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24 maio 2013

Campeonato Miguel

Por Luís Fialho in Jornal O Benfica
 
Na antevisão à última jornada do Campeonato, tive oportunidade de dizer, na nossa Benfica TV, que para fundamentar a esperança na conquista do título, precisaria de ter a certeza de que nada de anormal se passaria no outro estádio onde se jogavam as grandes decisões. Não foi necessário esperar muito tempo para confirmar os meus piores receios.
 
Aos vinte minutos da partida da Mata Real, o mesmo indivíduo que na temporada passada, em Coimbra, transformara um claríssimo penálti sobre Aimar numa falta contra o Benfica, resolveu, desta vez, transformar um cartão amarelo por simulação de James Rodriguez fora da área, numa grande penalidade a favor do FC Porto, com expulsão do defesa pacense. Percebi, de imediato, que não valia a pena sonhar. A realidade mantinha-se, igual a si mesma, como há já muitos anos nos habituámos a ter de suportar.
 
Concluído o Campeonato, gostava, com sinceridade, de poder atribuir a perda do Título apenas ao mérito do adversário, ao cansaço dos jogadores do Benfica, ou simplesmente ao azar. Porém, ao lembrar-me de Carlos Xistra em Coimbra, de Pedro Proença na Choupana, e, sobretudo, deste Hugo Miguel em Paços de Ferreira, não sinto que o possa fazer. Este, para mim - que também tenho direito a usar alcunhas - ficará na memória como o Campeonato Miguel.
 
Depois de vermos fugir o Título deste modo, depois de perdermos a Liga Europa (essa sim, de forma limpa, honrada, mas meramente infeliz), resta-nos a Taça de Portugal. Não a encaro como um consolo, ou como um prémio menor. Pelo contrário, vejo-a como uma competição importante e bonita, que há muitos anos escapa ao Glorioso, e que quero fervorosamente vencer. Além de que, terminar a temporada com um troféu nas mãos, parece-me ser o mínimo que a justiça pode fazer ao brilhante futebol que a nossa grande equipa apresentou durante meses.
 
Esperemos que desta vez não haja Miguéis a condicionar o jogo, e que a grande festa do Jamor seja limpinha. Pois o Campeonato, depois de tanta conversa, acabou bem sujinho.

23 outubro 2011

Balanço negativo


Quando se aproximam as eleições na FPF, é altura de fazer um balanço dos 15 anos que Gilberto Madaíl levou à frente dos destinos da mesma. Infelizmente, esse balanço não pode ser positivo. Admito que Gilberto Madaíl seja uma pessoa estimável (não o conheço), mas o seu trabalho em todos estes anos foi quase sempre marcado pela mediocridade, e muitas vezes pela fuga às responsabilidades.
Argumenta-se que levou a Selecção a Europeus e Mundiais. Ao contrário de um clube, onde as
direcções contratam e vendem futebolistas, não creio que um dirigente federativo tenha mérito substantivo nas vitórias desportivas da respectiva Selecção. Na minha óptica, Madaíl teve apenas a sorte do seu consulado coincidir com uma extraordinária geração de talentos (Rui Costa, Figo, João Pinto, Simão, Ronaldo, etc), que, ela sim, proporcionou os resultados que a FPF pouco fez por merecer. Acresce que, sob a sua liderança, nem só de rosas viveu a Selecção Nacional. Os Mundiais de 2002 e 2010 foram momentos de angústia colectiva, com casos de indisciplina e desorganização que saltaram à vista de todos, e dos quais não se chegaram a apurar as devidas culpas. Pelo meio, nos tempos de Scolari foi o próprio seleccionador que, assumindo tarefas que competiam aos dirigentes, disfarçou insuficiências que nunca deixaram de subsistir.
Mas nem é a Selecção o principal critério de análise a uma direcção federativa (mesmo sendo ela a sua grande fonte de financiamento). O futebol das divisões secundárias quase morreu neste período, não se tendo visto o mais pequeno esforço para o compatibilizar com os paradigmas dos novos tempos.
As selecções jovens, com a honrosa excepção do último Mundial de Sub-20, eclipsaram-se. Os quadros competitivos continuam desfasados da realidade, e reféns de interesses menos claros. E embora sem responsabilidades directas no assunto, não me lembro de ouvir um pio a Madaíl quando escutas telefónicas demonstraram ao país a corrupção em que navegava o nosso futebol.
Por tudo isto, Gilberto Madaíl não irá deixar saudades

10 outubro 2011

Anti-climax

O Benfica jogou para a Liga Portuguesa no dia 1 de Outubro. Só voltará a jogar, em Aveiro, no dia 22 de Outubro. Temos, portanto, 21 dias de interregno, três semanas sem Campeonato, justamente numa fase em que as coisas começavam a aquecer na luta pelos lugares cimeiros.

