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13 outubro 2011

Liga: para onde vais?

O processo eleitoral na FPF mostra que os contorcionismos são surpreendentes, em nome de exposição, algum poder e as linhas de um “projeto”. É o tempo de se conquistar exaustivamente para a “lista” quem se espezinhou no passado; agora é o tempo de prolongar o “consenso” com nomes elogiados pelos arautos de uma “nova era”. O “power point” está pronto e a “literatura” afinada. As avenças escondidas passam para outro espaço. Até ao fim do mês, após a desistência de Soares Franco, espera-se pouco, a não ser política e “papers” a rodar pelas cadeiras. Enquanto se constrói a (quase) unanimidade pedida, o presidente “exaustivo” está a caminho. Até já pediu audiência na confederação, que será o destino ansiado, abrindo nessa altura a sucessão. Está montado um círculo de curto e médio prazo, que não resistiria a um conjunto de lideranças inovadoras… Não será o caso, mas que era mais interessante do que o óbvio, lá isso era.
Se o óbvio acontecer (ou mesmo que não aconteça), abre-se o maior desafio desde a sua fundação à Liga de Futebol Profissional. Em 2006, alguns prognosticaram que os órgãos então eleitos iriam ser uma comissão liquidatária de uma Liga decadente. Enganaram-se. Foi difícil estabelecer a antonímia com o passado. Mas consolidou-se, apesar das resistências geradas, o equilíbrio financeiro, a organização dos recursos humanos, a redefinição da imagem e da credibilidade das provas, a gestão mais profissional, a autonomia e a credibilidade das “áreas críticas” (arbitragem e disciplina), a transversalidade do rigor e da transparência. Depois de 2010, com o regime legal a esvaziar a Liga, seria o tempo ideal para implantar o grande desafio da sua reconversão, sem arbitragem e sem a disciplina das competições, mas com o futebol que se quer acompanhar. Era o tempo de largar as “amarras” que se eternizam (apostas e televisão, por exemplo) e montar em definitivo uma organização e uma indústria feitas para o interesse dos clubes. Já percebemos que esse desafio, além do “show off” e do “consenso” que tanto se preza por cá, não foi nem é para um qualquer “funcionário”.

A meio do mandato anterior da Liga, a UEFA revelou que o nosso principal campeonato ocupava o 10.º lugar em média de espectadores presentes nos estádios, atrás da Bélgica ou da Escócia. O panorama não mudou entretanto e mantém-se desolador. Um novo período de uma Liga robusta tem de começar por aqui – um “programa global” do adepto. Alguns traços: 1) impor a ocupação de 3/4 dos estádios através de ingressos baratos; 2) determinar pacotes familiares com custo baixo e “marketing” incorporado; 3) associação do adepto à aquisição de bens e serviços; 4) ajustamento dos horários televisivos; 5) transformar o estádio em lugar de animação. Um programa a quatro anos (Alemanha e França dão bons ensinamentos) que dê o poder das massas aos clubes. Com esse novo poder “sentado” nos estádios teríamos um futuro mais aberto no profissionalismo, num ciclo difícil, em que será mais do que muita a tentação de a Federação “engolir” a Liga. Falta saber, se assim for, quem vestirá a pele do carrasco...

