Neste blog utilizo textos e imagens retiradas de diversos sites na web. Se os seus autores tiverem alguma objecção, por favor contactem-me, e retirarei o(s) texto(s) e a(s) imagem(ns) em questão.
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas de Rui Santos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas de Rui Santos. Mostrar todas as mensagens

11 maio 2012

Benfica não aprende

Crónicas de Rui Santos, in Record

O Benfica jogou muito e jogou pouco e as arbitragens provocaram-lhe dano (na segunda metade da Liga). O Sporting teve altos e baixos e as arbitragens provocaram-lhe dano (principalmente no arranque da Liga). O FC Porto nunca jogou muito bem ao longo da época e as arbitragens não lhe provocaram dano. Estes são os factos. E a pergunta é... porquê? Porque, no tempo certo, para além das minudências que se costumam discutir " à mesa do café", Pinto da Costa atacou os pilares do "centralismo". Do país e do futebol. Sem medo, com determinação, perseguindo um ideal, fazendo amigos entre os inimigos, reunindo "fiéis" à volta da sua causa.

Pinto da Costa está na fase final da sua "empreitada": o "poder futebolístico" há muito que deixou de estar em Lisboa. Começou com o trabalho realizado nas associações (Adriano Pinto e Lourenço Pinto, mais dois Pintos, tiveram acção incansável), passou pela criação da Liga (através do projecto embrionário do Organismo Autónomo, do qual PC chegou a ser presidente) e pela "coexistência pacífica" com o Boavista (Valentim Loureiro como parceiro e nunca como "adversário-inimigo"); foi importante a criação da sede da Liga no Porto, depois dos constantes ataques às finais da Taça de Portugal, no Estádio... "em Oeiras". A cereja no topo do bolo será alcançar o Benfica em número de campeonatos. Faltam 6. Não parece impossível.

10 fevereiro 2012

Os "direitos" do Benfica

Crónicas de Rui Santos, in Record,

Luís Filipe Vieira (LFV) foi à RTP fazer um último "aviso à navegação" sobre os direitos televisivos, mas toda a gente já percebeu que o presidente do Benfica "afrouxou" na sua luta contra aquilo que venho chamando os "miasmas do sistema". E isso tem muito a ver com a derrota que Pinto da Costa lhe infligiu na época passada, depois de um começo desastroso em que a estratégia de afrontar a arbitragem e o FC Porto não lhe creditou qualquer benefício – pelo contrário, até algum ridículo e desprezo, como ficou evidente no rescaldo do "apagão" e dos festejos (regados) dos campeões nacionais.

Essa estratégia saldou-se por um logro absoluto e LFV alterou comportamento(s) e procedimentos. O "porta-voz" João Gabriel recolheu-se, Rui Costa já se havia encolhido e a estrutura, que chegou a ter naqueles elementos duas "pedras angulares", passou a rever-se, "oficialmente", no discurso do seu presidente, "assessorado" para as questões financeiras por Domingos Soares de Oliveira, e nas intervenções de Jorge Jesus, escorado pelos restantes elementos da equipa técnica e por António Carraça – e moderado pela influência do "mourinhista" Manuel Sérgio.

O Benfica reduziu o ruído das suas intervenções e concentrou-se no objectivo de participar activamente nas alterações de liderança desencadeadas, primeiro, na Liga e, a seguir, na FPF, sempre convicto de que Fernando Gomes, ex-administrador da SAD do FC Porto, era o homem certo para protagonizar os "novos tempos" do futebol português.

O Benfica, depois de ter chamado à razão, com alguma violência dialéctica, o ex-presidente da Comissão de Arbitragem da Liga, colocando-o "em sentido", empenhou-se profundamente na recondução de Vítor Pereira como "homem forte da arbitragem", agora no seio da FPF. E não foi por acaso, certamente, a declaração de LFV na entrevista de terça-feira à RTP segundo a qual "não voltarei a falar de arbitragens até que esteja concluída a profissionalização do sector". Quer dizer: o maior sossego denunciado pelo presidente do Benfica – em ano de eleições – pode muito bem estar relacionado não apenas com a longevidade do cargo e com uma indiscutível capacidade de "aprender com os erros", mas também com uma sossegada arbitragem para as bandas da Luz.

