal das Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais – mas apesar das suas qualidades não registou a patente, nunca se levou à prática a sua invenção. E por entre a discussão sobre o seu alto custo e o seu «eventual perigo para a saúde», os seis candeeiros que iluminaram a esplanada da Cidadela de Cascais e foram motivo de pasmo na cidade afundaram-se assim na penumbra da história.

Em 1887 a Câmara Municipal celebrou com uma empresa belga contrato para fornecimento de gás à cidade – e colocou-lhe como condição que iluminasse a Avenida da Liberdade e os Restauradores. Utilizou-se o sistema de manga incandescente – e dois anos depois, inauguraram-se os primeiros 38 candeeiros eléctricos na Avenida da Liberdade.

Em 1902 estava já generalizada a iluminação das ruas, durante a I Guerra muitos deles apagavam-se para que se poupasse em energia - e apenas em 1965 deixou de funcionar o último candeeiro a gás na cidade, no Campo de Santana...

09 março 2010

Do destroço...

Por António Simões in A Bola


HÁ quem diga que é lenda, há quem diga que não. Que quando Martin O´Neill se estava a lançar como treinador nos Wycombe Wanders confessou a um dos seus pupilos que não sabia bem o que lhe pedir como lateral-esquerdo – ele, desconcertado, murmurou-lhe:

– Então, se não sabe, como é que pode treinar-me, mister?!

e O´Neill, sem um traço de desmancho no rosto, retorquiu-lhe, em brado:

– Eu não estou aqui para te treinar, estou aqui para estar demasiado ocupado a ganhar jogos apenas...

Esse é dos mais flagrantes sinais da razão filosófica do prof. Manuel Sérgio: que não pode saber muito de futebol, quem só sabe de futebol. Não tenho dúvidas: Jesualdo Ferreira sabe muito de futebol – mas, assustadiço, cada vez mais parece que só sabe de futebol. Ao contrário de Jorge Jesus. Por causa disso, lembrei-me de Giovanni Trapattoni, de célebre sentença sua:

– No máximo, um bom treinador pode conseguir que uma equipa melhore 10 por cento, mas um mau treinador pode piorá-la 50 por cento...

Não sei se logo à noite, o Arsenal me vai revelar em que percentagem andará, de momento, o FC Porto. Mas sinto que, aconteça o que acontecer, a Jesualdo Ferreira de pouco servirá o que já ganhou no Dragão – porque o futebol tem o destino cruel que Alex Ferguson lhe pôs numa frase, lapidar:

– Depois de o termos ganho, um troféu já não tem significado nenhum. Na altura foi o mais importante, mas assim que acaba a festa, é para esquecer. O mais importante passa a ser o passo seguinte...

O passo seguinte de Jesualdo foi um trambolhão. Que começou quando Jorge Jesus entrou, empolgado, na Luz, e, virando-se para os jogadores, sem o dizer assim, lhes disse o frenesim:

– Vou pôr-vos a suar sangue!

e o milagre foi eles acreditarem mesmo que suam sangue que incomoda, assusta, arrebata. Por isso, ninguém joga melhor em Portugal, semana após semana se vê – e desse fulgor se faz o drama de Jesualdo, o seu destroço...

02 março 2010

Di... Magia

Por António Simões in A Bola

O futebol que é a minha quimera – é o futebol que guardo na ilusão de uma frase de Di Stéfano: «O treinador ficava nervoso, não queria que eu jogasse de calcanhar, que contagiava os outros. Que se fosse só eu tudo bem, mas se toda a equipa se pusesse a fazer isso era suicídio. Ora, com os diabos, nós tínhamos de nos divertir – e nunca foi suicídio...»
De vez em quando aparece génio assim – a dar-me a delícia desse espírito a renovar-se. Aconteceu, sábado, em Matosinhos. Deslumbrei-me – e em fantasia vi Di María embrulhado na poesia de Nélson Rodrigues: gritando que carregassem não sei quem, talvez Pelé, talvez Garrincha, numa bandeja de prata e o passeassem com uma maçã na boca para que o povo visse que era Deus...

O futebol que é o meu desconsolo – é o futebol que imagino a resignar-se à angústia de uma frase de Bertrand Russel: «Somos propensos à doença do introvertido que, perante o espectáculo que o mundo lhe oferece, desvia a vista para contemplar apenas o vazio que faz dentro de si...»

De vez em quando, aparece malfazejo assim a atacar equipas de futebol – e a roubar-lhes o carácter. Aconteceu, domingo, ao FC Porto. Espantei-me – porque não julgava possível que pudesse passar, tão breve, da paixão ao disparate, da coragem à fraqueza, do prazer ao desnorte, da galhardia à desonra, do brilho à dor. Ao vê-los, supliciados de si próprios, a única ideia que me passou pela cabeça foi: se no jogo que tinha de ganhar para ainda poder ganhar o campeonato, o FC Porto o perdeu como o perdeu – não perdeu, ali, apenas o campeonato, perdeu a moralidade para, de lá em diante, se desculpar com árbitros ou túneis, Hulk ou Ricardo Costa, perseguições ou esquizofrenias. Sobretudo porque (para já não falar do Braga...) contra o Leixões se vira outra vez que este Benfica não é apenas a magia de Di María ou o evangelho transcendente de Jesus, é isso e mais, é uma mistura fina que é a causa e o sentimento de onde nascem os campeões...

28 outubro 2009

Crónica de António Simões

Com bola ou talvez não: Da bailarina...

Por António Simões in A Bola

É conto árabe, filosófico. Uma bailarina lasciva acercou-se, insinuante, de um homem muito rico, murmurando-lhe: «Esta noite sonhei que me beijavas, abraçavas, te derretias de prazer em mim. Por isso cobro dois dinares de ouro, é o que tens de me pagar.» Ele não pagou – e ela, empertigada, correu ao cádi, queixando-se. O cádi chamou o homem muito rico ao palácio e atirou-lhe, brusco, à chegada: «Ouvi a reclamação desta mulher. Dá-me os dois dinares que ela te pediu e aquele espelho do salão também!» Mordiscando os lábios para disfarçar raiva o homem muito rico pôs-lhe os dinares na mão, o cádi colocou-os diante do espelho – e à bailarina lasciva atirou, desconcertando-a, a sua sentença: «Vês os teus dois dinares ali no espelho? Considera-te paga assim, na tua ilusão!» – e devolveu o dinheiro ao outro...

Durante estes quase todos últimos tempos o futebol do Benfica foi a bailarina lasciva da parábola – na confusão traiçoeira do sonho com a realidade, iludindo-se, iludindo. Com Jorge Jesus mudou. Manuel Sérgio, maior filósofo de desporto que conheço, revelou, poético, a razão do assombro – e da euforia que vai rasgando ao rubro sem parar: «Jesus é um extraordinário mestre de coisas que não podem ser estudadas, que não se ensinam nem se aprendem.» É. Porque Jesus sabe muito de futebol e ainda mais da alma, dos seus mistérios. E é por isso que, pelos sinais deste andar, no final do campeonato, o Benfica talvez deixe de ter apenas os dois dinares de ouro no espelho, na sua metáfora. Ah! Acho que Domingos Paciência é outro «extraordinário mestre das coisas que não podem ser estudadas, que não se ensinam nem se aprendem» (o prof. que me desculpe roubar-lhe a poesia, seria incapaz de dizer igual dizendo diferente). E se Jesus tiver mesmo na mão a chave do paraíso, provável é que através dela também se abra, mais depressa, azul, em forma de dragão, o céu a Domingos, suspeito, não sei porquê...