05 outubro 2011

Bons costumes


No fim do mês de outubro de 2006 jogou-se um Porto-Benfica. Nessa semana, o clima de beligerância verbal atingiu níveis insuportáveis, com os presidentes desses clubes e o diretor-geral da Benfica SAD a envolverem-se em escalada nas picardias que fizeram escola no nosso futebol. Sem que houvesse qualquer queixa junto da Liga – como também era costume –, a Comissão Disciplinar, então recentemente empossada, deliberou e deu a conhecer em comunicado o seguinte: “Apelar a todos os agentes e sujeitos desportivos submetidos ao poder disciplinar da LPFP para que adotem condutas respeitadoras dos direitos de personalidade dos agentes e sujeitos desportivos (em especial a honra, a reputação e o bom-nome), dos princípios ético-desportivos da lealdade, da verdade e da retidão no que respeita às relações de natureza desportiva entre agentes desportivos, assim como do exercício das competências dos órgãos sociais da LPFP. Tal apelo surge em consequência de a Comissão Disciplinar se ter confrontado, desde o início do seu mandato, em 2 de outubro de 2006, com declarações públicas que se generalizaram no passado sem reprovação. Este é um quadro factual com que a Comissão Disciplinar não se deve conformar. Do exposto resulta que a Comissão Disciplinar, sem prejuízo da liberdade de expressão dos agentes desportivos, em particular a que permite a legítima manifestação do direito à crítica no âmbito das competições profissionais de futebol, promoverá por sua própria iniciativa a averiguação e eventual sanção da prática de factos que traduzam ilícito disciplinar...”. Seguia-se a enumeração de todas as infrações previstas no Regulamento Disciplinar para os prevaricadores. E seguiram-se dezenas de procedimentos disciplinares e sanções várias, na esmagadora maioria sem qualquer participação.

Cinco anos depois, realizou-se mais um Porto-Benfica. Sem quezílias e ambientes de hostilidade incentivada. Depois de muitos castigos a dirigentes e a treinadores por afirmações difamatórias ou perturbadoras da nomeação dos árbitros, essa função oficiosa de julgamento de condutas reprováveis, protagonizada pela Liga 2006-2010, estabiliza agora os seus efeitos preventivos na generalidade dos agentes desportivos. Com outros importantes fatores a contribuir, temos hoje uma outra mentalidade. Os discursos adquiriram, em regra, um tom civilizado; quem destoa é visto num trilho de anormalidade e deixou de ter a complacência da indiferença. Mesmo sabendo que a omissiva Liga atual só reage com queixa e não age por si só no que toca aos (agora raros) comportamentos de insulto e grosseria, ainda assim parece que os agentes adquiriram a perceção de que a profissionalidade das competições não é compatível com o estilo de “caserna”. E, daí, até os que não conseguirão jamais sair da “caserna”, nesta se têm remetido a um silêncio prolixamente salutar.

Mais do que nunca, os que agora eventualmente venham a prevaricar não podem merecer a impunidade. A recidiva seria dramática. Esse será, por isso, um desafio óbvio à capacidade e à coragem dos próximos titulares dos órgãos de justiça da Federação...

31 agosto 2011

Apito desafinado


1 Há cerca de um ano escrevi aqui, a propósito de estatuto legal dos árbitros: “O repto é alterar todo o processo de recrutamento e evolução dos árbitros nas sucessivas categorias, desde as camadas jovens até à 1.ª categoria. Submetidos desde a base a critérios esconsos e a fiscalização discutível, os árbitros que chegam hoje ao topo não são muitas vezes – ou não podem ser – os melhores. Ressente-se a independência e magoa-se a qualidade das suas atuações. Por isso se deve redigir quem e como se chega a árbitro – em carreiras distintas para “grupos de modalidades” – e instituir um corpo de arbitragem autónomo de quem organiza as competições (ainda que financiado e balizado pelas competições). Um corpo escolhido, formado e avaliado por “comités de técnicos de arbitragem” designados pelo Estado e atuantes, em secções diferenciadas, nas federações e nas associações. E com a possibilidade de tais organismos federativos e associativos recorrerem, no caso da gestão e organização dos árbitros profissionais, a entidades externas e, no caso da aprendizagem e reciclagem das competências de todos os árbitros, a formadores fora do ambiente fechado das federações e das associações (p. ex., universidades). Sem pôr em causa a autorregulação, mas assegurando o seu futuro.

2 Passou mais um ano. O futebol português é dramaticamente previsível, em personagens e em argumentos. Os árbitros estão novamente em cima do lume dos esquemas do maniqueísmo. Continuamos a ouvir o mesmo, com o inevitável “o Apito Dourado não deu em nada”! Claro que quem tal afirma não sabe o que diz ou apenas o diz a pensar em 3 ou 4 processos criminais que dominaram os media. Não é verdade!

