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01 novembro 2012

Um fiscal de linha de fora dos prémios

Crónicas de Leonor Pinhão, in A Bola

Bem faria Maicon em dividir o Dragão de Ouro com o fiscal de linha Ricardo Santos, em sinal de respeito pela justiça e pelos direitos de autor ficava cada um com metade do troféu
QUALQUER centrocampista que entrasse agora na equipa do Benfica arriscava-se a ser considerado genial. Foi isto o que tive de ouvir assim que André Gomes marcou o terceiro dos três golos com que o Benfica venceu tranquilamente o Gil Vicente e o seu segundo golo nos dois jogos consecutivos em que alinhou pela equipa principal: em Freamunde, para a Taça de Portugal, e em Barcelos, para o campeonato.
Entende-se o remoque. O Benfica andou a jogar com falta de material no meio do campo desde que Javi Garcia e Axel Witsel se foram embora e desde que Carlos Martins e Pablo Aimar encostaram no estaleiro. Foram muitos jogos assim. Com Matic a desdobrar-se em vários papéis e com Enzo Pérez às aranhas tentando segurar toda uma zona vastíssima que não é genuinamente a sua.
Talvez um dia, mais tarde - e era bom que assim acontecesse - venha André Gomes, já feito uma vedeta do panorama internacional, recordar que teve as suas primeiras oportunidades no Benfica beneficiando de um momento raro de sorte na carreira de um jovem talento nacional sem espaço para se afirmar.
-Tive a sorte de estar no Benfica quando a equipa perdeu todos os seus centrocampistas de uma penada! - poderá dizer um dia, quem sabe?
A verdade é que André Gomes beneficiou do agravamento dessas circunstâncias e agarrou muitíssimo bem as duas oportunidades que lhe foram concedidas por Jorge Jesus. Os factos do presente provam até que o jovem Gomes, que tem 19 anos, nem sequer precisou de «tempo de adaptação». Entrou e fez logo dois golos, um em cada jogo. O que se pode pedir mais a um miúdo?
LUÍS FILIPE VIEIRA vai ser o presidente do Benfica nos próximos quatro anos e estabeleceu para si próprio uma agenda ambiciosa no plano desportivo e no plano político.
Pode-se dizer que a agenda desportiva do presidente do Benfica - 3 campeonatos, 1 final europeia e 50 títulos nas modalidades - não causou qualquer tipo de apreensão ao rival FC Porto. O dragão não vê motivos para descrer da longevidade dos princípios que lhe têm garantido o domínio no campo dos resultados.
Sem a ironia do costume (não sei se repararam...), o presidente do FC Porto limitou-se a dizer que não queria comentar as promessas do presidente do Benfica porque não era pessoa de fazer promessas. O que não é bem verdade. Ainda há coisa de três anos ouvimos Pinto da Costa prometer um título a José Maria Pedroto e, mais recentemente, ouvimo-lo garantir que Hulk não sairia do clube por valores abaixo da cláusula de rescisão de 100 milhões de euros.
Também para Maicon as promessas de sucesso desportivo do presidente do Benfica pouco ou nenhum significado têm. O jogador brasileiro foi agraciado na noite de segunda-feira com um Dragão de Ouro por ter sido considerado o «futebolista do ano», distinção que só se justifica, num ano em que Hulk foi rei e senhor, pelo facto de Maicon ter marcado ao Benfica aquele golo que lançou o FC Porto para a revalidação do título. E se a razão foi essa, como parece, bem faria Maicon em dividir o Dragão de Ouro com o fiscal-de-linha Ricardo Santos, em sinal de respeito pela justiça e pelos direitos de autor ficava cada um com metade do troféu.
Maicon também se pronunciou sobre a tal promessa de Vieira dos 3 campeonatos em 4 anos sem se mostrar impressionado. Disse o jogador que, pela parte dele, iria fazer tudo para ajudar o FC Porto a ganhar 4 campeonatos em 4 anos, o que faz todo o sentido.
A agenda política de Vieira não viria, no entanto, a suscitar qualquer tipo de reacção por parte dos rivais. O presidente do Benfica anunciou a 48 horas da sua reeleição que o contracto de concessão de direitos televisivos com a Olivedesportos não iria ser renovado. Esta vai ser uma questão fulcral do mandato de Vieira. Os benfiquistas e os outros todos que não são benfiquistas aguardam com muito interesse pela evolução deste extraordinário acontecimento. E sobre o assunto o silêncio já pesa. Aguardemos.
O ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas foi um dos convidados da gala dos Dragões de Ouro. Lá esteve sentado na primeira fila da plateia, em lugar de destaque entre a nomenclatura, aparentado boa disposição. Pode pôr mais esta no seu currículo.
Falta só saber quantas equivalências para licenciatura, no curso superior, ganhou Miguel Relvas com a sua presença atenta no Coliseu do Porto. E já agora, falta saber o nome do curso.
RESPEITEM-SE sempre os critérios dos árbitros, mas a expulsão de Enzo Pérez em Barcelos não cabe na cabeça de ninguém. Nem meio-cartão amarelo fizeram por merecer as duas faltas que somadas haveriam de ditar a expulsão do extremo argentino. Ou do médio argentino, como preferirem.
O Benfica já ganhava por 3-0 e da decisão do árbitro não veio mal ao mundo, ainda bem. Menos um mau assunto para as discussões. E mais mais uma vez ressaltou a grande evidência: se o Benfica resolver em campo, em bom tempo e com golos os problemas com os adversários, difícil será que venha um árbitro com critérios ou sem critérios estragar-lhe o jogo e o resultado.
No fundo, trata-se de jogar à bola.
NA época passada, o Benfica foi eliminado de maneira muito parva e displicente da Taça de Portugal perdendo com o Marítimo, um jogo em que ganhava ao intervalo, logo nas primeiras andadas da prova. Que não se repita a brincadeira agora no jogo com o Moreirense, é o que todos os benfiquistas desejam.
A Taça de Portugal é uma competição muito bonita e antiga, obrigatória de respeitar. Foi difícil não detectar, na segunda-feira, a onda absurda de optimismo que varreu os espíritos dos nossos adeptos assim que se soube ser o Moreirense o próximo adversário do Benfica na corrente edição da Taça de Portugal.
Estou contra. A ideia peregrina de que o Moreirense que eliminou o Sporting será uma presa fácil para o Benfica «porque sim» está instalada entre os das nossas cores. Desenganem-se. Ao contrário do que se possa pensar, em prol do prazer puro e mesquinho da rivalidade, o Benfica não vai entrar em Moreira de Cónegos já a ganhar o jogo só porque o Sporting lá se perdeu na mesma prova.
Este ano gostava de ir ao Jamor.
LÊ-SE nos jornais que o presidente do Sporting, no âmbito das medidas de reestruturação que está a tomar, convidou Luís Figo (esse mesmo!) para ingressar no clube de modo a poder atrair com o seu nome os capitais dos investidores que fazem tanta falta em Alvalade e um pouco por toda a parte. Noutros jornais lê-se que o convite feito a Luís Figo vai no sentido da colaboração do ex-jogador com o projecto de expansão internacional da Academia do Sporting.
Nada leva a crer que Figo não fosse de grande utilidade para o Sporting quer numa área quer na outra. De todo o universo do Sporting, Luís Figo, hoje um reputado dirigente do poderoso Inter Milão, é, sem qualquer espécie de dúvida, o único rosto carismático leonino em acção que garante o respeito devido a uma enorme figura nacional e internacional.
Melhor ideia do que esta ideia que o presidente Godinho Lopes teve ao convidar Figo para atrair capital ou para formar jovens talvez fosse convidá-lo para presidente. Ou não?

