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12 dezembro 2009

Da precariedade de um 4-0



Por
Ricardo Araújo Pereira in A Bola

As goleadas são como o Natal: goleada também é quando um homem quiser. O futebol acaba de ganhar um novo interesse.
Já podíamos discutir se certo jogador era melhor do que outro, ou se determinada equipa jogava um futebol mais bonito que as demais. Mas, quanto aos números, não costumava haver dúvidas.
Aquele aborrecimento de serem exactos prejudicava uma boa conversa. Quatro golos, não sei se se lembram, eram quatro golos. E um 4-0, antigamente, era uma goleada. Mas agora, se o treinador da Académica não quiser, não é. Esta é, creio, a grande diferença entre Mourinho e este novo Mourinho (se não me falham as contas, Vilas-Boas é o 17º novo Mourinho): Mourinho dificilmente leva goleadas; o novo Mourinho leva, mas não admite que foi goleado. É quase igual. Na verdade, era previsível.
Quando o Benfica goleava, era evidente que não continuaria a golear.
Como continuou a golear, as goleadas deixaram de ser goleadas. O que interessa acima de tudo é que o Benfica não goleie, mesmo quando goleia. Com este resultado escasso, o Benfica acabou por ganhar por um tangencial 4-0.
Se o Cardozo não tivesse marcado o último golo, suponho que teríamos empatado por 3-0. Ainda tivemos sorte.
Foi pena, porque estava tudo a compor-se. Houve um ou dois jogos em que o Benfica não esmagou.
Era o momento pelo qual há tanto se esperava. A máquina de golos tinha emperrado. O ataque demolidor já não demolia. O rolo compressor estava avariado. E os benfiquistas tinham falado antes do tempo. Eu, confesso, fui um deles.
Disse: o Benfica dá muitas goleadas. E porquê? Só porque o Benfica dava muitas goleadas. Fanatismos, já se sabe. Quando um benfiquista constata que o Benfica goleia, fala antes do tempo. Quando os outros prevêem o fim das goleadas e elas continuam a ocorrer, são gente sensata. Aproveito esta oportunidade para admitir que falei antes do tempo. Antes do tempo em que os 4-0 deixaram de ser goleadas, claro.

Na semana em que o antigo treinador do Sporting foi castigado por críticas à arbitragem, o actual treinador do Sporting só teve motivos para a elogiar. A Liga sabe fazer pedagogia. Há mais irregularidades naquele segundo golo marcado ao Setúbal do que no resto da jornada toda. Por outro lado, se é verdade que a bola esteve fora do terreno, convém não esquecer o tipo de relvado em que os jogadores do Sporting estão acostumados a jogar. Temos de compreender que, para eles, jogar fora do campo seja mais atraente. Não é batota, são saudades da relva.

05 dezembro 2009

Um histórico, convincente e esmagador empate



Por
Ricardo Araújo Pereira in A Bola

NO sábado passado, o Sporting fez o sexto jogo consecutivo sem ganhar para o campeonato, empatou em casa com um concorrente directo, manteve os 13 pontos de desvantagem para o primeiro dos candidatos ao título e acabou a jornada em sexto, ex aequo com o sétimo, o Rio Ave. Sob que ponto de vista é que o empate com o Benfica pode ser considerado um bom resultado? Só um: se a equipa da casa não for candidata ao título. Para quem luta pela manutenção ou pela Europa, um pontinho em casa contra o Benfica é excelente. O leitor, sempre maldoso, poderá observar: como podem os adeptos do Sporting, que ainda há pouco assinalavam, com superioridade gozona, que os benfiquistas andavam eufóricos por causa de meia dúzia de goleadas, ficar agora ainda mais eufóricos com um empate? Bom, cada um esbanja euforia no que pode. E gostos não se discutem: quem gosta de goleadas, vibra com goleadas; quem gosta de empates, deleita-se com empates. Como sabemos todos, desde os encontros do ano passado com Barcelona e Bayern de Munique os sportinguistas ficaram com a capacidade de apreciar goleadas ligeiramente abalada. Mas os empates mantiveram, para eles, o encanto que indiscutivelmente têm. Ainda no início desta época os vimos celebrar um empate contra o Twente. É importante não esquecer que a última grande vitória histórica do Sporting foi uma derrota em casa do AZ Alkmaar. Recordemos, por fim, que estamos a falar de um clube que chama herói ao lateral direito do Olhanense. À luz destes factos, creio que a alegria sportinguista é mais fácil de compreender.

Trata-se de uma alegria que é, aliás, tocante. Quem dera ao resto dos portugueses a inclinação que os sportinguistas têm para a felicidade. Eles, tal como o país, também estão em crise. Também não têm dinheiro. Têm um treinador que é mais um dos milhares de portugueses que enfrentam o flagelo do trabalho precário e dos contratos a termo certo, e sabe que, dentro de seis meses, estará no desemprego. No meio de tudo isto, no entanto, riem-se. Só eles sabem de quê.