3 O Apito Dourado (AD) lidou com corrupção, coação, falsificação de relatórios e tráfico de influências. O fundamental do AD foi julgado desportivamente pelo Conselho de Disciplina da Federação, uma vez que o AD averiguou esmagadoramente jogos e factos da (então) 2.ª Divisão B – pelo menos em junho e julho de 2008, foram suspensos 35 árbitros e observadores, com castigos entre 8 meses e 9 anos e 4 meses (e com árbitros a ultrapassarem, nas penas somadas, o castigo máximo de 10 anos!). O residual do AD foi julgado desportivamente pela Comissão Disciplinar da Liga em maio de 2008: suspensões de 6 árbitros com castigos entre 2 anos e meio a 6 anos.

4 O Apito Dourado foi a maior “limpeza” que se fez na arbitragem com base em adulteração grosseira das regras. Para além dos crimes (pois nem tudo era ou foi considerado crime), os órgãos jurisdicionais desportivos atuaram (ainda que com “défice” do Conselho de Justiça…) e os prevaricadores foram afastados. “Deu”. Acima de tudo, vemos que a arbitragem de 1.ª categoria se qualificou e os internacionais são considerados lá fora. Porém, cá dentro, o AD não deu o suficiente para se saltar em definitivo para um outro formato de árbitro – que exige mais que a profissionalização e solicita uma independência dos organizadores das provas. É por isso que passam os anos e, para alguns e com o mesmo formato, ainda parece que o AD “não deu” nada…

10 maio 2011

Em paragem cardíaca


O julgamento das condutas de Jorge Jesus e Luís Alberto no fim do jogo Benfica-Nacional trouxe perplexidade a quem desconhece os caminhos do Regulamento Disciplinar (RD) da LPFP. Ambos foram punidos por tentativa de agressão (?!), mas acabaram com penas bem diferentes. Assim foi por causa das chamadas “molduras de punição” a que cada um estava sujeito. Já sabíamos que Luís Alberto, enquanto jogador que tentasse agredir (ou agredisse) um treinador, sofreria, em abstrato, pena mais pesada que Jorge Jesus, enquanto treinador que tentasse agredir (ou agredisse) um jogador. As diferenças ainda são assinaláveis, desde logo porque os treinadores são punidos com molduras sancionatórias especialmente reduzidas: aplicam-se-lhes as suspensões dos ilícitos dos dirigentes, mas reduzidas em um quarto. Quando se apreende que, envolvido reciprocamente numa conduta com um jogador, a punição do treinador, pelo mesmo facto, pode ir, na hipótese mais grave (agressão consumada), de 23 dias a 9 meses, e a punição do jogador pode ir de 2 meses a 2 anos – e, até à época passada, a moldura ia de 6 meses a 3 anos… –, já não haverá surpresa com os resultados concretos dos processos disciplinares.

O problema está a montante. O ano passado realçou-se a desproporcionalidade em abstrato, não das decisões concretas mas das sanções possíveis entre as agressões de jogadores a agentes passivos qualificados pelas especiais responsabilidades na realização do jogo, desde os árbitros até aos delegados da Liga ou os assistentes de recinto desportivo – então puníveis entre molduras que iam de 6 meses a 6 anos – e todas as restantes formas de agressão – puníveis em jogos e nunca, então, em montante superior a 3, 4, 5 ou 6 jogos. Agora, a desproporção, também em abstrato, está entre as sanções dos diferentes autores da mesma infração, uma vez que são condenados pelo mesmo facto e são as vítimas de cada um deles.

É provável que estes processos ainda não sejam a força motriz de uma “revisão global” do RD, que, entre outros projetos, pede uma Liga personalizada e combativa, correspondente ao fulgor dos clubes portugueses na Europa. Ao invés, o imobilismo na Liga é hoje assinalável: nas apostas desportivas, eventualmente um sinal distintivo do mandato, abdicou; na “mudança” relativa ao usufruto dos direitos televisivos, em benefício dos clubes, a ingenuidade já alcançou que não é para “mexer”. A abertura ao exterior e a expansão do negócio ficaram pelo caminho; salva-se o apuramento da capacidade de organização. A disciplina deixou de existir, de caso pensado: o último jogo em Braga prova que a impunidade passou para o terreno. A arbitragem gere a transição para a Federação, na busca de um desígnio global. Entretanto, os clubes vão fazendo as cruzes no jogo das diferenças e não parecem insatisfeitos. Se nem o Nacional, tradicionalmente contestatário, se queixou de um castigo de 1 mês ao seu jogador – que, na prática, são 2 jogos de fim de época (=João Pereira por insultos) –, é porque o balanço da Liga de Gomes é bem positivo… E, a julgar pelas tiradas laudatórias dos jornais, deve ser mesmo!

