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08 fevereiro 2011

Quantas vidas tem um guarda-redes?


Luvas. Como foi possível a opinião sobre os guarda-redes do Sporting e Benfica mudar tanto ao longo da época? Durante muito tempo viveram sob olhares desconfiados. Criticados e acusados. Na baliza do Benfica e Sporting, a análise aos dilemas existenciais de Roberto e Rui Patrício.


Quem conta a história é um homem velho, amargurado pela vida. Chama-se Barbosa, um brasileiro para quem a vida parou em 1950 quando estava, no Maracanã, na baliza do Brasil na final do Mundial contra o Uruguai. Perto do fim, deixou passar uma bola entre as mãos, foi golo e o Brasil perdeu o título. Nunca mais ninguém esqueceu. Ainda há poucos anos ele contava como uma vez, há pouco tempo, uma velha mulher com o seu pequeno neto pela mão o reconheceu numa loja e lhe disse apontando: "Olha, foi ele que fez chorar milhões de brasileiros..."

O guarda-redes é, por natureza, um jogador solitário. Ou melhor, um homem solitário. Um eremita das balizas. Até taticamente é ignorado. Fala-se em 4x4x2, 4x3x3, etc. Devia falar-se em 1x4x4x2, 1x4x3x3. A história eternizou, de forma romanceada, muitos desses casos existenciais com luvas e baliza. O futebol português também. Nos últimos tempos, dois seres das redes viveram esse drama. Olhares desconfiados, silêncios só cortados pelos murmúrios da bancada. Rui Patrício e Roberto, os guarda-redes eremitas do Sporting e do Benfica. Cada qual na sua casa, foram julgados (e condenados) sem pestanejar.

Rui Patrício chegou muito novo à baliza do Sporting. Foi uma aposta pessoal do treinador Paulo Bento, então em conflito com um guarda-redes sérvio Stojkovic que pouco antes chegara com rótulo de craque. Patrício entrou logo a defender um penálti mas os erros cometidos nos jogos seguintes levantaram uma montanha de críticas. Mesmo com os assobios a aumentar, o treinador aguentou-o no lugar. Nesses lances, os seus grandes planos revelavam um olhar assustado, mas essa não é a melhor forma de ler o pensamento de um guarda-redes. Porque encarou esses deslizes sempre de pé, olhar fixo no horizonte do meio-campo, pronto para outra batalha (entenda-se outra bola que ameace a baliza). Sempre que via essa imagem de Patrício recordava então a teoria de um antigo grande guarda-redes argentino, Amadeo Carrizo, que definia de forma sublime o grande guarda-redes com personalidade. Não, não era pelas grandes defesas. Dizia ele: "Para se saber a categoria de um guarda-redes, basta ver a sua reação após sofrer um golo. Se estão sentados, de culo, não servem. Se estão levantados, de pé, são bons".

Hoje, Rui Patrício parece quase um superguarda-redes. O segredo de 'estar no sítio certo' nunca é obra do acaso. É obra de um instinto trabalhado, antecipar trajetórias da bola e, depois, meter agilidade para voar para ela e travar-lhe o caminho. Um forte candidato a n.º1 da seleção de Bento, o único homem que acreditou nele no seu início de vida adulta entre os postes.

Roberto foi quase condenado, apontado como o culpado do mau início de época do Benfica. Os seus erros, falhas incríveis, dos primeiros jogos custaram pontos e levaram o mundo benfiquista a questionar o seu valor e a pressionar a sua saída. Inflexível, o treinador Jesus aguentou o seu guarda-redes de oito milhões de euros. Os tempos passaram e embora Roberto continue a denotar deficiências ao nível do timing de saída da baliza, com algumas hesitações, já afastou os olhares mais desconfiados. Algumas grandes defesas também ajudaram. O facto de a equipa ter começado a ganhar fez o resto. Em qualquer caso, porém, mesmo quando a bola lhe passava mesmo como se fosse uma tartaruga, encarou sempre, tal como Patrício, o julgamento de pé.

Apesar da tentativa de Camilo José Cela, que num conto de futebol inventou uma equipa que jogava com dois guarda-redes (guarda-redes direito e o guarda-redes esquerdo), no mundo real ele ainda continua o único dono da baliza. Barbosa, o mito desta história, morreu em 2000, com 79 anos. Em toda a carreira fez centenas de defesas. Nesse último dia de vida, porém, a bola que terá recordado foi a do golo de 50: "Recordo-me como se tivesse sido ontem. Já o revi centenas de vezes e tive que me justificar todas essas mesmas vezes. Todas as noites sonho com essa bola na minha direção e eu... deixo-a escapar e ela entra!". Perceberam agora do que se esteve a falar?
Craque em fuga?

O mercado aperta o cerco e os clubes portugueses não resistem aos ataques milionários. O Chelsea continua a sonhar com David Luiz. Um craque em fuga? Sem ele, o que pode acontecer à equipa do Benfica?

Além, claro, da qualidade individual do jogador, é interessante verificar que a influência de um defesa-central no jogo coletivo de uma equipa é hoje muito maior do que poderá parecer. Pode mudar a face da equipa em alguns traços do seu jogo. Ele não existe só para afastar a bola de perto da baliza e travar o avançado mais perigoso. Nos seus pés também está a capacidade de fazer a equipa avançar no terreno. Este fator varia conforme as características próprias de cada defesa. Um fator importante nesta análise é a velocidade. A forma mais visível disso se refletir no jogo tem que ver com a colocação mais adiantada ou mais recuada da linha defensiva.

Ou seja, com um defesa rápido como David Luiz o bloco da equipa (distância entre defesa e ataque) pode jogar mais subido no relvado, por força do posicionamento da sua defesa em terrenos mais adiantados, sem recear tanto deixar um maior espaço vazio (25/30 metros) nas suas costas, onde podem surgir avançados adversários, pois sabe que tem a velocidade dos seus defesas para reagir, recuperar e ir buscá-los. Sem essa velocidade, já não poderá arriscar tanto e passará a posicionar-se, por princípio, em espaços mais recuados. É deste posicionamento que nascem os termos técnicos 'bloco baixo' ou 'bloco alto'.

Se ficar sem David Luís (ou melhor, sem a sua velocidade) o Benfica terá tendência a defender mais atrás, mais perto da sua área. Para perceber melhor esta ideia, pensem no seu primeiro substituto, Sidney (muito mais lento), e imaginem-no a correr atrás de um veloz avançado isolado. Agora imaginem o mesmo com a velocidade de David Luiz. É muito diferente. Por isso, a defesa (e o bloco da equipa por consequência) terá de recuar alguns metros no seu posicionamento mais natural. O novo reforço Jardel também encaixa nesta mesma linha de pensamento.

Os caracóis de David Luiz têm maior reflexo na dimensão tática da equipa do que teria um simples defesa-central a cortar bolas por si só. Sem ele, o onze perderia o seu 'central-furacão'.
O espelho de Iturbe

É tentador imaginar o renascimento do génio. Já se perdeu a conta às anunciadas reincarnações de Pelé e Maradona. Todas falhadas. Nas últimas semanas, cheguei a ler que o FC Porto contratou um 'novo Messi'. O pibe mágico chama-se Iturbe, tem 17 anos e joga no Quilmes da Argentina. Não foram, diga-se, os responsáveis portistas a colocarem esse rótulo, mas a sua análise levou-o para esse campo da reincarnação do génio.

Mas que jogador contratou afinal o FC Porto? Villas Boas falou de um 'ala explosivo'. Pelo que nos últimos dias tenho visto dele no Sul-Americano Sub-20, é um bom princípio de análise. Canhoto como Messi, Iturbe gosta de jogar arrancando desde a ala. Não tem, no entanto, a magia de condução de bola em velocidade, com finta e remate no final. Parece, até, um pouco 'gordito'. Mais robusto, aguenta o choque, luta e joga, tenta a finta mas precisa afinar a inteligência desses movimentos. Ou seja, não o vi explosivo. Vi-o antes destemido. Choca demais. Esquiva-se de menos. Detetam-se, no entanto, muitas 'qualidades'. Falta saber se tem a 'qualidade' no geral para atingir a galeria mágica, mas falar em Messi neste contexto é uma heresia futebolística.

O processo de candidatura a génio do futebol tem, portanto, um novo nome. Iturbe já preencheu os papéis e espera a sua hora para, em campo, apresentar a sua tese com bola.
Adebayor, a girafa

Em Madrid, Mourinho já tem, por fim, o ponta-de-lança que tanto reclamava. O eleito 'possível' é o togolês Adebayor que estava sem jogar no Manchester City. Não é um fenómeno galáctico, mas tem um estilo (alto, esguio e passada larga) algo parecido ao lesionado Higuain. Está habituado à pressão a todos os níveis. Na última Taça de África, em Angola, ao chegar a Cabinda, foi um dos jogadores que tiveram de se esconder debaixo de um banco do autocarro que transportava a seleção do Togo enquanto esta era metralhado por rebeldes que acabaram por matar dois membros da comitiva. Ao lado disto, falar-lhe agora na pressão de jogar no Real Madrid nem faz sentido.

Principal dúvida: saber como combinará com os outros avançados, pois não é o tipo de jogador de equipa. Tem um ego enorme e gosta também de resolver as coisas por si próprio. Quando falha, em geral a culpa é do mundo que não o entende. Quando marca, a responsabilidade é dele, que é maior do que o onze.

Finalizador, tem melhor relação com o golo do que com o jogo. Fisicamente, pode parecer um 'bicho exótico', dando a ilusão que se vai desmontar todo a qualquer momento, mas isso nunca acontece. O mais natural mesmo é a bola acabar dentro da baliza. A girafa do Togo em Madrid.

27 janeiro 2011

Ópera, rock, tango e jazz

Nos caminhos da 'futebolândia' definir o que é jogar bem não é uma missão esteticamente assim tão linear. As diferentes formas de vida que as equipas adquirirem espelham sobretudo diferentes identidades. Mais ou menos sedutoras, sem dúvida, mas é abusivo relacionar diretamente esse 'poder de atração' adepto-equipa com a beleza do jogo.

Nos últimos tempos (jogos) cresceu a tese de que a qualidade de jogo do FC Porto está a decrescer. Diria, porém, que o que tem decrescido mais é a capacidade de empolgamento da equipa. Porque o jogo é o mesmo (posse e circulação de bola até desmontar as fechadas defesas adversárias). Pode ser um paradoxo, mas é esse estilo de jogo demasiado 'paciente' (sem a vertigem de meter a bola rapidamente na área adversária) que, muitas vezes, mais mexe com os nervos dos adeptos.