17 agosto 2012

Ao Benfica faz muita falta o Benfica

Crónicas de Leonor Pinhão, in A Bola

Quando vi o árbitro Fischer esvanecido sobre a relva fresca, com os braços deitados para trás, o que sem dúvida o fazia parecer mais alto, e com as pernas ainda no ar, como se o resto do corpo as tivesse displicentemente abandonado, lembrei-me de uma ópera italiana antiga de que gosto muito.
Conta-se em poucas palavras o final do III e último acto:
A heroína, iludida pelo vilão aldrabão, assiste ao fuzilamento do amante julgando que se trata de um simulacro que jogará em favor das suas pretensões românticas. Vendo-o tombar, nem pestaneja na ilusão de que o amante está vivo e a fingir. “Ecco un’artista!”, - eis um artista! - diz, cem por cento confiante na sua sorte e muitíssimo orgulhosa do jeito para a representação exibido pelo amante.
Bem enganada estava no entanto. O homem jazia morto e não havia volta a dar-lhe. È por causa destas reviravoltas inesperadas no enredo que a ópera antiga italiana ainda hoje arrasta multidões tal como sucede com o futebol moderno e pelas mesmíssimas razões.
Como árbitro Christian Fischer é muito mau. Foi-se ao Maxi Pereira à cotovelada, depois acobardou-se e não expulsou, como devia, Javi Garcia e Luisão. Abdicou da sua autoridade. Como artista, o árbitro é péssimo. Com aquela queda para o exagero não conseguiu convencer ninguém de que estava morto. Depois fez o que lhe competia no final da cena atribulada que lhe correu tão desconchavadamente: uma saída de fininho, pelo seu pé, obviamente, com juras de nunca mais voltar a pisar o palco.
O árbitro Fischer caiu mal, rezou a crítica sem deixar de apontar a Luisão a culpa pelo sucedido. E cair mal pode estragar uma cena inteira. Por exemplo, na tal ópera italiana antiga, lá para meio do III acto, a heroína dá-se ao trabalho de ensaiar com o amante o modo como este deve tombar fingindo-se de morto assim que a primeira descarga de pólvora seca se fizer ouvir. “E cai bem!”, diz-lhe. É uma indicação cénica preciosa.
E eis como o imprevisto final da “Tosca” tanto me fez lembrar o surpreendente final do Fortuna de Dusseldorf-Benfica.
*
O presidente do Fortuna de Dusseldorf exige que o Benfica devolva o dinheiro do “cachet” cobrado por 39 minutos de jogo tendo em conta que os jogos têm 90 minutos e foi para isso mesmo que o público pagou bilhete.
O árbitro diz que não voltou ao jogo porque ninguém do Benfica lhe pediu desculpa, nem nos balneários, depois do incidente com Luisão que descreve desta maneira: “foi como se tivesse batido contra uma parede.”
Se tivesse dito o contrário: que tinha sido como se uma parede tivesse batido nele, seria bem pior para a imagem de Luisão e do Benfica.
Luisão (ou “a parede”, como preferirem) já não é uma criança, é um jogador experimentado, internacional brasileiro, deve saber, com certeza, que os jogadores não podem tocar no árbitro nem como uma flor. Foi imprevidente e singularmente apatetada a maneira como correu para abordar o árbitro depois do lance que ditaria a expulsão inevitável de Javi Garcia.
Se o quebranto dramático do árbitro Fischer foi ridículo, não foi, no entanto, suficientemente patético para absolver a “parede” nem, muito menos, para atenuar a mediocridade, essa sim, flagrante, da reacção oficial do Benfica ao caso tratado como simples brincadeira logo ali no relvado, no meio de uma risota que revela, de forma espampanante, uma total inconsciência geral e, pior ainda, o menosprezo por uma situação que vai ser cobrada ao Benfica por muito tempo e à má fila.
Quando o árbitro recolheu ao camarim, as câmaras demoraram-se a focar o banco do Benfica e alguns jogadores avulso e pode-se dizer, com toda a justiça, que mais pareciam um grupo juvenil de estudantes em férias da Páscoa a gozar o pratinho de uma pequena delinquência cometida numa excursão ao estrangeiro.
E é precisamente isto que é inacreditável no caso Luisão, A Parede: a deprimente ausência de um dirigente do Benfica e à Benfica que fosse mais rápido a compreender o alcance da situação do que o árbitro Fischer a atirar-se para o chão.
Um dirigente do Benfica e à Benfica teria sabido assumir o erro do seu jogador mas não teria deixado passar em claro o não menos inusitado e despropositado encosto do árbitro Fischer a Maxi Pereira, segundos antes do peito-a-peito Luisão-Fischer.
Não vejam nisto um remoque a António Carraça porque não é.
Carraça lá terá as suas funções, certamente importantes junto da equipa de futebol, o que se respeita. É um simples funcionário do clube onde não nasceu.
Mas não tem a dimensão de grandes dirigentes e de grandes benfiquistas que se sentaram no banco com a equipa de futebol, não sabe, não faz a mínima ideia de como é que se resolve um problema deste no minuto em que acontece de modo a prevenir futuros aborrecimentos ao Benfica que é quem está em causa, muito mais do que o Luisão ou o árbitro apalhaçado.
Comecemos pela questão financeira, que devia ter saltado logo aos olhos: se o clube se acha no direito de não devolver o “cachet” então a equipa do Benfica não podia ter abandonado o campo de jogo tão alegremente.
Poderia sair o árbitro, poderia recolher ao balneário a equipa adversária, mas a equipa do Benfica deveria ter ficado em campo à espera do reatamento do jogo particular para que foi contratada.
E ficando, na pior das hipóteses, sozinha a equipa em campo, sem árbitro e sem adversário, dificilmente poderiam vir os alemães exigir ao Benfica compensações financeiras pelo fim prematuro do jogo que foi abandonado pelas duas outras partes. Feito o mal, que bem ficaria o Benfica em campo, sujeitando-se a disputar o resto do jogo só com 9 jogadores, assumindo de caras os comportamentos irregulares de Javi Garcia e de Luisão, afastados do jogo pela justiça interna do clube que é um dos maiores do mundo e não recebe lições de moral nem de delinquentes nacionais nem de estrangeiros.
O pedido de desculpa ao árbitro seria também fundamental. Era só esperar que ele abrisse um olho, o que nem tardou muito.
A gestão do episódio nos balneários é desconhecida do grande público e, provavelmente, nem existiu. E em que língua terá ocorrido, se ocorreu, constitui também grande dúvida.
O silêncio oficial e oficioso sobre tudo isto nas primeiras 24 horas consentiu, por desleixo, no crescimento de um monstrozinho.
Há quem lamente, neste arranque de época, a falta que faz ao Benfica um defesa-esquerdo ou um jogador de vai-vem à semelhança do fabuloso Ramires ou mesmo a falta de um goleador menos monocórdico do que Cardozo. Mas o que ficou à vista de todos na jornada triste de Dusseldorf foi outro género em falta: Benfica e senso político.
O Benfica sofre de défice de… Benfica. Que pena.
* Mais um caso flagrante de falta de Benfica e de senso político no Benfica. Bem mais triste do que o episódio de Dusseldorf é o episódio de Maputo, menos ventilado nos jornais e ainda bem porque é coisa que envergonha os benfiquistas.
O FC Porto anunciou uma parceria com a Academia Mário Coluna e, de acordo com a notícia de “A Bola”, passará a ter “preferência sobre os jogadores formados naquele projecto liderado pelo antigo capitão do Benfica”.
É caso para perguntar: onde é que anda o Benfica?
Será que acabou?

28 maio 2012

O 'fair-play'

Crónicas de João Bonzinho, in A Bola, 

Mal por mal não teria sido melhor apagar a luz e deixar que toda a gente fosse em paz para casa?...
O dedo em riste, o olhar furioso, a pose descontrolada, a agressividade da cabeça perdida, a voz trémula, o tom irritado, o confronto com as forças policiais, enfim, um quadro negativo e surpreendente - há muito que não se via a imagem dada esta quarta-feira pelo presidente do FC Porto em pleno recinto do pavilhão do clube, depois da equipa portista perder para o rival Benfica o título nacional de basquetebol e após os jogadores adversários serem corridos para o balneário.
No final da década de 80, mas sobretudo na primeira metade da década de 90, eram relativamente vulgares as reacções do presidente do FC Porto que voltaram a ver-se, agora, no final de um jogo de basquetebol. Essas reacções do líder portista foram desaparecendo à medida que as equipas do FC Porto - de futebol e não só - foram tornando mais normais os ciclos de vitórias. Claro: quanto maior o sucesso menor a irritação.
Para conseguir vencer, o presidente do FC Porto e os seus principais seguidores foram sempre capazes de quase tudo. De ameaças, pressões, insultos, agressões, de trinta por uma linha; depois, com as vitórias e os títulos, os nervos foram dando lugar a uma euforia cada vez mais tranquila e o presidente portista quase chegou a parecer uma estrela da diplomacia.
Para trás, ficavam anos de agitação quase permanente, instabilidade sucessiva, pressão constante, agressividade latente. Impossível não recordar jogos como o FC Porto-Benfica que ditou o título de 1991 para os encarnados, ou como se tornaram relativamente célebres partidas dos portistas em campos como os do Estrela da Amadora, do Tirsense, do Farense ou do Belenenses, para citar apenas casos em que o ambiente (em especial nalguns daqueles jogos) chegou a tornar-se verdadeiramente explosivo.
Bem me recordo deles.
Os anos passaram e a coisa acalmou. O FC Porto passou a ganhar mais do que os outros. Muito mais. E aparentemente deixou de ser necessária aquela atmosfera doentia que parecia rodear as comitivas do FC Porto sempre que se aproximava os momentos decisivos da competição.
Fosse ela qual fosse.
O lamentável espectáculo visto no pavilhão portista esta quarta-feira levou-nos assim a um deplorável baú de recordações. Não, evidentemente, pela atitude dos adeptos, porque negativas atitudes de adeptos há em todo o lado, em todos os clubes e em todos os países, mas pelo comportamento dos mais altos responsáveis do FC Porto, do mais impulsivo, alterado e agressivo presidente, até ao  mais fleumático, sereno e calmo administrador, como é o caso de Angelino Ferreira, invulgarmente atirado para aquela arena de gladiadores em que parece ter-se transformado, subitamente, o recinto do magnifico pavilhão do clube azul e branco, curiosamente incapaz nos últimos largos anos de celebrar no basquetebol o que tem festejado, por exemplo, no futebol, andebol ou hóquei em patins.
Neste tipo de modalidades colectivas de pavilhão, sobretudo quando estão frente a frente equipas de clubes tão triviais como são hoje o FC Porto e Benfica, é mais ou menos previsível a tensão entre adeptos, os maus comportamentos, até as inqualificáveis e lamentáveis agressões, que muitas vezes chegam a vitimar atletas, como também já aconteceu na Luz, especialmente quando o jogo, por qualquer razão, é decisivo, como era o caso esta quarta-feira.
O caso, porém, voltou desta vez a ganhar uma inacreditável dimensão e a revelar o pior lado de dirigentes cujo verniz nunca deixou verdadeiramente de estalar e cuja história no futebol português está longe, muito longe mesmo, de ser feita apenas de sucessos, bons exemplos e fair-play.
A mim, confesso que nada do que se viu quarta-feira me surpreendeu. Lamentável e vergonhoso.
Não me surpreendeu porque, entre outras coisas, tenho memória.
Mal por mal, não teria sido melhor apagar a luz e deixar que toda a gente fosse em paz para casa?
Teria.
Muito melhor!
PS:A morte do antigo dirigente do Sporting, Manolo Vidal, leva-nos mais um pedaço da história boa do futebol em Portugal, da história boa dos dirigentes com categoria, da história boa das pessoas boas. Felizmente, histórias como as da festa da Académica no Jamor ajudam, pelo menos, a manter viva a memória das boas histórias de gente boa como o Manolo Vidal.

26 maio 2012

Campeões olé! Campeões ali!

Crónicas de Sílvio Cervan, in A Bola, 

Em primeiro lugar, e para registo de interesses, eu sou contra a escolha de Carlos Lisboa para treinador de basquetebol do Benfica. Carlos Lisboa está na categoria de ídolo nas hostes benfiquistas, não pode estar sujeito ao escrutínio dos mundanos.
Carlos Lisboa é, com José Maria Nicolau, o maior ídolo do universo benfiquista extra futebol, e por isso devia ser poupado às críticas do quotidiano.
Os seus triplos e exibições contra o Macabi de Telavive ou o Real Madrid, a vitória fora contra o Juventude de Badalona fazem parte do museu de memórias da minha geração. Títulos e taças em catadupa, fazem parte do imaginário colectivo vermelho e branco: dez em 11 anos (1984-1995).
Por essa razão, porque os deuses se querem no Olimpo, eu poupava os nossos à convivência mundana de adeptos como eu.
Mas atento a que a sua opção, foi viver connosco neste mundo, então que seja assim. Assim como, perguntam os leitores? Em provocação dirão os adversários, com razão. Podendo ser campeão em casa, no seu pavilhão, no recato dos seus, porque optou Carlos Lisboa por ir ganhar, sem espinhas, ao terreno do adversário?
O pavilhão que bateu recorde de assistência para ver... Carlos Lisboa ser campeão. 2237 espectadores, todos unidos numa vontade, foram provocatoriamente desrespeitados por um cinco de basquete vermelho e branco, e um Carlos Lisboa.
Se tal fosse por si só de pouca monta, já vinha o staff com as t-shirts preparadas para festejar o 23.º título. Como sabiam que iam ser campeões? Coisa de deuses, dirão os mais conhecedores.
O título de basquetebol de quarta-feira foi mais que um campeonato, para uns e outros, foi o sabor de uma época e o estado de espírito dos próximos tempos.
Parece, que de premeio é suposto dizermos Olá John, mas a mim só me apetece dizer: Obrigado Carlos!