Estou, claro, a exagerar. Há motivos de esperança. Desde o dia 21 de Setembro que o Sporting evidencia dificuldades para ganhar a equipas compostas por futebolistas. Mas, contra pescadores, normalmente não dão hipóteses. No campeonato da Docapesca, o Sporting seria um dos mais sérios candidatos ao título. E, no meio da tormenta, os jogadores mantêm o espírito de equipa: ainda esta semana Liedson disse que tinha dificuldades em jogar neste modelo e estava disposto a sair do onze para dar lugar a colegas que façam melhor do que ele. Estava a referir-se a Saleiro, Caicedo e Postiga. Além de ser uma magnífica piada, é dos mais belos actos de companheirismo que já vi. Mostra aos outros avançados que confia neles, e revela a todos os cépticos que Carvalhal é um treinador que consegue, num mês, o que Paulo Bento levou anos a fazer: incompatibilizar os jogadores com a sua táctica.

28 novembro 2009

Atenção ao criativo do Sporting: Pedro Proença



Por Ricardo Araújo Pereira in A Bola

QUEM será o elemento mais perigoso para o Benfica, no derby de hoje? A resposta é evidente: o nosso adversário mais criativo será o árbitro Pedro Proença. Quem se lembra do modo como, no ano passado, inventou um penalty a favor do Porto por falta inexistente de Yebda sobre Lisandro Lopez, reconhece nele um criativo com muita imaginação e capacidade de decidir uma partida. Na dúvida, Pedro Proença decide sempre contra o Benfica. Prejudicar o clube que alegadamente prefere foi a forma que encontrou de exibir uma suposta imparcialidade. Outra hipótese era arbitrar de acordo com as leis do jogo, mas é mais difícil. A comissão de arbitragem retribui nomeando-o sistematicamente para jogos importantes. É mais um factor de interesse para o jogo de hoje: como vai Pedro Proença prejudicar o Benfica para mostrar a toda a gente que é um benfiquista imparcial? Com Yebda a jogar em Inglaterra, será mais difícil, mas para Proença não há impossíveis.Repare o leitor na dualidade de critérios que grassa no futebol português: o Porto foi a Oliveira do Azeméis jogar com um desses clubes pequenos cujo relvado é reconhecidamente péssimo. O jogo foi adiado até que haja condições para jogar. O Benfica vai a Telheiras jogar com um desses clubes pequenos cujo relvado é reconhecidamente péssimo. O jogo realizar-se-á na data prevista.
Pior para nós, uma vez que o Sporting atravessa um bom momento. Tem um treinador, mas comunicou a sua contratação à CMVM de madrugada e ainda não o apresentou. A primeira vez que apareceu, foi na internet — como os boatos e os vírus informáticos. É um treinador clandestino, o que constitui uma vantagem: assim, os adeptos não sabem na direcção de quem agitar lenços brancos.
Há uns meses, o presidente do Sporting disse que o fundo de jogadores do Benfica era uma vergonha. Agora quer, sem grande sucesso, imitá-lo. O que desejo para o derby desta noite é exactamente isso: um resultado que os sportinguistas considerem hoje uma vergonha e que, no futuro, pretendam, sem sucesso, imitar.
Não será fácil, visto que o Benfica vive tempos difíceis. O derby joga-se precisamente na altura em que o clube se vê mergulhado num escândalo. Há uns anos, se bem se recordam, a Selecção Nacional passou por escândalo muito semelhante: num estágio, os jogadores tinham estado agarrados a senhoras cuja profissão dizem ser, embora eu não concorde, pouco digna. Esta semana, calhou ao Benfica: Jorge Jesus apareceu na imprensa abraçado a uma pessoa cuja profissão é, de facto, pouco digna. Foi repugnante e esperamos todos que não se repita.
Cada vez gosto mais da série Liga dos Últimos. Na semana passada, o episódio era especialmente divertido: foi preenchido com a transmissão integral de um jogo entre os Pescadores da Costa da Caparica e outra colectividade cujo nome já não recordo. O costume: treinadores patuscos, adeptos rústicos, jogadores com mais vontade que talento. Na primeira parte, os Pescadores dominaram. Os adversários não pareciam capazes de vencer onze peixeiras, quanto mais pescadores. Na segunda parte, porém, algum excesso de confiança dos Pescadores permitiu uma surpreendente reviravolta. Quem diz que nos escalões inferiores não há emoção?

21 novembro 2009

Ricardo Araújo Pereira pede demissão de Jesus.


"Acho que Jorge Jesus devia ser despedido" pediu um dos Gato Fedorento, Ricardo Araújo Pereira, no início do seu discurso no 21. aniversário da Casa do Benfica do Porto.
in sic.sapo.pt

O motivo para pedir a cabeça do técnico encarnado é, para o popular adepto do Benfica, fácil de explicar, afinal "ele mentiu aos sócios ao dizer, no princípio da época, que o Benfica iria jogar o dobro do que tinha jogado no passado".

Feitas as contas pensou "que o dobro não era assim tanto" quando aceitou fazer "um trabalho na SIC", explicou indignado o "Gato Fedorento", que durante seis semanas não conseguiu ver os jogos do Benfica: "Não vi o Benfica a dar quatro ao Belenenses porque estava a entrevistar o José Sócrates ou a fazer outra coisa qualquer sem importância nenhuma e agora vejo o Benfica a jogar o quádruplo do prometido por Jesus", constatou.

A revolta de Ricardo Araújo Pereira é acentuada pela sua falta de forma física, uma vez que na vitória do Benfica por 8-1 diante do Setúbal levantou-se oito vezes e, por isso, "mais uma vez recrimino Jorge Jesus pois eu vou ao Estádio da Luz para ver bola e não para fazer aeróbica". Remédio santo agora só festeja "de três em três golos".