Reagindo a essas críticas, Villas-Boas foi direto: 'Se estão à espera de ópera em todos os jogos, é melhor partirem para outra'. O entendimento de 'ópera futebolística' procura o transfer de um estilo musical onde a exuberância das prestações individuais e coletivas atinge níveis de conhecimento 'musical-futebolístico' (dos tenores às sopranos, da cenografia à atuação) que o comum do adepto não atinge. Nenhum deles espera ópera no futebol. Nem a entende. Traduzindo isto para a movimentação de onze jogadores com bola, todos eles esperam mais 'rock and roll', o estilo que o All Music Guide define como tendo apenas 'três acordes, um forte e insistente contratempo e uma melodia cativante'.

Mas, de repente, surge Hulk. As suas explosões e, sobretudo, remates fulminantes, rompem os três acordes através de um solo individual. E o mais curioso é verificar como é o jogador menos cativado (ou vocacionado) pelo modelo-Villas Boas de segurar a bola e fazê-la andar de pé para pé que consegue, muitas vezes, dar rosto ganhador a essa filosofia global à qual, por natureza explosiva, o seu jogo foge.

Por isso, cada vez mais entendo a frase do velho técnico italiano Berzot: "Se o futebol fosse um estilo de música seria jazz, a arte da improvisação". Hulk é, nesse sentido, um 'jogador de jazz' no futebol moderno. A ambição máxima da equipa também deve ser essa.

Chegados à segunda volta a pergunta é simples: e a partir de agora o que vai (pode) acontecer? No fundo, revendo as primeiras 16 jornadas, a esperança benfiquista reside em que o terramoto que abalou a equipa nas primeiras quatro (três derrotas) possa agora acontecer na casa portista. Apesar da 'negação da ópera', não existem grandes sinais nesse sentido, tal a facilidade de Hulk dominar outros estilos musicais.

Na Luz, o renascer do tango redimensionou a equipa para a manter mais dinâmica e, ao mesmo tempo, equilibrada (com e sem bola, a atacar ou defender) nas diferentes fases dos 90 minutos. Em tempos houve mesmo um treinador, Jaime Pacheco, que falava na importância dos 'tocadores de bombo' numa equipa (e ganhou, no Boavista, um campeonato assim) mas a estética de vitória tem critérios mais exigentes. As melhores equipas são as que dominam a arte da improvisação. O treinador gosta de falar logo no coletivo, mas o jogo (e olhos dos adeptos) buscam logo outros 'sons de futebol': os solistas. O Benfica também precisa de um jogador para 'resolver jogos'. Redimensionar a improvisação de movimentos de um coelho, Saviola, pode ser o melhor caminho. Em qualquer situação ou cenário (azul e branco ou encarnado) esqueçam a ópera. No futebol, quem ganha são as equipas com mais 'rock' e 'jazz'.

Assistir o goleador

Três avançados, três equipas, três formas diferentes de servir os seus maiores goleadores para o remate à baliza. Vejamos:

Falcão (FC Porto)

É o nº 9 que joga mais fixo na área, em função dele próprio na busca do golo, quando o processo ofensivo da equipa entra na sua fase de conclusão. O facto de jogar em 4x3x3 como nº 9 clássico implica essa situação, mas é sobretudo também uma questão de estilo. Fora da área, serve sobretudo de apoio, recebe a bola e mete-a numa faixa, dando depois logo meia-volta para regressar para a área, à espera da bola, procurando antecipar-se quase sempre ao primeiro poste, para num espaço curto a rematar.

Cardozo (Benfica)

Pelo estilo, alto e lento, deveria ser o mais fixo na área, mas o facto de jogar (em 4x1x3x2) numa dupla de avançados, com um avançado mais veloz e esquivo ao lado (Saviola) obriga-o, muitas vezes, a abrir um espaço mais central às entradas de trás dos médios ofensivos ou do tal segundo avançado rompedor. Executa muito bem em espaços curtos, momento em que evidencia os seus dotes técnicos, mas não fabrica espaços por si próprio. Pelo contrário, necessita que os outros, pelas movimentações ou arrastamentos, os abram para ele. Se nessa dinâmica lhe meterem a bola ao jeito do seu pé esquerdo, sai uma bomba para as redes.

Liedson (Sporting)

Durante muito tempo, Paulo Bento criou a ideia de que Liedson só podia jogar bem em 4x4x2, ou seja, com outro avançado a seu lado, muito próximo. Os tempos seguintes provaram o contrário. Liedson joga melhor com o apoio de outro avançado por perto, porque lhe abre mais espaços, mas o seu lado mais instintivo (não é jogador para perder muito tempo a prestar atenção a jogadas ensaiadas) do jogo permite-lhe jogar mais isolado. No fundo, o apoio que pede aos colegas é apenas para que lhe metam a bola na área. Esqueçam, pois, as jogadas estudadas. Liedson é instinto puro. Tem, porém, uma amplitude de movimentos enorme que lhe permite ir à faixa, passar, tabelar e depois surgir, esquivo, no espaço livre na área para rematar.

O 'leão' nervoso

A história de um clube é um permanente livro aberto. O Sporting é por direito histórico um clube grande, mas de Peyroteo, Yazalde, Manuel Fernandes a Liedson, dos 'violinos' às glórias ecléticas dos anos 70/80, até ao tempo empresarial presente não existe qualquer ponto de contacto. Falta ao atual 'mundo verde' entender esta mutação temporal e redimensionar a sua existência, avaliando a nova correlação de forças e realidade social, política e desportiva que entretanto se formou no futebol português. Ao contrário do Porto com dimensão regional forte e imutável ou do Benfica com extensão e base social menos volátil, as 'bases' leoninas são mais permeáveis aos 'ventos dos tempos'. O 'mundo verde' não entendeu essa mutação. Fez do futebol um projeto empresarial e com isso afastou-se das raízes ao ponto de turvar a identidade. A crise financeira é sobretudo consequência de erros de gestão desportiva.

A equipa tem alguns pontos de qualidade, mas tem um problema de origem na defesa que condiciona todo o equilíbrio e a dinâmica da equipa. Ou quer sair a jogar muito rápido pelos laterais (sem pensar o jogo) ou sai pelo centro (com dois médios que ainda não encontraram o timing certo de complementaridade entre ficar e sair). Dois fatores que, cruzados com a permanente mutação de sistema tático, condicionam todo o jogo.

Não acredito na 'belenencização' leonina mas o clube chegou a uma encruzilhada da sua existência. O seu renascimento passa por perceber historicamente qual o melhor caminho para reinventar a sua identidade. Nos gabinetes e na relva.

18 janeiro 2011

Futebol, import & export


É uma espécie de 'buraco negro' no normal bater dos ponteiros do relógio competitivo da época. Intruso, o mercado de janeiro sonha alterar coordenadas a meio da prova. Os jogadores vivem dias inteiros à espera da chamada mágica do seu empresário, que salta de clube em clube, onde cada direção busca o reforço que revolucione o plantel. O 'futebol dos negócios' comanda o futebol dos relvados. Não é fácil, porém, mudar o curso do campeonato a meio, sobretudo num tempo de cofres quase vazios.

Mas, mesmo com dinheiro, poucos clubes entendem bem este período. Porque este não é o momento certo para revoluções. Na melhor versão, serve para colmatar erros pontuais do início da época ou colmatar lesões. Ou seja, numa astuta relação qualidade/preço, fazer contratações quase cirúrgicas, porque nesta fase não há tempo para adaptações. Por isso, o jogador ideal de janeiro pode-o não ser em agosto. Nesta altura intermédia, a opção resulta de uma análise muito mais específica da equipa, pois já está definida a forma como joga (ou quer jogar). Vendo o que falta para isso suceder, deve apenas procurar-se o(s) jogador(es) que ponha(m) essa máquina em andamento.

Falar, neste tempo, num jogador que vale 100 milhões de euros causa alucinações. As cláusulas de rescisão deixaram de ser um 'valor sério' para serem sobretudo uma referência. Os donos do passe querem, sobretudo, fazer uma afirmação de 'personalidade negocial'. O futebol de Hulk tem um valor tangível expresso em arranques e remates demolidores. A sua importância no atual onze do FC Porto expõe o outro lado do plantel: o de um abismo a separar os habituais titulares dos crónicos suplentes (por isso, a ausência de Pereira será preocupante). O ataque com Hulk, James e Walter é muito diferente do ataque com Hulk, Varela e Falcão. O jogo com o Nacional expôs essa realidade.

A melhor contratação que se pode fazer nesta fase é, muitas vezes, descobrir no plantel um jogador até então suplente que passa a jogar melhor e torna-se uma solução, quase a salvação. Isto pode acontecer por várias razões. Pela sua subida de forma, pela adaptação, por recuperação de lesões, etc. No Benfica, pelas jogadas e golos fantásticos dos últimos jogos, é hoje tentador rever esse elemento salvador em Salvio. É evidente que o jogador evoluiu, mas, toda essa euforia, pode nesta fase causar uma ilusão de ótica perigosa na análise global à equipa.

O Benfica tem, no onze, necessidades posicionais que são visíveis desde o início da época e prologam-se até agora. São lacunas facilmente detetáveis porque têm os nomes próprios dos jogadores que as abandonaram (Di Maria-Ramirez, claro). Um extremo-esquerdo e um médio taticamente mais culto que equilibre a equipa nas transições defesa-ataque-defesa. A contratação de Fernández faz, por isso, sentido. É um bom extremo, que, sem ser um fenómeno, vai para cima dos defesas. Faltaria o tal segundo elemento mais tático. Nessa batalha, outra lição: a forma como atacou 'tarde de mais' a contratação de Elias (entretanto surgiu o Atlético de Madrid) mostra como, para os clubes portugueses, a única possibilidade de competir com os gigantes internacionais passa por 'pensar primeiro', prospeção inteligente e jogar em antecipação no mercado.

O onze e o plantel. Duas realidades que se relacionam no decorrer da época até uma dominar a outra. Nesse sentido, mais do que olhar para o onze, o FC Porto necessita neste mercado intercalar de olhar para o seu plantel. O Benfica, pelo contrário, mais do que para o plantel, necessita de olhar para o seu onze.

Mercado 'verde'

O Sporting continua a sonhar com o seu 'pinheiro' - o último é Samaras, um grego a jogar na Escócia -, mas, enquanto ele não chega, destaca-se o 'bonsai' goleador do costume. Liedson, nº 9 levezinho que gira no ar com bola e mostra como os grandes avançados não se medem aos palmos.

Paulo Sérgio já disse que esse jogador até nem seria para ser titular, antes alternativa em determinada fase do jogo. Referia-se, penso, a uma fase final com o jogo mais direto, onde o fator aéreo é decisivo, ou então a jogos, sobretudo em casa, contra equipas mais fechadas na sua área. A ideia do texto principal sobre a relação onze/plantel ressurge nesta pequena 'reflexão verde'. Mais do que uma alternativa para o plantel, o Sporting devia procurar uma verdadeira mais-valia para o onze titular.

