Por Pedro Ferreira in Jornal O Benfica
Nós, Benfica, perdemos o campeonato no
final e a final da Liga Europa também no final. Para a história e
estatística fica a frieza do registo e poucos se recordarão das
circunstâncias de tais desfechos. Entre o azar, as falhas próprias e os
méritos alheios ficou o testemunho de que a justiça não se compadece com
o destino. Testemunhámos também que, para além da frieza dos números,
há toda uma envolvência que, de forma estranha e praticamente inaudita,
levou a que, mesmo no momento de dois duríssimos golpes, tivéssemos
visto milhares e milhares de benfiquistas reagir à adversidade,
amparando os seus atletas numa comunhão raramente vista nos momentos de
ausência de vitória.
Confundir este amparo aos nossos com
falta de exigência ou falta de ambição por parte dos benfiquistas é
enviesar a leitura da realidade. Nenhum benfiquista se sentiu
minimamente satisfeito com o desfecho da época. Todos os benfiquistas
ambicionam muito mais do que o que colhemos da época que agora finda. No
entanto, também foi notório que a família benfiquista soube reconhecer o
empenho e o mérito do caminho percorrido pelos nossos futebolistas e
por Jorge Jesus. Só assim se explica que a esmagadora maioria dos
benfiquistas defenda a continuidade do treinador. Isto é muito estranho
para a realidade do futebol português. É de tal forma inovador que
deveria levar os opinadores que acusam os benfiquistas de falta de
ambição a tentar ver para além da miopia do imediato. Se assim o
fizessem, perceber-nos-iam, pois, pela primeira vez na história do nosso
futebol, vemos uma massa adepta feita de milhões de pessoas a olhar
para o futebol para além do óbvio. Ou seja, somos agora acusados por
fazermos na prática o que esses teóricos andam a pedinchar há anos:
termos cultura futebolística para perceber que o futebol não pode
ignorar o resultado, mas que não se esgota nos números do mesmo.