31 março 2011

Corrupção e desporto


Chega até nós mais um relatório de uma organização não governamental que atesta que a impunidade da corrupção é promovida pela nossa lei e pelo sistema de aplicação da justiça. Desta feita foi a “Transparência e Integridade, Associação Cívica”, o braço nacional da Transparency International, que o confirmou. Algumas observações que resultam desse relatório: (i) a prescrição de processos não permite a punição dos crimes; (ii) o sistema judicial e os seus intervenientes são facilmente manipulados por arguidos detentores de maior influência política, social ou económica; (iii) não existe um “corpo estadual” com poderes especiais de investigação e prevenção da criminalidade económico-financeira.

São conclusões lúcidas. Ademais, continuo a pensar que, independentemente da maior ou menor bondade da lei – recentemente melhorada –, o papel fundamental cabe ao denodo e à coragem dos senhores magistrados dos nossos tribunais, sejam os procuradores do Ministério Público, sejam os juízes, em todas as instâncias. Mais do que meros “funcionários” dos tribunais, os magistrados judiciários são agentes da preservação dos valores que as leis difundem. E o “funcionalismo” desprendido da carga ético-preventiva que uma boa decisão veicula tem sido nefasto: os arquivamentos e as absolvições em casos factualmente ricos (ou deficientemente investigados) contribuem para a proliferação das más práticas e o descaminho da noção de “vergonha”. Já basta quando é muito difícil investigar e pouco ou nada se obtém. Isto é, por cada evento de corrupção que se escapa com uma nebulosa argumentação jurídica, muitos outros, pelo exemplo de impunidade, se seguirão. Este é o drama. Extensível à agressão verbal, à violência física e ao dano patrimonial.

Depois, a lei. Quando vemos condenações por corrupção, temos visto que as penas não são cumpridas efetivamente. Para um jurista esta é uma consequência percebida porque admitida pela lei. Mas suspender penas pesadas não é compreensível pelo leigo, que aí vê um “perdão” do “sistema”. É claro que a suspensão da prisão justifica-se em muitos casos concretos. Mas terá de ser feita quase como regra inflexível quando a corrupção (ou crime próximo) merece 3, 4 ou 5 anos de prisão? Enquanto a lei não proporcionar outras soluções que invertam o descrédito, as condenações não terão efeito preventivo e o trabalho judiciário revela-se inglório.

A não ser para os sectários – verdadeiros “inimputáveis” em sede desportiva –, o desporto não pode deixar de contar para os relatórios da corrupção e do tráfico de influências ilegítimo. Não podem ser denunciados no balcão das autarquias ou na inspeção das empresas e “desaparecer” nos bastidores dos estádios e dos pavilhões: o país não conhece fronteiras no assalto à ética e à decência. Esta é a luta futura do nosso desporto. Que merece uma estratégia clara e integrada – entre o Estado (com meios), o Ministério Público (com ação), os juízes (com estudo e combatividade), as federações e as ligas (com exemplo) – num próximo Governo para Portugal: um desporto limpo de violência, de dopagem e de corrupção.