11 maio 2012

Trancas à porta

Crónicas de Leonor Pinhão, in A Bola

Tal como o País tem medo de viver sem a 'troika', também o Benfica tem medo de romper com a Olivedesportos. Portanto, enquanto não resolverem isto...
1. «Uma imagem vale por mil palavras», é uma frase atribuída a Napoleão Bonaparte. E quem somos nós para desmentir o Imperador dos franceses?
Bonaparte não era parvo nenhum. Era até, nalgumas coisas, um homem muito à frente do seu tempo. Imagine-se só que o velho preceito napoleónico resistiu dois séculos e até se aplica às nossas futebolices contemporâneas.
Como, por exemplo, à imagem do abraço entre Vítor Pereira e Pedro Proença, assim que o árbitro (que era, esclareça-se, o próprio Pedro Proença) deu por terminado o jogo da festa dos campeões. É fair-play! E já lá vão 607 palavras com esta introdução.
Napoleão nasceu talhado para grandes tiradas. Nunca saberemos, no entanto, se teria algum jeito para legendas de fotografias. Ou até atrevimento para sonhar com diálogos de terceiros.
Atrevo-me eu:
Proença - Ahhhhhhhhh!
Pereira - Meu caro, folgo em verificar que tem os rins no sítio!
O Napoleão é que a sabia toda...
Com isto gastei 998 palavras das 1000 concedidas pelo Imperador. Está tudo dito.
2. Os protestos anónimos directamente dirigidos à figura de Luís Filipe Vieira prosseguem a cada jogo do Benfica, fora de portas ou em casa.
Na manhã de sábado as paredes das redondezas do Estádio da Luz surgiram pintadas de fresco com frases retiradas de entrevistas do presidente do Benfica, declarações proferidas em tempos mais ou menos recentes e, no que é importante, em tempos de maior optimismo, quer do presidente quer dos adeptos.
Sim, porque a nenhum presidente passaria pela cabeça prometer um Benfica de igual para igual a um Real Madrid se não houvesse da parte da malta uma grande disponibilidade para a fantasia e uma enorme queda para a fanfarronice.
E fanfarronice, aliás, é a doença infantil do benfiquismo.
E vir agora acusar o presidente de excesso de veleidades parece despropositado e, de algum modo, injusto.
É verdade que o futebol infantiliza tudo e todos: desde os dirigentes que prometem aos adeptos aquilo que os adeptos querem ouvir, aos adeptos que se não virem materializar-se o que gostaram de ouvir não hesitarão em dizer aos dirigentes o que os dirigentes não querem ouvir. A frase é bastante mais intrincada do que a situação, ainda bem.
A situação é apenas e lamentavelmente prosaica.
No meu Benfica ideal (e cada adepto tem o direito legítimo, conferido pela paixão, de sonhar com o seu muito próprio ideal de Benfica) nada disto não se passaria assim.
Já que querem pintar as paredes, pois que sejam espertos, façam-no na altura certa.
Tomemos por exemplo uma das frases pintadas na Luz: «Não negociarei com a Olivedesportos, 2011». Não teria sido melhor, se acreditam na efectividade da campanha, tê-la pintado logo em 2011, como lembrete, e lembrete-diário ali escarrapachado à vista de todos e do próprio destinatário, do que esperar um ano e meio para atirá-la à cara do presidente numa hora má, como remoque?
Por ter perdido o Campeonato graças a uma conjugação de absurdos com diversas origens - ainda que perfeitamente identificáveis -, o Benfica está zangado consigo próprio. Estas crises poderiam até ser oportunidades excelentíssimas para ousar medidas verdadeiramente fracturantes se aplicadas ao edifício-geral do futebol português. Não é assim que tem acontecido e temo que, uma vez mais, não vá acontecer.
O Benfica, aliás, está como o país.
O país perdeu a soberania. Faz o que a troika manda porque lhe foi inculcado o pavor de um futuro sem a dita troika, sem consideração dos parceiros, sem crédito bancário, sem euros, sem com que pagar dívidas, obras e salários.
É o que se passa com os clubes portugueses na sua relação com a Olivedesportos. Aliás, ainda bem recentemente, António Oliveira, co-fundador da empresa, actualmente afastado, disse clarinho: «A Olivedesportos é o FMI do nosso futebol».
E, aparentemente, nem o Benfica, que é o maior clube português, escapa a esta dependência que, vá lá saber-se porquê, é sempre pintada em tons de cor-burro-quando-foge em nome do grande serviço social prestado ao país pela Olivedesportos ao permitir, generosamente, que os clubes possam viver. E viver com a consideração dos parceiros, com crédito bancário, com euros com que pagar as dívidas, as obras e os salários.
Tal como o país tem medo de viver sem a troika - e depois, como é que é? - também o Benfica, pelas mesmas razões, tem medo de romper com a Olivedesportos.
Portanto, enquanto não resolverem isto não me venham cá falar das próximas revoluções.
E isto só se resolve com coragem. A coragem, no entanto, é um atributo bastante diferente da fanfarronice, como o mais vulgar dicionário é capaz de explicar.
3. Se exceptuarmos umas curtas e inócuas declarações à TV-Odivelas, Luís Filipe Vieira tem optado pelo silêncio neste  rescaldo do campeonato. Há quem ache mal. Há quem ache que o presidente devia expressar publicamente aos benfiquistas umas palavras de consolo, de explicação ou mesmo o assumir individual e colectivo do falhanço na Liga.
Vieira, porque é o presidente do Benfica, saberá, certamente, o que está a fazer e as razões deste seu prolongado silêncio.
E pode até refugiar-se naquele velho ditado popular: casa roubada, trancas à porta.
No entanto, há muitos perigos neste mutismo.
Por exemplo, o perigo do espaço destinado nos noticiários às questões políticas e de comunicação do Benfica passarem a ser ocupados, na ausência do chefe, por subalternos disponíveis a colmatar em termos públicos o momentâneo recato presidencial.
E foi nesse sentido que na semana passada, António Carraça, director-geral do clube, foi com a melhor das intenções aos estúdios da Benfica TV. Contudo, na tentativa de animar as hostes, saiu-lhe logo a frase fatal:
«Se o Benfica prosseguir neste caminho, com a mesma filosofia e o mesmo projecto, poderá competir pela conquista da Liga dos Campeões num curto espaço de tempo».
Pronto. Lá estamos nós outra vez no campo da fanfarronice, essa doença infantil do benfiquismo.
Com o respeito devido a António Carraça, mais lhe valia ter ficado calado. A ele e a nós, os que somos do Benfica, e que logo tivemos de aturar as inevitáveis graçolas dos nossos amigos do adversário...
-Então o Carraça diz que vocês para o ano até vão ganhar a Liga dos Campeões!
Mas será que esta gente não aprende nada? Nunca?
4. Curiosamente, em Alvalade surgiram também umas paredes pintadas com anti-louvores a Godinho Lopes e a Paulo Pereira Cristóvão. Na sua essência são frases bem mais desagradáveis do que as frases pintadas do outro lado da Segunda Circular (que, como se diz, é a tal linha que separa a Liga dos Campeões da Liga Europa) e dirigidos a Luís Filipe Vieira.
Enquanto, o presidente do Benfica tem vindo a ser confrontado com as suas próprias palavras. Godinho Lopes e Pereira Cristóvão foram confrontados com gravíssimas acusações de práticas e de carácter.
Só no FC Porto nada disto acontece. Suspeito que deve ser por terem ganho o campeonato.
O único funcionário portista sempre disponível para a indiscrição total é o simpático austríaco Janko que não se consegue conter em ocasião alguma. Agora foi contar a um jornal do seu país, Die Presse, que há colegas seus que se querem ir embora porque gostavam de ingressar num «clube de topo absoluto».
E Janko diz estas coisas todas sem precisar de pintar uma única parede. É a diferença que faz ser campeão.
PS - É oficial: o Sporting não quer o árbitro João Ferreira na final da Taça Cardinal.

10 maio 2012

A credibilidade da arbitragem

Crónicas de Vítor Serpa, in A Bola

Há muito tempo que a credibilidade do sector da arbitragem não era tão baixa. A parte final do campeonato trouxe-nos uma chuva de erros grosseiros com incidência directa em alguns resultados, além de nomeações inexplicáveis, como foi exemplo significativo a de Paulo Batista para o Marítimo-FC Porto. Daí ter-se criado um clima de inevitável suspeição, que foi naturalmente aproveitado pelos que não atingiram os seus principais objectivos. 

Em Portugal, ao contrário da maioria dos países europeus, onde o futebol continua a dominar o interesse maior do povo, a arbitragem tornou-se um sector muito sensível, após terem sido conhecidos casos concretos que apontavam claramente para sinais de corrupção e de tráfico de influências. Seguiu-se, então, um período de acalmia e de recuperação da dignidade e da credibilidade dos árbitros. Porém, nos últimos tempos, as coisas pioraram. Erros difíceis de explicar à luz do simples erro humano, decisões deploráveis, como o de secretismo das análises dos delegados, silenciamento das respostas a todas as dúvidas e inquietações, aproximaram a arbitragem de um género congregação secreta, deixando demasiada margem à imaginação de cada um, desde o regresso de influências maléficas à perversão. Insistimos: é absolutamente necessário e urgente uma mudança de atitude e de comportamentos. Os árbitros têm de voltar a dar sinais claros de que o futebol pode e deve confiar neles. Primeiro, porque a grande maioria merece esse reconhecimento; depois, porque o futebol português não resistiria a um regresso a tempos de tão má memória.