Sócio 17 411, Ricardo Araújo Pereira esmiuçou muitos jogos do seu Benfica na gloriosa década de 80. O futebol dos encarnados de agora faz lembrar o do passado e para os mais saudosos aconselha: "Quem tinha saudades do Benfica da década de 80 veja os jogados de agora, quem tem saudades do Benfica de 90, passe a ver os jogos do Sporting".

Perante pouco mais de 70 sócios presentes no salão do café concerto do Teatro Rivoli, no Porto, não faltou a esperada referência ao rival da invicta.

"Há dias o presidente Pinto da Costa produziu uma declaração que, embora não sendo recorrente, cheia de razão", levantou os primeiros risos na plateia, para depois prosseguir com o seu raciocínio: "Disse que o principal adversário do FC Porto era o Braga. Houve benfiquistas que levaram a mal, eu achei que ele estava certo, porque é de facto o Braga o grande adversário do FC Porto na luta pelo segundo lugar", seguiu-se a ovação.

Ricardo Araújo Pereira estará em Londres à data do clássico com o Sporting e arranjou durante o jantar dos 21 anos da Casa do Benfica do Porto uma cunha para assistir ao encontro na filial londrina, apesar do "pouco interesse" da partida.

"É um jogo com o oitavo classificado, mas ainda assim eu gosto de ver sempre que o Benfica joga, porque essas equipas pequeninas agigantam-se quando jogam contra o Benfica", alertou.

As "bicadas" ao adversário do outro lado da Segunda Circular só terminaram com o fracasso na contratação de André Villas-Boas à Académica.

"Queriam ir buscar o treinador do último classificado, mas não tiveram unhas para o fazer, no entanto foi muito bem pensado ir buscar o treinador da Académica. Sempre dá para destabilizar um adversário na luta directa para não descer", despediu-se perante palmas, flashes e uma aclamação que pôs em sentido o Rivoli.

A Selecção de quem Carlos Queiroz quiser



Por Ricardo Araújo Pereira in A Bola

DE que falamos quando falamos da Selecção Nacional? Curiosamente, falamos de Scolari. Os apreciadores de Scolari gostam de recordá-lo e os seus críticos não conseguem esquecê-lo. Pessoalmente, tenho acerca de Scolari uma opinião muito particular que é não ter opinião nenhuma. Nunca soube nem me interessei por saber se era bom ou mau treinador. Não dou assim tanta atenção à Selecção Nacional. De Scolari, sei apenas o que os números fazem a gentileza de indicar: que é o treinador mais bem sucedido de sempre da selecção portuguesa. Além de ter sido campeão nacional e sul-americano de clubes e campeão mundial de selecções. De Carlos Queiroz, sei que, como treinador principal de seniores, nunca foi campeão de coisa nenhuma. E, na minha opinião, nota-se. No entanto, os apoiantes de Queiroz falam como se ele tivesse o currículo de Scolari e Scolari tivesse os resultados de Queiroz. O próprio Queiroz fala como se, tendo conquistado o direito a ir ao Campeonato do Mundo, tivesse conquistado o Campeonato do Mundo. Apesar de tudo, há diferenças. Em princípio, a final do Campeonato do Mundo não será contra a Bósnia. Isso não impede Queiroz de se comportar como dono da Selecção. Esta já não é a Selecção de todos nós, é a Selecção de quem Carlos Queiroz quiser. A ida ao Campeonato do Mundo é para celebrar apenas com aqueles que sempre acreditaram. Os hereges que tiveram a desfaçatez de não acreditar que uma Selecção incapaz de ganhar a dez albaneses conseguiria ir ao Mundial, estão excluídos dos festejos. É bem feita. Quem ousa criticar a Selecção por bagatelas como um empate em casa contra uma Albânia desfalcada tem o que merece.

Os apoiantes de Queiroz, os únicos devidamente autorizados a festejar o apuramento da Selecção, estão, infelizmente, incapacitados de celebrar. A Selecção joga mal, pelo menos tão mal como eles diziam que jogava a de Scolari. A Selecção tem sorte, pelo menos tanta sorte como eles diziam que a de Scolari tinha. A vitória da Dinamarca sobre a Suécia e as três bolas no ferro contra a Bósnia parecem obra da Senhora do Caravaggio. A única diferença em relação à Selecção de Scolari é que, antigamente, conseguíamos a qualificação directa, e agora temos de ir ao play-off. Mas isso não chega para fazer com que os apoiantes de Queiroz deixem de sentir que estão, de facto, a festejar uma vitória à Scolari. Um deles disse que esta Selecção é tão mais fraca do que a de Scolari, que o apuramento foi um milagre. Juro: um milagre. Que conjugação de astros foi necessária então para que a Dinamarca, que não tem o melhor do mundo, nem jogadores do Real Madrid, Chelsea e Manchester United, se tivesse qualificado à nossa frente? Como se chama um milagre que é maior do que os milagres?

07 novembro 2009

Crónica de Ricardo Araújo Pereira

Esta vida são dois dias e 'forever' são 171

Por Ricardo Araújo Pereira in A Bola

O treinador do sétimo classificado do campeonato nacional demitiu-se e, surpreendentemente, os jornais não falam de outra coisa.
Para um clube que se queixa de falta de atenção da imprensa, estes só podem ser dias muito felizes. Adeptos e dirigentes do Sporting protestam muitas vezes por terem menos espaço nas primeiras páginas dos jornais do que os principais adversários. Talvez seja verdade: dos três grandes, o Sporting será o que tem menos visibilidade na imprensa. Mas, dos clubes do meio da tabela, é o que tem mais. Eis o lado positivo da questão — no qual os sportinguistas, pessimistas como só eles, nunca reparam.