18 outubro 2010

Novos árbitros


1. Quem nos leu a semana passada, saberá que refletimos por ora sobre os desafios que serão essenciais para o crescimento do futebol. Um deles é a arbitragem. Depois de anos de suspeições, histórias e rumores, e após os castigos (desportivos e criminais) a vários árbitros no “Apito Dourado”, no “Apito Final” e no “Apito da Federação” (onde foram pesadamente punidos vários árbitros), a classe encontra-se numa fase de transição, sob pena de se tornar insuportável o ambiente das competições. Ou avança para outro patamar ou fica na dúvida. Vítor Pereira intuiu isso há uns anos e, orientado pela experiência inglesa, forneceu um modelo para traduzir essa transição: a profissionalização de um quadro estável de árbitros para as competições da Liga. Infelizmente, toda a envolvência dessa profissionalização não foi acompanhada pelo poder político nas revisões da Lei de Bases e do Regime Jurídico das Federações. E não temos, por isso, base legal para um novo estatuto do árbitro desportivo. É urgente este salto.

2. O repto é alterar todo o processo de recrutamento e evolução dos árbitros nas sucessivas categorias, desde as camadas jovens até à 1.ª categoria. Submetidos desde a base a critérios esconsos e a fiscalização discutível, os árbitros que chegam hoje ao topo não são muitas vezes – ou não podem ser – os melhores. Ressente-se a independência e magoa-se a qualidade das suas atuações. Por isso se deve redigir quem e como se chega a árbitro – em carreiras distintas para “grupos de modalidades” – e instituir um corpo de arbitragem autónomo de quem organiza as competições (ainda que financiado e balizado pelas competições). Um corpo escolhido, formado e avaliado por “comités de técnicos de arbitragem” designados pelo Estado e atuantes, em secções diferenciadas, nas federações e nas associações. E com a possibilidade de tais organismos federativos e associativos recorrerem, no caso da gestão e organização dos árbitros profissionais, a entidades externas e, no caso da aprendizagem e reciclagem das competências de todos os árbitros, a formadores fora do ambiente fechado das federações e das associações (p. ex., universidades). Sem pôr em causa a autorregulação, mas assegurando o seu futuro.

3. Propor este projeto deveria ser um escopo indeclinável da Federação e da Liga. Mas já percebemos que, por um lado, a liderança velha ou uma liderança nova da Federação não arquitetam (até ver) um qualquer cenário diferente do passado. Por outro lado, a Liga atual manifesta ansiedade em libertar-se dos litígios da arbitragem (e da disciplina), pois almeja concentrar-se somente nas variáveis competitivas do “negócio” do futebol. Contudo: a) não se olvide que nesses dois sectores reside muita da credibilidade do “negócio”; b) não se negligencie que a Liga passará a ser a porta-voz da insatisfação dos seus associados e a ser ela a administrar o ruído. Melhor seria pugnar por um modelo favorável para o “negócio”. E na Liga, por agora, ainda estão as ideias de Vítor Pereira e os homens da sua equipa, que sabem bem como coser as linhas da arbitragem. Aproveite-se.

10 outubro 2010

Pequenos e médios



1. Tal como para o país se pedem reformas, também no futebol se sente a necessidade do país. Sentir não é sinónimo de ter vontade de fazer ou, até, de fazer mesmo: no futebol, é igualmente endémica a distância entre o que deve ser feito e o que é feito. No contexto do que é estrutural, alguns problemas (desafios) surgem aos meus olhos como mais evidentes. Um deles é o fosso entre os clubes grandes e os pequenos e médios clubes (PMC).

2. É pernicioso para o futebol profissional não termos uma “classe média” de clubes, forte e sustentada. Temos exemplos de médios que chegaram a ser “grandes” e até campeões e vencedores de competições. Mas não temos, nem nunca tivemos, um conjunto considerável de clubes que se desenvolvessem continuadamente, que, com estabilidade, trouxessem adeptos e receitas, que brigassem com os grandes por posições e lhes retirassem os protagonismos. Clubes que fidelizassem simpatias regionais – como acontece de há muito com o Vitória de Guimarães – e concentrassem os investidores económicos. Alguns desses de que nos lembramos foram até projetos “pessoais” que arrastaram a convicção dos adeptos, projetos assentes na capacidade económica e/ou carismática do “presidente” (e seus próximos), bem como do apoio das autarquias. Com a sua queda ou saída e as dificuldades financeiras dos municípios, alguns ficaram clubes “órfãos”, “adiados” ou “perdidos”. Outros resistiram e, diferentes, seguiram por outro lado. O caminho não é, a meu ver, por aí. Hoje por hoje, a fórmula é adeptos e receitas, com dirigentes capazes em diferentes valências e credibilidade na relação com terceiros e na obtenção de fatores críticos de sucesso nas competições. E, na rubrica das receitas, o papel central cabe sempre, ainda que num mercado exíguo, aos dinheiros da televisão, alavancados na paixão pelo jogo.