Luís Filipe Vieira não se cansa de proclamar o seu empenhamento na defesa dos "direitos" do Benfica. E entre esses estão naturalmente... os televisivos. Não acredito, apesar da velada e mui romântica "ameaça" na "erre-tê-pê", que LFV accione a "bomba atómica". O Benfica pode ser, para a "Brand Finance", a 28.ª marca mais valiosa do futebol europeu em 2011, mas quem "viu tudo" desde o começo foi Pinto da Costa, que se apressou a negociar com Joaquim Oliveira 80% do valor a contratualizar pelos encarnados. O Benfica, amarrado à Olivedesportos, nunca receberá mais de direitos televisivos aquilo que encaixam, por exemplo, o Rennes, o Bordéus e o Villarreal. Resta saber se a receita a assegurar pela Benfica TV não seria suficiente para LFV passar a condicionar todo o mercado. As contas estão feitas, mas, à cautela, LFV já veio dizer que o assunto tem de ficar encerrado... este mês. Em Março há duas visitas do FC Porto. Pois.

22 outubro 2011

V. Excelência, uma ova!


Quando Jorge Jesus reagiu – da pior forma... – à entrada intempestiva de Shaqiri sobre Bruno César, no “tempo extra” do jogo entre o Basileia e o Benfica, valendo-lhe a expulsão, já a equipa portuguesa tinha garantido o essencial: a vitória na partida e o primeiro lugar (que até pode ser definitivo) no Grupo C da Liga dos Campeões. As câmaras televisivas captavam os passos daquele que vinha sendo, para mim, “o melhor em campo”: Jorge Jesus.

Mas... com 0-2 no marcador e a escassos 3 minutos do fim das compensações, justificava-se aquela reação do técnico do Benfica? Havia duas atenuantes: a expulsão de Emerson, que ocorrera 5 minutos antes, e as dificuldades físicas reveladas em campo por alguns jogadores do Benfica: Maxi Pereira já saíra com uma lesão muscular, Gaitán achava-se ao pé coxinho e o próprio Bruno César parecia “tocado”...

Faltava muito pouco tempo para o fim do jogo, a vantagem era confortável, mas a equipa parecia dar sinais de “pré-colapso”. Jorge Jesus, que vive intensamente cada instante de cada encontro, coloca-se (ele próprio) debaixo de uma pressão às vezes insustentável, para além de colocar a equipa debaixo desse tipo de pressão...

São duas faces da mesma moeda: por mais “sessões de esclarecimento” que se possam fazer; por mais “filósofos” que se queiram colocar no caminho da “rudeza” do treinador do Benfica, Jorge Jesus não consegue renegar a sua natureza. Essa circunstância envolve aspetos negativos, resultantes da falta de controlo emocional (“então tchau”, Luiz Alberto, etc.), mas concorre, em absoluto, para um aspeto muito positivo e que importa valorizar: Jorge Jesus não se deixa dominar; Jorge Jesus domina as equipas de futebol que comanda como poucos treinadores conseguem fazer. Não é, Vítor Pereira? E esse aspeto é tão mais valorizável quanto se percebe que isso é possível de alcançar num clube com a abrangência, a dimensão, a história e a heterogeneidade do Benfica.

Jorge Jesus não nasceu nem para falar francês nem para tocar piano. Mas não deixa de comunicar. Utiliza as mãos, os adjuntos, os “assessores”, as novas e as velhas tecnologias. O ipad e os computadores ou o clássico tabuleiro das peças “imanizadas”. Não há Vossas Excelências na equipa do Benfica. Há um todo proletarizado. Se alguém não cumpre as suas regras de “sujar os calções”, na pressão alta ou na “média-baixa”; se algum “operário” tem um assomo de novo-riquismo no campo e sai da sua posição, colocando em causa o trabalho coletivo, Jorge Jesus reage. Vossas Excelências, uma ova! E a verdade, para quem vê o Benfica jogar na maior parte das vezes, e agora também na Liga dos Campeões, é que Jorge Jesus dá uma sensação de domínio da equipa como quem joga PlayStation. Ele tem os comandos na mão, ele domina os jogadores e a equipa e rebela-se quando os “comandos” (comandados) não respondem... No exército de JJ, não há generais nem soldados. São todos oficiais do mesmo ofício.