Desde o título de 1999/00, o Sporting criou o mito de que se pode ganhar títulos pelas contratações em janeiro. Os jogadores então contratados foram André Cruz, César Prates, Mpenza e Sphear. Qual foi o mais importante? O defesa-central. Podia ser uma inspiração para os tempos presentes.

Universo da bola

A vocação aventureira lusitana adquiriu no século XXI outros contornos: os descobrimentos do futebol. Destemidos, vários treinadores partem numa cruzada pelos relvados mais escondidos do mundo. Esta semana, Jaime Pacheco rumou à China. Uma babilónia exótica que vai desde o Vietname (Calisto) até à Síria (Rui Almeida), passando pelo Kuwait (José Romão), Irão (Casimiro), Emirados (Cajuda), Bahrain (Barreto), Burkina (Paulo Duarte), Guatemala (Guilherme Faria), Coreia do Sul (Nelo Vingada), Arábia Saudita (Peseiro), etc. Pode-se ainda falar Angola, Guiné, Canadá, Marrocos... Dirão que tudo isto foge à elite onde vive Mourinho, onde ninguém ousa chegar. Manuel José tornou-se faraó do futebol egípcio e será o melhor exemplo para definir esta legião de portugueses desterrados: um 'comunicador-professor' com uma facilidade tremenda em se adaptar a situações adversas. Passados 500 anos, o mesmo ADN aventureiro.

A ameaça turca

De repente, emerge um novo oásis para os jogadores portugueses. A Turquia e o emergente Besiktas. Consequência da força negocial do 'empresário do ano', o clube turco, depois de Quaresma, contratou num ápice ao futebol espanhol e alemão, mais três craques: Simão, Manuel Fernandes e Hugo Almeida.

Além dos contratos faraónicos que certamente fizeram, há uma pergunta que é obrigatória: o que ganham desportivamente estes jogadores portugueses indo jogar para a Turquia? Sinceramente, nada.

Os adeptos receberam-nos num delírio impressionante, sem dúvida, mas o futebol turco é hoje, competitivamente, da chamada 'segunda linha'. A única diferença está na sua força financeira, num mundo de negócios que funciona como íman irresistível para o moderno e dominador 'futebol dos empresários'. São eles que determinam hoje o timing das transferências no futebol. Para o bem e para o mal.

Não existem ilusões: os grandes negócios de Agosto já estão, hoje, todos programados por esse sistema. A maioria dos clubes, financeiramente dependentes, vive nesta balança. Muitos tornaram-se quase 'placas-giratórias' de jogadores.

Vendo toda esta 'montagem turca' pelo puro prisma futebolístico, é perturbador ver o nosso futebol perder alguns dos seus grandes jogadores para outro com um nível técnico e tático muito inferior ao português. Só para se ter uma ideia do tipo de futebol que se joga na Turquia, quando um jogador faz um passe para o lado, é quase engolido pelos assobios dos adeptos que querem é ver a bola perto da baliza adversária o mais rapidamente possível - mesmo com um pontapé longo pouco pensado para a frente. Ver Simão neste cenário é um atentado ao bom futebol.

07 janeiro 2011

Treinador: 365 dias + 90 minutos x 60 jogos = ?


Se olharmos para o relvado, existem mais de uma centena de perfis de futebolistas. Se olharmos para o banco, não existem assim tantas classes distintas de treinadores. Claro que mudam ideias de jogo, filosofias táticas, capacidade de relação humana, etc., mas no final a diferença entre eles é feita da forma mais simples (e redutora, também). Os que ganham e os que perdem. A fronteira entre o êxito e o fracasso. Esses dois grandes 'impostores', como disse Kipling, dois 'territórios' no qual vivem, alternadamente, todos os treinadores. O mais vertiginoso no mundo do futebol é, porém, a velocidade com que essa viagem é feita. Uma fronteira tão ténue que pode ser atravessada até na mesma época. Identificar o 'treinador do ano' no futebol português leva-nos para esses dois tipos de territórios completamente opostos.

Jorge Jesus viveu 'uma vida' nos subterrâneos do futebol português (do Felgueiras ao Moreirense), conquistou os chamados 'topo de gama' da sua segunda linha (de Belém a Braga) até que, por fim, já na ternura dos 50, abriu-se-lhe a porta de um grande, um Benfica em crise de auto-estima, órfão de heróis e títulos. Numa época, Jesus revolucionou o 'mundo benfiquista' dentro e fora do relvado.

Redimensionou jogadores, acordou adeptos e, num clube ávido de encontrar novos símbolos, tornou-se maior do que toda a estrutura que o rodeava. Ganhou e jogou bem. Mas o ano tem a 'armadilha futebolística' de dividir duas épocas. E a nova temporada mudou a realidade. Mudaram alguns jogadores, a bola passou a não entrar, alguns maus resultados, e, num clube confundido, o treinador-herói passou, num ápice, a ser olhado com desconfiança. As mesmas páginas e páginas que se escreveram de elogios passaram a encher-se de críticas. Não faz sentido. Porque, na essência, o treinador que conquistou o título nacional em maio é exatamente o mesmo que foi eliminado da Liga dos Campeões em Israel em novembro.

Por ter vivido entre esses dois mundos, êxito e fracasso, Jorge Jesus é um 'treinador do ano' especial no futebol português. Para além de muitas análises (táticas e técnicas) que se podem fazer ao futebol do Benfica, esta 'bipolaridade' de análise espelha na perfeição a subcultura de análise que, transversalmente, domina todo o status do futebol português (adeptos e imprensa). De herói a vilão em poucos meses. A história perfeita para explicar a secular 'montanha-russa' de competências na qual um treinador tem de trabalhar em Portugal.

Ganhou três campeonatos em quatro épocas, mas no Porto já ninguém se lembra que Jesualdo Ferreira existiu. Mesmo nessa fase, porém, nunca foi idolatrado pelo mundo 'azul-branco'. Problemas de imagem, disse-se então. Dessa forma, em 2010, o ano em que não ganhou, saiu, logicamente, sem fazer ruído. Mais um bom exemplo, num contexto mais global, da fronteira de Kipling aplicada ao nosso futebol. Por isso, para os ditos 'treinadores jovens' que despontaram em 2010, as histórias destes dois velhos caminhantes são duas boas lições de vida. Domingos e Leonardo Jardim, cada qual no seu estilo e especificidades de origem e crescimento, são 'treinadores de futuro'.

Domingos, 'filho do Dragão', inventou o Braga vice-campeão nacional. Entrou, porém, neste 'mundo dos bancos' desde o início já com uma marca de distinção. Jardim veio anónimo da Madeira e, sem perder o sotaque ilhéu cerrado, tem provado, com o 'milagre Beira Mar', que também ainda é possível crescer e fazer uma carreira a pulso, só pelo jogo, sem o 'elevador dos empresários'. Até onde poderá chegar?

Todos eles, Jesus, este ano o melhor símbolo do que é a vida nos bancos, Jesualdo, Domingos, Jardim, são treinadores do ano no futebol português.

Falta ainda um nome: André Villas-Boas. Mais do que o novo 'aprendiz de feiticeiro' que quiseram fazer dele, quando surgiu (primeiro na Académica, depois no FC Porto) após longas épocas passadas nas catacumbas táticas do castelo de Mourinho, Villas-Boas tem, claramente, mais 'qualquer coisa' na sua essência particular de treinador.

Todas as épocas, porém, a fórmula é igual para todos: "Treinador: 365 dias + 90 minutos x 60 jogos = ?"

2010: 'Onze' do Mundo

Foi um ano em que o futebol viveu confundido, vendo como existem mesmo mais de 1001 maneiras de ganhar um jogo (e um título). Entre a Espanha campeã do mundo de seleções e o Inter campeão europeu de clubes há um abismo de filosofias de jogo a separá-los. Este 'onze' destaca aqueles que melhor desenharam bom futebol em 2010.

Na defesa, para quem não segue o fenómeno futebolístico mais de perto, o nome que pode suscitar mais interrogação neste 'onze' é o do lateral esquerdo. Pensavam em Coentrão. Podia ser, mas escolhi Bale. E quem é Bale? É um galês verdadeiramente assombroso que joga no Tottenham. Só tem 21 anos e, não duvido, vão ouvir falar muito dele ao mais alto nível. É uma locomotiva (que também joga a médio) que enche o campo. Fixem o seu nome e sigam-no.

A meio-campo, a 'casa dos baixinhos' mágicos: Xavi, o mais pensador; Iniesta, o mais rápido; Sneijder, o mais criativo. Uma tripla aliança sagrada de bom futebol.

No ataque, o talento natural de rua de Messi, o talento mais fabricado pop-star de Ronaldo e um caça-golos que despertou já avançado na carreira, Milito, esguio ponta-de-lança argentino que, parecendo ir desmontar-se todo em cada jogada de perigo em que pega na bola perto da baliza adversária, levou, com o seu instinto goleador, o Inter à conquista da Champions.

Este é o meu 'onze' do mundo de 2010.

A Taça da Liga

O novo ano arranca com a Taça da Liga já com os clubes ditos 'grandes'. Mas nenhum deles olha para a competição como algo estimulante. Os seus objetivos estão noutros pontos desportivos e financeiros. Eu penso, porém, que a Taça da Liga foi uma excelente ideia. O seu regulamento competitivo é que é muito discutível. Continua a ser uma competição de 'pernas para o ar' no formato grupos-eliminatórias. A sua calendarização também.

Na essência, a Taça da Liga interessa sobretudo aos clubes ditos 'pequenos', pois pode ser para eles uma fonte de receitas extraordinárias muito significativa. O mais difícil é convencer os jogadores (e os treinadores) dessa importância quando entram em competição numa fase muito inicial da época. Sei que o sucesso (e a sobrevivência) da prova depende principalmente do interesse que os 'grandes' colocarem nela, mas existirão outras formas de proteger os clubes que veem na Taça da Liga esse tal 'pequeno tesouro'.

Lidar com a 'pressão'

O que tem de especial André Villas-Boas, o treinador que inventou o FC Porto versão 2010/11? Tal como Mourinho, entende que antes do apito do árbitro os jogos começam e acabam nas suas conferências de imprensa. É um entendimento que resulta da consciência do poder da comunicação. Nesse momento, entra na cabeça dos adeptos, jornalistas e... jogadores (seus e adversários). Durante 90 minutos, a forma como vive cada jogada tem o poder da imagem. No futebol (mundo) atual, esse domínio da imagem e comunicação significa dominar mais de 50% do seu conteúdo. O seu saber tático (e treino) é, também, cada vez mais evidente.