27 abril 2012

A eterna questão das cadeiras

Crónicas de Leonor Pinhão, in A Bola

O Benfica, tal como outros grandes clubes, não tem potencial para discutir, ao mesmo tempo, Liga e ambicionar 'meias' e finais europeias
No Sábado passado, na Luz, houve protestos pintados nas paredes do Estádio. O visado foi o presidente do clube, Luís Filipe Vieira que vai entrar, não tarda nada, em pré-temporada eleitoral. E sabendo que há pintores-anarquistas activos na casa e com uma sebenta inteira anotada com frases suas tiradas de antigas entrevistas.
A verdade é que há muitos benfiquistas zangados com a entrega do título ao FC Porto depois de desbaratada uma vantagem de 5 pontos. E 5 pontos, nestas coisas, é muito ponto.
Nem todos, felizmente, optaram por exprimir o seu desagrado correndo ao estádio, à noitinha, para pintar frases nos muros da Luz, o que está mal, é lesa-património. Se assim tivesse acontecido, tinham-se esgotado os sprays de tinta em Lisboa e arredores e não haveria uma nesguinha de parede livre.
A perda deste campeonato foi muito dolorosa para a nação benfiquista porque, para além do tal avanço já referido e rapidamente esbanjado, dificilmente se convencem os adeptos encarnados de que o FC Porto de Vítor Pereira - sim, de Vítor Pereira! - alguma vez jogou melhor no decorrer da temporada do que o Benfica de Jorge Jesus, com o Emerson e tudo.
Na procura de razões é sempre imperioso apontar culpados. E agora, com o campeonato a chegar ao fim e com o FC Porto à beira de celebrar, aperta-se o cerco aos culpados. É quase sempre assim, Vieira conhece bem a extensão do desapontamento geral nas horas amargas. Mas este ano é pior porque o Benfica teve o campeonato na mão e não teve estofo de campeão.
Entre a derrota em Guimarães e a derrota com o FC Porto, na Luz, foi declarado por unanimidade que a culpa era dos árbitros. Para esta conclusão muito contribuiu, e de forma espampanante, o golo de Maicon, em posição ilegal, que deu a vitória aos actuais futuros campeões nacionais.
Com a derrota em Alvalade, os árbitros foram suplantados em culpa, e às toneladas de culpa, primeiro pelo treinador e, logo a seguir, pelo presidente. Ambos se devem sentir bastante injustiçados nestas liças ideológicas com os adeptos, as suas exigências e, sobretudo, com as suas fantasias.
O problema aqui é precisamente esse: a fantasia. Mas ninguém de bom senso culpará o presidente e o treinador do Benfica por não terem avisado logo em julho, quando a temporada começou, que o Benfica, tal como outros grandes clubes Europeus, não tem potencial desportivo nem mental nem estratégico para discutir, ao mesmo tempo, o seu campeonato nacional e ainda ambicionar meias-finais e finais de taças europeias.
Aliás, a única equipa da Europa que o consegue fazer é o Real Madrid que vai ser campeão em Espanha mas soçobrou nas grandes penalidades do jogo de ontem. Todos os outros pagaram muito caro nas suas provas internas a ousadia de chegar às meias-finais e à final da Liga dos Campeões.
O Bayern de Munique, justíssimo finalista da Liga dos Campeões, perdeu na semana passada o campeonato para o Borussia de Dortmund. E quanto ao outro finalista, o Chelsea, goza porque se pode dar ao luxo de chegar à final de Munique descansadíssimo visto que, em Inglaterra, já perdeu o campeonato em Dezembro e nunca teve de lutar a mil por cento nas duas provas.
Até na Liga Europa, embora a um nível mais baixo, acontece o mesmo: os quatro semifinalistas nunca no decorrer da temporada se viram envolvidos na discussão pelo título dos respectivos países. E, como exemplo final, só quando foi eliminado desta prova conseguiu o FC Porto encarreirar-se com eficácia no campeonato português.
Reza a lenda que dizia Bela Gutman: «Não há rabo para duas cadeiras.»
Há que dar a justa medida às ditas cadeiras.
Prometer não vale. Escrever na paredes, também não. Num clube com grandiosa tradição democrática não é a coberto da noite que se deixam lamentos.
HOUVE um tempo em que o hóquei em patins tinha maior peso na vida desportiva nacional do que hoje tem. Um tempo em que os jogadores de hóquei em patins eram figuras de uma imensa popularidade, quase rivalizando com os jogadores de futebol em termos de atenção da imprensa. O fenómeno foi-se esboroando com o tempo. A culpa foi, dizem os especialistas, do aparecimento da televisão que matou o hóquei que era, essencialmente, um desporto incensado e favorecido pela rádio.
José Leste começou a jogar hóquei em patins em 1973, um ano antes da revolução de Abril de 1974, numa época já distante dos anos gloriosos de Jesus Correia, Emídio Pinto e companhia, mas ainda numa época em que um Portugal-Espanha sobre rodas, fosse a sério fosse a brincar, fazia sempre agitar de frémito o nosso país e o país vizinho entregues às suas melancólicas e ancestrais rivalidades no ringue.
O primeiro clube que Leste defendeu foi a Associação Juventude Salesiana. Leste era um artista. Jogador de repentes, com um jogo cheio de fantasia, esquerdino, goleador surpreendente. Foram estes atributos que levaram o Benfica a contratá-lo mas seria no Sporting que faria a parte mais interessante da sua carreira. Leste foi chamado à selecção nacional por 68 vezes, 14 como júnior e 54 como sénior. Como sénior, jogou em Europeus e Mundiais que modo algum sorriram a Portugal mas, em 1982, fez parte da sensacional equipa nacional de hóquei em patins que conquistou, em Barcelona, título mundial que já escapava há três edições da prova.
Leste, a par de Cristiano, Ramalhete e de Xana, foi uma das figuras maiores dessa saga vitoriosa de 1982 e que terminou com uma vitória sobre a Espanha, «por supuesto», por 5-3. E foi também o melhor marcador do torneio com 39 golos.
Torna-se cada vez mais difícil explicar às gerações mais novas os fundamentos da doentia rivalidade que dilacerou durante algumas décadas a Península Ibérica por causa do hóquei em patins. É um facto que essa rivalidade sem freio com os espanhóis foi incutida nos programas escolares do Estado Novo com a sacralização da batalha de Aljubarrota e viria a culminar, muitos séculos mais tarde, em popularíssimas disputas sobre rodas à mais alta velocidade e em ambientes de fervorosos contextos patrióticos.
Quando era jornalista desta casa, fui mandada fazer a cobertura de um Europeu de hóquei em patins, em Barcelos, no ano de 1985, que terminou com uma derrota das nossas patinantes quinas frente à espanholada. E que terminou também com os jogadores espanhóis a abrigarem-se dentro das duas diminutas balizas do ringue para escaparem ao arremesso de projecteis de um público lusitanamente inconformado.
Tudo isto foi há muito tempo. Actualmente é complicado explicar a genuinidade destes sentimentos aos mais novos, aos que não foram criados neste ambiente de rivalidade histórica e desportiva com os vizinhos do lado. O mundo mudou, felizmente.
E o mundo mudou tanto, entretanto, que já é possível a este jornal produzir e pôr a circular uma primeira página como a do jornal do último sábado, com toda a manchete graficamente ocupada pela antecipação do Barcelona-Real Madrid em desprimor  da antecipação dos jogos do Benfica e do FC Porto que se jogaram no mesmo dia e que foram referenciados em dois quadradinhos a uma coluna de largo.
Noutros tempos isto seria um absurdo e um escândalo tal que poderia até levar ao encerramento do jornal e ao internamento do director. Assim não aconteceu no sábado. E nem sequer houve a registar protestos dos benfiquistas ou dos portistas contra A BOLA por os jogos dos seus respectivos clubes merecerem tão diminuta atenção perante o colossal clássico espanhol.
Antes pelo contrário, houve uma concordância total do público com o critério editorial de A BOLA. No Estádio da Luz, dez minutos antes do Benfica-Marítimo acabar houve muita gente que se pôs a andar rapidamente para casa não fossem perder os primeiros minutos do jogo de Nou Camp. Contam-me que no Estádio do Dragão ocorreu uma coisa semelhante, ainda que inversa. Houve muita gente que só chegou depois do FC Porto-Beira Mar ter começado, não fossem perder os minutos finais do Barcelona-Real Madrid.
Chama-se a isto educar o gosto e não vejo nada de antipatriótico na questão.
Ainda que todo esto seja um bocadinho estranho.
PS - Celebrou-se esta semana o 30.º aniversário da presidência de Pinto da Costa no FC Porto. É incorrecto, no entanto, afirmar-se que Pinto da Costa está em funções há 30 anos. Não é verdade. Em rigor, está há 28 anos em funções porque há que subtrair os 2 anos de suspensão de funções a que foi condenado pela justiça desportiva no âmbito daquela coisa do Apito. Mas 28 anos são sempre 28 anos. Ainda que não sejam 30.

09 março 2012

Benfica entre árbitros


Crónicas de Bagão Félix, in A Bola

O Benfica está, por mérito próprio, entre as oito melhores equipas da Liga dos Campeões. Desta vez, jogou com inteligência, concentração, entusiasmo nas porções certas e as substituições foram nos momentos certos. No conjunto da eliminatória foi superior. Agora, qualquer antagonista é bem-vindo.

No fim do jogo, dei comigo a perguntar onde esteve o árbitro.

Quis o destino dos calendários que, no espaço de quatro dias, dois jogos importantes do Benfica tivessem sido arbitrados pelo considerado melhor árbitro português e por um dos mais conceituados árbitros mundiais que apitou a final do Mundial. E o que vimos? No primeiro, o juiz e a sua equipa colaboraram activamente no desenrolar da partida e no resultado. A partir do momento em que o Benfica fica em vantagem (curioso, não é?), virou artista principal. Com efeitos especiais, argumento próprio e montagem dedicado. No segundo, o britânico Howard Webb deixou jogar, foi interveniente secundário, ninguém se lembra dele no dia seguinte (o melhor elogio que se lhe pode fazer). Um juiz que não precisa de se armar em dono do jogo, discreto e seguro, sem alardes de vedeta. Um árbitro que não confunde um encosto num jogo de contactos físicos com mais uma falta mariquinhas. Ali respira-se mestria. Não há batotas e não se imagina qualquer tipo de condicionalismo ou corrupção mental.

Os 'Webb's' erram? Certamente que sim. Mas o erro natural coabita, sem dramatismos, com a busca da perfeição. Porque só assim o erro é humanamente honesto e honestamente humano. Como escreveu Paul Valéry, ser competente é cometer erros de acordo com as regras.

Querer é poder


Crónicas de Leonor Pinhão, in A Bola

Os nossos árbitros são umas prima-donas que não aceitam críticas. As suas decisões podem decidir fortunas de milhões mas ofendem-se com muito pouco


PASSOU-SE apenas um mês do Vítor Pereira que entregou as faixas de campeão ao Benfica, depois de o FC Porto ter perdido por 3-1 com o Gil Vicente, até ao Vítor Pereira que enverga agora as mesmíssimas faixas de campeão, depois da vitória na Luz por 3-2...

Foi um mês em cheio para Vítor Pereira (o treinador do FC Porto, não o Vítor Pereira presidente dos árbitros). E nem a imediata desponabilidade de André Villas Boas para reocupar a «cadeira de sonho» parece constituir ameaça para a altíssima cotação de que hoje goza o treinador do FC Porto.

O futebol é isto mesmo. É o momento.

O Benfica-FC Porto de sexta-feira foi um grande jogo de futebol entre duas equipas grandes nas individualidades e nos conjuntos. Normalmente, de acordo com as Leis do Jogo, uma partida tem duas partes de 45 minutos e um intervalo. No clássico da Luz estivemos perante uma espécie de aberração que não deixou de produzir os seus efeitos.

É que o Benfica-FC Porto só teve um intervalo mas foi um jogo com três partes distintas: uma primeira meia hora de grande categoria do FC Porto, uma segunda meia hora de raça e de enorme qualidade do Benfica e uma extraordinária meia hora final de Pedro Proença e do seu bandeirinha Ricardo Santos.

Na primeira meia hora o FC Porto adiantou-se no marcador, na segunda meia hora o Benfica deu a volta ao jogo e ao resultado e na meia hora final a equipa de arbitragem pôs a sua assinatura, preto no branco, no resultado final validando, a dois minutos do fim, o golo majestosamente irregular do FC Porto. Isto para além de outras minudências, sem dúvida menos espampanantes, que de alguma forma contribuíram para o desenho do resultado final.

Foi uma pena. No lance que decidiu o resultado e os pontos em causa, Pedro Proença foi traído por um maus juízo de um seu assistente que, também ele infeliz, assim que não viu os dois jogadores do FC Porto adiantados logo não quis assinalar a dita irregularidade. E não se lhe podia exigir que quisesse outra coisa.

Como diz o povo «querer é poder» e fariam bem os benfiquistas em cessar com as recriminações contra a equipa de arbitragem. Pois se o bandeirinha não pôde ver os dois jogadores adiantados jamais podia querer assinalar um castigo contra a dupla de infractores, como é óbvio.