NOTA – Muito bem a discrição que António Carraça tem colocado no seu desempenho como um dos “braços” de Jorge Jesus. Que continue assim: ativo mas discreto.

NOTA 1 – Quando é que o FC Porto resolve a sucessão de Villas-Boas?

30 setembro 2011

Canal Sport


O aparecimento de um novo canal de desporto para fazer concorrência à Sport TV é uma boa notícia. Primeiro, e antes de qualquer outra razão, porque – independentemente da sua natureza – os monopólios são perversos.

O Benfica desencadeou uma luta pelo retorno do seu valor comercial. Com indiscutível habilidade, sempre ao lado de Pinto da Costa, Joaquim Oliveira construiu um império. Com a sagacidade de se mover em todo o tipo de terrenos, a norte e a sul, teve um papel crucial na afirmação do FC Porto no panorama futebolístico nacional, ao mesmo tempo que concorria para o enfraquecimento de Benfica e Sporting. Joaquim Oliveira foi e continua a ser um dos maiores “bastiões” do “sistema”: ao lado do FC Porto; ao lado do Benfica e Sporting; ao lado do Boavista; ao lado da FPF; ao lado da Liga e... “last but not least...”, como cereja no topo do bolo, ao lado do poder político. Chegou o momento de deixar de “jogar”... sozinho.

Os dirigentes dos clubes lisboetas, ou porque estavam amarrados de pés e mãos (no caso do Benfica, durante muitos anos, as consequências resultantes da “guerra” movida por Vale e Azevedo falaram mais alto) ou porque a lógica dos financiamentos antecipados foram a almofada em que muitos clubes se quiseram deitar, nunca trataram de apurar os efeitos nocivos desse monopólio. Ao invés, alimentaram-no.

A sagacidade de Joaquim Oliveira criou a raiz: por cada financiamento antecipado, prorrogava a vigência dos contratos – e assim se chegou ao atual momento em que a solução achada por outros países, no sentido da centralização pela(s) Liga(s) das receitas resultantes dos direitos de transmissão televisiva, não parece mais do que uma miragem.

A Sport TV vende as imagens a quem quer, quando quer, nos horários que mais lhe convêm, faz a administração da relação custo/audiências relativamente aos interesses dos seus parceiros, e ninguém lhe sai ao caminho, porque a luta é difícil e também porque ninguém está para fazer ao negócio do dia-a-dia aquilo que Raul Solnado pedia em relação à guerra, que era qualquer coisa como “parem lá com isso um bocadinho para irmos almoçar”. E, neste impasse, e também com a sagacidade extra de ter marcado terreno na comunicação social (onde se dirimem lógicas de emprego e de alinhamentos vários), foi possível ver florescer um negócio que aparece agora seriamente ameaçado com o posicionamento “premium” de Miguel Pais do Amaral neste sector.

Infelizmente, a regulação, nesta conjuntura, só pode ser realizada através da concorrência. Os monopólios geram poderes diretos e indiretos e o que se paga é excessivo face à qualidade da oferta. A Sport TV não deveria ser o 17.º clube dos treinadores – o 1.º entre os técnicos desempregados – e deveria mostrar-nos as imagens que não nos mostra, porque sabe que o poder da imagem é fortíssimo e na sua (não) divulgação também é um grande negócio. E, também nesse aspeto, convém ter mais atenção ao pormenor e aos ângulos das repetições...

NOTA – Chegou a altura de Pinto da Costa confirmar que André Villas-Boas era, de facto, o “adjunto” de Vítor Pereira.