Três ou quatro meses depois de terem dado um esmagador voto de confiança a um presidente que lhes tinha prometido «Paulo Bento forever», os sportinguistas exigiram, através de lenços brancos, faixas insultuosas e desacatos, que o treinador fosse despedido. O presidente não lhes fez a vontade: Paulo Bento não foi despedido, demitiu-se. Não foi o Sporting que disse a Paulo Bento que não estava mais interessado no seu trabalho. Foi Paulo Bento que comunicou ao Sporting que o clube não era suficientemente ambicioso, competitivo e decente para ele. E ainda diziam que o homem não tinha visão nem percebia de futebol. Afinal, era das pessoas mais perspicazes que o Sporting tinha.

No entanto, na hora da saída, Paulo Bento fez algumas declarações que contrariam um pouco a ideia de que faz análises sensatas do momento que o Sporting atravessa. Disse, por exemplo, que os sportinguistas deveriam deixar de ter o actual complexo de inferioridade em relação ao Benfica. Qualquer observador isento sabe que não se chama complexo de inferioridade àquilo que os sportinguistas sentem. Chama-se simplesmente realismo. Enquanto o Benfica despachava facilmente a equipa que, no ano passado, ficou em quinto lugar no campeonato inglês, o Sporting esforçava-se por empatar em casa com uns desconhecidos. Pedir a esta gente que não tenha complexos de inferioridade em relação ao Benfica é como dizer ao Zé Cabra que não deve sentir-se inferior ao Pavarotti.



Neste momento, o Sporting precisa de calma. Há que contratar um Manuel Cajuda qualquer e começar a lutar seriamente pela manutenção, quem sabe até pela Europa. E, para o ano, esperar por adversários um pouco menos poderosos do que o Ventspils, e tentar fazer um brilharete.

31 outubro 2009

Crónica de Ricardo Araújo Pereira

Associação Portuguesa de Árbitros do Porto

Por Ricardo Araujo Pereira in A Bola

Dias depois de ter nomeado um árbitro do Porto para um jogo do Benfica, a Comissão de Arbitragem nomeou outro árbitro do Porto para um jogo do Benfica. O portuense Jorge Sousa dirigirá o Braga-Benfica de hoje. Para o Benfica, a APAF é, na verdade, uma APAP: Associação Portuguesa de Árbitros do Porto. Ao que parece, os árbitros oriundos da cidade do Porto estão mais qualificados para arbitrar os jogos do Benfica. Trata-se de uma coincidência que, aliás, se saúda: sempre é da maneira que a cidade do Porto consegue ter um elemento seu ligado a um bom jogo de futebol. Nos dias que correm, já é bem bom.

Dias depois de Bruno Alves, com risco para a sua própria integridade física, ter tido a grandeza de esticar a perna e pontapear a cabeça de um jogador da Académica que se encontrava caído, Jesualdo Ferreira avisou que estará atento à conduta de Pablo Aimar. Faz sentido. Quando caiu na área do Nacional, Aimar podia ter alçado a perna para atingir o adversário na cabeça e não o fez. Estamos perante um comportamento que só pode causar estranheza no Estádio do Dragão. Ontem, Bruno Alves aplicou uma joelhada na nuca de um adversário. Como se costuma dizer, o campeonato é uma prova de regularidade, e Bruno Alves é mesmo muito regular.



Dias depois de ter recebido variadíssimos prémios por causa do brilharete que fez na época passada, a equipa do Porto (e também o Hulk) empatou em casa contra um forte conjunto que o Benfica cilindrou por 4-0 fora. A equipa do Porto (e também o Hulk) teve algumas dificuldades, mas merece o benefício da dúvida: Falcao está a demonstrar que é um muito razoável suplente, bem como um tal Rodríguez. Quanto aos outros problemas, serão fáceis de solucionar: se houver uma bola para a equipa do Porto e outra para o Hulk, jogará cada um para seu lado na mesma, mas sempre se entretêm mais.

Dias depois de Pinto da Costa ter dito que o Braga era o principal adversário do Porto, os bracarenses queixaram-se de terem sido prejudicados pela arbitragem. Se há surpresas no futebol português, esta é uma delas: o principal adversário do Porto, roubado? Não posso acreditar. Terei de ver o resumo do jogo em causa, mas até lá sinto-me tentado a acreditar que estamos perante um grande exagero.

Dias depois de terem perdido por 3-0 no Dragão, com um penalty que consideraram duvidoso e duas expulsões que lhes pareceram injustas, jogadores e técnicos do Nacional da Madeira perderam por 6-1 na Luz, com um penalty que consideraram duvidoso e duas expulsões que lhes pareceram injustas. A única diferença foi que, na Luz, marcaram um golo ilegal validado pelo árbitro (curiosamente, portuense). Por isso, criticaram duramente a arbitragem, enquanto no Dragão se mantiveram caladinhos que nem ratos. Manuel Machado gosta muito de falar caro, mas infelizmente é um fala-barato. E Ruben Micael disse que, no intervalo, aconteceram coisas no túnel, mas não quis revelar quais. Logo por azar, Ruben Micael tinha prometido, antes do jogo, que marcaria um golo na Luz, o que não viria a verificar-se. Não admira que já ninguém acredite muito no que diz Ruben Micael sobre o que vai acontecer ou já aconteceu na Luz.

