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14 janeiro 2011

Ruben Amorim. Ele está em todo o lado. E em lado nenhum


Críticas. Construtivas ou destrutivas, ninguém gosta de ouvi-las e pior do que se ser criticado por aquilo que se é, só ser-se por aquilo que não se é. Ruben Amorim sabe o que é - "sou um médio centro" - mas não para onde vai porque a vida dele muda domingo a domingo. Há alguém a decidir-lhe o rumo e a trocar-lhe as voltas, e isso custa a engolir para este tipo certinho e discreto. Talvez de mais.

Amorim passou no código e tirou a carta à primeira em Portugal mas obrigam-no a conduzir em Lisboa hoje, Londres amanhã e na caótica Nápoles no dia seguinte. Uma salganhada? Ele também acha. "Nunca estou no mesmo lugar e isso tira as rotinas", disse no lançamento do Benfica-Olhanense de hoje, a contar para a Taça de Portugal.

Nas poucas vezes que jogou esta época (oito vezes a titular, sete como suplente utilizado), esteve à direita, à esquerda, à defesa e ao molho. Mas raramente onde ele queria. "Por vezes ser polivalente prejudica. É o papel que tenho neste momento." Um faz-tudo é bom para o contrato do treinador - quando é preciso consertar a equipa lá vem ele colar-lhe as extremidades. Um faz-tudo é mau para quem o é - trabalhar por biscates não lhe garante aumentos.

DE QUIQUE A JESUS Amorim chegou ao Benfica vindo do Belenenses e Quique pô-lo lá em cima, nos píncaros, fazendo dele um elemento indispensável naquele 4x4x2 linear. Com Jesus desceu à terra, nas sobras de Ramires e de Maxi Pereira, mantendo-se à coca, à espera da oportunidade que chegou com a chamada surpreendente para o Mundial. Aí, JJ elogiou-o, disse dele mundos e fundos, que ele merecia este e o outro mundo e que só alguém fora deste mundo não o convocaria. Mas no mundinho particular do Benfica, Amorim não entra, ou por lesão, como ele reconhece, ou porque a concorrência existe. E renova-se: Ramires, Martins e agora Salvio.

UM OITO Amorim está feito num oito e nem a perspectiva de poder jogar no lugar do n.º 8, Salvio, o tira do limbo. "Estou pronto para ocupar o posto do Salvio. Ele [Salvio] é um excelente jogador. O que eu quero é jogar mas tem sido difícil." Ou talvez impossível. Porque se não é por causa deste (Salvio) é por causa do outro (Carlos Martins) e a carreira de Ruben Amorim está numa encruzilhada. É que uma confirmação aos 25 anos é tardia mas uma afirmação pode vir tarde de mais.

07 janeiro 2011

Benfica. E se Salvio fosse a cara-metade de Saviola?

Saviola

Quando El Conejo precisa de um par para dançar não olha a nomes. Só ao jeito

Saviola tem um problema com o tango: não gosta dele. Não é que seja contra a dança em si, porque até se ajeita com os ritmos modernos do reggaeton; não, Saviola não pode com o tango, como muitos miúdos portugueses não podiam com o fado até ele lhes entrar pele dentro – El Conejo acha todo aquele espectáculo de dois corpos juntos, onde um comanda e o outro obedece, apenas aborrecido e ultrapassado. É estranho, talvez irónico, que um tipo que vive a vida entre alianças e trocando de parceiros dentro de campo não goste da cumplicidade de um tango argentino.
Saviola é um daqueles avançados que preferem passar uma tarde acompanhados, entre dois dedos de conversa de chacha, do que estarem entregues a si, sozinhos. Como ele, há alguns: Liedson, Rooney, Benzema, Villa ou Tevez; ao contrário dele, Jardel, Trezeguet ou Drogba. A diferença está entre quem prefere fugir aos centrais e quem gosta de estar metido no meio deles. E Saviola não é nada esquisito no que toca ao comparsa: alto (Cardozo), baixo (Jara), médio (Aimar) ou extremo (Di María), tanto lhe faz. Ele quer é ter alguém com quem trocar umas tabelinhas. Mas esse alguém também tem de ser capaz de o fazer: não é para quem quer, mas para quem pode. Por isso, quando Cardozo andou perdido por lesão, a produção de El Conejo foi irrisória – por mais que se esforce, Kardec não é tipo para o toma lá dá cá. E quando o Takuará voltou em grande, Saviola reencontrou-se à Beira-Mar (3-1, em Aveiro, bis de Cardozo e um de Saviola). "A dupla maravilha está de volta", disse Jesus. Nos jogos que se seguiram e em que ambos coincidiram (Olhanense, Schalke, Sporting de Braga e Rio Ave), Saviola fez quatro golos.
Não digam que é por causa do tempo e de que o que ele gosta mesmo é do Natal, porque nunca marcou por estações – o Agosto de 1999 do River Plate rendeu-lhe sete golos; o Setembro de 2000 do River, seis; o Abril do Barcelona de 2002, outros seis; e o Maio do Barça de 2003, cinco. O rendimento de Saviola não depende só dele mas da sua cara-metade. E Salvio preenche-lhe as medidas.

Salvio

El Toto tinha ginga nos pés mas faltava-lhe acertar os passos na defesa

O destino de Eduardo Antonio Salvio foi-lhe traçado pela imprensa argentina quando marcou dois golos ao Argentinos Juniors pelo Lanús. Acabado de ser promovido aos seniores da equipa de Buenos Aires, Salvio nem tempo teve para realizar o que se passava à sua volta: no quarto jogo à séria da sua vida, viu-se elevado à condição de menino de ouro do futebol argentino. Tinha 18 anos, um país aos seus pés e a Europa à espera dele. "Ele é fantástico e os fantásticos como ele não duram muito neste país", disse o superveterano Ariel Ortega.
O salto para o Velho Continente não demorou muito: em Janeiro de 2009 o Atlético passou um cheque de 10 milhões de euros e trouxe-o para Madrid. Aterrou como grande promessa mas a juventude, a pressão e a concorrência levaram a melhor sobre o talento puro. Como quase todos os sul-americanos, veio carregado de ilusión e de vícios que tinham de ser vencidos – Salvio não sabia o que era defender e isso custou-lhe um lugar naquele 4x4x2 aberto de Quique, onde os extremos como ele são obrigados a ter olhos abaixo da testa e na nuca. Passou os seis meses apenas com um momento alto (dois golos ao Tenerife) para contar; e regressou do Verão com uns quilos a mais para atacar 2010/11. Uma vez mais, o destino foi-lhe traçado pela imprensa. A espanhola, que o pôs na lista "a emprestar". O Benfica acercou-se, inteirou-se das condições e garantiu um empréstimo no mínimo carote: 2,5 milhões por um ano.
Na Luz, demorou a assumir-se como um futebolista válido – desajustado, lesionado e atrasado no momento de ajudar o defesa, Salvio foi aprendendo, garantia de Jorge Jesus. A história tem todos os condimentos para ser como a de Angel Di María, um extremo rápido, fogoso e virtuoso, mas com o seu quê de tonto na hora de definir a jogada. Agora, no lado direito, Salvio transformou-se de umas noites para as outras: a assistência para Saviola contra o Rio Ave, o bis frente ao mesmo adversário e o tiro diante do Marítimo fazem dele um rosto do Benfica. A meias com Saviola. Falta o resto, que é comprá-lo.