Jesus disse que lhe falta ainda lidar com a pressão a sério. Referia-se aos jogos decisivos. Não penso que isso vá ser um problema para Villas-Boas. Pelo contrário. Essa 'pressão externa' é do que ele mais gosta e, ganhando ou perdendo, vai lidar bem com ela. A verdadeira pressão por que lhe falta ainda passar é outra: a 'pressão interna'. Aquela que vem de dentro do próprio clube do treinador (seus adeptos e direção). Essa é que quando acontecer (porque acontece a todos os treinadores) será o seu grande teste de resistência como treinador com 'T' grande (tática, comunicação e imagem). Não digo que vá surgir em breve. O seu FC Porto parece, atualmente, 'inquebrantável'. Neste momento, 2011 parece feito à sua imagem. Com ou sem pressão.

Seleção: 'Visão Bento'

Depois do 'processo Queiroz', a seleção reencontrou o seu espaço 'mais natural' com Paulo Bento. Esta semana, quando questionado sobre qual a sua ideia global para o futebol português, disse, pura e simplesmente, que não sabia o que era um projeto Paulo Bento. O futebol português regressou, portanto, à sua lógica mais simples. O poder do resultado à frente do poder das ideias.

Bento referiu que "projeto é com os clubes, potenciar aquilo que é o melhor para o futebol português". Ou seja, o selecionador não quer dirigir o edifício das seleções do futebol português. Apenas seguir o trabalho dos clubes e explorar os seus jogadores. É uma filosofia como outra qualquer. Penso, no entanto, que o nosso futebol (seu edifício global) necessita de muito mais. Não digo que isso tivesse de ser obrigatoriamente uma missão do selecionador, mas, sem essa ideia global, as seleções, como o 'projeto de Bento', continuarão sempre a ser apenas o 'próximo jogo' quando deviam ser 'a atual e próxima geração'. Para já, Bento tem furado por entre todos os pingos de chuva desse edifício sem pilares do nosso futebol. Chegará um dia, no entanto, em que terá de ser algo mais do que os jogadores para o próximo jogo. Basta-lhe olhar para o passado e ver o que sucedeu aos seus antecessores nas últimas décadas. Então, já será tarde para ter o poder das ideias. Sem gabinetes, o seu habitat é apenas a relva.

17 dezembro 2010

Luz: A conexão perdida


Benfica. As peças da máquina desconectadas: jogadores, treinador, adeptos, direção. Todos perderam capacidade de comunicação. Porquê?

Um golo pode festejar-se de diferentes formas, mas há algumas que são quase como 'espelhos da alma'. A cara fechada de Luisão, o olhar para o banco, para os adeptos, para os colegas, para o vazio, é uma imagem que, subitamente, após 90 minutos de angústia, entrava no mais profundo sentir do atual futebol benfiquista. Era um golo que já não adiantava nada. Por isso, a imagem ainda mais metafórica se tornava. Sobretudo vinda de um jogador que, com voz grossa, sempre melhor incorporou em campo o grito da equipa.

Este Benfica vive uma crise existencial. A ideia que fica, vendo-o jogar, é que perdeu capacidade de comunicação. A todos os níveis. Isto é, jogadores, adeptos, treinador e direção, deixaram de ter um diálogo sincronizado. Não vejo um conflito. Vejo é todas essas peças da máquina encarnada desconectadas. É estranho. Sobretudo porque ainda há pouco tempo a empatia era total. O que mudou? Mudaram os vínculos.

A primeira tentação é ver nisto mais um efeito (dos maus resultados) do que uma causa. Não é bem assim. Porque Jesus não é hoje, na essência, um treinador diferente do que era a época passada. Ninguém muda assim num ano.

Num clube órfão de referências (e títulos) nos últimos anos, a tentação de rever num homem esse novo Messias foi demasiado forte. Irresistível mesmo. Ao ponto de o imaginar acima da estrutura. Ao ponto de esta, alucinada com vitórias e elogios, se lhe entregar nas mãos. Nenhum treinador pode ser maior do que o clube. Nem Cruyff o foi em Barcelona. Nem Mourinho, apesar das aparências, o tenta em nenhum lado. O que consegue é meter-se no meio da estrutura, ler-lhe os pensamentos e, sem nunca perder o seu lugar, impor ideias (controlando corredores e influências). Por isso é o melhor. Os seus presidentes (Pinto da Costa, Abramovich, Moratti) sempre souberam, porém, com quem estavam a lidar. Nunca lhe entregariam o clube nas mãos. Só a equipa (balneário). É muito diferente.

No Benfica, Jesus recebeu esta época as duas coisas (clube e equipa) numa bandeja. Despediu um guarda-redes campeão na televisão, contratou quem quis (o clube segurou outros) e fez crer que o mais difícil (resgatar a aura vencedora) estava feito. Pura ilusão. Faltava todo o clube perceber o momento e transformar uma época conjuntural num ciclo estrutural. Isso nunca deveria ser missão prioritária do treinador. Teria de ser do clube (sua estrutura). O Benfica fez o inverso. E, num ápice, toda essa aura se desmoronou.

Em vez de mais confiantes, os jogadores surgiram mais convencidos. As táticas são outro debate (manter um sistema para o qual deixara de ter os jogadores fundamentais e insistir noutros totalmente diferentes para o repetir). Uma posição não faz uma equipa, mas pode contagiá-la. Dentro e fora do campo. A aposta em César Peixoto desafia não só a dinâmica tática como os limites da relação com os adeptos. Entretanto, Coentrão (único jogador capaz de dar profundidade ofensiva pela faixa) continua preso a lateral-esquerdo. Ver a equipa perdida em campo e, ao mesmo tempo, ver Aimar sentado no banco, torna toda esta comunicação tática e emocional ainda mais complexa. Quando entra, porém, são mais os problemas do coletivo a invadi-lo do que ele a atacá-los.

O treinador ficou na berma do precipício. Mais do que a tática, a solução de Jesus passa por recriar esses vínculos. Perceber as novas circunstâncias, conceder nessas relações e colocar-se numa zona intermédia para reinventar o seu lugar/papel no edifício benfiquista. Não são pontes, são cruzamentos de competências. Presidente, diretor desportivo e treinador. Em suma: o(s) poder(es) nos sítios certos.

II Liga Europeia

Foi mesmo impossível o sonho do Braga na Ucrânia. Portugal abandonou a Champions e as suas quatro equipas (FC Porto, Sporting, Benfica e Braga) vão disputar a Liga Europa, uma espécie de II Liga europeia. É este o espelho competitivo do atual futebol português?

Em termos globais, cruzando fatores financeiros com desportivos, é a que melhor reflete a sua realidade. Sucedeu o mesmo a holandeses, gregos e turcos, países da mesma divisão, a chamada 'segunda linha' do futebol europeu. Circunstancialmente, quando as razões desportivas ultrapassam as financeiras, um desses clubes (no nosso caso, tem sido o FC Porto) podem furar essa dimensão. Só com políticas desportivas/financeiras cirúrgicas na gestão e contratação é possível essa fuga à realidade futebolisticamente filha de um 'deus menor'.

Na Liga Europa é outra história. Todos podem mesmo ambicionar ganhá-la (como Shakhtar e Atlético Madrid nas últimas duas épocas). A prova surge, neste momento, à medida certa da dimensão das nossas equipas.

Penálti choque

O treinador como que pressente o que vai acontecer. A imagem de Manuel Fernandes no banco do Setúbal na hora do segundo penálti de Jailson diz tudo. É uma 'monografia' sobre emoções no futebol. No primeiro, esperara de pé, exultara com o golo, desesperara quando viu o árbitro mandar repetir o pontapé. Nesse segundo, já não o viu de pé. Sentou-se e esperou, olhando impotente para o que receava (e pressentia) ir acontecer. E aconteceu. O mesmo jogador que antes marcara tão bem o penálti, dera agora um 'chutão' por cima da barra. Manuel Fernandes nem esboçou a reação. Apenas fechou os olhos e encostou a cabeça no banco. Controlar a respiração e o... coração. Aumento de batida cardíaca maior não existiria. Os penáltis não são para cardíacos.

Teoria dos estímulos

O FC Porto sobreviveu a um penálti (ou dois) no último minuto e continua no comando com oito pontos de avanço. É impossível manter 30 jogos com o mesmo nível exibicional, mas a quebra de jogo da equipa frente ao Setúbal revelou sobretudo, desde o início, uma quebra de estímulo competitivo. Jailson não aproveitou. Do primeiro para o segundo penálti, a baliza, na sua cabeça, ficou muito mais pequena. O receio de falhar, no segundo remate, tomara conta da esperança de marcar, que o estimulou no primeiro. Aqui estão, da exibição coletiva cinzenta do FC Porto até à 'bipolaridade' de Jailson na hora do(s) penálti(s), duas versões da teoria dos estímulos. O futebol, equipas e jogadores, vive (e depende) muito disso.

O treinador, nesse sentido, deve ser como um ilusionista. Falar 'contra a corrente'. Otimista na derrota, pessimista na vitória. É a melhor forma de ajustar o estímulo competitivo da equipa à realidade. Sem depressões. Sem deslumbramentos.

Neste momento, a pergunta que o 'mundo benfiquista' faz é simples: como será possível o FC Porto perder tantos pontos para o Benfica ainda sonhar com o título? A maior possibilidade seria o 'mundo azul e branco' perder a consciência da realidade referida no parágrafo anterior. A outra, será duvidar da qualidade do plantel para substituir eventuais baixas do onze titular. É um pensamento que nasce de ver como Pereira se tornou um jogador fundamental nas dinâmicas defesa-ataque-defesa do flanco esquerdo portista (Emídio Rafael luta bem, mas não garante a mesma intensidade/qualidade). Villas-Boas tem sabido esquivar-se a ambas. Sabe, porém, que ainda falta mais de meio campeonato. Uma boa dúvida é um sinal de sabedoria, mas os treinadores nunca podem cometer o erro de a demonstrar publicamente.

Gigantes com duas velocidades

Terminou a primeira fase (os grupos) da Champions, cada vez mais um 'clube privado' de clubes milionários. Olhando os apurados, distingue-se um 'G6' com duas velocidades diferentes. A primeira com os onzes faraónicos de Inglaterra, Espanha e Itália, e a segunda vinda de outros territórios, mas também com projetos competitivamente fortes. A Alemanha (financeiramente pujante, mas com equipas taticamente limitadas a defender), a França (do Lyon e do Marselha, equipas astutas em termos do mercado de compra e venda de jogadores) e a Ucrânia (do Shakhtar, com muito dinheiro, mas ainda em busca de uma identidade, mescla do velho estilo de leste e novas tendências, com muitos brasileiros).

O único intruso neste mundo milionário vem da Dinamarca, o FC Copenhaga. Uma equipa que personifica bem o estilo dinamarquês, o mais tecnicista do futebol nórdico. Um onze taticamente sábio com um avançado grande que já passou pela Académica, o senegalês N'Doye.