3. Uma Liga atenta ao que se faz lá fora e apostada em “criar valor” com a globalidade dos clubes tem que meter as mãos nesta massa, liderar os que não têm a voz dos grandes e revolucionar o aproveitamento do mercado (não só nacional) e do audiovisual em favor dos PMC. Por uma razão simples: os três grandes têm poder negocial e institucional próprio; todos os outros só o terão verdadeiramente em conjunto.

4. Mas não só. Há uma teia de medidas que deveriam constituir um verdadeiro programa de emancipação dos PMC. Algumas ideias para a Liga: (a) mobilizar por região a exploração comercial das provas, sustentando parcerias em “cluster” cujos resultados fossem repartidos pelos “pequenos e médios” da região: vejam, no Algarve, as sinergias do Portimonense e do Olhanense; (b) empenhar-se na redução de custos, associando-se com as entidades prestadoras de serviços típicos da atividade desportiva; (c) cooperar com as universidades e os institutos superiores para instituir cursos de formação de dirigentes desportivos, no direito, na gestão, no “marketing”, no agenciamento, etc., que atribuíssem as ferramentas necessárias para uma “nova geração”.

5. E, para grande parte desse programa, é preciso vencer a oligarquia dominante? É, claro! Talvez mesmo o mais difícil.

04 outubro 2010

Perguntas de um ministro


1. Enquanto os “pequenos poderes” da bola se reorganizam nos sofás dos hotéis e nas mesas das marisqueiras, o ministro que tutela o desporto em Portugal foi ver um jogo de futebol europeu no estádio do FC Porto. Fez bem em escolher um jogo internacional, integrado numa competição organizada pela UEFA, para regressar aos campos. Fez bem, digo, porque assim terá assistido serenamente a um jogo, sem se questionar em demasia.

Façamos o exercício alternativo de a visita ministerial coincidir com um jogo a contar para o campeonato principal de futebol. Enquanto titular dos poderes públicos que o Estado detém na organização e disciplina das atividades desportivas, delegados, para o futebol, na Federação e na Liga, o ministro Silva Pereira teria necessariamente que se interrogar se o jogo organizado pela Liga estaria em conformidade com a lei do país – uma vez que estamos já muito longe do dia 1 de Julho de 2010, data a partir da qual, segundo alguns, deveria estar em vigor a nova distribuição de competências entre a Federação e a Liga. Esta interrogação encerra um dado muito simples: estarão a Federação e a Liga a respeitar a lei nas suas provas durante esta época desportiva? E um outro: terão poderes para fazerem o que atualmente fazem?

Imaginemos, pois, que Silva Pereira arriscaria presenciar, naquele estádio ou noutro qualquer, um jogo da liga principal. E, como jurista que é, arrisquemos conjeturar sobre as perguntas que faria a si mesmo.

Ao ver os árbitros entrar em campo com os jogadores, perguntar-se-ia:

– será que a Comissão de Arbitragem da Liga podia ter nomeado a equipa de arbitragem?

Ao ver o árbitro mostrar um vermelho a um jogador e expulsar um treinador, questionar-se-ia:

– será que a Comissão Disciplinar da Liga poderá “castigar” estes jogadores e este treinador ou estes poderão alegar que não têm que cumprir os “castigos” da semana por falta de poderes da CD para os punir?

Ao ver duas decisões surpreendentes do árbitro numa das áreas e ao pensar nas suas consequências, indagar-se-ia:

– será que o observador da equipa de arbitragem, nomeado também pela CA, pode avaliar o desempenho dos árbitros e dar-lhes a nota do jogo, que contribuirá para a respetiva classificação no fim da época?