Não se compreende, portanto, esta vaga noticiosa do início da semana dando conta da ameaça de castigos que paira sobre Jorge Jesus por ter dito, com muita simplicidade, no fim do jogo que o árbitro assistente «não quis» levantar a bandeirola ao minuto 88.

Tanta indignação porquê? Se querer é poder é poder, como diz o povo, não quis, não quis e não quis. E porquê? Porque não pôde, não pôde e não pôde.

Os nossos árbitros são, no entanto, muito susceptíveis. Uma verdadeiras prima-donas que não aceitam crítica nem do púbico que paga bilhete. São parte integrante do jogo, são a Lei do espectáculo, tudo e todos são sujeitos ao seu arbítrio, as suas decisões justas ou erradas podem decidir fortunas de milhões mas não suportam o julgamento de terceiros. Ofendem-se com muito pouco.

Na segunda-feira, um outro árbitro, Duarte Gomes quis - lá está o verbo querer... - partilhar no Facebook os seus sentimentos de solidariedade devidos a Pedro Proença que, na sua opinião, «é de longe o melhor árbitro português da actualidade».

Proença que pouco ou nada sofreu no rescaldo do clássico: foi apenas vaga e formalmente repreendido pela crítica num único lance e terá, ou não, escutado Luís Filipe Vieira pedir-lhe que desista de apitar jogos do Benfica e terá, ou não, ouvido Jorge Jesus dizer que o árbitro assistente não levantou a bandeirola porque «não quis», o que é a mais pura das verdades porque se tivesse querido tinha podido. Querer é poder, recorde-se o dito popular...

Mas estas pequeninas reacções negativas de uns quantos, poucos, aparentemente deitaram Pedro Proença abaixo a ponto de ter de vir um colega defendê-lo publicamente: «Os erros ora são irrelevantes, ora têm influência directa no desfecho dos jogos. Mas essa é uma verdade que se aplica para os erros dos árbitros, dos jogadores, dos técnicos», afirmou Duarte Gomes em abono de um amigo.

E tem razão. Fica-se apenas com uma dúvida: se a «verdade secular» a que Duarte Gomes se refere é a que tem a ver com o facto de o jogo ter mais de 100 anos de existência ou se a palavra secular, no contexto em que foi empregue pelo árbitro, remete para o fenómeno da secularização, o processo através do qual as Igrejas perdem Poder nas múltiplas esferas da sociedade.

Sem querer especular nesta divagação semântica, é de presumir que Duarte Gomes, com a sua «verdade secular», se referisse muito prosaicamente ao século de vida do futebol e não a qualquer Igreja que, ao que se julga, nem vem para o caso.

O importante é que, tal como Duarte Gomes referiu, árbitros, jogadores e treinadores, todos erram. Mas os árbitros, ao contrário dos outros, não podem ser criticados com desdém. Dos jogadores e dos treinadores, está a crítica autorizada a não ser meiga e a utilizar todo o tipo de ditos populares e de metáforas que, se aplicadas a árbitros, até podem dar tribunal e prisão.

Querem um exemplo?

Se um crítico profissional ou se um adepto anónimo disserem, em voz alta, que no jogo da primeira mão com o Zenit de São Petersburgo, o grande Maxi Pereira «ofereceu o ouro ao bandido», porque falhou no lance que deu o terceiro golo aos russos, ninguém de bom senso vai entender estas palavras como judicialmente difamatórias para o grande lateral-direito uruguaio do Benfica que na terça-feira se redimiu, marcou ao Zenit na Luz e assinou uma exibição de enorme categoria.

Oferecer o ouro ao bandido é uma expressão popular e apenas uma maneira amigável de dizer que o erro de Maxi Pereira teve influência directa no desfecho do jogo da primeira mão.

Imagine-se, no entanto, o que seria neste país se algum crítico ou se algum adepto anónimo resolvessem proclamar que, como o seu erro, o melhor árbitro português da actualidade «ofereceu o ouro ao bandido».

Tal seria, certamente, considerando como uma desconsideração do outro mundo. Passível de tribunal. Começava-se por identificar e responsabilizar criminalmente o crítico, o que seria fácil.

Já o adepto anónimo, por ser anónimo, estava a safo. É esta a boa notícia.


NO final da década de 60, o humorista brasileiro Juca Chaves iniciou em Portugal uma tournée europeia que, depois de Lisboa, o levaria até Paris, Londres e outras cidades do velho continente. Quando regressou ao seu país foi entrevistado e disse: «Gostei muito da viagem, primeiro fui a Portugal e depois peguei um avião e fui até à Europa» e isto caiu muito mal na imprensa afecta ao regime português de então que não se cansou de fustigar Juca Chaves por, à sua maneira subtil, ter afirmado que Portugal estava muito longe de ser um país da Europa.

Lembrei-me de Juca Chaves por estes dias. Na sexta-feira esteve na Luz o melhor árbitro português da actualidade e anteontem esteve na Luz o melhor árbitro europeu da actualidade, o inglês Webb.

Continua a haver uma grande diferença, Juca Chaves.


O Benfica-Zenit foi um jogo d grande intensidade com duas equipas a responder em campo aos conceitos tácticos dos respectivos treinadores o que permitiu um espectáculo corrido do princípio ao fim e com alternâncias de sistemas do tipo ora agora trocamos nós a bola e ora agora trocam a bola vocês.

No fim, ganhou a melhor equipa. Sem casos no jogo, sem zaragatas, sem benefícios de uns e prejuízos de outros. É a Europa.

11 fevereiro 2012

Os perigos do jogo de amanhã


Crónicas de Sílvio Cervan, in A Bola

Amanhã o jogo contra o Nacional encerra perigos muito diferentes dos habituais. Em condições normais o Benfica ganhará ao Nacional no Estádio da Luz.

Um dos problemas pode ser esse, os jogadores sabem que são favoritos e por isso não colocarem a intensidade de jogo necessária para vencer sem passar por sustos.

A deslocação da próxima semana a São Petersburgo, para a Liga dos Campeões, não pode estar na cabeça dos jogadores neste sábado. Se isso acontecer o risco aumenta. A confiança é boa quando é um tónico para a motivação e não uma desculpa para a preguiça.

Jorge Jesus é um antídoto para estes perigos, mas receio que a facilidades que apregoam, a superioridade que noticiam e a vantagem que conseguimos possam ser anestésicos da vontade de ganhar.

No último título conquistado pelo Benfica, o jogo com o Nacional foi uma das páginas mais coloridas, vencemos 6-1, e não consta que fosse a poupar. Que sirva de mote.

O Nacional tem vindo a subir de produção com este treinador, e mostrou frente ao Sporting, na quarta-feira, que será difícil vencê-lo.

É preciso ganhar amanhã para ver a Rússia de outra maneira. Se vencermos o Nacional, veremos com tranquilidade no domingo o novo FC Porto agora treinado por Lucho Gonzalez.

Nos caminhos do título é bom depender apenas de nós, e por isso teremos de conservar os cinco pontos de avanço. Quem está em tantas frentes de conquista sabe bem disso.

A Champions é uma espécie de matrioska, cada patamar que passamos temos um ainda maior para passar. É o interminável aumentar do desafio.

Há sempre novos e mais difíceis obstáculos, numa prova onde o dinheiro e o prestígio são o móbil, gostava essencialmente de jogar bem e mostrar qualidade em terras russas. Faltam três degraus para o limite.


PS - Acabo de saber que Pablo Aimar renovou contrato por mais uma época. Já dei ordens para que renovem a minha cadeira no estádio da Luz porque ter Aimar é ter a garantia de assistir a grandes espectáculos.

06 janeiro 2012

Focados na vizinhança como sempre


Crónicas de Leonor Pinhão, in A Bola


João Tomás é um senhor. Ao contrário de Elias, para quem foi Artur sozinho que ganhou ao Sporting, Tomás nem se lembrou de dizer que foi Boeck sozinho que empatou com o Rio Ave


FOSSE eu do Vitória de Guimarães, e amor pela cidade não me falta, e também seria bem capaz de defender veementemente a causa da expulsão do benfiquista Javi Garcia, neste último jogo entre os dois emblemas, a contar para a Taça da Liga, mesmo tendo de admitir que a queda de N'Diaye demorou um bocadinho de tempo a mais do que devia em função do momento da reclamada agressão.

A expulsão de Javi Garcia, à partida, seria uma boa coisa para o Vitória de Guimarães, a perder por 0-1 e com muito, muito tempo ainda para jogar. Se eu fosse do Vitória de Guimarães teria pensado assim, com certeza, e com toda a legitimidade própria de um adepto que se preze.

Há sempre exageros no raciocinar dos adeptos. E não só dos adeptos. Os comentadores da SIC que transmitiram o jogo não tiveram a menor dúvida de que Javi deveria ter sido expulso e não são do Vitória de Guimarães, presumivelmente. Os comentadores da SIC também não tiveram dúvida nenhuma que Maxi Pereira tinha carregado Toscano dentro da área do Benfica e só mudaram de opinião ao intervalo.

Na verdade, houve falta, sim senhores, mas foi fora da área, o que é uma coisa completamente diferente. E corrigiram a sua opinião os comentadores da SIC, estação que abriu o ano com uma grande entrevista a Pinto da Costa. E a entrevista foi ontem mesmo para o ar, 24 horas depois do Vitória de Guimarães-Benfica, 24 horas depois dos comentadores da SIC, à 16.ª repetição, terem finalmente concordado que não era lance para grande penalidade visto que a falta, que existiu, foi cometida fora da área.

Depois houve aquela grande penalidade que ficou por assinalar contra o Vitória, aos 58 minutos, quando N'Diaye derrubou Nolito dentro da área dos donos da casa. Se eu fosse do Vitória de Guimarães teria reagido como os comentadores da SIC.

Pronto, foi penalty, mas não se fala mais nisso.


DOMINGOS PACIÊNCIA é um treinador com provas dadas no futebol português. Num passado recente, a Académica e sobretudo, o Sporting de Braga cresceram com Domingos até níveis competitivos muito acima do suposto.

Presentemente é o Sporting quem beneficia das qualidades do treinador Paciência no seu trabalho de diligente construtor de uma equipa de futebol. Ninguém duvida que o problema do Sporting é falta de paciência e, assim sendo, está encontrado o treinador ideal com o nome a condizer e tudo.

A trabalhar, Domingos é inquestionável. Já a falar, o treinador peca nas metáforas e expõe-se a riscos desnecessários. Com esta última, a das papas Cerelac, deu o mote para todas as análises e comentários ao que vier a ser a produção da sua equipa até ao final da temporada.

Como ficou provado depois do empate de segunda-feira, em Vila do Conde, com os incontáveis títulos dos jornais versando o tema das papas, a liquidez das mesmas, a imaturidade do infante e por aí fora, sempre no campo da puericultura.

Querendo definir o estado da construção da sua equipa através de uma imagem que fosse facilmente apreendida por todos, desde a mais tenra idade, Domingos Paciência pôs-se a jeito para jocosidades sem fim.

E agora, resta-lhe compenetrar-se de que, ganhando ou perdendo o Sporting, este campeonato ficará para sempre marcado em Alvalade e arredores como o campeonato do Cerelac.