Mesmo que, no plano pessoal, de certa forma até me agrade uma pausa futebolística que permita, por exemplo, pôr as leituras em dia, em termos de competição, e sobretudo de espectáculo, não posso compreender tão absurda calendarização.

Tenho defendido que os jogos de qualificação das selecções deveriam ser concentrados no Verão anterior ao das fases finais. Ou seja, em Junho de 2011 jogava-se a qualificação para o Euro 2012, em Junho de 2013 disputava-se o apuramento para o Mundial de 2014, e assim sucessivamente. Ganhava a qualidade do Futebol, pois as selecções dispunham de maior tempo de preparação conjunta; cresciam as audiências, sabendo-se que nessa altura o Futebol de clube está fechado para férias, e os adeptos estariam com maior predisposição para encarar o patriótico espírito de Selecção; e evitava esta intromissão quase abusiva nos calendários competitivos dos clubes, que não serve às selecções, não serve aos jogadores, não serve aos adeptos, não serve aos adeptos, e não serve o Futebol (talvez sirva alguns interesses em redor da FIFA).

Também as Taças domésticas (tanto a de Portugal, como a da Liga) poderiam, e deviam, ser concentradas numa altura específica do ano. Por exemplo em Janeiro, quando o mercado de transferências está aberto (outro absurdo), e como marco separador da primeira e segunda volta do Campeonato (uma terminando no fim de Dezembro, outra iniciando-se em Fevereiro). Teríamos, pois, uma volta inteira sem pausas, as eliminatórias das Taças, outra volta inteira sem pausas, as finais das Taças, e por fim as selecções.

Se no plano internacional estamos dependentes dos desígnios e humores da FIFA, quanto ao resto, com um pequeno esforço organizativo, talvez fosse possível mudar. O adepto agradecia.

12 março 2011

Até quando?

Condicionamento do árbitro na semana anterior; violência e intimidação constantes desde as bancadas, com cuspidelas, arremesso de isqueiros, moedas e bolas de golfe, além dos tradicionais cânticos insultuosos; reiteradas provocações dos jogadores em campo, com entradas violentas e simulação de agressões;reacções acaloradas a cada lance, quer no relvado, quer no banco, procurando desestabilizar e desconcentrar a equipa adversária. Tudo isto se viu, uma vez mais, em Braga. Tudo isto configura um autêntico manual de como ganhar um jogo fora das quatro linhas. Tudo isto passou, uma vez mais, impune.
Não é preciso ser muito imaginativo para perceber a que fonte foi o Sp.Braga beber esta forma de actuar. Pode dizer-se que aprendeu depressa, pois, na verdade, o clima que cria a cada visita do Benfica só encontra paralelo no estádio daquele que é o seu principal aliado, e, ao que parece, sua referência espiritual.
Uns, tal como outros, não jogam futebol. Jogam ódio, jogam sentimentos de inferioridade, jogam complexos provincianos, e, sejamos justos, sabem-no fazer na perfeição.
Choca-me particularmente o que se passa nas bancadas. Não se trata de atitudes individuais. É sim uma cultura de clube, arquitectada e interpretada por gente sem nível. É algo que nada tem a ver com desporto, e a que urge pôr fim. Há seguramente adeptos do Sp.Braga (bem como do FCPorto), que não se revêem neste tipo de atitudes. Lamentavelmente não tenho a certeza de que ainda os possamos tomar como regra. Mais do que um problema futebolístico, há aqui um problema social, cultural e de polícia.
A comunicação social não está isenta de culpas. Por medo ou subserviência, confunde isenção com branqueamento, e continua a tratar como entidades de bem, clubes que, mau grado a sua história, se assemelham hoje a bandos odientos de párias e malfeitores. Será preciso que uma bola de golfe atinja mortalmente um jogador para que isto termine? A cada deslocação ao norte, vou perdendo a esperança que as coisas se modifiquem de outro modo.