27 agosto 2011

Bem-vindo, Witsel!


Jorge Jesus abandonou o “corredor da morte”. Depois de uma época desgarrada, marcada pela ausência de resposta de um conjunto de jogadores que tinham a “aprovação” do próprio treinador do Benfica, entretanto dispensados e substituídos por outros de maior capacidade, os encarnados parecem estar de regresso a um padrão de exigência futebolística que, pela sua excelência, deve ser sublinhado.

Jorge Jesus pode respirar de alívio. Porque levou o Benfica a alcançar o primeiro objetivo da temporada e porque, consciente do que quer, volta a colocar a equipa a jogar um tipo de futebol que a ninguém pode deixar indiferente. Um futebol de ataque total, às vezes desenfreado, no qual participam quase todos os jogadores – e esse é um dos segredos do Benfica desde que JJ chegou à Luz. Nem sempre foi assim, nestes últimos três anos, mas foi quase sempre assim. O Benfica tem identidade, à imagem do seu treinador.

Com os retoques realizados no plantel, JJ pode jogar, conceptualmente, como quer: com a defesa subida, com os sectores próximos uns dos outros e os jogadores perfeitamente sabedores dos terrenos que devem pisar. A equipa joga em pressão alta, isto é, mostra a sua obsessão de recuperar a posse de bola, num processo que obriga os jogadores a demonstrarem enorme disponibilidade física.

Extraordinária a forma como o Benfica colocou ontem em campo o seu conceito futebolístico: sobre as faixas, com Gaitán e Nolito, a fecharem espaços e a participarem nas manobras defensivas; no meio, com os três “guardiões do templo” (Javi García, Witsel e Aimar) a fazerem um notável trabalho de compensação, preenchendo os espaços que é necessário, dinamicamente, preencher.

Ao onze de ontem “faltou” Saviola, e o “problema” do Benfica é exatamente esse: não poder atuar... com 12. Pela dimensão física e técnica que confere ao futebol da equipa, Witsel tem de jogar. É um jogador de “todo-o-terreno”, muito inteligente (joga simples) e resistente. Essa resistência permite-lhe ser um apoio fundamental do médio mais defensivo (Javi García) e do médio mais ofensivo (Aimar).

Jorge Jesus, em condições normais, vai ter sempre um “jogador a mais”, uma espécie de “joker”, que estará entre o banco e a titularidade. Esse jogador pode ser Saviola (como foi ontem), mas pode ser, em teoria, Witsel, Aimar, Gaitán, Nolito ou Cardozo, sendo que a equipa fica muito mais completa se atuar com o internacional belga e o 10 argentino e sempre com Javi García, porque o espanhol, pela sua estatura física, é um jogador crucial no espaço aéreo (defensiva e ofensivamente).

Adúvida que se pode suscitar é se, obcecado por um futebol sem praticamente nenhum tipo de contenção, Jorge Jesus não corre o risco de se esgotar, esgotando primeiro a equipa. Em Inglaterra, há um padrão muito próximo deste que JJ defende: “gás” aberto, jogo a jogo, sem poupanças nem calculismos. Um monumento de competitividade. Em Portugal, com tantos cuidados e amplas “doses de bastidor”, esta extraordinária paixão pode ser compensadora? Sim, se essa fosse a mentalidade dominante... Assim, talvez... E sim, de novo, a esta qualidade de jogador estrangeiro, “tipo Witsel”...

09 abril 2011

Pecado capital


Pinto da Costa vai ficar na história do futebol português. Pelos melhores e piores motivos. A hegemonia do FC Porto foi construída sobre os abusos de um país fascista e centralizado. Os clubes de Lisboa (Benfica e Sporting), primeiros beneficiários do regime, não souberam organizar-se no sentido de contrariar o “grito de revolta” do FC Porto, amplificado por José Maria Pedroto e, principalmente, por Pinto da Costa. O FC Porto, no pós-Américo de Sá, sempre soube capitalizar em redor da proclamada e decantada (auto)vitimização, mesmo quando passou a protagonizar o papel de manipulador das massas.