24 novembro 2010

Jesus. Três pontos fazem dele um rei entre os judeus

Este Jesus tem pouco de rei mas muito de mestre (assim o dizem). Mas não é um mestre-carpinteiro, como o Jesus da Bíblia, mas um mestre da táctica como "A Bola", a bíblia do desporto, sugeriu um dia - sugestão, aliás, aceite pelo próprio sem pudores ou modéstias. Agora, hoje mesmo, é o dia em que (Jorge) Jesus tem de justificar os elogios - e os auto-elogios - perante uma plateia de judeus. E já se sabe o que aconteceu a Jesus (Cristo) quando se disse o rei dos judeus... Para evitar carregar uma cruz para Lisboa, JJ tem de conquistar os três pontos frente ao Hapoel, em Telavive. Se o fizer, não fará mais do que a sua obrigação, que o Hapoel está a anos-Luz das escrituras do Benfica; se o não fizer, o treinador dos encarnados pode começar a cair com o Carmo e a Trindade. Comecemos por aquilo que Jesus não quer.

SE TUDO CORRER MAL "É quase uma finalíssima", diz Jorge Jesus. Correctíssimo. Em causa não está só a meta de passar aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões que uma vitória com o Hapoel manterá concretizável; em causa está uma época inteira. Imaginemos um cenário de apocalipse para Jesus: o Benfica perde (escandalosamente) em Israel e vê a Liga dos Campeões - que ele disse querer ganhar - por um canudo. Assim, de repente, um dos objectivos mínimos do clube vai à vida e à falta de êxito pessoal soma-se um fracasso financeiro e desportivo. Falhar a fase seguinte significa deixar fugir 3 milhões de euros endereçados pela UEFA e comprometer negócios em marcha. É simples: sem Champions não há contratações na reabertura de mercado (Janeiro) e as probabilidades de David Luiz ou Fábio Coentrão saírem crescem. Porquê? Porque o campeonato está tremido (dez pontos de distância para o FC Porto) e o Benfica tem gente subaproveitada - Sidnei, César Peixoto e Fábio Faria (lembram-se deste?) - que poderá tapar buracos em competições menores, como são a Taça da Liga ou a Taça de Portugal.

E SE TUDO CORRER BEM? Mas como também não estamos aqui para agoirar ou fazer papel de Judas, há a (enorme) possibilidade de tudo correr bem. Porque: 1) o Hapoel, e já foi dito atrás, é de longe a equipa mais fraquinha do grupo, com um ponto, dois golos marcados e oito sofridos; e 2) o Benfica parece estar em condições de apresentar um onze ideal para este jogo não decisivo mas importante. Vamos ao plantel: não há futebolistas de primeira linha lesionados já que os magoados, Airton e Weldon, são opções secundárias (bom, no caso do avançado trata-se mesmo de uma escolha terciária); e não há castigados, pelo que Gaitán, expulso em Gelsenkirchen, pode voltar a jogar na Champions. Mas a boa nova, a melhor de todas, é o regresso do homem-golo encarnado. Que nem se tem em grande conta.

SE ELE NÃO É A ESTRELA, QUEM SERÁ? Dois meses depois, ei-lo de volta à acção: Oscar Cardozo. O avançado lesionou-se frente ao Schalke 04 e Jesus quis recuperá-lo para o clássico com o FC Porto (0-5, no Dragão) - não deu e a coisa foi adiando. Até segunda-feira, quando o nome dele apareceu na convocatória para o jogo em Telavive. E ontem, Cardozo dirigiu-se aos jornalistas na conferência de imprensa em Israel. "Não penso dessa maneira. Não me sinto uma estrela ou o salvador do Benfica", disse o tipo que tem 15 golos em 29 jogos na Europa pelo Benfica. E disse o bombardeiro que em 2009/19 fez 38.

Percebe-se, portanto, a resposta de Jesus quando questionado sobre a titularidade/utilidade de Kardec: "O Cardozo não tarda está aí." E compreende-se, também, a insistência do técnico com o avançado nestes últimos treinos. Ele é o ponta-de-lança de Jesus.

16 novembro 2010

Poderá este Jesus ressuscitar (n)o Benfica?


Citando de cor, isto foi o que Jorge Jesus disse à SIC dias depois de conquistar o campeonato pelo Benfica: "Sempre garanti a quem trabalhava comigo que quando chegássemos a um grande, íamos dar de calcanhar." Ele há coincidências... Quer lá ver o leitor que foi de calcanhar - um senhor calcanhar - que Falcao fez o 2-0 num lance (o segundo) em que a invenção de Jesus (a segunda) deu barraca? David Luiz, o tipo escolhido por JJ para defender à esquerda, foi humilhado por Hulk, Belluschi, etc. e em 12 minutos (12'' e 24'') o Benfica saltou fora da corrida ao título. "Bom, ouvindo Jesus quando justifica a opção por David Luiz até parece ter lógica porque Peixoto não é o homem ideal para ali. Mas acabou por baralhar e mexer muito num sector que era o mais forte da equipa: a defesa. E saiu a perder", diz Vítor Paneira. O ex-jogador do Benfica assume que agora é fácil criticar porque o mal já está feito mas estranha as mudanças efectuadas em noite de clássico. "O Fábio é o melhor defesa-esquerdo do Benfica e esta foi uma má opção por parte de Jesus." Como o também foram aqueles discursos de início de época, em que a vitória na Champions era tida como um objectivo acessível e o bicampeonato uma quase certeza. "É positivo ter um discurso ambicioso mas, e já o critiquei antes, quando se vem falar em ganhar a Liga dos Campeões é preciso ter cuidado. Porque para chegar lá é necessária experiência e saber como funciona a competição." E Jesus, de 56 anos, ainda é verdinho nestas coisas da Champions.

A verdade é que este Benfica dá razão a quem o critica por falta de continuidade. Na Luz parece tocar uma daquelas bandas de one hit wonders; no Dragão mora um conjunto consistente, com álbuns coerentes. Acabadinhas de ganhar a Liga 2009/10, as águias perderam os seus dois melhores jogadores (Di María e Ramires) mas JJ não desarmava nas palavras. Dava a ideia de ter tudo controlado com as contratações de Gaitán, Jara e depois Salvio. Pelo meio, à RTPN, despachou Quim em directo e duvidou das capacidades de Villas-Boas para dirigir o FC Porto - a autoconfiança dava para tudo. Depois, Roberto foi comprado por 8 milhões de euros (na Luz gastaram-se 31 milhões na pré-época) e deu frangos que custaram pontos. "Não se ganham campeonatos no primeiro terço", garante Jesus. Mas perdem-se, acrescentamos nós. E aquilo de que Vieira falava no final da temporada passada - o arranque de uma nova era encarnada - soa a palavras bacocas dez jornadas depois. JJ teve carta branca para construir um plantel com as suas ideias e jogadores mas nem Gaitán, Airton, Weldon, Menezes, Faria ou Roberto são mais-valias. E enquanto os dirigentes se queixaram das arbitragens (algumas vezes com razão), apelaram à verdade desportiva e ao boicote nos estádios rivais, JJ justificava a má forma com o Mundial. Perguntamos nós: o planeamento não está ao cargo do treinador?

10 novembro 2010

Benfica. ... Todos ralham e ninguém tem razão

O filme está desfocado para os lados de Jorge Jesus. A paixão dos adeptos definha a cada derrota e há quem o confronte cara a cara pelas suas opções: a lua-de-mel parece que afinal não é eterna e os primeiros arrufos do matrimónio começam a vir à tona. Na madrugada que se seguiu à humilhação no Dragão, dois adeptos criticaram o treinador pelas suas opções e a resposta dele foi esta: "Coragem tiveram os que foram ao Dragão!" Tudo bem. Só que esses sócios tinham ido ao estádio do FC Porto e mostraram-lhe o ingresso como comprovativo - Jesus engoliu em seco e pediu desculpa. Ontem, no aeroporto, o técnico foi interpelado pelos mesmos benfiquistas quando a equipa seguia para as portas de embarque: "Mister, os que foram ao Dragão estão aqui a dar a cara outra vez. E achamos vergonhoso ir a Angola durante a semana numa altura destas." Ao ouvir isto, Jesus encolheu os ombros, pediu calma por lá estarem "jornalistas" e acabou por ser um responsável do clube a encerrar o assunto, explicando-se ao par de sócios: "Há aqui jogadores que não sabem o que é o Benfica e quando se apercebem da dimensão não conseguem lidar com a pressão." De Luís Filipe Vieira, nem um palavra.