24 outubro 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira

Jorge Jesus não tem mão na equipa

Por Ricardo Araujo Pereira in A Bola

LAMENTO muito, mas um adepto não deve apenas dizer bem. Sobretudo quando é fácil. Apesar do bom futebol, das vitórias, do imenso receio que o Benfica inspira aos adversários, da profunda satisfação que todos os benfiquistas sentem quando vêem a equipa jogar, nem tudo corre bem. Um treinador deve exercer um controlo perfeito sobre a equipa e Jorge Jesus, por muito que me custe admiti-lo, não consegue. São já várias as conferências de imprensa em que o treinador do Benfica lembra que a equipa não pode golear sempre. Os jogadores, num acto de indisciplina recorrente, e que mereceria castigo sério, continuam a desmenti-lo. Quando chegou ao Benfica, Jorge Jesus disse que os jogadores iriam jogar o dobro do que haviam jogado no ano passado. Neste momento, os jogadores jogam o quádruplo do que Jorge Jesus pensava que eles iam jogar. É muito feio faltar ao prometido.

As falsas expectativas que o treinador do Benfica lançou no início da época tiveram efeitos muito negativos até na minha vida pessoal. Quando soube que o Benfica jogaria o dobro do que havia jogado no ano passado fiquei contente, mas não demasiado. O Benfica não jogava assim tanto para que a perspectiva de passar a jogar apenas o dobro fosse especialmente apelativa. Por isso, cometi a imprudência de marcar compromissos profissionais para dias de jogo do Benfica. Não pude ver no estádio a goleada ao Everton e fui forçado a acompanhar a goleada ao Belenenses apenas na televisão. Tivesse Jorge Jesus sido rigoroso e eu teria metido licença sem vencimento até ao fim da época.


MUITO embora o Benfica seja, neste momento, uma máquina de triturar equipas e fazer golos, muita gente adverte ainda para os perigos que podem resultar do entusiasmo dos benfiquistas. Pelos vistos, o entusiasmo benfiquista é perigoso. Quando as outras equipas perdem, o adversário joga melhor. Quando o Benfica perde, a culpa é do entusiasmo dos sócios. Não se percebe a razão pela qual os outros treinam: segundo esta curiosa teoria, basta entusiasmarem-nos o terceiro anel para estarmos em apuros. O mais interessante é que o mesmo entusiasmo, tão contraproducente, também é apontado como um factor que nos beneficia. Sportinguistas e portistas queixam-se de que a onda de entusiasmo contagia os jornais e empurra o Benfica, o treinador do Braga lamenta que o Benfica seja levado ao colo pela euforia dos seus próprios adeptos. Em Portugal, ser levado ao colo pelo entusiasmo dos adeptos é crime, ser levado ao colo pela arbitragem é dirigismo brilhante. O treinador do Braga, por exemplo, nunca se queixou disso. Calha sempre estar a olhar para o chão.

17 outubro 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira


A minha pátria já está no Mundial

Por RICARDO ARAÚJO PEREIRA in A Bola

BOM, não estará completamente, mas para lá caminha. Não quero parecer demasiado optimista. É certo que faltam ainda uns dois jogos decisivos mas, em princípio, em breve fica tudo resolvido e a minha nação estará na África do Sul:

Luisão e Ramires já se apuraram, Aimar e Di María (e, quem sabe, Saviola) também, Óscar Cardozo está igualmente qualificado, Quim, César Peixoto e Nuno Gomes podem estar quase, assim como Maxi Pereira, e o seleccionador de Javi Garcia já disse que o tem debaixo de olho. Vai ser um Mundial em cheio, talvez como o de 1990, em que também estivemos presentes. Decorria a fase de grupos quando o meu primo me telefonou: «Estás a ver o jogo do Benfica?» Claro que estava. Boa parte das pessoas chamava-lhe Brasil-Suécia, mas era o jogo do Benfica: Ricardo Gomes, Mozer, Valdo, Schwarz, Thern e Magnusson como titulares, e Glenn Stromberg ainda entrou, para dar ao jogo um cheirinho a velhas glórias. Foi um belo desafio dos meus compatriotas. Espero que o próximo Mundial me traga mais desses.
Talvez a maioria dos leitores não compreenda, mas sempre senti que o meu país é o Benfica. Sou português, claro, até porque o Benfica é português. Sou lisboeta, até porque o estádio da Luz fica em Lisboa. Mas a minha pátria é o Benfica. Sempre achei que pertencia mais ao país de Schwartz, Valdo e Filipovic do que ao de Fernando Couto, Jorge Costa e Sá Pinto. Os jogadores do Benfica são meus compatriotas; os da selecção nacional, nem sempre. Muito provavelmente, o leitor considerará que sou estranho, mas eu sinto-me muito mais compatriota de Ruben Amorim ou Fábio Coentrão do que de Liedson ou Pepe. É absurdo, eu sei, mas é assim.