Pinto da Costa desenhou uma estratégia, considerando o perfil do país e dos seus principais adversários e, ironicamente, soube utilizar a política e a democracia para conseguir resultados através de uma ideia de totalitarismo. Começou por juntar sequazes contra o Portugal centralizado e com a sede do poder em Lisboa e foi passando a mensagem -- ano após ano, década após década -- do imperativo da descentralização. O exército foi aumentando: em 1982, quando PC chegou à presidência, o FC Porto só havia ganho 7 campeonatos, uma gota no imenso oceano vermelho e verde.

Pinto da Costa entendeu o “elitismo de pechisbeque” e sentiu que se achavam reunidas as condições para diabolizar a capital, aumentando o tom das críticas relativamente aos poderes gerados em Lisboa – o centro das decisões. Em 1987, com a conquista da Taça dos Campeões e da Taça Intercontinental, coincidindo com o final do consulado de Fernando Martins (no Benfica), Pinto da Costa percebeu que não tinha outro caminho. A partir do meio da década de noventa, já o presidente do FC Porto estava em plena magistratura ativa no sentido de fazer do clube um exército ainda mais equipado. A equipa de futebol fazia parte desse exército e o Estádio das Antas era uma espécie de quartel-general onde só os alinhados eram bem recebidos. Os mais jovens não terão memória disso, mas nos anos noventa os árbitros e os jornalistas foram sistematicamente coagidos. O ambiente nos jogos, muito difícil. A ideia era essa: criar pressão e medo. Ao mesmo tempo, atrair personalidades ligadas ao poder político, económico e futebolístico, cujas relações foram sempre geridas com muita astúcia por Pinto da Costa. Uma urdidura.

Quando o Apito Dourado surgiu havia a convicção de que Pinto da Costa se movimentava como ninguém nos bastidores do futebol – e o seu epílogo, nos tribunais, pelas expectativas criadas, deixaram nos adversários um rasto de revolta e frustração. Aí, já o Benfica havia claudicado (com Manuel Damásio, o começo do desastre), no meio de um sem-número de “aquisições” sem sentido.

Pinto da Costa conheceu 7 presidentes (Fernando Martins, João Santos, Jorge de Brito, Manuel Damásio, Vale e Azevedo, Manuel Vilarinho e, desde 2003, Luís Filipe Vieira) e nenhum deles achou a melhor forma de lidar com as “duas caras” do líder azul e branco. A visão do resultado (a obra-prima criada pelo “monstro”) fez o Benfica hesitar entre copiar o criador ou enveredar por outro caminho. O erro volta a estar à vista: na “técnica do conflito” e num país vulnerável, Pinto da Costa é imbatível. A técnica teria de ser outra. A do contraste.

12 março 2011

Escutemos


“O Benfica pensa que está acima da lei” – diz Pinto da Costa. O presidente do FC Porto puxa os seus galões de líder do campeonato, com 11 pontos de avanço sobre o rival, e faz reluzir a ideia de que o Benfica não tem razões de queixa da arbitragem de Carlos Xistra, deixando a sugestão aos árbitros para não marcarem presença nos jogos em que os encarnados joguem na condição de visitantes. Ironicamente ou talvez não, Pinto da Costa coloca-se ao lado das leis, do Sp. Braga, de Alan, de Carlos Xistra, do Roberto e dos árbitros em geral. Faz-se escutar. Quando “cheira a título” no Dragão.

Se o procurador-geral da República já disse, preto no branco, que admite poder ser escutado sem que haja fundamento legal para isso; se afinal Pinto Monteiro nos veio dizer que qualquer cidadão pode ser escutado sem autorização prévia de um juiz, em função de um indício criminal muito forte, as escutas só podem ser tratadas como piada. As pessoas riem-se?! E quem anda a rir-se de nós? Como nada disto é sério, fica a dúvida se a teatralização de Alan não corresponde apenas a mais uma – entre muitas – cenas de palco.