Não são só os adeptos a torcer o nariz ao raid encarnado a Angola por ocasião das comemorações do 35.º aniversário da independência do país - aos jogadores e equipa técnica também não caiu bem a decisão presidencial de forçar a equipa a um desgaste suplementar e desnecessário. A viagem relâmpago a África está contextualizada numa suposta despedida oficial de Mantorras (no jogo Angola-Benfica, hoje às 19h) aos relvados e num encaixe chorudo para os cofres da Luz - 1,4 milhões de euros, pouco menos do que duas vitórias na Liga dos Campeões. Que é o que se pede a Jesus neste momento crítico: ganhar ao Schalke 04 (na Luz) e ao Hapoel (em Telavive) garante a passagem aos oitavos-de-final da Champions, um dos objectivos mínimos para quem até falou em conquistar a competição em Wembley. Se a meta não for alcançada, a contestação interna aumentará e Jesus ficará em palpos de aranha, agarrado à cláusula de rescisão astronómica (5 milhões de euros, pelo menos) que acordou com o clube. E é por isto e pelo capital de confiança que (ainda) tem junto de Vieira, que o despedimento de Jesus é cenário distante. Mas caso o Benfica decida prescindir do treinador, a solução passa pela entrada em cena do agente Jorge Mendes que procurará colocar Jesus no estrangeiro, satisfazendo ambas as partes.

ENTRE MUROS Jesus tem um estilo e o estilo é este: aperta com os jogadores até mais não, grita com eles em alta voz e muitas vezes insulta-os. Os jogadores que treinou no passado já se queixaram das "orelhas a ferver no treino" mas sempre lhe elogiaram a capacidade táctica; os futebolistas que dirige no Benfica dizem o mesmo dele. Ou diziam.

Este ano, já se viu Luisão, de braçadeira, a discutir com Jesus em pleno relvado; já se viu Cardozo desagradado por não sair de campo quando se encontra esgotado e o resultado construído ("O descanso só faz é mal", diz Jesus); e Saviola com ar de poucos amigos sempre que é substituído. No futebol, como na vida, quando se ganha, tudo se suporta mas o inverso também é verdade. Nesses momentos questionam-se as opções tácticas, os métodos, os tiques e a cabeça começa a pesar mais do que as pernas. O Benfica é a formação mais indisciplinada da Liga, com 37 amarelos e dois vermelhos directos - contas feitas, as águias não podem contar com Luisão, Maxi Pereira e Carlos Martins para o encontro com a Naval (domingo).

MEDO DO LOBO MAU Na preparação para o jogo do FC Porto, ficou evidente a preocupação de Jesus em montar um esquema que anulasse Hulk, como se o Incrível fosse lobo mau. Em 2009/10, foi Peixoto quem o defendeu na vitória caseira com o golo de Saviola - nem um nem outro jogaram no passado domingo mas um e outro tinham sido titulares nos últimos encontros. Como escreve o "Record", a coisa não caiu bem a Peixoto, a Saviola e nem aos restantes elementos do balneário que viram um Jesus medroso em vésperas de clássico.

05 novembro 2010

Três zeros à esquerda? Não, três-zero para a esquerda

Há um momento em que César Peixoto se vai virar para a câmara e dizer: "Perguntem-lhe a ele, que ele é que é o defesa. Eu sou médio." Ele é Fábio Coentrão. Num vídeo da responsabilidade da BenficaTV a circular no YouTube, Peixoto foge de uma responsabilidade que devia partilhar com Coentrão: a de defender. A sorte dele (de Peixoto) é Coentrão ter-se feito um miúdo atinadinho, de coro, que tudo faz para não levar puxões de orelhas do professor. Hoje, Coentrão é aquilo que ele quiser ser, seja atrás, no meio ou à frente. Dizer que ele é um defesa-esquerdo está errado - Coentrão é um lateral. Para justificar a distinção, recuperemos dois exemplos: 1) Paolo Maldini, um tipo alto, posicional, quase um central adaptado à linha e que acabou a carreira no centro; 2) Roberto Carlos, um futebolista explosivo e ofensivo com a linha de fundo nos olhos e o golo na ponta do pé esquerdo.

Fábio Coentrão é muito mais Roberto Carlos do que Paolo Maldini mas é precisamente do antigo clube do mito italiano (AC Milan) que chega um interesse continuado na sua contratação - os dois golos ao Lyon, num jogo feito como suposto defesa, parece acelerar o futuro do rapaz das Caxinas. Fábio Coentrão está na moda e na moda também estão os jogadores como ele - além do português, a Europa olha para Gareth Bale (Tottenham) e Marcelo (Real Madrid).

O RESGATE DE RYAN Giggs. Parece que finalmente apareceu alguém para encher as medidas do fato de treino do maior ídolo do País de Gales: Gareth Bale, 21 anos, oriundo de Cardiff e de todos os sítios com estradas amplas onde ele pode acelerar à vontade do freguês. Foi assim que Bale fez de Maicon - o putativo melhor lateral direito do mundo - um jogador vulgar, quase banal. O Tottenham ganhou por 3-1 ao Inter de Milão com duas assistências do jovem galês e no final os italianos da "Gazzetta dello Sport" chamaram-lhe marciano. "É de outro planeta", escreveu-se. Maicon disse que não, que o miúdo era apenas um terráqueo que acabara de ter uma boa noite. De sono, que depois do jogo Bale seguiu para a casa dos pais para gozar as folgas. "É um bom profissional", diz Redknapp, o treinador. Bale é um miúdo talentoso que esteve para se perder; não pelas mesmas razões de Coentrão mas por lesões. Duas, graves, nos joelhos. Recuperou para tornar-se no futebolista de maior rendimento do Tottenham, clube que esperou por ele enquanto lambia as feridas. Barcelona e Real Madrid têm-no referenciado.

A ESCOLHA MARCELO Mourinho chegou ao Real Madrid e pediu o defesa Kolarov (Lazio) que acabaria por se transferir para o Manchester City. O treinador português não confiava em Marcelo, o brasileiro gingão, com cara de Robinho (mais barba, menos barba) e estilo a condizer: nada a apontar em termos ofensivos, tudo a duvidar no momento defensivo. Mas o carioca de 22 anos tinha encantos escondidos e Mourinho acabou por apaixonar-se por ele - agora, ninguém lhe tira o lugar nem a condição de cúmplice preferido de Ronaldo na esquerda.

07 outubro 2010

Carlos Martins. O homem que tudo quis tudo poderá ter

O médio está onde quer estar - casado, à espera de um segundo filho, decide jogos e bate à porta da selecção

O miúdo que se punha de joelhos no relvado com as mãos na cabeça a lamentar o enésimo falhanço deu lugar ao homem que puxa os colegas pelo colarinho e discute quem bate os livres, como fazem os líderes numa equipa de futebol. Carlos Martins já manda o seu quinhão no Benfica e deve-o aos golos que marca e à consistência revelada jogo após jogo. Quer ser aquilo que toda a gente lhe dizia que ia ser quando crescia em Alvalade: importante. Aos 28 anos vai a tempo, porque já não é o mesmo.