TENHO estado a fazer uns tratamentos e aguardo resultados positivos em breve. Todos os dias, escrevo 10 vezes num caderno a frase «O Benfica não é obrigado a golear todos os jogos». E depois leio e finjo que acredito. Tudo isto serve para tentar moderar o entusiasmo, que é injustificado. O calendário tem sido favorável ao Benfica. Ainda não defrontou Porto, ou Sporting, o que já aconteceu com os outros. O Benfica limitou-se a dar três ao facílimo Paços de Ferreira (que empatou com o Porto) e dar quatro ao muito macio Belenenses (que empatou com o Sporting). Tudo jogos fáceis, claro. O avanço do Benfica não significa nada. Basta-me repetir esta frase um bom número de vezes e pode ser que passe a acreditar nisso. Os sportinguistas e portistas já conseguiram. Deve ser uma tarefa simples.

10 outubro 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira


Desta vez Pinto da Costa tem razão

Por RICARDO ARAÚJO PEREIRA in A Bola

É muito raro, e portanto trata-se de um facto que merece ser celebrado: Pinto da Costa tem razão. Nos intervalos de receber árbitros em casa para fornecer aconselhamento matrimonial aos seus paizinhos e de atropelar fotógrafos do JN, Pinto da Costa consegue além disso tirar algum tempo a esta vida preenchida para enriquecer o País com declarações. As declarações costumam ser de dois tipos: ou são declarações de José Régio que chegam ao domínio público em segunda mão, habitualmente em cerimónias especiais, através daquilo que Pinto da Costa julga ser declamar (um castigo que nem os versos de Nel Monteiro mereciam, quanto mais os do pobre Régio), ou são declarações da lavra do próprio Pinto da Costa — que são frequentemente mais poéticas. As últimas, pelo menos, soaram-me a poesia.

No aniversário do Futebol Clube de Infesta, o presidente do Porto tomou a palavra para falar, evidentemente, do Benfica. É o tema que vem mais a propósito, até porque, para dizer a verdade, o Benfica vem sempre a propósito. E foi nessa altura que Pinto da Costa proferiu as palavras a que qualquer pessoa de bom senso, não sendo sectária, deve dar razão: «Ao contrário do que alguns dão a entender, o grande adversário do Porto no campeonato é o Braga, e não o Benfica». Há muito tempo que venho dizendo o mesmo: é com o Braga que o Porto vai ter de discutir o segundo lugar do campeonato. Com cuidado, porque o Nacional (e até, quem sabe, o Sporting) pode intrometer-se nesse interessante combate, mas sobretudo será uma luta a dois entre o Braga e o Porto. Que isto seja óbvio apenas para mim e para Pinto da Costa é que eu acho estranho. Em abono da verdade, devo dizer que Pinto da Costa percebeu tudo isto primeiro do que eu. Quando, por exemplo, agradeceu Falcao ao Benfica, estava já a planear esta estratégia de confronto com o Braga: recrutar um reforço que estaria bem no banco do Benfica (marca quase tantos golos como o Cardozo!) é o modo ideal de atacar o Braga. Para se superiorizar ao Benfica, teria de contratar um ponta-de-lança que marcasse mais do que o titular do Glorioso, claro. A aposta de Pinto da Costa no segundo lugar é, portanto, correctíssima, e comprova-se a toda a hora: a notícia segundo a qual o presidente do Porto vendeu mais de 15.000 acções da SAD do Porto indica justamente que o futuro não é tão risonho como nos anos anteriores. É melhor vender tudo enquanto ainda vale alguma coisa e, quem sabe, investir em títulos que valham mais que os do Sporting e Porto juntos. Eu sei de uns que correspondem à descrição, e até tenho alguns. Mas não estou vendedor.

03 outubro 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira


Força, Sporting

Por Ricardo Araújo Pereira in A Bola

TENHO constatado, com a repugnância que o leitor imagina, que vou desenvolvendo uma simpatia crescente pelos adeptos do Sporting. Ou sou eu que cada vez mais me pareço com eles, ou são eles que cada vez mais se parecem comigo. Seja como for, é horroroso — mas os sportinguistas e eu estamos perto de sermos almas gémeas. Repare o leitor: quando o Sporting perde, os adeptos assobiam; quando o Sporting ganha, como na quinta-feira, os adeptos voltam a assobiar. Esta vontade de, em todas as ocasiões, assobiar o Sporting, é-me tão familiar e natural que me sinto, julgo que com razão, vilipendiado pelos sportinguistas. Eu gosto muito de insultar o treinador dos adversários (é das coisas lindas que o futebol tem), mas não tenho imaginação nem vontade de chamar ao Paulo Bento o que oiço da boca de sportinguistas. Aprecio, tanto como qualquer pessoa, um bom comentário depreciativo acerca dos jogadores rivais, mas não sou faccioso a ponto de ver, nos futebolistas do Sporting, a falta de categoria que os sportinguistas identificam e publicitam em coro. De duas, uma: ou os adeptos do Sporting adoptam comportamento diferente do meu e começam a apoiar o seu clube, ou vejo-me forçado a, por razões de higiene, apoiá-lo eu. Confesso que nem será difícil: as exibições do Sporting até me têm agradado bastante.