Apontar os principais candidatos leva-nos em direção a Espanha, às cortes de Messi e Cristiano Ronaldo, Barcelona e Mardid. Em Inglaterra, o Tottenham, onde joga um galês voador que vai dar que falar, Bale, junta-se à 'realeza' de Chelsea, Manchester (onde o estatuto de Nani sobe à medida de cada boa jogada que faz) e Arsenal.

A quebra do Inter tem o fantasma de Mourinho. Com os jogadores mentalmente desgastados, Benitez foi pelo caminho mais longo para construir a sua equipa. Quis mudar de mais em termos de filosofia de jogo. Onde antes a equipa esperava (defendia) cinicamente, Benitez queria agora que pressionasse mais. Nessa transformação, perdeu a sua identidade.

Eto'o, liberto das amarras táticas de Mourinho que o obrigava a defender, é o atual melhor marcador da prova (sete golos). Joga, porém, mais desligado da equipa. Depois, com seis, surgem Gomez (Bayern) e Messi. Mas o jogador que mais remates fez foi Cristiano Ronaldo, 31. Marcou em quatro. O mais importante, porém, ainda está por explodir. A verdadeira Champions só agora vai começar.

03 dezembro 2010

Quem quer ser milionário?


Perguntas. É este FC Porto mesmo imparável? Porque quebrou o Benfica? O regresso de Moutinho a Alvalade.

O futebol de 'amor à camisola' que reclamam os adeptos mais antigos é hoje, nos migratórios tempos modernos, uma causa perdida. Esse legado de respeito infinito que os jogadores tinham com um clube já não tem quase sobreviventes. Moutinho entrará em Alvalade com a camisola do FC Porto como símbolo dessa nova ordem (ou desordem, depende da perspetiva). O ponto mais estranho da história é essa mudança ter sido pacífica, produto de um acordo entre todos, e não hostil como outras do passado. Ser assobiado quando tocar na bola nem o irá incomodar muito. Até porque Moutinho também é importante (decisivo) quando... não tem a bola. O 'motor de futebol' que esconde dentro de si continua igual. Percebo que não seja fácil, sem 'lupa tática', ver a sua contribuição decisiva no jogo. Eis a visão raios-X: pela sua rapidez, visão e 'generosidade tática' impede um dos maiores problemas que qualquer equipa pode ter no relvado: a fratura do seu meio-campo. Um jogador, portanto, idílico para qualquer treinador: fiável, solidário e, se necessário, com técnica e passe.

O meio-campo do FC Porto agarra-se a ele. Chega-se à 11ª jornada e parece que nada se pode fazer contra o poder do 11 azul e branco. Eu diria que sim, que algo se pode fazer: defender melhor, marcar, estar em cima dos espaços (e jogadores), não os deixar pensar (e jogar) e lançar contra-ataques. Não é pouco, dirão. Será este Sporting taticamente camaleão capaz de o fazer? A dúvida nasce, desde logo, por esse lado 'tático-camaleónico' surgir mais da indefinição do que da versatilidade. 4x2x3x1, 4x3x3, 4x4x2. Sistemas, sistemas. O melhor será o que for capaz de fazer tudo aquilo que escrevia atrás. O mais perturbante será, a certo ponto do jogo, perceber que o jogador (mesmo invisível) fundamental para isso está agora na... equipa adversária.

Apesar disso, parecerá estranho mas este pode ser o jogo ideal para o Sporting neste momento. A uma distância de 13 pontos, a frase 'sentir a pressão de ganhar' já não fará muito sentido. O seu campeonato já não passa pelo primeiro lugar. Mas, vencendo o primeiro classificado, Paulo Sérgio como que pode renascer. Porque, nesta fase, só uma vitória destas pode fazer alguém vê-lo como um 'treinador carismático', o único que faz verdadeiramente sentido num clube grande. Para qualquer das equipas, embora em circunstâncias diferentes, este jogo será como escapar da realidade no sentido de resgatar emoções. O campeonato, tirando, claro, na 'casa do dragão', está num acelerado processo de entristecimento.

Na coluna ao lado falo de duas razões para o abismo em que o Benfica caiu em Telavive: a ansiedade dos jogadores desde o primeiro minuto (com expressão no remate ou no último passe) e a substituição ao intervalo (tirar o rápido Saviola para meter Cardozo, sem ritmo de jogo). Prismas diferentes, portanto, para entender uma derrota e uma época deficiente, porque o lado emocional adulterado, a ansiedade, e os equívocos táticos (onde emergem os erros defensivos) já tinham surgido noutros jogos. Na origem, uma deficiente pré-época e os erros de casting na avaliação das características dos jogadores contratados para ocupar o lugar dos essenciais que saíram (algo que, neste jogo, se pode aplicar à troca do médio lutador e rematador Carlos Martins, que também vem recuperar atrás, por Salvio, ainda indefinido entre ser ala ou segundo avançado, mas que nunca recua). Uma questão particular que espelha um problema estrutural.

As perguntas feitas no título têm, portanto, respostas cada vez mais óbvias. É o pior que pode suceder a um campeonato: viver de certezas. Será que no futebol está mesmo tudo inventado?

Ansiedade com bola

É cada vez maior a quantidade de estatísticas que surge no futebol. Mas o resultado, no fim, e a bola, durante o jogo, raramente têm uma boa relação com elas. 21 cantos a favor, mais cinco ou seis flagrantes oportunidades de golo, diriam, estatisticamente, algo diferente do que uma derrota por 0-3. A exibição do Benfica em Israel caiu nessa 'armadilha'. Futebolisticamente, foi quase uma demonstração da 'lei de Murphy' em 90 minutos (quando uma coisa pode correr mal então ela irá ainda correr pior). Se há coisa que as estatísticas não conseguem, é entrar na cabeça dos jogadores e pressentir a sua ansiedade. Os processos de jogo encarnados foram os suficientes para criar muitas oportunidades de golo, mas esse estado emocional alterado, que se sentiu desde o início e se avolumou com o passar do tempo, impedia cumprir a formalidade do remate. Os erros defensivos são, depois, consequência disso.

O jogo reflete-se em passes ou remate. No papel da estatística, são todos iguais. Na relva do jogo, são todos diferentes. A ansiedade não se mede.

Ataque sem bola

Ao intervalo, Jesus fez uma substituição que colocou a dupla de avançados com um perfil diferente do habitual. Em vez de um avançado fixo e outro móvel (a combinação Cardozo ou Kardec com Saviola) colocou dois mais altos e fixos (Cardozo-Kardec). Saindo Saviola, saiu mobilidade e desmarcação. Uma alteração que pedia ofensivamente mais a Aimar, em vez de o concentrar só na construção, e pedia a Salvio capacidade para fazer cruzamentos. A equipa ficou a atacar com princípios (movimentações) em que não está rotinada. Passou a estar mais perto da baliza, mas mais longe do golo.

O futebol é, sobretudo, um jogo de criar espaços. Nesse sentido, mais importante do que 'estar' na área 90 minutos, é 'aparecer' na área no momento certo. Sem ansiedade, claro.

Pep & Mou Fútbol S.A.

O início do livro "El Método de Guardiola", de Miquel Violan, diz muito da sua essência: "Porque é que líderes com senso comum conseguem resultados descomunais?". A resposta está na pergunta. O 'bom senso' de Guardiola reflete-se na sua filosofia de jogo (técnica e passe) e nas suas relações fora dele (jogadores, adeptos, imprensa, adversários). Mourinho cultiva a arte do conflito para, através de 'jogadas mentais', fazer da equipa um exército. Diz mesmo que a conferência de imprensa também faz parte do jogo. Um poder de liderança com 'sentido comum' diferente, mas igual na capacidade de entrar na cabeça dos jogadores e de todo o mesmo entorno futebolístico.

Barcelona e Real Madrid tratam a bola de forma diferente. O Barça gosta de a ter o mais tempo possível. O Real gosta de a ter apenas o tempo essencial. Sem dilemas estéticos, Mourinho foge ao 'lugar-comum' de que todos devem atacar e defender. As obrigações só são iguais para todos no que toca a... defender. Não lhe interessa uma equipa partida em cinco que defendem e cinco que atacam. O ideal? Dez defendem sempre e, depois, só cinco deles atacam. Parece a mesma coisa, mas é muito diferente. Voltem a ler o parágrafo e pensem nisso.

Ronaldo está um jogador diferente. Nota-se no jogo coletivo e até na forma como passou a festejar os golos. Em vez de correr sozinho para a bancada tirando a camisola, dá a volta e procura o resto dos companheiros para abraçar. Messi continua como o miúdo que está a jogar no pátio da escola a quem todas as camisolas parecem ficar grandes.

Adepto de construções longas, Guardiola não se importa de dar 14/16 passes até chegar à baliza adversária. Mourinho quer chegar lá em três ou quatro. As táticas são diferentes, mas os estilos, no banco, com barba de três dias, têm as suas semelhanças.

Texto publicado na edição do Expresso de 27 de novembro de 2010

28 outubro 2010

À sombra das 'chuteiras vermelhas'


Poucas equipas querem jogar como o Benfica a nível internacional, muito distinta do plano interno. Luzes e sombras de... jogos diferentes.

Conceptualmente, em teoria, todos os jogos são iguais. Do outro lado vão estar sempre, de início, onze jogadores, e a equipa deve tentar ser protagonista durante o maior tempo possível. Qualquer outra forma de viver os dias prévios a um jogo confunde a sua identidade e convicções mais profundas. O supremo desejo: jogar no meio-campo adversário e dominar a bola.

O problema é que, depois, os jogos são todos diferentes. Dizia Jorge Jesus antes do jogo de Lyon que "há poucas equipas no mundo a jogar como o Benfica, sobretudo em termos defensivos". É, de facto, verdade. Desde logo, pelo esquema tático preferencial: 4x1x3x2, apenas com um médio-defensivo à frente da defesa, embora vestindo mais a pele de trinco (missão de recuperação de bola) do que de pivô (missão de condução de bola). A grande questão tática coloca-se depois no perfil bífido (capacidade de atacar e defender, alternadamente) que, em face desse solitário médio recuado, é exigível aos outros médios (ou pelo menos um ou dois deles) da chamada segunda linha (o tal '3' que no esquema surge atrás dos '2' avançados).

A fórmula é teoricamente simples: 'pressão alta' (isto é, capacidade de começar a tirar espaço e roubar a bola, em zonas o mais adiantadas possíveis, e, depois, grande capacidade de posse). O problema de 'jogo global' - isto é, o equilíbrio entre todos os seus sectores - deste atual Benfica reside neste ponto. Nenhum dos seus três médios subidos tem características de recuperador ou equilibrador defensivo após a perda da bola.

Penso no trio de Lyon, o mais utilizado esta época: Carlos Martins, Aimar, Gaitán. Todos querem ter a bola, mas, apesar de se perceber que entram com a missão clara de correr atrás dela e, antes, pressionar de imediato o adversário quando a perdem (a tal 'pressão alta'), essa tarefa choca com a vocação natural de cada um. A equipa perde, então, capacidade de se transformar sem bola. Ou seja, limita a estratégia que um 'jogo diferente" (entenda-se, neste caso, frente a um adversário mais forte do que é normal encontrar no nosso campeonato interno) lhe exigia.