Por mais que diga que não, que está igual ao que sempre foi e que isto acontece só porque sim, porque tem mais jogos nas pernas, estes argumentos nunca vencerão - Martins estará apenas a viver em negação. Ele e quem o rodeia e alimenta esta visão distorcida da realidade. Que ninguém se sinta ofendido. Martins está diferente e para muito melhor. João Martins, o irmão mais novo, médio do Gil Vicente, mantém a charada e diz que "o Carlos nunca mudou". "Ele sempre foi assim, não está mais nem menos maduro. É uma questão de o porem a jogar." Que seja, mas poucos duvidam que o casamento com Mónica e o filho, Gustavo, lhe deram estabilidade emocional. Diz João Martins: "Vai ser pai outra vez, e ser decisivo no Benfica e sentir-se importante dá-lhe outra confiança. Ele quer ser o melhor, quer ganhar e marcar golos." O segundo filho está para nascer este mês e o festejo do golo, com o polegar na boca e a bola dentro da camisola, é uma homenagem que chega antes do tempo. "Porque é que ele apontou para as veias? Ainda não falei com ele sobre isso [risos]. Se calhar é a dizer que está vivo e que o sangue lhe corre bem. E aquele remate hã? Grande golo", brinca João Martins.

Três imagens de marca de Martins: o pontapé de pé esquerdo ao Braga, o de pé direito ao Nacional, este ano, e o de pé direito ao FC Porto, na final da Taça da Liga. "Ele acabou bem a época e ficou triste por não ter ido ao Mundial. E falo como adepto, e não como irmão, percebe? O Carlos fez uma segunda metade de época fantástica e devia ter ido." Nesta pré-época, Martins celebrou a dançar a "Waka Waka", de Shakira, o tema da prova. Provocação? "Nada disso! O Carlos não é de rancores." Será mesmo assim? O teste chega agora com a chamada à selecção: Bento e Martins já disseram cobras e lagartos um ao outro através dos jornais. Agora chegou a altura de uma trégua em nome da pátria.

05 outubro 2010

Get on your boots. Benfica aos soluços na caça ao FC Porto

Carlos Martins deu o encore a um concerto que parecia acabado. E empatado. O Braga ficou para trás e o segundo lugar já é do campeão. Benfica 1 - Braga 0

A segunda parte do Benfica-Braga tinha uns dez minutos de jogo quando Aimar centrou todos os holofotes. O argentino estava sozinho na área, ou no palco, à frente da baliza. Suspense. A equipa, ou a banda, entregou-lhe uma bola perfeita, de bandeja, para o líder fechar a música, ou fazer o golo, mas o pontapé saiu por cima. Ali se perdia a maior oportunidade para o Benfica, ali começavam os nervos e o receio de mais dois pontos desperdiçados depois dos nove já atirados à rua. Em noite de “concerto do ano”, U2 em Coimbra, também na Luz haveria um “Moment of Surrender”, um tema final a despedir os espectadores para casa? A equipa despedia-se ali da perseguição ao FC Porto? Não, apareceu Carlos Martins no primeiro encore. “One.”
Afinal, às vezes há mais uma canção. Os encarnados foram buscá-la numa fase complicada do jogo, se calhar quando muitos já acreditavam no empate. Afinal, do outro lado estava o Braga, o “vice-campeão”, a defender como ainda não tem conseguido este ano (22 golos sofridos), a ensaiar uns contra-ataques sempre que a voz de Salino permitia. De resto, de encarnado ouvia-se principalmente Aimar, desta vez nem sequer um solo de Fábio Coentrão (versão lateral esquerdo), daqueles que de vez em quando salvam a menor inspiração dos outros. Jorge Jesus lançou Gaitán a cantarolar pelo flanco esquerdo, Kardec aos soluços no ataque (Cardozo lesionado) mas foi Martins “One” a salvá-lo, com aquele pontapé canhoto (!) aos 73 minutos. É assim: há artistas únicos, capazes de resolver problemas “in mysterious ways”. E assim o Benfica ultrapassa o Braga na classificação e chega ao segundo lugar da Liga, a olhar para o topo da tabela, às vezes a sofrer, outras a dominar, mas sabendo que será preciso jogar mais do que isto para sonhar com a vitória no campeonato. “Get on your boots”, porque o FC Porto poderá ter uma vantagem demasiado grande.
Expliquemos: Alan vs. Maxi Pereira, Lima vs. David Luiz... houve duelos bem definidos – e ontem muitas vezes perdidos – que espelharam as dificuldades benfiquistas. Maxi atacou, mas sofreu muito mais com as cavalgadas de Alan. E David Luiz parecia por vezes um defesa banal perante o incómodo de Lima. O Braga está bem mais frágil do que no ano passado e essa evidência ajuda a analisar o momento do Benfica – neste concerto também não lhe é muito superior. Nem que no final tenha havido uma última grande oportunidade de Coentrão. Pois. Em Coimbra também houve dois encores...

24 março 2010

A equipa deste Jesus ficará nas escrituras?



Por Pedro Candeias in ionline

Eriksson não duvida: "Benfica será campeão e regressará aos velhos tempos"


Que faz o Benfica de Jesus? Lidera a Liga portuguesa, avança para os quartos-de-final da Liga Europa e já conquistou um troféu - e fá-lo com números, em 103 golos, mais três do que o Barcelona, 11 à frente do Real Madrid; e em estilo, controlando rivais históricos. E que faz o benfiquista com Jesus? Lidera as conversas de café, avança confiante para os jogos e já (re)conquistou a auto-estima - e fá-lo com números, em recordes de bilheteiras; e em estilo, com festas no Marquês depois da vitória na Taça da Liga, frente ao FC Porto. E o Benfica de Jesus começa a fazer lembrar outro Benfica, de outros tempos; e os benfiquistas de Jesus começam a lembrar-se de outro Benfica, de outros tempos. É um ciclo. "Esta vitória é o começo de um novo ciclo do futebol português", disse Vieira no Algarve. Será? Jesus diz que não, que o que é preciso é dar um passo de cada vez, ir jogo a jogo. O homem é experiente e sabe que nada está ganho antes de ganhar; e sabe que um ciclo são três anos, e ele quer dar o salto lá para fora antes de completar um. Não faltam elogios para Jorge Jesus.

Eriksson, viu a final da Taça da Liga no Algarve. Este Benfica surpreendeu-o?

Vi o jogo mas saí antes do terceiro golo para não apanhar a confusão. Quem é que o marcou mesmo?

Foi o Cardozo, mesmo a acabar.

Ah, muito bom jogador. Mas, respondendo à pergunta, não fiquei surpreendido de forma alguma. Já andava a seguir este Benfica e ele foi claramente superior ao FC Porto. É uma equipa com grandes jogadores, como o Saviola, o Javi García, o Ramires, o Cardozo, claro, e os centrais. Não se pode comparar com o meu tempo, porque, lá está, os tempos são outros. Mas este Benfica será campeão e regressará aos velhos tempos, com fulgor europeu. O Liverpool será um bom teste mas acho que tem condições para passar.

Conhecia Jorge Jesus?

Não é do meu tempo. Devo dizer-lhe que se nota que há trabalho dele, mas também dos jogadores. A ver se os mantêm.

E O MERCADO? Será difícil manter os melhores jogadores encarnados na Luz - o Benfica venderá para equilibrar contas - pelo que só o futuro dirá se este Benfica de Jesus ficará nas escrituras como o de Guttman (anos 60), Hagan (70) ou Eriksson (80). As antigas glórias pedem consistência e consolidação para um projecto. "Não basta ganhar um ano. É preciso haver continuidade para se ficar na história", diz Simões, antigo extremo das águias. Nené, o goleador dos calções limpinhos, é da mesma opinião: "Não se podem comparar. É claro que há aqui muito valor, o Benfica tem jogadores que deixam tudo em campo. Faz lembrar outros tempos. Vamos ver o futuro." Quanto mais nos aproximamos do presente, menores as dúvidas. João Alves é assertivo: "Este Benfica atropela os adversários como o meu e vai ficar para a história." Assim o queira Jesus? "O mérito é dele", diz, tranquilamente, como quem calça umas luvas pretas.