OLeixões, que no ano passado desempenhou aquele papel de equipa revelação que faz um brilharete nas primeiras jornadas e depois cai a pique até ao fim (um papel este ano reservado ao Braga), foi à Luz perder por 5-0. Até aqui tudo muito bem. Acabou o jogo com nove e, como foi referido na generalidade dos jornais, podia ter acabado com menos um ou dois jogadores em campo e com mais um ou dois penalties no bucho. Tudo bem, também. Interessante foi a conferência de imprensa de José Mota. Desde que abandonou o Paços de Ferreira, José Mota apresenta-se aos jornalistas sem o elegante boné amarelo de outros tempos — mas ainda assim consegue dar espectáculo. Desta vez, lamentou que o árbitro não tivesse tido em conta, na hora de expulsar os seus jogadores, que estava perante futebolistas jovens e inexperientes. O rapaz que tentou remover a tíbia ao Di María com os dois pitons da frente deveria ter sido aconselhado. O jovem que decidiu cortar o Aimar pela raiz a três metros da baliza merecia uma conversa amiga e apoio psicológico. E, segundo José Mota, ninguém deveria ser expulso à meia hora de jogo. Quando é que a FIFA acrescenta à regra das faltas a adenda sobre o minuto do jogo em que são cometidas e a idade do infractor? Julgo que o espectáculo sairia beneficiado se as equipas pudessem entrar em campo com dois ou três delinquentes menores de idade que, depois de terem feito os seus estragos, pudessem ser substituídos a meio da primeira parte. Tudo o que sirva para aperfeiçoar o jogo.

27 setembro 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira


Pedro Proença, um homem do avesso

Por Ricardo Araújo Pereira in A Bola

SE alguma vez eu for, em tribunal, acusado de algum crime por uma testemunha ocular, espero sinceramente que essa testemunha seja o árbitro Pedro Proença. Aquilo que Pedro Proença presencia é sempre o rigoroso oposto daquilo que ele pensa que presenciou – o que é extremamente curioso. As coisas acontecem de pernas para o ar à frente de Pedro Proença. O mundo, que está direito para nós, apresenta-se-lhe do avesso. Repare o leitor: no ano passado, no estádio do Dragão, Yebda não cometeu qualquer falta sobre Lisandro López. Pedro Proença assinalou a respectiva grande penalidade. Na semana passada, Alvaro Pereira cometeu penalty sobre Alan. Pedro Proença, como é evidente, mandou seguir. Ambas as situações foram avaliadas ao contrário, e foi isso que me permitiu detectar aqui um padrão interessante. Só há uma coisa que nunca se inverte: quem está de azul e branco, sai beneficiado; quem está de vermelho, sai prejudicado.
Olagarto e o dragão são dois bichos escamosos que largam gosma. Este é um primeiro ponto. O segundo ponto é este: Pinto da Costa e José Eduardo Bettencourt vão assistir ao FC Porto-Sporting juntos, na tribuna presidencial do estádio do Dragão. Depois de ter assistido ao Nacional-Sporting junto do homem que prometeu ao seu clube o Paulo Assunção e, à última hora, o levou para o FC Porto, Bettencourt prepara-se agora para assistir ao FC Porto-Sporting junto do homem que recebeu o jogador que o seu clube estava quase a contratar. Os sportinguistas, que se saiba, não dizem nada. A única vez que censuraram uma atitude do presidente do Sporting foi quando ele cometeu o gravíssimo delito de dizer que o plantel do Benfica era bom. Mas hoje, Bettencourt terá, enquanto estiver sentado ao lado do dirigente que está a cumprir pena de suspensão de dois anos por tentativa de corrupção, a admiração dos sócios do Sporting. A menos que elogie o Benfica, claro.

OFC Porto-Sporting de hoje é, não me custa reconhecê-lo, um duelo de titãs. A equipa à qual foi perdoado o penalty de Alvaro Pereira sobre Alan, em Braga, defronta a equipa à qual foi perdoado um penalty de Miguel Veloso sobre Toy, em Alvalade, e a favor da qual se marcou um penalty inexistente. Prevejo, portanto, um jogo com muito futebol por alto. Quando duas equipas estão a ser levadas ao colo, não faz sentido jogar a bola pela relva. Ao colo do árbitro, os jogadores têm alguma dificuldade de chegar com os pés ao chão.