Os “atores” são bons. Para eles, o umbigo é um sinal que fica ligeiramente acima da traqueia, vizinha da Lei, a loura do quinto esquerdo. Os jovens estão à rasca, pagam para jantar, mas são corridos a pontapé. Metem bola em tudo, não é? Os jovens, está visto, é que andam a teatralizar, mas como é Carnaval, não faz mal, ninguém leva mal. E porque estamos na época do burlesco, se Jesus se antecipou ao rebuliço das matrafonas do Funchal, perdão, de Torres Vedras, é porque estava escrito nas estrelas. Pinto da Costa lembrou-se logo da Úrsula Menor, perdão, mil perdões, da Estrela Polar e, para muitos, nesta cena, derrotando os contestatários do guião, fez todo o sentido a entrada em cena do “arcanjo” Gabriel. Que não, diziam os guionistas do contra, favoráveis à entrada de Vieira. Porque a um presidente responde-se com um presidente. Porque, segundo eles, já chega esta sensação de que... quem se mete com o Pinto, leva.

Há os homens da luta, que ganharam o festival da canção, e há os homens com lata. Campeões da negação e da contradição e da negação da afirmação, numa roda gigante igual à da velhinha Feira Popular. O Mundo parece estar de pernas para o ar, mas o criado-mudo, multiplicado na Liga, não se importa de ficar de cabeça para baixo. Coisas de coreógrafo, que só não entende a colocação do Robertazo entre as velas do altar e os sofás do bordel.

Na República, há um presidente que toma posse e olha para as varizes de Portugal. Uma escandaleira! No Futebol, há dois presidentes, que deveriam morar pelo menos dois andares acima dos presidentes dos clubes, mas, com pose e sem posse, não dizem nada. “O País vive numa situação de emergência social’. A expressão parece corriqueira, mas, em nome da estabilidade (e da farsa), é preciso teorizar sobre o escândalo. Imaginam Madaíl dizer que “o Futebol (português) está em estado de sítio”? Pois não: o futebol, em Portugal, está bem e recomenda-se, porque, afinal, é preciso sorrir. Tudo isto não passa de teatro. Com muita lata e um pouco de... fruta, perdão, luta!

17 setembro 2010

Bomba atómica


Acostumados às declarações bombásticas dos dirigentes desportivos, sempre que se sentem acossados ou maltratados pelo sector da arbitragem, o País (desportivo) reagiu com indiferença ao comunicado do plenário dos órgãos sociais do Benfica presidido por Luís Nazaré.

Há quem fale de “bluff”. Há quem fale de desespero.

A matéria tratada em comunicado não é suscetível, porém, de ser encarada com leviandade. É matéria demasiado séria.

Ninguém pode acreditar que o Benfica esteja a fazer “bluff” para colher frutos no imediato, numa semana marcada pelo regresso à Liga dos Campeões e pelo dérbi (da) capital com o Sporting.

Um eventual logro europeu está ultrapassado, mas é na prova mais importante do calendário futebolístico nacional que o Benfica está a falhar, com uma distância impensável de 9 pontos para o FC Porto, à 4.ª jornada da Liga.

Perante os danos provocados pela incompetência da equipa de arbitragem chefiada por Olegário Benquerença em Guimarães, esperava-se que os responsáveis benfiquistas reagissem. E assim aconteceu após o jogo, numa ação concertada, com Rui Costa, Jorge Jesus, Luís Filipe Vieira e alguns jogadores a dar voz (grossa) à indignação.

Pensar-se-ia que, mesmo correndo o risco de cair em contradição com o que acontecera na época passada (silêncio quase absoluto sobre arbitragens), a multiplicação de queixas desenvolvidas e repetidas pela comunicação social no fim-de-semana poderia por si só produzir as suas consequências, porque há uma lei muito antiga na bola indígena segundo a qual quem se queixa vê, normalmente, serem acolhidos os seus protestos no curtíssimo prazo. É a velha e ordinária lei da compensação.