23 março 2010

Guerra é guerra. E na guerra vence o mais forte



Por Filipe Duarte Santos e Pedro Candeias in ionline

O Benfica venceu o FC Porto por 3-0 e conquistou a terceira edição da Taça da Liga. Ruben Amorim, num frango de Nuno, Carlos Martins de livre directo e Cardozo nos descontos marcaram os golos da partida que valeu o primeiro título na carreira de Jorge Jesus


“Desculpe, Eriksson. Guerra é guerra”, disse Pinto da Costa ao então treinador do Benfica, em 1991, naquele célebre clássico nas Antas em que a equipa do Benfica se queixou de ser recebida com um balneário a feder a enxofre – os jogadores equiparam-se nos corredores. Guerra é guerra e ela está à vista, chegou à final da Taça da Liga no Algarve, num dos Benfica-FC Porto mais bélicos dos últimos tempos. Ao longo da época, as palavras dos dirigentes e as batalhas nos túneis foram os disparos que aqueceram o ambiente para este clássico. Depois o povo, já se sabe, reage com mais emoção do que razão: confrontos em áreas de serviço, pedrada junto ao estádio, testas abertas e sangue nariz abaixo. Bem vindo ao futebol português, o jogo vai começar.

O MUNDO AO CONTRÁRIO. Afinal, guerra é guerra, também no relvado. Carlos Martins e Bruno Alves procuram mais as pernas adversárias do que a bola. É o futebol ao contrário. Bruno Alves remata para o lado da sua baliza porque está mais preocupado em atingir Martins; e Kardec, do meio campo e também por raiva, quase consegue marcar golo na própria baliza._Que tiro! Que forma mais estranha de ceder canto.
Aqui e ali aparece algum futebol – Kardec isolado por Martins; bom remate de Rodríguez para defesa de Quim; Falcao a criar perigo – mas a tensão não sai do relvado. Ninguém joga muito bem nem muito mal, mas todos batem duro. Depois, neste mundo ao contrário há ainda quem possa esquecer-se das regras: o guarda-redes do FC Porto, Nuno, não se lembrou de utilizar as mãos naquele remate frouxo de Ruben Amorim e deu um frango do tamanho do mundo. Que o FC Porto não é o papão de outros tempos, isso já sabia, mas uma final é uma final e o que fazia menos falta era aquela traição que deu o 1-0 ao Benfica e afundou ainda mais os dragões no próprio desespero. A partir daí já não podiam disfarçar aquele limbo estranho, tenso, entre a vontade de dar tudo e ausência razão. Facilmente cairam em conflito. Quem consegue viver em serenidade, acima disso, é quem ganha. Aliás, só assim se explica que Carlos Martins, o dinamite ambulante, tenha marcado um livre-directo extraordinário e feito o 2-0 como se parecesse uma arma de alta precisão.
O jogo foi para intervalo com 2-0 (Bruno Alves e Aimar pegados, claro) e uma ideia de que o Benfica, mesmo a anos luz do que fez em Marselha a meio da semana, tinha o jogo mais do que ganho. E não fazia diferença nenhuma o facto de ter deixado no banco quatro titulares indiscutíveis, como Javi García, Ramires, Saviola e Cardozo.

O FC PORTO AO CONTRÁRIO Talvez o FC Porto também já tivesse dado tudo como perdido. A equipa de Jesualdo não teve uma bola de golo, não reagiu, olhou impotente a forma como Jesus ainda melhorou o onze, lançando Saviola, Ramires e Cardozo. O banco dragão, para a frente, resumiu-se a Orlando Sá. E o Benfica, mesmo sem nunca apertar, ainda fez o 3-0 no final. A Taça da Liga, o primeiro troféu da nacional de Jesus, é a confirmação oficial da força de uns e da fraqueza de outros. Da inspiração, da tranquilidade, da garra e da qualidade; e da falta de tudo isso. E em tempo de guerra ser mais forte faz toda a diferença.

17 março 2010

Benfica. Ai Jesus que lá vão eles


Por Pedro Candeias in ionline

Três jogos de três competições. Duas delas podem ficar pelo caminho. O destino do Benfica joga-se em 12 dias

Às tantas, o público de Alvalade levanta-se e à laia de provocação cantou: "Eles não jogam nada, é uma choradeira, chora o Rui Costa, chora o Chalana e chora o Vieira." É o 5-3 das meias-finais da Taça de Portugal de 2008 que o Sporting ganharia após eliminar o rival Benfica. Dois anos depois, dos três visados caiu naturalmente um (Chalana); outro subiu a director-desportivo (Rui Costa) e o último levantou-se (Vieira). Com Jesus. E com os 33 milhões de euros investidos na compra de jogadores que levaram o clube para outro patamar competitivo. E de cobrança. Porque agora exigem-se triunfos ao Benfica das goleadas, do melhor plantel em Portugal, dos atletas que se diz serem cobiçados por meia Europa. Pensando bem, mais do que vitórias, pedem-se coisas, palpáveis, que possam figurar nas vitrinas do clube - ou seja, troféus, como aquele do Jamor de 2008 que nunca chegou depois do pesadelo de uma noite de Abril em Alvalade ou como o conquistado no Algarve numa final polémica contra os de Alvalade.

Ora, é precisamente no Algarve, este domingo, que o Benfica joga parte do destino da época, frente ao FC Porto, na defesa do único título (Taça da Liga) conquistado desde 2005. Mas isso é já ver à frente do tempo, numa viagem de 12 dias com três destinos (Marselha, Faro/Loulé e Lisboa) e outras tantas competições (Liga Europa, Taça da Liga e Liga) para calcorrear - a primeira paragem vem aí ao virar da primeira curva, na quinta- -feira. É um ai Jesus, que lá vão eles.

MENOS É useiro e vezeiro nos treinadores: "O jogo mais importante é sempre o próximo." Certo, mas há sempre uns mais importantes do que outros e o discurso de Jesus torna claras as prioridades: o que interessa mais é o campeonato; depois, a Taça da Liga importa mais ou menos; e a Liga Europa, menos. Por uma questão de tradição, classificação e, claro está, dificuldade. Porque o Marselha mostrou que agora é que são elas na Liga Europa, onde estão clubes saídos da Liga dos Campeões, experientes e experimentados. Os franceses puseram em sentido os lisboetas na Luz com um empate (1-1) num jogo em que Aimar, Di María, Saviola ou Ramires se sentiram presos como raramente se sentem cá em Portugal. E se JJ diz que o Benfica vai marcar lá, no Vélodrome, é preciso que tanto ele como os seus jogadores dêem o melhor lado deles para a fotografia na montra da Europa.

MAIS OU MENOS Depois dessa quinta-feira, a coisa aquece mais um bocadinho, para um clássico em solo neutro, num fim de tarde domingueiro em terras algarvias. Depois dos túneis, das acusações e dos desmentidos, das suspensões, das conferências de imprensa e dos blackouts, das marchas pela verdade desportiva, eis que Benfica e FC Porto se voltam a encontrar. E num jogo decisivo que ninguém quer perder. Muito menos Jesus, que não tem troféu algum para mostrar na sua já longa carreira - se o perder, a pressão sobre ele e sobre o Benfica crescerá porque é menos um título possível (a Taça de Portugal fugiu com o Vitória de Guimarães). E este, Quique Flores, que nunca teve o apreço público do presidente como JJ tem, ganhou-o em 2009.

MAIS Agora puxem do termómetro porque o encontro de sábado, dia 27 de Março, é a ferver: Benfica-Sporting de Braga, o jogo do título. Os encarnados de Lisboa chegam com três pontos de vantagem sobre os encarnados do Minho e a vitória dos primeiros porá água na fervura; um empate põe tudo em banho- -maria e o triunfo dos segundos deixará a Liga em ponto de rebuçado.

