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20 fevereiro 2011

O ícone ausente do dérbi da Segunda Circular

Eusébio há só um, o da Silva Ferreira e mais nenhum. Não obstante a evidência, vários foram os jogadores tidos como sucessores do Pantera Negra a soçobrar nas expectativas falsamente criadas - e um deles não teve tempo de confirmar o potencial genético de que estava dotado: Mantorras.

Lesão grave cedo retirou Mantorras do sonho. Uma invulgar capacidade de sofrimento deu ainda para, a espaços, Mantorras jogar no Benfica, assinando alguns golos determinantes. E o carácter de antes quebrar que torcer em cara de menino teve sempre o condão de pôr ululante o povo das bancadas sempre que aparecia para um simples minuto de jogo ou fazia a mais simplória das fintas.

Mantorras, sabia-se há muito, estava perdido para o futebol. Por isso, o anúncio de ontem do seu final de carreira não passa de mero formalismo, ainda assim susceptível de provocar alguma nostalgia nas hostes, para mais em vésperas de um clássico da Segunda Circular.

O fim extemporâneo da carreira de Mantorras não deixa, em qualquer caso, de justificar reflexão.

Por um lado, fica só mais um exemplo de como a profissão de futebolista não é o mundo de facilitismo que muitos pais visionam para os seus filhotes. Por outro, mostra também como um azar pode ter um reverso, no caso com o exemplo dado por Luís Filipe Vieira. O Benfica não é uma instituição de solidariedade social, mas o seu presidente sempre apoiou Mantorras e promete continuar a fazê-lo, exponenciando a sua imagem de marca. Fica-lhe bem.

21 setembro 2010

O festival de apito no Benfica-Sporting

O Benfica-Sporting terá várias cambiantes de análise, mas em dois aspectos cruciais haverá convergência: a justeza do triunfo da equipa da Luz e a impossibilidade de entretenimento geral nos próximos dias graças a um penálti mal assinalado ou perdoado.

Estando conversados quanto à preponderância evidente do futebol do Benfica sobre o do seu rival e à inexistência, mesmo em "slow motion", de lances capazes de provocar uma certa histeria colectiva, o que sobra então para debate?

As argumentações técnico-tácticas, os golos marcados e desperdiçados farão um pedaço de uma boa conversa de salão - mas sem direito a que a paixão se sobreponha à razão. E para evitar o tom monocórdico restará, parece-me, uma única alternativa: tentar descortinar critérios disformes para a mostragem dos cartões amarelos. Ainda assim, fica curto o substrato...

A alternativa, difícil, admito-o, é tentar o tom sério da análise a um número resultante do jogo: 46 faltas! Um festival de apito a transformar o que se desejaria futebol fluido em algo entrecortado, cheio de solavancos.

Houve razões para tanta falta? Não. O que existiu foi tão-só um ultra-sistema defensivo do árbitro Carlos Xistra para evitar que à tona pudessem surgir casos mais bicudos. Assim como assim, não vá o diabo tecê-las, nada como apitar no espaço entre as linhas-limite das duas grandes áreas…

É evidente: em benefício do espectáculo, desejável seria a adopção de outro critério. Ao inexistir, do mal o menos. Antes parar o jogo em zonas erradamente consideradas neutrais do que influenciar directamente os resultados como tem sido demasiado frequente…

16 setembro 2010

Cardozo, os assobios e o perdão

Envolvido em múltiplos tabuleiros, uns estratégicos outros verdadeiros, o Benfica entrou com o pé direito na Liga dos Campeões. O rendimento da equipa frente ao Hapoel esteve alguns furos acima da norma da época até agora - e Jorge Jesus voltou ontem a confessar algo que nenhuma conjuntura de forças do mal é capaz de disfarçar: "o Benfica não está com o andamento do ano passado" por vários factores, incluindo-se neles o "custo" provocado pela participação de cinco jogadores no Campeonato do Mundo.

Gaba-se, naturalmente, a abertura de espírito do treinador do Benfica, ainda que se entenda que num ambiente de vitória é mais fácil dispor de lucidez - seja para reconhecer carências no comparativo com o ano anterior seja, até, como foi o caso, para admitir que o árbitro russo que pisou o relvado da Luz poderia ter assinalado um penálti contra o Benfica por falta de Luisão quando ainda prevalecia o nulo, o que se pode traduzir por uma ideia mais generalizada: independentemente da nacionalidade, os árbitros borram a pintura quando menos se espera.

A pressão é, sabe-se bem, má conselheira; tolhe raciocínios; e nem sempre é fácil retomar a razoabilidade…

Exemplo flagrante? Deu-o ontem mesmo Cardozo. O paraguaio está a ter um arranque de época sofrido e fez o que não devia depois de um e outro movimento tosco na frente de ataque: quando acabou por ser o autor do segundo golo do Benfica mandou calar o "terceiro anel" que o assobiara, o que gerou numa vaia ainda maior.

Cardozo fez um escusado haraquiri?

Claro que sim. No final do jogo assumiu o erro e pediu aos adeptos que o perdoem pelo excesso.

Ver-se-á mais tarde se o restabelecimento da confiança é possível. Certo para já é que Cardozo teve abertura de espírito para recuar e perceber que nem sempre o que parece é.

31 dezembro 2009

O mapinha da Comissão Disciplinar

Por Fernando Santos in O Jogo

A Liga difundiu ontem mapinhas bem feitos da actividade da Comissão Disciplinar relativa aos chamados três grandes nas épocas de 2006/07, 2007/08 e 2008/09. Segregando todos os outros emblemas, porque o fez?

É de desconfiar…

O balanço divulgado acentua o facto de o FC Porto ter sido o clube a que pertencem os jogadores que acumularam menor número de jogos de suspensão em três épocas (25, contra 42 do Sporting e 43 do Benfica) e revela também o menor contributo das multas dos dragões para os cofres da Liga (64 330 euros), se comparados com os 78 245 euros pagos pelo Sporting e os 124 050 euros do Benfica.

"A priori", fica a ideia de reconhecimento de um FC Porto cheio de fair play e de um Benfica atreito a gastos excessivos em multas. Pois… só que há um catálogo regulamentar para a aplicação de castigos, e a maioria deles é consequência dos cartões amarelos e vermelhos bem ou mal mostrados pelas equipas de arbitragem ou fruto de situações incontroláveis - caso do comportamento de certas claques.

Aqui chegados, desenquadrada no tempo, o que visa esta publicitação com o seu quê de cabalística?

Só há duas hipóteses: a cândida apontará para a elaboração de um dossiê destemperado por manifesto voluntarismo bacoco de alguém que, em nome da Liga, correrá em pista própria a poucos meses do final do mandato; a outra, mais credível, creio, visa preparar terreno para acções punitivas próximas. Nunca se sabe se os bons e os maus da fita não trocarão de posições nos mapinhas…