É uma limitação que resulta das características dos jogadores, claramente mais vocacionados para o processo ofensivo, e que, em campo, condicionam um objetivo que Jesus explicara também na antevisão ao jogo: "É possível manter o mesmo onze e ao mesmo tempo fazer mudanças. Como? Pelo posicionamento no terreno de alguns elementos, pela estratégia, etc.". Em teoria, é verdade. Neste Benfica, ou melhor, com este meio-campo, isso é, porém, quase impossível (e será desnecessário voltar a lembrar o médio que partiu esta época).

Ao mesmo tempo, olhamos para como Mourinho, no Real Madrid, frente ao Milan, adota um claro duplo pivô de contenção (Khedira-Xabi Alonso) em 4x2x3x1, depois de ter sido campeão europeu, no Inter, com um 'tri' de duros médios defensivos, e percebemos melhor as regras competitivas que a 'dimensão internacional' exige. O Benfica tem um estilo de jogo sedutor. Daqueles que quase resgatam princípios de outros tempos na intenção ofensiva. O processo defensivo é, porém, demasiado sensível a qualquer falha de pressão individual que a espontaneidade criativa de Aimar, Martins e Gaitán tendem a cometer. A nível interno, a realidade então já é outra e os jogos, de facto, até parecem quase todos 'iguais'.

Durante o jogo, em qualquer momento, há sempre uma razão para o jogador estar a correr (ou em movimento) mesmo com a bola longe. A mecanização defensiva tende a aumentar responsabilidades. Por isso, um erro individual (uma bola perdida, um passe mal feito) pode tornar-se tão decisivo.

Jogar com 10

Não existe uma fórmula de jogar quando uma equipa fica em inferioridade numérica, mas há uma regra essencial: não perder o equilíbrio defensivo (manter defesa e meio-campo completos). Assim, em geral, quando existe uma expulsão de um elemento desses setores, o mais lógico taticamente é tirar um avançado para repor o equilíbrio defensivo (metendo um defesa ou um médio, dependendo de qual foi expulso). Ou seja, ficar a jogar com menos um jogador não significa, obrigatoriamente, ficar a jogar em... inferioridade numérica no campo todo. Há espaços onde, com esta alteração, esse equilíbrio numérico se mantém, ficando a inferioridade apenas no ataque, o que leva a um jogo mais de passes longos para o avançado que, em geral, deve ser o mais móvel e veloz.

Foi o que fez o FC Porto frente ao Besiktas, quando o central Maicon foi expulso: tirou um avançado (Falcão) meteu um defesa-central (Otamendi), recompôs a defesa, Moutinho redobrou a marcação a meio-campo e deixou solta na frente a velocidade de Hulk, agora servido mais em passes longos (como no 0-2). Assim (em 4x4x1) nunca se viu o FC Porto em inferioridade numérica a defender. E a atacar lançou uma nova solução.

Em Lyon, o Benfica viu Gaitán (médio-ala esquerdo) expulso e em vez de tirar um avançado (como Kardeck, deixando Saviola solto), para meter um médio e reequilibrar numericamente o meio-campo, manteve a mesma estrutura (4x3x2). Apenas recuou Carlos Martins e Aimar para perto do trinco Javi Garcia e, assim, ficar a jogar com menos um jogador foi mesmo ficar a jogar em inferioridade. Com mais espaços, o Lyon circulou, circulou e voltou a marcar.

De Istambul a Lyon, diferentes visões (e resultados) de jogar com dez.

O olhar de Pelé

Pelé, o rei, fez 70 anos. O seu futebol, porém, não envelhecerá nunca. Subiu à eternidade no dia em que pendurou as chuteiras. As memórias das suas jogadas e golos sucedem-se. Por entre esse mundo de magia, histórias fantásticas. Das muitas definições que ouvi sobre o seu futebol, a melhor para mim foi a de um defesa quase anónimo (Vítor, do São Paulo) que o marcou no campeonato do Brasil nos anos 60. "O que assusta é o olhar do Pelé. Já marquei avançados que olham na bola e sabia lidar com eles. Outros olham no olho da gente e isso nunca me intimidou. Há outros que olham para os colegas e vê-se logo que é o tipo de gente boa que não mexe com a nossa vida. Agora, o olhar do Pelé, eu não consigo entender, nem pegar. Parece que só os olhos estão ali no rosto. O olhar não. Compreendem o que digo?" Esta sublime descrição provoca-nos uma fantástica viagem imaginária. Como seria estar no relvado e ver Pelé passar por perto? A sua dimensão foi tal que uma tarde, conta o saudoso Armando Nogueira, até a bola lhe pediu um autógrafo.

A pergunta é legítima face aos resultados: por que razão o Sporting se transforma na Liga Europa? Taticamente não existem grandes explicações, pois as opções de Paulo Sérgio são sensivelmente as mesmas. O que muda, então? Os adversários, mais débeis no plano da segunda linha europeia (Levski e Gent, sem argumentos, o melhor jogo foi em Lille), e a 'cabeça' dos jogadores, menos pressionada do túnel até à relva. Isso também deverá ser percetível na palestra de Paulo Sérgio. Basta ver como Salomão entra a titular, com a sua forma truculenta e simples de jogar (tornando o drible complexo numa coisa simples). O Sporting europeu é mais liberto. Não é fácil, porém, fazer este transfer mental para o campeonato. A realidade (adversários e pressão interna) é outra.

"Duplo" Sporting

A pergunta é legítima face aos resultados: por que razão o Sporting se transforma na Liga Europa? Taticamente não existem grandes explicações, pois as opções de Paulo Sérgio são sensivelmente as mesmas. O que muda, então? Os adversários, mais débeis no plano da segunda linha europeia (Levski e Gent, sem argumentos, o melhor jogo foi em Lille), e a 'cabeça' dos jogadores, menos pressionada do túnel até à relva. Isso também deverá ser percetível na palestra de Paulo Sérgio. Basta ver como Salomão entra a titular, com a sua forma truculenta e simples de jogar (tornando o drible complexo numa coisa simples). O Sporting europeu é mais liberto. Não é fácil, porém, fazer este transfer mental para o campeonato. A realidade (adversários e pressão interna) é outra.

13 outubro 2010

Os defesas são de Marte... os avançados de Vénus

Seleção nacional. Cada setor tem os seus habitantes naturais. A 'matemática' do meio-campo. Que 'jogadores de elite' existem no futebol português?

Fábio Coentrão... de Marte ou de Vénus?
Estela Silva/Lusa
Existem jogadores que deviam vir com 'livro de instruções'. Tudo ficaria mais simples. Para o treinador, em busca do melhor jogo para a equipa. Para os adeptos, que assim seriam mais justos na hora de julgar o seu valor. Se tivéssemos de simplificar as duas grandes expressões futebolísticas em termos de jogadores, seria quase automático dividi-los entre avançados e defesas. Como se viessem de planetas diferentes. Os defesas de Marte, mais guerreiros para afastar todas as bolas e ameaças de golo. Os avançados, de Vénus, para serem mais sedutores na hora de conquistar a baliza.

Ou seja, como os 'homens e mulheres' do livro de John Gray com o mesmo título, eles, em tempos (entenda-se num futebol romântico de antigamente ou meramente teórico) também viviam relações duradouras, porque aceitavam e respeitavam as suas diferenças. Depois, desceram à Terra (entenda-se ao relvado) e esqueceram as diferenças, passando a fazer exigências mútuas sem sentido. Muitas equipas vivem nesse dilema existencial. E o seu futebol ressente-se disso.

A missão dos defesas parece menos interessante, mas Hierro, antigo defesa espanhol, esclarecia que "há quem não entenda o prazer de roubar a bola a outro jogador, mas nós, os defesas, sentimo-lo bem!". É algo que, após cada corte, salta à vista na face de Ricardo Carvalho, Bruno Alves ou Pepe.

Mas, além das características e missões distintas que cada grupo tem, o jogo dá-lhes outros pontos de distanciamento ou aproximação. Se o talento os diferencia, a tática iguala-os. É este ponto que o treinador deve agarrar.

Tem o atual futebol português potencial para reunir, no mesmo onze, esses diferentes núcleos com capacidade de fazer em campo essa comunicação tática de forma sustentada no tempo? Falo, claro, da seleção e do grupo de 'jogadores de elite', com dimensão internacional indiscutível, que se deve distinguir a cada espaço temporal de, pelo menos, dois anos. Para atingir esse 'efeito tático' de aproximação é necessária uma 'terceira espécie' que só o futebol consagra: os médios. Ao invés dos outros grupos, com código genético diferente, o médio pensa em duas coisas ao mesmo tempo. São eles que, numa equipa, mais definem o estilo de jogo. E, na seleção, a questão é essa mesmo. Com a defesa pacificada em termos de soluções e o ataque desenhado por extremos, o problema por resolver está mesmo no meio-campo.

A ausência do velho 10, médio-centro ofensivo organizador e com criatividade, como foram, cada qual no seu tempo, Rui Costa e Deco, obriga a mudar a face do sector. Todos os nossos médios de elite são hoje demasiado parecidos no que podem dar ao jogo. Tiago, Manuel Fernandes, Meireles, Pedro Mendes, Veloso podem alguns ter maior capacidade de chegar ao ataque, mas nenhum deles é da chamada segunda linha do meio-campo.Todos gostam de vir mais de trás. Moutinho joga (ou melhor, quer jogar) em demasiados sítios ao mesmo tempo para ser esse elemento. A colocação de Pepe como médio-defensivo (trinco) ainda confunde mais esta ideia, pois ele é, por natureza, um defesa-central. Carlos Martins é o mais próximo desse estatuto. Está em grande momento de forma mas a dúvida é saber se irá sustentar essa nova 'construção' do seu futebol (técnica e emocionalmente) ao mais alto nível.

Desta forma, cada vez mais o 4x2x1x3 da seleção deve inverter a equação numérica do meio-campo. O '2x1' passar para '1x2'. Ou seja, para substituir um jogador, usar... dois jogadores.

O segredo do bom futebol atual é os jogadores, em campo, pensarem todos a mesma coisa ao mesmo tempo, não distinguindo defesa e ataque pelas suas posições. Começar a atacar (recuperada a bola) com os defesas, começar a defender (perdida a bola) pelos avançados. Viverem no mesmo território de elite apesar de terem vindo de 'planetas' diferentes.

Sete jogos, um onze

O país futebolístico insiste em discutir o futebol com um apito na boca, mas o campeonato tem revelado, até à 7ª jornada, várias razões para ver os jogos de outra forma. Num plano geral, a qualidade de jogo melhorou bastante esta época.