24 fevereiro 2010

A arte está nas chuteiras. E o Hertha foi de patins


Por
Pedro Candeias in ionline

Nota artística 10 para o futebol de Aimar, Di María, Saviola, Cardozo e Javí. Todos eles "Buenos Muchachos" que venceram o clube alemão por 4-0

É Tommy DeVito (Joe Pesci) quem provoca Henry Hill (Ray Liotta) no "Tudo Bons Rapazes" de Scorsese (1990): "Que queres dizer com 'tens piada'? Isso quer dizer o quê, que tenho piada, como um palhaço? Entretenho-te, é isso?"

Pablo Aimar, que é um dos "Buenos Muchachos" deste Benfica, nunca faria esta pergunta nem entraria neste bate-boca. Palhaço é palavra proibida no vocabulário desde que um jornalista argentino lhe pôs a alcunha que ainda hoje não pode ouvir - El Payaso - só porque o futebol dele o divertia.

Mas o homem com memória elefantina podia ceder no elogio que lhe fizeram: porque o futebol dele diverte mesmo e com ele em campo é outra coisa. Com ele Jesus pode deixar que peçam aquelas três coisas ao Benfica: "A vitória, a goleada e a nota artística." Ontem a equipa ganhou à vontade (4-0 ao Hertha) e deu espectáculo. Fosse o futebol aquilo que Jesus avisou que não é (patinagem), e seria chapa 10 nos três itens.

VAI UM PEZINHO? A patinagem artística faz-se a dois ou a solo. E os pares deste Benfica estão há muito definidos: Aimar- Saviola, Di María-Cardozo. No primeiro, que se conhece desde os tempos da adolescência, actua-se de olhos fechados e passos curtos - um golo (25', de Aimar); no segundo, pisam-se calos às vezes, mas há dias em que o entendimento é perfeito e fluido - bis de Cardozo (48' e 62'). E às duas por três (entre o segundo e o terceiro golos) aparece um solista a fazer o gosto ao pé: Javi, o rapaz que joga sozinho porque é assim que se sente bem, marcou pela primeira vez na Liga Europa na baliza correcta (autogolo em Berlim, no 1-1).

Depois JJ baixou a exigência: tirou os artistas Aimar, Saviola e Di María e o Benfica que deslizava sobre o relvado molhado da Luz começou a meter alguns pés nas poças. Mas os triplos axel, as piruetas e as circulares já estavam feitas. E a Segunda Circular, pelo menos para os lados da Luz, em festa com a passagem aos oitavos-de-final.

Liga. Onze para cada lado, bola ao centro e no fim ganha...


Por Filipe Duarte Santos e Pedro Candeias in ionline

... o Benfica? Sim, a olhar pelos últimos anos, desta vez a história do FC Porto não se confirma. Nem sequer a do Braga. A dez jornadas do fim o líder costuma ser campeão
O campeonato pode ser a coisa mais previsível do país. Onze para cada lado, bola ao centro e no final ganha o FC Porto. Nos últimos tempos tem sido quase sempre assim, salvo uma ou outra excepção que pode agora repetir-se, com o Benfica a adiantar-se a dez jornadas do fim.

Não vale a pena fazer muitas contas de cabeça, basta ter um dado em atenção: quem costuma estar à frente nesta altura acaba sempre campeão. Sim, pelos vistos estar em primeiro lugar ajuda alguma coisa porque isto do futebol não é uma corrida de caças, onde quem vai atrás tem vantagem. "O Benfica é favorito porque vai à frente. O calendário nesta altura pouco conta", diz Álvaro Magalhães, eterno optimista e adjunto de Trapattoni quando o Benfica quebrou o jejum, em 2004/2005.

Nessa temporada, Benfica, FC Porto e Sporting arrastaram-se até final da época como se nenhum merecesse ser primeiro, mas até nesse campeonato atípico a regra se cumpriu: à vigésima jornada, a equipa que haveria de ser campeã estava no topo (em igualdade pontual com o FC Porto). Daí para cá, o campeonato voltou à normalidade, ou seja, desde 2005/06 os dragões já eram sempre líderes isolados por esta altura. E daí não saíram. Mas será que este ano ainda têm alguma hipótese, apesar dos seis pontos de atraso para o Benfica? "Estão trinta pontos em disputa, tudo está em aberto. A equipa está diferente do início da época e melhorou muito com a chegada do Ruben Micael", diz o portista Jaime Magalhães, ainda com esperança na recuperação. É mesmo uma questão de fé, de qualidade, porque a ausência de Hulk nem sequer o incomoda: "Quando foi suspenso também não estava em grande momento de forma, nem sequer era sempre titular. O Varela veio colmatar a sua ausência e mesmo o Mariano está muito bem. O que vai fazer diferença para as últimas jornadas é o físico."

Só aqui os dois Magalhães coincidem: no físico. O Inverno aperta e a Liga também pode ser uma questão de pernas nos lamaçais que aí andam. O Benfica dá sinal de força em todas as variáveis- melhor defesa, melhor ataque - mas não pode viver descansado, até porque as exibições dos últimos tempos já não são demolidoras. Aliás, na última jornada o FC Porto é que apareceu como papão do campeonato, a golear como ainda não tinha conseguido, ainda por cima a suposta melhor defesa da Europa. "É o adversário que mais deve ser respeitado. O Benfica tem um grande plantel, recheado de grandes jogadores, mas é normal que depois de muitos jogos a equipa perca algum fulgor. O físico vai ser importante", termina Álvaro.

NÃO SE DESISTE, AINDA POR CIMA A UM PONTO O Braga, em segundo lugar na Liga, é o terceiro elemento da história. Quem olha de fora tende a acreditar que a equipa não vai conseguir ultrapassar o desastre no Dragão, mas quem anda lá por dentro nem sequer equaciona essa possibilidade. "A derrota com o FC Porto foi um caso à parte, quem tem seguido o campeonato sabe que aquilo não é o Braga, foi um dia em que mais valia não ter saído de casa. Não é a dez jornadas do fim que se desiste de um objectivo, para mais quando se está a um ponto do primeiro lugar", explica Barroso, o antigo pé canhão do Minho.

As gentes de Braga falam como se a equipa em causa se tratasse de um clube grande. É legítimo, esta época trouxe-lhes essa expectativa, mas convém lembrar-lhes que o exemplo mais próximo do objectivo a que se propõem, o Boavista campeão de 2000/2001, também não foge à regra - nessa temporada, a dez jornadas do final, a equipa de Jaime Pacheco já liderava o campeonato com quatro pontos de vantagem em relação ao FC Porto.

PS: Ao contrário de Álvaro Magalhães, se acha que o calendário conta para alguma coisa, veja ao lado por onde vai passar a caravana dos candidatos.

20 janeiro 2010

44 golos. Este Benfica amadureceu depressa e já é quarentão

Por Pedro Candeias in ionline

É preciso recuar 20 anos para ver águias mais ofensivas que estas. Foi na era Eriksson. Mas o campeão foi o FCP

O que se quer para uma criança? Que cresça a seu tempo, de forma saudável e equilibrada. E o que se quer para uma equipa? Que cresça rapidamente, sem lesões mas com um grande desequilíbrio, entre os golos marcados e os sofridos. Este Benfica já chegou a esse plano: com quatro novos jogadores no onze (Saviola, Ramires, Javi e Peixoto), outros dois recuperados (Di María e Cardozo), o clube deu um salto competitivo para jogar o dobro (como Jesus prometera) e assumir-se em pleno como candidato ao título. Amadureceu. E com muitíssimos golos marcados e pouquíssimos sofridos - 44 na baliza dos outros fazem do Benfica a equipa mais concretizadora; 9 golos na própria dizem que o Benfica é a segunda melhor defesa, atrás do Braga (6).