É uma deformação sistémica, uma técnica subversiva que vem traindo a verdade desportiva, designadamente no espaço competitivo ocupado pelos “grandes”, uma vez que os “pequenos” não podem meter-se nestas lutas. Comem e calam.

Os responsáveis do Benfica dizem, em comunicado, que a intenção não é intimidar. É bom que não seja, na realidade, porque o futebol português não suporta mais alguns “fogos postos” por falsos bombeiros.

O comunicado é histórico e representa uma revolução no futebol português, se forem concretizadas todas as intenções processadas num autêntico manifesto. A saber:

1. Um desafio claro à Liga, mais concretamente na pessoa de Vítor Pereira;

2. Ausência de adeptos benfiquistas nos jogos fora de “casa”;

3. Suspensão das negociações com a Olivedesportos relativas aos direitos desportivos (2012-13);

4. Ausência na Taça da Liga;

5. “Investigação” sobre as notas dos observadores;

6. Intolerância perante manifestações de violência nas deslocações ao Porto;

7. Denúncia da passividade de Laurentino Dias perante factos relevantes da história recente da bola lusa e proclamação inequívoca da sua excomungação.

São “guerras” a mais? São. Mas o que está em causa é uma guerra de poder. É a avaliação da força do Benfica. E, no meio de algumas incoerências, trata-se de uma posição necessária, com efeito “bomba atómica”, se não estivermos, repito, perante um exercício de mera demagogia. E, se for o caso (para “virar” a arbitragem), a gravidade é ainda maior.

05 fevereiro 2010

A besta da censura


Por Rui Santos in Record

A liberdade de imprensa vive tempos conturbados em Portugal. O país tem assistido a um conjunto de "coincidências" que culminaram com o silenciamento (pelo menos temporário) de alguns jornalistas.
Este Governo tem sido particularmente acossado com sinais muito fortes de má convivência com a liberdade de pensamento. Nada de muito novo. O estilo truculento, de alguma incomodidade perante "certas opiniões", havia sido descortinado noutros Governos. Temos, pois, o "centrão" político, ou uma emanação dele, que deveriam ser os maiores guardiões da liberdade de expressão, a pôr em causa os mais elementares princípios de um regime verdadeiramente democrático.

Podemos ter reservas sobre o estilo e a forma. Mas, em nenhuma circunstância, devemos capitular quando os jornalistas são obstinados na defesa das suas ideias. Ideias assumidas, através da assinatura ou da imagem verbalizada.

Cobardes são aqueles que se servem dos jornais (como sua propriedade intelectual) sem darem a cara. Estes casos tocam-me especialmente. Tenho uma vida profissional de luta contra os censores.

Apercebo-me que, na área da política, as pressões são imensas, mas, com conhecimento de causa, sei o que se passa, a este nível, no "mundo do futebol". O "jornalismo desportivo" transformou-se num exercício de múltiplas concessões, omissões voluntárias e outras aleatoriedades.

Um diretor que claudica perante um texto de um respeitável profissional não merece ser diretor nem jornalista. E não é claudicar perante um texto. É arranjar-se um pretexto para um conjunto alargado de incómodos artigos. A independência, para alguns, é demência. Ou irresponsabilidade. Ou negativismo. Ou "bota-abaixismo".

"Problema?!" Só se forem ditos "jornalistas", nalguns casos fazendo parte de Direções, que dão cobertura aos amuos de gente poderosa. Na política e no futebol. Alegadamente em nome do negócio. Mas... que negócio?!

Há editorialistas que falam de ausência de contraditório quando eles, nas suas tribunas escritas, também não o têm. O exercício da escrita ou do pensamento verbalizado são momentos de uma certa intimidade. Opinião é opinião. Debate é debate. O "problema" é serem alguns jornalistas a não perceberem esse princípio e a fazer "jornalismo seletivo".

Nos últimos dias, por causa da divulgação das imagens do túnel da Luz, assistimos a mais um mau momento do jornalismo desportivo português. Quem esteve atento deu conta, certamente, de omissões, deturpações, falta de rigor, opinião em forma de manchete, notícias em forma de opinião, falsas presenças em estádio e puras discriminações.