Também é verdade que podia ser pior.


É incrível o João Tomás. E continua a marcar golos ao Sporting. E a falar também não é tolo nenhum.

No fim do jogo da Taça da Liga, João Tomás não caiu em lamentos pelo empate sofrido nos derradeiros instantes, não apresentou queixas contra nenhuma entidade, não contestou o trabalho do árbitro por ter poupado o cartão vermelho a Polga ou por não ter poupado o cartão amarelo a 8 jogadores do Rio Ave.

Com humildade, João Tomás só se queixou de si próprio. «Foi pena não ter conseguido concretizar a outra oportunidade de golo de que dispus», limitou-se a dizer. Referia-se a um lance, ainda na primeira parte mas com o resultado já em 1-0 favorável aos donos da casa, em que lhe saiu torto um chapéu que poderia ter sido fatal para as aspirações dos visitantes na Taça da Liga.

O João Tomás é um senhor. Ao contrário das desculpas de Elias, para quem foi Artur sozinho que ganhou ao Sporting na Luz, João Tomás nem se lembrou de dizer que foi o Marcelo Boeck sozinho que empatou com o Rio Ave em Vila do Conde. E não estaria a dizer mentira nenhuma.


O jogo com o FC Porto «não é nenhum drama» para o Sporting. Quem o garante é Carlos Freitas, director do clube de Alvalade, para quem o clássico de sábado «não é mais importante do que a Académica ou o Feirense», diz Freitas sabendo do que fala.

Folga-se em saber que o Sporting arrepiou caminho nos dramas em redor dos clássicos. Fez bem. Aquele drama da gaiola a carburar antes, durante e depois do último clássico da Luz terá servido de lição.

E pronto, está visto. Com o Benfica houve drama, mas com o FC Porto não vai haver drama nenhum. Assim é que é bonito.


FOCADOS na vizinhança como sempre, não nos preocupámos em saber que impacto causou em Inglaterra a declaração de amor de José Mourinho ao futebol inglês. Também é verdade que o impacto causado em Madrid foi de tal monta que dificilmente haveria condições para olhar com a mesma atenção para lá do Canal da Mancha.

A possibilidade de deserção de Mourinho preocupou os adeptos do Real Madrid, como não poderia deixar de acontecer. Mas alguém se deu ao trabalho de saber se a possibilidade de Mourinho regressar a Inglaterra preocupou de alguma forma os grandes treinadores da Premier League?

Para Mourinho entrar, um deles tem de sair, não é verdade?

E há motivos para acreditar que o impacto da declaração de amor de José Mourinho ao futebol inglês foi bem mais forte em Inglaterra do que nas imediações do Estádio Santiago Bernabéu.

A coberto da velha e impecável fleuma britânica que a todos obriga, não se ouviram dislates nem remoques contra Mourinho de treinadores consagrados com posições apetecíveis como Sir Alex Fergunson, Arsene Wenger ou Roberto Mancini.

Nenhum deles abriu a boca. Mas, curiosamente, todos perderam os seus últimos jogos desde que Mourinho os ameaçou com o regresso.

São os nervos.


O Manchester United perdeu o seu jogo com o Blackburn por causa de um deslize fatal do seu guarda-redes, o espanhol De Gea. Também no jogo com o Benfica, em Old Trafford, o mesmo De Gea prestou grande colaboração no lance do golo de Aimar que haveria de empatar a partida.

É um facto que os adeptos do Manchester United não têm grande confiança nas capacidades do guarda-redes contratado ao Atlético de Madrid e que não foi barato. Um dia destes o Atlético de Madrid começa a ter má fama no mercado dos guarda-redes.

Roberto vendido ao Benfica, De Gea vendido ao Manchester United... onde é que uma coisa destas pode ir parar?


DEPOIS de uma época triunfal, o presidente do FC Porto recebeu uma consagração internacional. Rima e é verdade.

Numa cerimónia realizada no Dubai, rodeado de sheiks das Arábias, Pinto da Costa venceu na categoria de melhor dirigente do ano um Globe Soccer Award, troféu de prestígio que, no entanto, não lhe mitigará o desgosto de nunca ter visto os seus méritos devidamente homenageados em Portugal.

E mesmo este Globe Soccer Award, vindo do Dubai, não teve o impacto devido na sociedade portuguesa. O que se compreende porque tratando-se de um prémio dado por mouros, é sempre de desconfiar.

02 dezembro 2011

E isto já dura há mais de um século


Crónicas de Leonor Pinhão, in A Bola


Discutir um 'derby' até à exaustão, aceita-se. Mas discutir um 'derby' até à combustão já me parece uma meta francamente exagerada


FOI um belo derby desequilibrado e com uma vitória tangencial. Desequilibrado porque o Sporting teve mais posse de bola, naturalmente porque esteve meia hora em superioridade numérica, e aqui está outro desequilíbrio. Por outro lado o Benfica mandou duas bolas ao poste e ainda obrigou Rui Patrício a aplicar-se em duas situações de golo iminente, enquanto o Sporting só por uma vez em todo o jogo obrigou Artur a fazer o seu trabalho.

Foi um derby emotivo e, mesmo assim, com mais Sporting do que nos últimos anos, o que foi bom para o espectáculo, para a incerteza do resultado. Nos últimos seis jogos entre os rivais de Lisboa, a vitória sorriu sempre ao Benfica. Há 2 anos e 9 meses que o Sporting não sabe o que é vencer o Benfica.

O último triunfo aconteceu ainda na era Paulo Bento que no sábado esteve na Luz e assistiu ao jogo. Deve ter saído contente por duas razões: Rui Patrício, na baliza do Sporting, mostrou que é guarda-redes para a selecção nacional e Rúben Amorim, onde foi preciso, no meio, à direita, atrás e à frente, mostrou que é jogador para a selecção nacional e não só, é jogador para o que der e vier.

Se quisesse ver mais jogadores portugueses de nível em acção, o nosso seleccionador nacional teria de estar em Madrid, à mesma hora do jogo da Luz, para assistir ao derby dos nossos vizinhos. Fez bem Paulo Bento em optar pelo derby lisboeta. É mais nosso, talvez tenho menos salero mas tem mais bombeiros.

O único titular indiscutível da nossa selecção que falhou rotundamente no Benfica-Sporting foi o Nani. É verdade que não jogou porque vive e trabalha em Inglaterra mas errou no prognóstico -...dera por certa a vitória do Sporting -, pelo que Paulo Bento, no decorrer dos períodos de estágio da selecção, deve evitar ao máximo preencher boletins do Totobola com o Nani.

É dinheiro deitado fora.

Veio no Público a notícia de que os prejuízos causados no Estádio da Luz pelas claques legalizadas do Sporting podem ascender a meio milhão de euros. Sobre a responsabilidade dos delitos, garante o Correio da Manhã que o Ministério Público deu ordem para investigar e que, talvez, as imagens recolhidas pelo sistema de vídeo-vigilância possam identificar os autores materiais dos crimes de incêndio e de destruição de propriedade alheia.

Seria excelente porque ilibava alguns milhares de sportinguistas que estiveram na Luz apenas para ver um jogo de futebol. A transmissão televisiva foi elucidativa nesse aspecto, focando variadíssimas vezes nas bancadas o convívio normal, saudável e até bem-disposto entre famílias mistas, entre amigos com cachecóis de cores diferentes que foram juntos à bola e que, findo o jogo, se espalharam pela cidade discutindo, como é digno de rivais, os pormenores do jogo até à exaustão.

Até à exaustão, é uma coisa.

Até à combustão já é uma coisa completamente diferente.

Por isso é de máxima importância não generalizar nestas questões. E não é justo confundir delinquentes encartados com o público normal que ama o seu clube, vibra, pragueja e... nada demais.

E também não é justo que seja o presidente do Sporting, Godinho Lopes, a pagar a despesa quando lhe chegar a conta dos prejuízos. Godinho Lopes nem esteve lá e só apareceu, em forma de comunicado, quando o director de comunicação do Benfica, João Gabriel, desarticulou de uma penada o discurso do vice Paulo Pereira Cristovão sobre as condições 'pré-históricas' em que tinha visto o jogo. O problema de Cristovão não é a pré-História é a História. Soubesse ele o que é jogar em grandes palcos europeus e já teria visto muitas estruturas de segurança para claques como a da Luz.

Os jogadores do Sporting, que se bateram com galhardia durante 90 minutos, devem sentir-se muito surpreendidos e até desconsolados por só ouvirem os seus dirigentes falar de gaiolas, de bilhetes e de jaulas. E nem uma palavrinha sobre futebol.

E, sobretudo, devem sentir-se muito baralhados com a identidade do patrão porque no Sporting têm mais protagonismo e holofotes alguns candidatos derrotados nos últimos actos eleitorais do que o próprio presidente.

Godinho Lopes bem sabe, por experiência própria, o que é ter de lidar com alguns consócios seus de carácter mais exaltado, do tipo energúmeno-classe A. Basta-lhe recordar-se da noite eleitoral em que foi vencedor mas em que teve de chamar a polícia para poder ir para casa sossegado.

E quando se trata de futebol, irmos para casa sossegados é o que toda a gente ambiciona.

E isto já dura há mais de um século.


O Barcelona perdeu com o Getafe e o Benfica é agora a única equipa que ainda não perdeu um jogo oficial na Europa. Dizê-lo não é bazófia nem, muito menos, a proclamação de qualquer título. É apenas o que é, um pormenor simpático para as nossas cores.

Amanhã, no Funchal, o Benfica vai ser uma vez mais posto à prova e o adversário é difícil. O Marítimo de Pedro Martins joga muito bem à bola e tem um goleador competente, o senegalês Baba. O jogo conta para a Taça de Portugal, bonita e histórica competição fértil em surpresas.

Se o Benfica cair frente ao Marítimo, paciência, alguma vez tinha de acontecer. Mas se o Benfica sair do Funchal apurado poderá continuar a orgulhar-se do seu estatuto único de imbatível na Europa. E poderá seguir em frente na Taça e isso é que importa. O resto, são vaidades...


O FC Porto que, segundo as palavras do seu presidente, morreu em Coimbra ressuscitou nos últimos minutos do jogo com o Sporting de Braga mas sem prejuízo para a causa. Entretanto, a Académica que tinha dado cabo do tal FC Porto em Coimbra acabou por morrer no mesmo campo frente ao Beira-Mar. Este nosso campeonato está tétrico.


JOÃO CAPELA é um árbitro a seguir. Relativamente jovem, estreou-se num derby e não se saiu mal de todo. Expulsou Cardozo a meia-hora do fim do jogo porque o paraguaio protestou uma decisão e viu o segundo amarelo. E, mais tarde, contemplaria Carillo, o peruano do Sporting, com um cartão amarelo pelo mesmo motivo: protestos.

Os benfiquistas não aceitaram bem a decisão de Capela ao expulsar Cardozo mas aplaudiram, no estádio, quando o árbitro mostrou o cartão amarelo a Carillo, porque concluíram que será sempre esse o seu critério.