O início do campeonato costuma ser o chamado tempo dos 'pequenos heróis'. Será o espaço onde encaixam Olhanense e Académica, projetos de bom futebol desenhados, respetivamente, por Faquirá e Jorge Costa. Cada um deles tem o seu avançado velocista para assustar os defesas adversários quando explodem a correr atrás da bola.

Um estilo no qual Sougou, extremo voador de Coimbra, parece um autêntico desenho animado imparável que, mesmo quando cai e perde a bola, está de pé, inteiro, logo na cena a seguir (entenda-se jogada seguinte).

Em Olhão, o 'baixote' Paulo Sérgio também acelera e ganha espaços perto da baliza antes dos outros. Por isso surgem ambos neste onze ideal de início de campeonato. Como está um guarda-redes brasileiro recém-chegado, Gottardi, em quem talvez devido às reduzidas assistências aos jogos do Leiria (outra boa equipa no topo da tabela) ainda poucos repararam.

No Minho, ao lado do Braga, ressurge o Vitória de Guimarães. Apesar de Manuel Machado, o seu treinador, poder por si só criar um novo dicionário de léxico futebolístico, em campo a equipa tem um discurso simples: ora com dois avançados soltos (Edgar-Toscano), ora com dois trincos a defender (Cléber-Flávio Meireles), diz claramente o que quer a cada momento do jogo. E com isso soma pontos (ganhou ao Benfica e empatou com o FC Porto).

No fim, a classificação irá certamente espelhar a macrocefalia habitual do nosso futebol. No início, porém, todos podem sonhar alto. Ainda bem.

Sincero de mais


Cristiano Ronaldo a 'bailar' Arni Torfason/AP
O mundo particular de Cristiano Ronaldo, uma espécie que há muito disparou da realidade terrena do futebol português e vive numa galáxia distante. Fora e... dentro do campo. Elogiam-se muito os jogadores que onde põem os olhos põem a bola. São cirurgiões do passe e do remate. Os verdadeiros mágicos, porém, são aqueles que com intencionalidade malandra põem os olhos num sítio e, cirurgicamente, põem a bola... noutro. Ronaldo sabe fazer as duas coisas, mas nos últimos tempos o seu futebol, espécie de 'TGV com bola', tornou-se demasiado 'sincero'. O que ameaça fazer... faz. Arranques, dribles, remates.

Para entender melhor esta tese, nada melhor do que recorrer aos clássicos. Garrincha. Conta-se que um dia quando um treinador adversário tentou convencer os seus defesas de que não era assim tão difícil travá-lo disse que "sim senhor", ele era um craque, mas que fazia sempre a mesma finta. Simulava ir para a esquerda e voltava a puxar para a direita e passava o defesa com ela. Os jogadores ouviam-no atentamente. De facto, aquela era mesmo a finta típica do "anjo das pernas tortas", como lhe chamou Vinicius de Moraes, só que algo não batia certo. Foi então que, no meio do silêncio, um jogador, o que estava mais perto dele perguntou: "Sim, mister. Ele faz isso. E vai fazer outra vez neste jogo. Mas... quando?"

Ou seja, a sinceridade do futebol não está em fazer coisas diferentes de cada vez que se toca na bola, até se pode fazer a mesma coisa várias vezes, o difícil é ninguém descobrir quando e em que local ela se fará. Cristiano Ronaldo é hoje um mágico 'sincero de mais'. Basta aprender a 'mentir' algumas vezes e criar ilusões para criar... dúvidas. Afinal, quando é que ele vai arrancar enlouquecido com a bola?

Hulk

O FC Porto de Vilas-Boas é uma equipa mais lenta do que a de Jesualdo. O facto de privilegiar mais a posse de bola, em jogo apoiado, torna o impacto que Hulk provoca no jogo (adversários e própria equipa) ainda mais explosivo. Partindo da direita, puxa a bola para o pé esquerdo e joga com o que a natureza lhe deu: potência, velocidade, técnica e remate. O facto de a equipa jogar mais "devagar", obriga-o a controlar melhor as mudanças de velocidade e o timing de travar para rematar e, até, passar a bola, algo que antes era raro. Com esses fatores tem sido a chave azul-e-branca em muitos jogos (entenda-se invenção de jogadas para golo).

Fábio Coentrão

Lateral-esquerdo ou extremo, vive cada 90 minutos a correr de uma baliza à outra. Perto da sua, luta a defender e recupera a bola. Perto da do adversário, mete velocidade e cria jogadas de golo. Uma alternância que cansa só de ver. Coentrão é hoje o jogador mais importante na equipa do Benfica, porque depende dele a possibilidade de Jesus aplicar o seu preferencial plano de jogo, ora com profundidade dada num flanco por um extremo puro (antes Di Maria), ora com capacidade para, depois, perdida a bola, rapidamente se reequilibrar defensivamente. Só Coentrão tem a chave que garante essas duas coisas. O rebelde tornou-se um jogador responsável, sem perder a imaginação insubmissa. Como o próprio disse: "Antes jogava só com os pés. Agora jogo também com a cabeça!".

Postiga

O Sporting continua um mundo de problemas, dentro e fora do relvado, mas, mesmo com a equipa em 10º lugar emerge um jogador quase como se jogasse sobre uma "jangada de pedra": o renascido Postiga. Apanhando o vazio deixado pela crise de Liedson (sentado no banco) reencontrou a sua velha casa nº9. Um habitat onde voltou a marcar golos, o mais fantástico de expressão europeia (nos 5-0 ao Levski). A equipa muda demasiado de estrutura (ora joga num 4x3x3 com extremos, como num 4x4x2 losango com laterais a subir, ora passa para 4x2x3x1 com dois pivôs, ora passa para 4x1x3x2 com um trinco) e não define uma 'casa tática' preferencial. Um jogador que, mesmo por entre todas estas sucessivas mutações, consegue destacar-se é algo que, por si só, merece realce. É a chave-Postiga.

Lima

Três golos em Sevilha (vitória por 3-4 e entrada na Champions) e uma bomba do meio da rua no Dragão pondo o Braga a ganhar 1-2. Obras de Lima que ergueram os sonhos bracarenses. Por isso, a desilusão pelo que surgiu depois. Derrotas na Champions (6-0 e 0-3) e reviravolta no Dragão (3-2). O Braga continua personalizado mas não tem conseguido gerir dois níveis competitivos tão elevados. Domingos já mudou mais taticamente em 9 jogos do que na época passada toda. Principais problemas? Os laterais e posição indefinida de Aguiar. Principais qualidades? Os centrais Moisés-Rodriguez, a classe de Alan e a velocidade de Matheus. Heróis e vilões do livro de aventuras aberto pela chave goleadora de Lima.

07 outubro 2010

Futebol, dos pés para a cabeça


Os jogadores mais influentes numa equipa detetam-se pela dimensão de espaço que eles ocupam nos seus movimentos habituais.

Os grandes jogadores, quando aparecem, marcam o seu território de uma forma incontestável. Numa explicação puramente morfológica, o futebol é um jogo atraente e quase enigmático porque é jogado com os pés e pensado com a cabeça, algo que coloca em contacto pontos extremos do corpo atlético. É um bom ponto de partida para pensar numa equipa, jogadores e jogo, evolução e dilemas. Penso nisso quando ouço Fábio Coentrão a falar sobre o seu crescimento como jogador, de rebelde incompreendido até estrela do Benfica: "Antes pensava só com os pés. Hoje, penso com a cabeça, os pés... com tudo. Hoje, sim, considero-me um jogador de futebol!" A cabeça e os pés, a distância física máxima. Eis o grande desafio de uma equipa (e jogadores). Cruyff dizia que o futebol é "um jogo para ser jogado com a cabeça" e, com isso, enquanto recordava as suas fintas e passes mágicos (com os pés), dizia a origem de tudo. O melhor futebol, no entanto, vive de emoções e sentimentos. Leio António Damásio e fixo-me quando diz que "para ter uma emoção não é necessário um sentimento. Para ter uma emoção, basta um objeto. Um carro que se despista provoca susto, sem se estar a ter sentimento nenhum, está-se apenas a responder emocionalmente a uma situação". Claro que quando falava sobre isto, Damásio não pensava em futebol. Mas quando depois diz que "os sentimentos confundem-se com o princípio da consciência" ou a "possibilidade de não ter só uma reação automática, mas de a partir daí construir conhecimentos, relações com determinados objetivos", não resisto a transpor todo este mundo de razões e emoções para o futebol, o jogador, a bola e o... jogo. Coentrão sempre teve emoção com a bola (os pés em ação). Faltava-lhe, porém, o sentimento (a cabeça). Ter consciência no jogo e não reagir apenas emocionalmente ao objeto (bola). A razão estará algures no meio disso. Como o bom futebol. Os jogadores mais importantes/influentes numa equipa podem ser detetados em função da dimensão/amplitude de espaço que, no jogo, eles ocupam nos seus movimentos habituais. Nesse sentido, Coentrão estará até a tornar-se um jogador demasiado importante no jogo do Benfica em busca da sua melhor expressão. Neste momento, Jesus não terá outra opção do que mantê-lo a extremo-esquerdo para devolver à equipa profundidade pelo flanco que perdeu Di Maria. Fica, porém, com um problema defensivo, que obriga Coentrão a correr mais para ocupar maior parcela de relva, recuando também para ajudar a defender (nessa visão coletiva, é de crer que Fábio Faria seja melhor defesa-esquerdo do que César Peixoto).

Sentiu-se isso na Alemanha, frente a um Schalke 04 que deu a maior parte do relvado ao Benfica e esperou o decorrer do jogo para perceber onde estariam espaços ou erros para lançar um ataque. Perante este tipo de estratégias, o Benfica tem tendência a acelerar sempre o jogo, só o entendendo em velocidade. A época passada via o adversário como um "grande mentiroso". Agora, "acredita" nele. E é facilmente atraído pelo "objeto". A solução não será a de tornar o jogo mais lento, mas antes gerir melhor os ritmos de jogo. É o que, taticamente, o atual futebol "encarnado" necessita. Ou seja, jogar mais com a "cabeça" e menos só com os "pés". Fazer, como equipa, o percurso de Coentrão. As melhores equipas são as que "mentem melhor" em campo. Mentiras com pés e cabeça, claro.

Onde está Liedson?

Depois das derrotas do campeonato, a Liga Europa (5-0 ao Levai Sofia) re-equilibrou emocionalmente a "nação verde", mas é perigoso criar ilusões a partir de um simples resultado. Os problemas (e qualidades) do jogo sportinguista permanecem e não nascem de questões mentais, embora, claro, um bom resultado solte mais os jogadores. Paulo Sérgio continua a gerir taticamente a equipa a partir de vários sistemas. Neste jogo surgiu num 4x3x3 com dois médios defensivos, mas a ideia que ficou é que lhe foi mais difícil libertar-se de um desses seus médios recuados, Zapatero, libertando a equipa para uma saída de bola mais rápida, do que do próprio onze búlgaro.