E, já assoberbado com tão poucas perguntas, pararia por aqui. Ainda concluiria o nosso ministro que é mais fácil embrulhar um líder da oposição partidária com um orçamento de chumbo do que responder a perguntas difíceis.

2.O futebol e Carlos Queiroz foram usados durante este Verão para uma sibilina manobra de diversão. O bombeiro de serviço foi Laurentino Dias, autorizado a sair da sua habitual discrição, e a causa ideal foi a luta contra o doping. A máquina de propaganda só parou quando Passos Coelho disse a frase mágica: “Com mais impostos, não há orçamento.” Entrincheirado o líder do PSD, Teixeira dos Santos fechou-se nos números da crise financeira, Silva Pereira (é o mesmo das perguntas) dramatizou com a crise política e Laurentino Dias saiu de cena (mas será recompensado!). Foi bem jogado. Mas não abusem! Ainda não estamos todos a dormir…

19 setembro 2010

O poder na bola


Este ano foi rápido. À 4.ª jornada o campeonato parece decidido. O FC Porto vence em diversos planos. Prognostica-se que festejará o título na próxima Primavera.

O ano desportivo será, portanto, calmo. Sem casos de maior, tirando algum desvario imprevisível. Salvo um ou outro comunicado, uma outra reunião “plenária” ou do “conselho”, e ruídos subsequentes, não haverá necessidade de investimentos significativos em “campanhas de rua”. A calma anunciada daria um bom tempo para rever as estruturas e perceber que as soluções não reclamam o distúrbio. Seria um bom tempo para delinear em definitivo e “à espanhola” uma estratégia para o futebol (e, quiçá, para todo o desporto) nacional. Onde queremos e como queremos estar daqui a 10 anos? Quais os modelos de organização e quais as características imprescindíveis dos respetivos “atores”? Quais as relações e os canais de colaboração exigidos a todos os intervenientes das organizações do “plano estratégico”?

Seria este um bom tempo para responder e executar as respostas. Sem desistências e com consequências substanciais para quem falhasse.

Não obstante as boas e sãs medidas (ou tentativas) de credibilização da Liga do “herminismo”, o tempo que vivemos é só um tempo de transição. Com a irresistível tendência para a recuperação do “passado”. Mas já muitos sabem que o “futuro” só chegará com o reformismo organizado e concertado e pessoas novas e descomprometidas. E a coragem. Todavia, sabemos que este tempo não é de “estadistas”.

Mais relevantes serão, por isso e por ora, os jogos de poder. Com a aproximação das eleições na FPF, e a translação da arbitragem e da disciplina da Liga, o tempo é de colisão dos vários “ismos” da bola. É o regresso ao velho futebol das “grelhas” e dos “vetos”, em formato moderno. O “gomismo” (que se ramificou para a Federação e para os gabinetes governamentais: chapeau!), o “caldeirismo-anterismo”, o “vieirismo”, o “bettencourtismo”, o “gilbertomadailismo”, o “pré-searismo”, o “ribeirismo” (de Carlos), até o “lourençopintismo”. Sem esquecer o “laurentinismo”, vigilante como sempre.

Disso se tratará durante a época – de “pequenos” poderes –, uma época marcada pelas eleições da FPF. Ao que tudo indica, eleições com os atuais estatutos “fora da lei”. Num procedimento que desrespeita também ele a lei, que pressupõe que primeiro se revejam os estatutos e depois se façam eleições. Ainda e sempre o poder: nos atuais estatutos, as associações têm a maioria dos votos; nos estatutos a fazer de acordo com a lei, as associações perdem a maioria dos votos. Acontece que, depois da revisão estatutária, outras eleições haverá(!), pelo menos para o conselho de disciplina e para o conselho de arbitragem (necessariamente com 2 secções distintas, profissional e não profissional). E, aí, o confronto agendado dos poderes “reorganizados”.

Será mais um ano “disto”. Poder e vistas curtas. E, vendo o comportamento de quem estiver no palco, assim ficaremos a saber com quem lidamos. Assim Sartre sentenciou, assim se verá na bola cá da terra.