É um bom critério, com toda a sinceridade, e ainda por cima muito fácil de fazer vigorar porque os jogadores quando protestam para lá do razoável são, por norma, exuberantes, nada discretos e não é só o árbitro que vê o despautério.

Toda a gente vê. Não são precisas câmaras lentas, repetições, linhas imaginárias de fora-de-jogo, nem aparatos de tecnologia para detectar o flagrante delito da insubordinação.

Depois do derby na Luz, visto e discutido ao pormenor por milhões, João Capela, se quiser, vai carregar pela sua carreira fora a responsabilidade de ser coerente. Protestar uma decisão do árbitro é igual a cartão amarelo e nem se fala mais nisso.

E, de futuro, todas as equipas e mais os respectivos adeptos, assim que lhes cair João Capela em sorte, saberão que Capela é aquele árbitro com quem não vale a pena protestar porque tem um critério muito bem definido para estas situações. Poderá até vir a ser a sua imagem de marca. Tudo isto seria excelente para a sagrada causa da verdade desportiva porque coloca todas as equipas em pé de igualdade perante o julgamento do árbitro, um luxo.

E, se assim for, só há motivos para considerar positiva a actuação de João Capela na Luz apesar do Tribunal do Jogo considerar por unanimidade que o árbitro perdoou uma grande penalidade ao Benfica quando Jardel e Onyewu, essas duas peças de filigrana, se embrulharam um no outro numa dança típica de área e acabaram os dois deitados na relva.

Dos protagonistas propriamente ditos não se ouviram protestos contra o árbitro no final do jogo. Jorge Jesus não perdeu muito tempo a falar da expulsão de Cardozo e Domingos Paciência elogiou «as três grandes equipas» que tinham estado em campo, presumindo-se que se referia à equipa de arbitragem como sendo a terceira grande equipa.

Certamente que não se estava a referir à grande equipa de bombeiros que também viria a actuar na mesma noite.

E ninguém dúvida de que, dentro do universo sportinguista, terá sido Domingos Paciência, por ser o treinador da equipa, quem viu o jogo com mais e melhor atenção, até porque, dentro do mesmo universo, houve uma significativa fatia de dirigentes e de adeptos que se concentrou intelectual e exclusivamente em aspectos exteriores ao jogo.

E assim continuam. De tão preocupados em defender os pirómanos até se esqueceram de chamar nomes ao árbitro. Sim, sim tivesse João Capela expulso mais um jogador do Benfica - Aimar, por exemplo - a ver se, contra 9, não teria o Sporting ainda mais posse de bola.


VALDEMAR DUARTE, que comentou o jogo FC Porto-Sporting de Braga para a TVI, pode juntar o seu nome ao vasto rol de jornalistas que, por puro masoquismo, dizem ter sido agredidos em estádios de futebol ou em vielas escondidas.

25 novembro 2011

Afinal, o Schaars tem razão


O semi-sucesso do Benfica em Manchester começou por onde começam todos os êxitos das grandes equipas de futebol: pela baliza


O Holandês Schaars vai viver este sábado o seu primeiro derby. Ontem falou publicamente sobre o assunto. Schaars sente que «o ambiente está tenso». Schaars é novato nestas rivalidades da Segunda Circular, está visto.

Na verdade, o ambiente não está tenso. Pessoal mais exprimentado nestas coisas dirá, sem sombra de dúvida, que já houve centenas de derbies com ambientes mais absurdos e pesados a antecedê-los.

Mas Schaars fala do que sabe e do que sente e lá terá as suas razões. À semelhança de muitos estádios europeus, o Benfica vai passar a dispor de um reforço do sistema de segurança para os adeptos visitantes. A delimitar os espaços, no lugar onde se colocavam os cordões de polícias a desempenhar esse papel, passa a haver grades. O procedimento recebeu a aprovação da Liga e da PSP e vai estar montado já no sábado no jogo com o Sporting. E é assim que vai ficar para os jogos futuros.

Perante a afabilidade do momento entre os rivais, não houve em tempos recentes nenhum acontecimento insólito que indispusesse as respectivas administrações, este assomo de indignação por parte de alguns responsáveis de Alvalade tomba um bocadinho para o ridículo. Trata-se da manipulação de uma coisa que não é nada com o aparente intuito, muito dispensável, de criar um ambiente, enfim, tenso.

Olhem, afinal o Schaars tem razão.



O semi-sucesso do Benfica em Manchester, assegurando a qualificação para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões, começou por onde começam todos os êxitos das grandes equipas de futebol: pela baliza.

E, que ninguém se ofenda, mas foi Artur o único dos benfiquistas a aguentar os 90 minutos sempre ao mesmo nível, altíssimo, respondendo às exigências da ocasião sempre da mesma maneira, 100 por cento impecável. O belga Witsel não esteve a 100 por cento mas terá estado aí a uns 82 por cento, o que também não é nada mau considerando a sua extrema juventude e inexperiência.

Os outros foram inexcedíveis em aplicação, correram quilómetros, calaram Old Trafford mas a verdade é que o Benfica esteve largos momentos do jogo em aflição. Nada de mais, obviamente, porque o Manchester United é um gigante de créditos firmados e o Benfica anda valentemente a tentar elevar o seu futebol ao nível do seu prestígio internacional.



OS jornais deram conta fortes medidas de segurança que, no sábado, protegeram o autocarro do FC Porto à chegada ao Porto depois do jogo de Coimbra e do reforço, na segunda-feira, dessas já de si fortes medidas de segurança que protegeram o mesmo autocarro quando levou a equipa ao aeroporto para apanhar o avião para a Ucrânia.

O autocarro não sofreu nem uma beliscadura. O que prova que as medidas de segurança foram bem executadas o que não admira. No aeroporto, por exemplo, o aparato policial foi de monta que não houvesse por lá nenhum indigente disposto a insultar os jogadores, os técnicos ou mesmo os dirigentes nem nenhum voluntário com predisposição para partir os vidros do autocarro do FC Porto.

Mais vale prevenir do que remediar, pensaram as autoridades policiais locais e é assim mesmo que se tratam destes assuntos.

Da próxima vez que o Benfica for ao FC Porto, está finalmente o problema do Vermelhão resolvido.

Basta que os dirigentes da Luz solicitem respeitosamente às autoridades locais a mesma protecção policial para o seu autocarro (com recheio de pessoas e bens).

E, assim, com esta eficácia e empenho, nunca mais o Vermelhão regressará do Porto com um risco na pintura, com um farolim partido ou com uma escova de limpar o pára-brisas pendurada ao Deus-dará pela auto-estrada abaixo até à garagem do Estádio da Luz.



O Expresso on line garante que João Moutinho é o «líder dos rebeldes» que no balneário portista se têm dedicado a fazer a vida negra a Vítor Pereira colocando em causa o seu estatuto de autoridade.

-É uma maçã podre, sempre foi uma maça podre! - disse-me um amigo sportinguista preocupado com a eventual demissão do treinador do FC Porto.

Tenho, no entanto, um amigo portista que vê as coisas de outro modo.

-O Moutinho está a fazer em grande trabalho, deixem o Moutinho trabalhar!

É muito difícil entenderem-se os adeptos dos clubes rivais.



ENTREVISTADO pela Rádio Monte Carlo, a jovem esperança Mangala afirmou ser do Paris Saint-Germain desde pequenino e acrescentou que o seu sonho é jogar no Parque dos Príncipes. «PSG? Ia já...» Considerou-se, no entanto, contente por estar no futebol português visto que considera o FC Porto «um trampolim» para outros voos.

O mundo anda todo às avessas.



ANDAM também os irmãos desavindos e isso não é bom. Nascida em África, a amizade entre Eusébio e Hilário resistiu galantemente à rivalidade entre os dois emblemas que os jogadores haveriam de representar na Metrópole - era assim que se dizia, naqueles tempos - mas, mais de meio século depois de ambos terem aterrado em Lisboa, parece que a tão badalada entrevista de Eusébio ao Expresso causou mossa e obrigou Hilário a responder, também em forma de entrevista através do jornal do Sporting.

Eusébio e Hilário são duas pessoas adoráveis e não mereciam, de forma alguma, este desencanto, pelo menos aparente, na sua relação.

Eusébio disse ao Expresso que nunca gostou do Sporting porque quando era jovem em Lourenço Marques «o Sporting era o clube da elite, da polícia e dos racistas». Esta frase causou indignação entre os sportinguistas.

A resposta de Hilário, no entanto, não ajudou nada a contrariar a opinião de Eusébio. Antes pelo contrário.

Hilário recorda que quando assinou pelo Sporting de Lourenço Marques «diziam que eu ia para um clube de brancos, um clube racista».

Diziam? Mas quem é que dizia uma coisa dessas? Seria já o Eusébio?

Hilário diz também, com justificado orgulho que foi «o primeiro preto a jogar no Sporting de Lourenço Marques». De acordo com wiki-Sporting, fonte fidedigna de informação, o Sporting Clube de Lourenço Marques foi fundado em 1920 pelo que, de acordo com as palavras de Hilário, não albergou um único «preto» durante as primeiras quatro décadas da sua existência como associação desportiva.

Ainda citando a informação disponível na Wiki-Sporting, de acordo com «os testemunhos de antigos jogadores do Sporting de Lourenço Marques, era um clube selectivo». E «para os negros jogarem no Sporting ou tinham que ser jogadores com a qualidade de Eusébio da Silva Ferreira ou então tinham que ter alguém que os apadrinhasse».

Um clube selectivo? Lá está a elite, não é?

Sempre citando a Wiki-Sporting, o Sporting de Lourenço Marques tinha uma base social bem definida: «Os seus dirigentes e atletas proviriam principalmente da Polícia e do Serviço Municipalizado de Água e Electricidade», reza o documento.

Lá está a Polícia, não é verdade?



O Shaktar-Porto foi divertido. Como o empate não servia a nenhuma das equipas tivemos um espectáculo aberto, corrido, bola cá, bola lá, às vezes parecia um jogo de hóquei em patins de tão disparado que foi. O FC Porto, por ter melhores jogadores, foi mais feliz e ganhou por 2-0. Agora basta-lhe vencer o Zenit de São Petersburgo e de São Bruno Alves para seguir em frente na Liga dos Campeões.

Vítor Pereira, o mal-querido treinador dos campeões nacionais, festejou a vitória com uma exuberância que se compreende.

Nós aqui em Portugal, compreendemos. Lá fora, não sei...

28 outubro 2011

Não me venham falar de brechas na organização


Se, por acaso, estiverem à espera de que venha para aqui tratar mal o Hulk por ter mergulhado a cabeça num balde de lixívia sem ter pedido autorização ao sineiro da Torre dos Clérigos e, pior ainda, se estiverem à espera de que veja nisso um sintoma de brechas na super-organização da super-estrutura do super-FC Porto, nesse caso, não contem comigo.
Temos de ser racionados e defender a liberdade de cada um. E dizer a verdade também faz bem.
E não é verdade que o FC Porto beneficiou muito com a cor do cabelo de Hulk, igualzinha à cor dos equipamentos do Nacional no jogo de domingo passado? Só à conta do cabelo amarelo do Hulk, os fiscais-de-linha deixaram-se confundir maia-dúzia de vezes e dessas ilusões cromáticas - ...mas aquilo é um jogador do Nacional ou é o Hulk? - os campeões nacionais beneficiaram de dois golos nascidos de posições irregulares.
Portanto, não me venham cá falar em brechas na organização.