Mesmo que nada conquiste, esta equipa vai figurar nos almanaques encarnados como uma das mais goleadoras dos últimos tempos. Tal como a de 1989/90: à 16.ª jornada (14 de Janeiro) chegou aos 46 golos (vitória por 2-0 contra o Estrela da Amadora, bis de Mats Magnusson), mas acabou a época sem o título porque a segunda volta foi desastrosa. Veloso, o capitão da equipa derrotada na final de Viena pelo AC Milan (0-1), diz que os golos surgiam porque havia confiança. "Era uma questão de dinâmica. Estávamos confiantes e jogávamos para ganhar. Além disso, tínhamos bons jogadores." O i lança-lhe o desafio.

Veloso, trocaria alguém do Benfica desta época por outro de 1989/90?

Assim de repente, não. Prefiro o Valdo ao Aimar, o Magnusson ao Cardozo e o nosso quarteto defensivo era muito bom: comigo, com o Álvaro, e o Ricardo e o Aldaír. Se bem que estas comparações sejam sempre injustas. Mas talvez o Di María e o Javi García tivessem lugar no onze dessa época.

ONDE ANDAVAM ELES Para Veloso, entraria Di María e sairia Pacheco. E será que Angel Di María já ouviu falar em Pacheco? É pouco provável. Em Janeiro de 1990 faltava um mês para o esquerdino que dizem estar a apaixonar Manchester (o United e o City) completar dois anos. E só alguns anos mais tarde o argentino começaria a dar os primeiros pontapés na bola no clube El Torito, no bairro La Perdriel, em Rosario. Hoje em dia é o homem que mais assiste para golo no Benfica, em benefício de Saviola e Cardozo. E onde estava Saviola em 1990? Bom, o baixinho tinha oito anos, jogava futsal e estava a dois da primeira rejeição da vida dele quando um treinador o deixou de lado por causa do físico. Aos 16 explodiria no River Plate e chegaria à Europa. Em 2010, leva 17 golos de águia ao peito e garante não se lembrar de ter marcado alguma vez em sete jogos consecutivos, como fez agora.

Cardozo, que entraria no sétimo jogo sem marcar não fosse o penálti da Madeira, tinha seis anos em 1990. Nessa altura o futebol era um sonho escurecido pelo carvão que tinha de apanhar com o pai para ajudar a família. Cresceu depressa, como o Benfica deste ano, e agora é o goleador do clube e da Liga (15 golos), com três hat tricks - frente ao Setúbal (8-1) ao Nacional (6-0) e à Académica (4-0). É muito graças aos golos dele que os benfiquistas constroem piadas nas bancadas. Há quem diga que os jogos têm de ser vistos à inglesa, de pé, poupando aos adeptos o trabalho de se levantarem para festejar os golos; e há os que se queixam de dores abdominais tantas são as vezes que têm de se levantar para ver os golos. A brincar, a brincar, que venha a verdade: o benfiquista festeja um golo a cada 32 minutos.

Sven-Goran Eriksson (antigo treinador do Benfica)
Agora que terminou o jogging podemos falar sobre o Benfica de 1989/90?
Claro que sim, vamos lá a isso.
Esta época o Benfica tem marcado muito, mas no seu tempo marcou ainda mais. Havia alguma explicação?
Foram anos muito bons no Benfica. A explicação? É simples! O Magnusson estava completamente on fire! E a equipa marcava muitos golos por isso. Tínhamos uma bela equipa e não nos faltava confiança.
Mas acabou por haver uma quebra na segunda metade da época. Porquê?
Ahhh... (riso) Disso já não me lembro tão bem... Já foi há muito tempo, 20 anos. De qualquer forma, fizemos uma excelente campanha em Portugal e na Europa.
Que culminou com a final perdida com o AC Milan...
Bem, nós tínhamos uma boa equipa, mas a do AC Milan era bem melhor. Perder em Viena não foi vergonha nenhuma.

30 dezembro 2009

Lisboa. Dois clubes grandes com a mania das grandezas


Por
Pedro Candeias in ionline

A capital de Portugal lidera o mercado de transferências. Não há igual na Europa

Nem tudo o que luz é ouro e o dinheiro nem sempre é verde? Verdade, verdadinha, diriam as gentes de Portugal. Mas Pimenta Machado é que a sabia toda quando disse que "no futebol, o que hoje é verdade, amanhã é mentira". No amanhã que é hoje, tudo o que Luz é mesmo ouro para o Benfica e o dinheiro é sempre verde para o Sporting: a estes não têm faltado meios para comprar. Ao primeiro, nos saldos de Verão e de Inverno; ao segundo, só nos de Inverno. Seja como for, em Benfica e Alvalade moram grandes que querem viver à altura dos pergaminhos - nesta pré-reabertura de mercado, ninguém foi às compras como eles. E Lisboa passou de cidade periférica a centro de toda a agitação desportiva nestes tempos mortos em que só o futebol inglês dá sinal de vida. E, quando a transferência de Florent Sinama-Pongolle para o Sporting é abertura de noticiários na Eurosport, está tudo dito: é em Lisboa, e não em Madrid ou Londres, que tudo se tem passado neste mês.

CÁ DENTRO Vamos a números: o Sporting vai à frente com 9,5 milhões de euros gastos por João Pereira e Sinama-Pongolle. O Benfica segue logo atrás e estima-se que já tenha gasto 7 milhões de euros entre Alan Kardec, Airton e Éder Luis. São 16,5 milhões a sair de Lisboa com destino ao Rio de Janeiro, a Belo Horizonte, a Braga e a Madrid. É muito, num país que está em crise aguda.

E até dia 31 de Janeiro de 2010 (quando oficialmente fecha o mercado) ninguém duvida de que os valores irão subir na bolsa lisboeta - o Sporting irá comprar outros dois jogadores (pelo menos) e o Benfica pensa num defesa, enquanto não se define a situação do cobiçado David Luiz.

LÁ FORA No resto da Europa, nos ditos campeonatos maiores (Premier League, La Liga, Serie A, Bundesliga e Ligue 1), só na Alemanha e na Itália é que clubes candidatos ao título se chegaram à frente com dinheiro vivo: o Schalke 04 gastou 700 mil euros com Bodgan Müller e o Milan comprou Dominic Adiyah por um milhão e 380 mil euros. E o que são dois milhões e 80 mil euros para os dois grandes de Lisboa? Trocos, evidentemente.

Em Inglaterra, só o Manchester United é que se mexeu, ao resgatar o miúdo Mame Biram Diouf sem custos. Já Arsenal, Chelsea e Liverpool têm os quilómetros a zero. Em Espanha, nem Real Madrid, nem Barcelona investiram, mas os merengues estão obrigados a procurar alternativa a Pepe (lesionado) - David Luiz está entre os substitutos sondados. Em França, mais do mesmo: o Lyon está parado, o Marselha idem e o Bordéus aspas, aspas. Tudo à espera do primeiro movimento.

No MEIO O primeiro tiro foi dado em Lisboa mas a corrida ao ouro ainda não arrancou a sério. Foi uma espécie de falsa partida que os juízes não viram ou decidiram não sancionar. Os grandes e mais experientes pescadores estão à espera da truta gorda que salte contra a corrente.

Kun Agüero (Atlético de Madrid), David Villa e David Silva (Valência), Vidic e Nani (Manchester United), Di María (Benfica), Luca Toni (Bayern Munique), Pandev (Lazio), Pavlyuchenko (Tottenham) - são peixe graúdo em cima das mesas de transferências. A venda de qualquer um destes jogadores, que se prevê vir a ser feita por altos valores, desencadeará um efeito de arrasto no mercado do Velho Continente. É a teoria do caos e do bater de asas da borboleta.