Vale tudo: escolher protagonistas, eliminar outros, conforme se ama ou se odeia, fazendo-se notícias em torno do que se gosta e do que não se gosta, estejam em causa pessoas ou instituições.

Neste clima de "vale-tudo", comum ao futebol e certo ‘jornalismo desportivo', salvam-se alguns (honrosamente), mas a vergonha... não morre! A censura existe. Há forma de a combater? Há! Denunciando a besta que ela representa.

NOTA - Um FC Porto acelerado reabriu fissuras perigosas no edifício do leão, que ameaça ruir.

NOTA 1 - Saviola é o "rei" desta Liga.

04 dezembro 2009

O elogio da canseira



Por
Rui Santos in Record

O Benfica segue em frente na Liga Europa e, hoje, o Sporting tem todas as condições para o acompanhar. Fechada a torneira dos golos, e com a eliminação da Taça de Portugal, começaram as dúvidas sobre a capacidade e os métodos de Jorge Jesus (JJ). O costume. Os "novos contestatários" do treinador do Benfica não percebem uma coisa muito simples: mesmo em clima de forte investimento - comum às últimas épocas, sem resultados -, não seria possível quebrar a barreira do mais inculcado pessimismo se não houvesse pressa, na área desportiva, designadamente, de romper com um certo laxismo, na cabina e suas imediações.

Jesus teve pressa de colocar ao serviço do Benfica toda a experiência que acumulou no sentido de "pôr as equipas a jogar futebol". Era preciso falar mais alto. Era preciso estabelecer uma forte corrente com os jogadores e "quebrar os rins" ao vedetismo. A pastilha elástica e o seu mastigamento, mai-las expressões em que o sujeito tropeça no predicado, passaram a fazer parte das conversas de salão, mas não passam disso. Conversa. Quando alguém sabe de alguma coisa e tem sucesso, a mentalidade portuguesa arranja logo formas - mais ou menos subtis - para tudo colocar em causa. É idiossincrático.

Há treinadores que combinam postura com cultura geral e conhecimento futebolístico. JJ é - passe a expressão - um "animal de cabina". Trata os jogadores por igual, não discrimina, tenta fazer com eles um grupo que compreenda a base do sucesso: trabalho, alegria q.b., disciplina, exigência e múltiplos rigores. A seguir a Quique, o Benfica não poderia ter um novo Quique, sem embargo de considerar que, provavelmente, uma qualquer fórmula osmótica entre Quique e Jesus daria o melhor treinador do Mundo...

O Benfica não podia correr o risco de voltar a ter um treinador dominado pelos jogadores. Em Portugal, os atletas anicharam-se num regime de fraca exigência. Têm de ser os técnicos, escudados pelos presidentes/dirigentes, a fundar o verdadeiro profissionalismo. É isso que JJ está a fazer, se lho permitirem. Os jogadores têm de se treinar, sempre, para estar, sempre, nas melhores condições para competir. Acontece que essa exigência, elevada ao expoente máximo, é um exercício muito difícil. Porque não depende apenas da dialética. É diário. Pratica-se em todos os instantes. Nos treinos, nos jogos, nos hotéis, nos aeroportos, em todos os espaços públicos. E pode cansar, se não houver estrutura mental que o suporte.

É preciso, pois, entender Jesus na sua dimensão global, e não apenas na aparência de um ex-jogador de cabeça branca, de modos rudes, que grita e gesticula. O pior que pode acontecer é o Benfica não aguentar a exigência de Jesus ou Jesus cansar-se de tanta canseira.

Em Alvalade, Carlos Carvalhal (CC) levou com ele o equilíbrio. Gestos simples. Discurso fácil e fluente. Bom senso. Com pouco tempo e numa missão arriscada, reuniu as tropas, reuniu, incluiu, agregou, tentando tirar dos atletas aquilo que eles têm de melhor. O futebol impõe que os treinadores sejam rápidos nas respostas. CC tem hoje mais uma oportunidade para se (re)afirmar.