André Villas Boas foi recebido com fidalguia no Coliseu do Porto por uma plateia que lhe soube dispensar uma ovação de pé. Foi bonito de se ver até porque veio contrariar os prognósticos mais sombrios que pairaram sobre a ocasião.
Mas como em Portugal as homenagens são sempre contra alguém, fica por saber se esta homenagem portista a Villas Boas não é, no fim de contas, uma grande contra-homenagem a Vítor Pereira que tem sido alvo de inusitadas desconsiderações públicas e privadas de cariz técnico-táctico, o que nem se percebe muito bem porquê visto que ainda a procissão vai no adro.
A atribuição do Dragão de Ouro a André Villas Boas só foi possível porque Vítor Pereira não conseguiu dar 5-0 ao Benfica no jogo da 6.ª jornada do campeonato corrente. Com esse resultado, ou com outro parecido e igualmente sonante, teria sido Vítor Pereira a subir ao palco do Coliseu no lugar de Villas Boas e a festa teria sido outra.
Não se duvide, no entanto, do apreço que o presidente do FC Porto tem pelo seu ex-treinador. No Verão passado, quando o treinador que lhe deu quatro títulos anunciou se ia embora, Pinto da Costa afirmou não se sentir dorido porque só se magoava «se caísse de um 7.º andar». Na segunda-feira, no Coliseu, declarou-se disponível e competente para «nos próximos trinta anos» escrever o prefácio da autobiografia de André Villas Boas.
A Pinto da Costa não só nunca se ouviu uma palavra menos polida sobre o actual treinador do Chelsea como também somos levados a crer, pelos exemplos citados, que quando se inspira em Villas Boas, o presidente do FC Porto respira imortalidade.
E não me venham cá falar em brechas na organização.

Uma pessoa inadvertida reflecte sobre o que anda para aí de movimentos para as eleições na FPF e fica sem saber no que reflectir.
Então o Filipe Soares Franco era o candidato do Pinto da Costa? Mas como seria isso possível se o Pinto da Costa foi tão deselegante para o Soares Franco quando este era presidente do Sporting?
E é verdade que o Fernando Gomes se candidatou à corrida sem o aval do Pinto da Costa? Impossível! Mas agora o FC Porto é o novo Sporting das liberdades de voto, onde Godinho Lopes apoia o Fernando Gomes e o Luís Duque apoia o Marta?
Então o Fernando Seara vem agora dizer que não se candidatou a presidente da FPF porque nunca aceitaria sacrificar «a cabeça de um amigo»?
Mas qual cabeça?
E qual amigo?
Vocês querem ver que o Godinho Lopes disse ao Fernando Seara que o Sporting só o apoiaria se o Seara lhe fizesse o favor de levar para a Federação o Luís Duque, por exemplo para vice-presidente das selecções, ou para vice-presidente de qualquer coisa, mas, por favor, que o levasse com ele para longe do Sporting?
Vamos continuar a reflectir...

Estando o país em dificuldades e os trabalhadores numa aflição e sendo o Benfica o clube do povo, não espanta que a tirada de Jorge Jesus, que é treinador do Benfica, sobre as agruras da crise e a classe política nacional tenha ecoado ao longo de todo o fim-de-semana passado, chegando quase a provocar reacções de Estado. «Os nossos políticos se fossem treinadores de futebol estavam muito pouco tempo no lugar», disse Jesus.
Responderam-lhe a sério, e algo sentidos, alguns políticos de maior ou menor carreira e houve até quem lhe lembrasse que os políticos têm de passar por eleições e pelo veredicto popular.
Pois é verdade que sim. Os políticos são eleitos de 4 em 4 anos. Mas os treinadores de futebol têm eleições todos os fins-de-semana e, às vezes, a meio da semana e o veredicto popular, na glória ou na desgraça, funciona sempre e é quem manda, quem põe e quem tira.
Aliás, era precisamente a isto que Jorge Jesus se estava a referir.

Nesta fase das respectivas campanhas europeias saíram ao Benfica e ao Sporting equipas romenas que pouca ou nenhuma luta lhes têm dado. Felizmente, em nome da boa e secular rivalidade, tudo serve para alimentar conversas científicas sobre os poderios dos dois vizinhos da Segunda Circular.
Domingos Paciência não se aguentou e disse com grande sentido de oportunidade que os romenos do Vaslui (os dele) são muito melhores do que os romenos do Otelul (os do Benfica). Parece que não é verdade, em termos de palmarés, porque o Vaslui (os do Sporting) só ganharam em toda a vida uma Taça Intertoto enquanto o Otelul (os nossos) não só ganharam uma Taça Intertoto como também ganhou um campeonato e uma Taça da Roménia.
Que se tratam de dois colossos da Europa da Europa central, sobre isso que não reste dúvidas nenhuma...
Paciência, convém registar, não se saiu com esta do Vaslui ser muito melhor do que o Otelul a propósito de coisa nenhuma. É que o Benfica e o Sporting, para além de terem adversários romenos, também têm adversários suíços nos seus grupos de apuramento.
E a tal conversa científica já vinha de trás, mais precisamente da véspera, com Jorge Jesus a dizer, na Suíça, que o adversário do Benfica, o Basileia, não se compara «a nenhuma outra equipa suíça» e que é «por exemplo, muito melhor do que o FC Zurique», sendo que o Zurique é o adversário do Sporting.
A última jornada do campeonato suíço poderá ter vindo ajudar à clarificação deste imbróglio porque o Basileia do Benfica foi ao terreno do Zurique do Sporting, venceu por 1-0 e saiu de lá com os 3 pontos. Assim sendo é Jorge Jesus quem tem razão porque o Benfica já venceu o Basileia que venceu o Zurique que tinha perdido com o Sporting.
É esta a lógica das discussões de bola. E muda todas as semanas.

No domingo, o Manchester United levou 6-1 do Manchester City e Sir Alex Fergunson disse: «Foi a pior derrota da minha carreira».
Na segunda-feira, o Gil Vicente levou 6-1 do Sporting e Paulo Alves disse: «Foi a pior derrota da minha carreira.»
Mais tarde, daqui a muitos anos, Paulo Alves poderá sempre contar aos netos que houve uma ocasião em que, no espaço de 24 horas, ele e o Sir Alex Fergunson disseram exactamente a mesma coisa.
E isto não é para todos.

O primeiro golo do FC Porto ao Nacional, da autoria do belga Defour, devia ser atribuído ao Standart de Liège, não devia? É que o Standart de Liège, de acordo com o que se lê, ainda é o único propietário do jogador. Ainda por cima dava-lhe muito jeito para as suas contas este golo de Defour porque o Standart de Liège anda aflito de golos e até tem um goal-avarage negativo de 13 marcados e 15 sofridos.
Tanto nos chatearam, e com razão, com o pagamento do Poborsky e agora, finalmente, podemos responder-lhes na mesma (ausência de) moeda.
Querem ver que há mesmo uma brecha na organização?

27 outubro 2011

A mátria do futebol


A Inglaterra é a mátria do futebol trazido à luz em 1863. 149 anos volvidos, continua a ser a pátria do futebol. Não porque vença mais, ou porque de lá sejam os melhores jogadores. Mas pela magia do seu football association, que perdura acima da intelectualidade das tácticas e do tacticismo das inteligências.

Os estádios aconchegados, quase intimistas, estão sempre cheios, seja qual for a competição, a meteorologia, a classificação, a notoriedade das equipas, os horários, a transmissão televisiva.

O ambiente é de festa. Apoiam-se as equipas com entusiasmo contagiante, canta-se em sinfonia e harmonia, vencendo ou perdendo. Quanto o Benfica ganhou em Anfield Road por 2-0, os adeptos do Liverpool continuaram a cantar vibrantemente You'll never walk alone.

Um futebol sem manhas e sem manobrismos. Sem chicotadas psicológicas inconsequentes. Em que o árbitro é tão-só o juiz que também erra, mas não é alvo das desculpas para o insucesso.

O fair play é lá mais escrutinado. Na memória, preservo a radicalidade de alguns exemplos. Relembro apenas um: há anos, um jogador do Arsenal, depois de um colega ter sido assistido por lesão, devolveu a bola à equipa do Sheffield. Porém, a arsenalista Kanu ficou com a bola e passou-a Overmars, que fez facilmente o 2-1. No fim, a Direcção do Arsenal e o técnico Arsène Wenger pediram para o jogo que o Arsenal venceu ser repetido.

Só o futebol da Liga inglesa nos brinda com jogos como 8-2 do Manchester contra o Arsenal, ou, como no domingo, em que o United, em casa, perdeu 1-6 com o City! Não esquecendo os golos que se marcam nos últimos minutos porque, nunca se desistindo, o último segundo de jogo é igual ao primeiro!

Assim é um prodígio de desporto!

22 outubro 2011

Cardozo, o melhor tranquilizante


Bela exibição na Suíça e um excelente resultado. Liderança no grupo, dois jogos em casa e o apuramento a poder ser conseguido já no dia 2 de Novembro na recepção ao Basileia. Que mais se pode pedir a este Benfica de Jorge Jesus? Por mim, apenas para assim continuar. A única equipa portuguesa que ainda não perdeu os 15 jogos oficiais já disputados (e uma das poucas da Europa), onde apenas o empate em Barcelos se pode considerar tristonho.

Já a vitória frente ao Portimonense, no jogo da Taça, havia deixado bons indicadores sobre alguns dos jogadores menos utilizados. Rodrigo foi nos dois jogos a revelação-certeza, temos ali um avançado que em pouco tempo poderá ser titular.

Contudo, numa altura em que todos falam de Rodrigo, eu queira escrever sobre Cardozo. Digam e escrevam o que vos for na alma sobre Takuara, mas os números são irrefutáveis; 15.524 minutos, 211 jogos, 130 golos ou seja um golo a cada 119 minutos (incluindo particulares).

Há melhor? Talvez, mas não estou a ver muitos. Desta vez demorou quatro minutos a por a bola naquela espécie de galinheiro que falava o Scolari.

Cardozo entrou e, quatro minutos depois, milhões de benfiquistas ficaram descansados sobre o desfecho do jogo. Não conheço melhor tranquilizante.

Por isso, são cada vez mais a gritar: «Tenham cuidado. Ele é perigoso. Ele é o Óscar Takuara Cardozo.»

Este fim-de-semana haverá em Aveiro um jogo difícil para o Benfica, naturalmente cansado. O melhor ataque joga contra a melhor defesa do campeonato, impressionante o registo defensivo do Beira-Mar. Será preciso toda a artilharia para fazer ruir aquele castelo e continuar na frente.

Ontem desabafava um grande amigo, triste com o rumo do Pais, com as nossas perspectivas económicas e financeiras, com o desemprego e as falências: «Só não imigro porque não consigo ir viver para longe do Benfica». Como eu percebo!