No meio de todo este conjunto de jogos (e debates em seu torno) um facto destaca-se: Liedson caiu da equipa titular e passou a sentar-se no banco, depois de ter sido substituído ao intervalo de um jogo, com o Nacional, que estava 0-0. É a maior nota de autoridade (dentro fora do relvado) que Paulo Sérgio deu até agora como treinador do Sporting. Especula-se que as razões terão ultrapassado questões desportivas. Seja como for, esta decisão expõe o treinador que, destemido, numa fase de crise latente, tira da equipa o seu goleador (mesmo que num momento menos produtivo). A época passada, Carvalhal não conseguiu fazer o mesmo e, poucos dias depois do incidente Sá Pinto, o "levezinho" apareceu a titular na Trofa. E, claro, fez o golo da vitória.

Um treinador vive entre estes dois mundos que, tão próximos, podem ser tão complementares como conflituosos. Enfrentar o maior ego do balneário antes do onze adversário em campo. Segue-se o campeonato e o regresso ao mundo competitivo mais real (e cruel) para Paulo Sérgio e seu exército.

O primeiro Mourinho

O impacto Mourinho em Madrid ainda não explodiu dentro do relvado. No início, é o impacto do discurso, a postura, o 'jogo' das conferências de imprensa. O clube que antes era conhecido pelos jogadores (de Di Stefano ou Butragueno a Zidane ou Ronaldo) é agora primeira página pelo treinador que tem. É o primeiro 'campo de batalha'. Segue-se o jogo com uma bola pelo meio. Em busca de uma identidade, as exibições da equipa têm sido criticadas. E, reparem, escrevi 'uma' identidade, e não a 'sua' identidade. Porque Mourinho não tem uma ideia predefinida de qual será o melhor estilo de jogo. De início, talvez tentando fazer sombra ao Barça, tenta um jogo mais técnico e apoiado. Não é esse, porém, o seu código genético. As suas equipas são mais pragmáticas. Em vez de 12/13 passes, chegar à baliza em três ou quatro. O jogo, com o Auxerre, já deu indicações nesse sentido. O seu Real vai caminhar nessa direção, rumo a um jogo mais direto, sem tantas preocupações estéticas. Um futebol 'realista', ainda escondido no 'LabMou' de Madrid.

O 'bicho' tático

É a primeira sensação deste campeonato. À sexta jornada, a Académica de Jorge Costa plantou-se no segundo lugar. Será uma realidade circunstancial, mas não acontece por acaso. Tem a base do bom futebol, procurando a técnica como ferramenta. A tática? O 4x3x3. A maior arma? A velocidade de um jogador que quando arranca parece 'voar baixinho': Sougou. O seu upgrade deu-se quando descobriu onde está o... travão. Passou a saber o timing certo para fazer o passe ou o remate. O onze não é só Sougou (reparem no médio Diogo Melo) mas é através dele que faz levantar o adepto da cadeira. Alguém dizer que é adepto da Académica continua a equipara-se a um 'ato de cultura'. Este onze não usa 'capa e batina', mas tem estilo e personalidade. É um 'bicho' tático.

01 outubro 2010

Os melhores jogadores usam "relógio"


Este é dos momentos mais solenes para uma equipa de futebol e seus jogadores. A preleção do treinador antes do início do jogo. Será nesse espaço sagrado que começa a nascer o seu jogo e motivação. Ganhar coragem para atacar ou criar resistência para defender. É esta dicotomia defesa-ataque que acaba, muitas vezes, por ser mais confusa. Porque um dos piores sinais que uma equipa pode dar é quando, no final, se elogia apenas um desses fatores. Nasce assim a tal 'equipa defensiva' que parece só pensar em fechar a baliza ou o onze forte a atacar mas sem rigor a defender. Esta avaliação por compartimentos estanques também se aplica, muitas vezes, aos jogadores. Não faz sentido.

Conta-se que, um dia, quando um treinador chamado Hugo Arduzzo - personagem entre o real e o imaginário -, então no banco do recôndito Parejas FC, disse, empolgado, nessa preleção, que queria mais ambição, a jogadores a quem antes apenas pedia esforço, todos eles ficaram meio assustados. Gritava sobretudo com os defesas, queria que esquecessem as posições e, quando recuperassem a bola, saíssem como flechas para o ataque. Depois de algum silêncio, um deles, por fim, atreveu-se a perguntar: "Ok, mister, é uma boa ideia, mas... a que horas voltamos?"

Aquela equipa (jogadores) não estava preparada para pensar o jogo dessa forma. Unir defesa e ataque, ataque e defesa, controlar ritmos e timings do jogo. Ou corria de mais ou ficava quase parada. Ou seja, em campo, jogava sem 'relógio'. Por isso, a importância das chamadas 'transições', o momento em que os jogadores mudam o chip defensivo para o ofensivo e vice-versa.

Esta é a forma ideal de perceber o estranho caso do futebol de Fábio Coentrão que, mesmo passando, no último jogo contra o Sporting, para extremo-esquerdo continuou, em campo, a ser o melhor defesa-esquerdo da equipa, a sua posição anterior. O enigma resolve-se com a correta utilização do chamado 'relógio das transições' que, naquele jogo específico, tinha a nuance estratégica de travar o mais cedo possível (entenda-se o mais adiantado possível no relvado) o defesa-direito do Sporting muito forte a... atacar. João Pereira, claro. Estes dois jogadores sabem sempre a 'hora certa para voltar'.

Depois de observar Coentrão, sigam Varela no onze do FC Porto. Além de saber atacar e recuar quando a equipa perde a bola para fechar o seu flanco, o que mais impressiona ver no seu jogo é como quase parece parar em corrida. Esta última parte da frase parece um paradoxo. Pura ilusão. Como é, afinal, o jogo ilusionista de Varela que, quando avança com a bola, sabe sempre o timing certo de travar, a chamada temporização com a bola nos pés (como se parasse o tempo) e, em curtos segundos, voltar a decidir o que fazer, arrancar outra vez ou procurar jogar mais para zonas interiores. Além de um 'relógio', tem também uma 'bússola' em campo.

O ideal numa equipa é conseguir estender esta ideia à maioria dos seus jogadores. A melhoria do jogo do Benfica (vista contra o Sporting) passa muito por esse fator, sobretudo quando perde a bola e os jogadores têm de 'voltar' para defender (a tal transição defensiva). Depois, quanto maior for a velocidade com que faz essa transição, mais eficaz se torna em todo o jogo.

Tudo isto pode parecer uma análise demasiado técnica, mas basta seguir jogadores como Fábio Coentrão e Varela para perceber a reação assustada do jogador de Arduzzo. Porque não é fácil ter, no relvado, essa noção temporal dentro da vertigem (física e emocional) de um jogo. Por isso, os melhores jogadores são os que usam 'relógio'. Não são muitos no nosso campeonato, mas quando aparecem decidem os jogos.

A hora de Bento

Depois de tentar contratar um treinador (Mourinho) para dois jogos, a confirmação de um novo treinador (Paulo Bento) para dois anos. Entre estas duas estratégias para a seleção mediaram... dois dias. O futebol português (Federação) continua fiel à sua 'jangada de pedra'. Todas as decisões são meramente conjunturais. Continua sem se detetar um pensamento estrutural.

Paulo Bento assumiu o cargo de selecionador e logo na primeira conferência de imprensa cada frase saiu como uma afirmação de personalidade. Ou melhor, de tentativa de afirmação de personalidade. É importante que o faça dentro da equipa (face aos jogadores). É decisivo que o faça dentro do statu de poderes do futebol português (face à estrutura). Não está em causa a sua competência. Está em causa todo um processo que levou até ele num tempo e de forma quase circunstancial e que (injustamente) o torna, na hora da entrada, numa espécie de selecionador com 's' pequeno.

A comparação entre os estilos de Scolari e Queiroz, seus antecessores, leva, porém, a uma conclusão que funciona a seu favor: é muito mais fácil transmitir uma emoção do que uma ideia. O adepto não acredita mais em ideologias. Paulo Bento é, nesse contexto, um treinador de rosto "mais humano". Na forma como festeja um golo ou na forma como se enfurece com o árbitro que marca uma falta ao contrário a meio-campo. A ideia é... ganhar os próximos dois jogos. Emoções e ponto final.

A forma como enquadrou Carlos Martins e Varela, hoje referências de qualidade no nosso futebol, mas que, por razões diferentes (disciplinares e desportivas) não quis no Sporting, revela a astúcia de perceber que a mesma pergunta (jogador) em locais diferentes, pede respostas... diferentes. Desde o momento de forma do jogador, passando por questões pessoais anteriores agora descontextualizadas, até à ideia de jogo distinta que pretenda para a seleção.

E, assim, a cada frase, a cada jogo, dar passos decisivos para construir o tal "S" grande.

Um grito na relva

Quando um jogador alterna tanto o seu nível exibicional, entre "a luz e a sombra", acaba quase sempre por ser a 'sombra' a dominar a ideia que se tem dele. Durante muito tempo, penso que foi esse 'lado lunar' mais forte que dominou a carreira (e o jogo) de Carlos Martins, um temperamental por natureza, um talento por vocação. Chegou a ser visto quase como um 'caso perdido'. O Sporting (Paulo Bento) desistiu mesmo dele.

O aproximar da idade da razão futebolística (que situo entre os 26/27 anos) deu-lhe outra visão sobre o mundo e o futebol. Carlos Martins continua, claro, temperamental (reclama furioso por uma falta a meio-campo da mesma forma que grita contra um penalti no último minuto), mas o seu talento tem hoje, em campo, uma estrada tática e emocional mais equilibrada. No Benfica, tem o problema tático de muitas vezes jogar descaído de mais para um flanco. Como o talento, porém, aparece sempre em qualquer cenário, seja na luz ou na sombra, durante o jogo só resta esperar vê-lo surgir no melhor local (e momento).

Outro grito

No Sporting, existe outro jogador que coloca o seu (bom) futebol entre o caráter e o talento. Mais do que complementos, são, quase sempre, fatores de conflito. Penso em Vukcevic. Ninguém duvida que sabe jogar mas a ideia que fica, durante os jogos, sobretudo quando surge um grande plano seu, é que está a pensar numa coisa completamente diferente. Já disse mesmo que nem gostava de futebol e que era incapaz de se sentar a ver um jogo, nem que fosse a final da Champions. É uma personalidade quase indecifrável. O tipo de jogador que, numa equipa, em vez de ser "10+1", quer ser "1+10". É muito diferente. Porque nenhum jogador pode querer que a equipa comece por ele. O relvado é um território onde muitas vezes o jogador se sente... demasiado importante.