19 dezembro 2009

1 X 2. Com três sílabas apenas se escreve a palavra clássico



Por
Pedro Candeias in ionline

E linhas também: a do ataque, a do meio-campo e a da defesa. Será por elas que se vai coser o resultado

O Benfica das goleadas mil abrandou o ritmo, perdeu fulgor e nos últimos três jogos da Liga, somou 5 pontos. Nas mesmas jornadas, o FC Porto fez o pleno (9 pontos) e está apenas a um dos co-líderes Braga e Benfica. E depois do clássico de domingo, numa conjugação de desfechos que não é impossível, os dragões podem assumir a liderança do campeonato - se o Braga deslizar em Paços de Ferreira (sexta-feira) e se vencerem o rival na Luz, Jesualdo Ferreira e os seus estarão no topo. Mas estamos no plano das suposições, "das futurologias", como diria Manuel Cajuda. Não nos enganemos, um clássico é um desafio de tripla (1 X 2), em que o resultado dependerá do jogo do empurra entre três linhas: a do ataque, a do meio-campo e a da defesa. E há um homem-forte por cada um dos sectores a olhar nos olhos o homem-forte do outro lado da trincheira.

O BOMBARDEIRO E O TANQUE No ataque o Benfica apresentará Cardozo e o FC Porto terá Hulk - dificilmente poderiam ser mais diferentes. O paraguaio é um bombardeiro, daqueles estratégicos, lentos e pesadões, que atacam o coração do inimigo dentro da área. Numa equipa alta, é o expoente máximo da força aérea. Já o brasileiro é um tanque, um carro de combate, com uma capacidade de choque brutal, sempre em progressão mas com poucos ou nenhuns desvios - a baliza é o que vê e é para lá que se dirige em linha recta. Num conjunto que privilegia a guerra pelo chão, é o ícone da cavalaria portista.

Mas há algo comum a ambos além do pé com que rematam a bola. É a força com que a rematam. Aí, equivalem-se. "São bastante diferentes mas com uma potência no remate fantástica. Talvez o Hulk tenha um pouco mais de potência mas a colocação do Cardozo parece-me superior", diz Iordanov (ex-Sporting) ao i. O búlgaro, um faz-tudo enquanto jogador (foi central, trinco, extremo e avançado) encontraria dificuldades em defendê-los. "O Cardozo é muito inteligente na ocupação dos espaços na área mas o Hulk quando vem embalado é dificílimo de parar." Veredicto: X. Empate.

WALT DISNEY E ANIME No meio-campo, tanto o Benfica como o FC Porto entregam o cérebro a dois argentinos, baixinhos e geniais à maneira deles. Pablo Aimar é uma espécie de cartoon da Walt Disney - a alcunha da Argentina é El Payaso - que diverte pela forma simples como joga. Sempre com pezinhos de lã, com um corpo feito de borracha que esforçado em excesso estica ao limite. Até partir. E é por isso que Jesus o trata nas palminhas, cuidando do físico do n.o 10, clinicamente aconselhado a não jogar três partidas por semana. "Pela experiência que tem, o Aimar encontra mais e melhores soluções em cada momento do jogo", diz Octávio Machado, antigo médio de FC Porto e Sporting.

Do outro lado está Belluschi, um herói da Anime japonesa (chamam-lhe Samurai), que "perde para Aimar por ter menos experiência". Pequeno, compacto e agressivo, com um senhor remate e uma senhora capacidade técnica, é a ele quem cabe a missão de substituir Lucho. Impossível, porque são tão diferentes como o azeite do vinagre. Mas Belluschi dá um tempero diferente ao meio-campo portista que se apresentará na máxima força em Lisboa.

Já o Benfica tem baixas importantes para sábado: Amorim, Di María, Ramires ou Coentrão estão fora do clássico. Equivale a dizer que a velocidade encarnada também estará fora do jogo. Veredicto: 1, a vitória sai à casa. "Em forma, o Aimar é melhor que o Belluschi", confirma Machado.

O SIDESHOW BOB E O THRILLER As alcunhas são do i e a culpa é do penteado. David Luiz tem uma farta cabeleira, a fazer lembrar o Sideshow Bob, o antigo ajudante do Krusty the Clown. Tal como a personagem dos Simpsons, dá ares de simpático mas a simpatia esconde um instinto assassino que o Sideshow Bob não conseguiu esconder (quis matar Bart) mas que David Luiz controla. "Até nos pequenos defeitos, como a impetuosidade a espaços, eles são parecidos", diz Dito (ex-central de Benfica e FC Porto) sobre David Luiz e Bruno Alves. O defesa portista é o Thriller. Ou era, porque o penteado à Michael Jackson já era. Ainda assim, Alves é dado a entradas duras embora a experiência o tenha transformado num jogador apetecido pelos grandes da Europa. É a experiência e a capacidade de salto - Bruno Alves parece levitar.

"É uma dupla suspensão. Ainda no outro dia falava sobre isso com o Rui Águas, que também saltava assim porque tinha jogado voleibol até aos 20 anos. Quando os outros se encontram na fase descendente do salto, ainda o Bruno está lá em cima. Mas o David Luiz também tem uma grande capacidade de impulsão." E quem salta mais? "Não tendo estado a medir ao lado deles, parece-me que o Bruno está à frente." Nesse e noutros aspectos, porque a idade é um posto. Veredicto: 2, a vitória sai aos convidados.

08 dezembro 2009

“Ó palerma, chapéus há muitos.” E goleadas também

Por Pedro Candeias in ionline.pt

Oscar Cardozo abriu a contagem aos seis minutos e Javier “El Conejo” Saviola saiu da cartola com uma maldade a Nereu. Depois foi gerir. E marcar mais

O que é uma goleada? “Ganhar por uma diferença ampla de golos”, lê-se no Dicionário Houaiss. Mais de três golos, portanto. E o que é o Benfica? Uma equipa goleadora. Ou “superofensiva”, como disse Jesus. Um clube que marca que se farta mas que também passa fome porque o estômago, por vezes, está satisfeito. E ontem foi noite de banquete na Luz. Com direito a tudo: entradas, primeiro prato, segundo prato e sobremesa (quatro golos). Só faltou o digestivo. Mas este não casa bem com o desporto de alta competição. Houve água, e muita, a cair dos céus de Lisboa e na defesa dos estudantes. Que não fizeram jus ao passado nem ao povo. Tinham ganho nas últimas duas viagens à Luz. Afinal há duas sem três.
ÁGUIA VITÓRIA E o jantar até nem começou bem. A anfitriã da casa, a águia Vitória, não quis provar a iguaria que a espera no palanque – preferiu banhar-se no relvado molhado da Luz a receber a recompensa do tratador. Mau presságio? Não, porque todos os animais têm os seus dias – a Vitória já antes fora apanhada nas roulottes junto do estádio. E as equipas também têm os seus momentos e o de ontem, como já se disse, foi bom. Mesmo sem García, o mestre-de-cerimónias que não tinha faltado a um jantar e havia contribuído para alguns repastos (tem três golos).
Na ausência do espanhol, foi Amorim a assumir a posição de trinco e o Benfica manteve-se fechado lá atrás, apesar das entradas forçadas de Sougou ou João Ribeiro. Mas logo aos seis minutos, Cardozo, lançado por Saviola, fez o primeiro. E aos 30’, Saviola, que tem a alcunha de El Conejo (Coelho), saiu da cartola e cumpriu a etiqueta: manda a regra que se tira um chapéu quando se entra em casa e o argentino fê-lo na cara de Rui Nereu, que já foi guarda-redes do Benfica e em tempos serviu um frango contra o Villareal.
VARINHAMÁGICA Tocou a sineta e foi tudo para o intervalo. Veio a segunda parte, sempre com muita chuva, e o Benfica a pôr água na fervura do preparado. Cardozo, o Tacuara (cana alta), mexeu o cozinhado com outros dois golos (ambos de cabeça) e o Benfica chegou à oitava goleada da época (Vorskla, Vitória de Setúbal, Belenenses, Leixões, Monsanto, Everton e Nacional encaixaram quatro ou mais golos). E Cardozo, de primeiro nome Oscar, é o melhor intérprete principal do Benfica – tem 19 golos esta temporada, 14 para a Liga. A estátua é de Eusébio, mas a estatueta é de Cardozo.