19 setembro 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira

Este Benfica é uma desilusão

Por Ricardo Araújo Pereira in A Bola

PRIMEIRO, foram as contratações. Como podiam ser boas se o Benfica faz contratações todos os anos e não tem ganho grande coisa?
E a este raciocínio, que seria excelente se não fosse falacioso, seguiram-se outras considerações. Um espanhol por sete milhões? Um absurdo. Se fosse bom, o Real Madrid ficava com ele. Saviola? Um bluff, disseram uns. Vem passar férias e é tão mau jogador como Aimar, disse um candidato a presidente do Benfica. Um homem com visão. Depois, foi o treinador. Era inexperiente, não tinha categoria e foi contratado fora de tempo. Fez um trabalho apenas regular no Braga, disseram uns. Iria ser dos treinadores mais rapidamente despedidos da História, disse um candidato a presidente do Benfica — para quem o treinador ideal era Carlos Azenha (por coincidência, um dos treinadores mais rapidamente despedidos da História). E a seguir foi a maldita pré-época. Que interessava ganhar todas as competições? Muitas vezes, as equipas que fazem as melhores exibições na pré-época são as que jogam pior no campeonato, disseram uns. O candidato a presidente do Benfica é que nunca mais disse nada, o que é pena.Depois, vieram os primeiros jogos do campeonato. Sim, a equipa joga bem, mas é demasiado cedo para estar a jogar bem, disseram uns. Ao que parece, as boas exibições têm o seu tempo, e não é este. O Benfica, por incompetência ou ingenuidade, cometia a estupidez de jogar bom futebol. Logo a seguir, veio a primeira goleada — curiosamente, a maior das últimas décadas. Não impressionou. Normalíssimo, disseram uns. No ano passado também deram seis ao Marítimo e depois ficaram dois meses sem marcar, disseram outros. Havia que esperar pela semana seguinte. E então, esperou-se. Infelizmente, houve nova goleada. E depois, nova vitória. Os reforços são óptimos, o treinador é muito competente, a pré-época cumpriu as suas promessas, e as goleadas persistem. Não se faz. É muito aborrecido quando a realidade contraria sistematicamente os desejos das pessoas. Julgo que este Benfica deve um pedido de desculpas a muita gente.
Até aos benfiquistas, que também estão desiludidos. Que graça tem estar a ganhar por três ao quarto de hora? Que sentido faz um adepto ter de pedir ao companheiro do lado que lhe ausculte o peito, a ver se o coração continua a bater? Não há um resultado tangencial que o sobressalte, um contra-ataque perigoso que o faça palpitar, uma bola na trave que o obrigue a dar sinal. O sr. Jorge Jesus e os seus pupilos têm consciência das dores musculares com que um ser humano fica quando é forçado a levantar-se de um salto oito vezes no espaço de uma hora e meia? Eu pago para ver futebol, não é para fazer aeróbica. Aviso já que vou passar a levantar-me apenas de três em três golos, uma vez que não tenho preparação física para acompanhar esta equipa. Espero em breve levantar-me por cinco vezes. Como sabem, ando há muito tempo a desejar um 15 a 0.

29 agosto 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira


Abriu a caça ao jornalista

Por Ricardo Araújo Pereira in A Bola


GOSTAVA de começar por pedir desculpa pelo que aqui escrevi na semana passada. Quando falei dos sucessivos espancamentos que vitimam os funcionários do Porto, cometi um erro grave: esqueci-me das agressões que, também na região do grande Porto, têm vitimado os jornalistas. Carlos Pinhão foi espancado à saída de um Beira-Mar-Porto, Marinho Neves foi agredido várias vezes e, a fazer fé nos jornais, esta semana calhou a um repórter do Jornal de Notícias ser vítima de atropelamento e fuga. Desta vez, não se trata de um jornalista desportivo e, como fazia cobertura a um caso da vida privada de Pinto da Costa, o acontecimento não deveria ter repercussão nos jornais desportivos.
Foi então que a SAD do Porto emitiu um comunicado a explicar o sucedido, e nessa altura o episódio passou a pertencer ao âmbito do futebol. Notou-se. A polémica que se seguiu foi mais parecida com uma discussão sobre futebol do que com uma conversa sobre código da estrada.
O jornalista disse que foi atropelado; a SAD diz que houve apenas um contacto lícito entre o retrovisor e o homem. Uma espécie de carga de ombro automobilística. É tudo uma questão de intensidade, como diria Pôncio Monteiro. As testemunhas disseram que a polícia mandou parar o carro; a SAD alega que o motorista não ouviu o apito, pelo que não há lugar à amostragem do cartão amarelo. Como é evidente, tratar o episódio como um caso futebolístico, e não como um problema de trânsito, beneficia Pinto da Costa: no mundo do futebol, em princípio, nunca lhe acontece nada.

NO dia 9 de Junho, em entrevista à RTP, José Eduardo Bettencourt disse que Paulo Bento era, e cito, «o melhor treinador da história do Sporting». Em Julho, depois do falecimento de Bobby Robson, recordou o inglês como «um bom treinador», e disse que o seu despedimento por Sousa Cintra tinha sido um «erro histórico do Sporting». Em Maio, já tinha dito «Paulo Bento forever». Em princípio, portanto, e tendo em conta que forever dura bastante tempo, neste momento é mais provável o Sporting despedir o presidente do que o treinador.

Benfica-Marítimo. Na grande área dos visitantes, um defesa lança-se para o chão e, inadvertidamente, toca com a mão na bola. O jogo estava empatado. O árbitro mandou seguir. Sporting-Braga. Na grande área dos visitantes, um defesa lança-se para o chão e, inadvertidamente, toca com a mão na bola. O jogo estava empatado. O árbitro mandou seguir. Porto-Nacional. Na grande área dos visitantes, um defesa lança-se para o chão e, inadvertidamente, toca com a mão na bola. O jogo estava empatado. O árbitro marcou penalty. Diz-se que faz falta definir um critério para ajudar a avaliar estes lances. Como é óbvio, o critério já existe. Toda a gente o conhece, e é bem antigo.

22 agosto 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira



Há mais espancamentos no Porto hoje do que em Chicago nos anos 20

Por Ricardo Araujo Pereira in A Bola
Qual é a profissão mais perigosa do mundo? Militar? Polícia? Não: funcionário do Porto.
É incrível, mas os funcionários do clube da organização são os que se encontram mais vulneráveis ao crime organizado. Quem trabalha para o clube do rigor está mais perto do rigor mortis. Derlei foi ameaçado, Costinha ameaçado e insultado, Paulo Assunção ameaçado, insultado e perseguido. O carro de Cristian Rodríguez ficou com os vidros partidos, o de Co Adriaanse levou com um very light. As agressões são tão eclécticas quanto o próprio clube, e por isso não esquecem as modalidades: o basquetebolista Matt Fish foi agredido num escritório, e agora o futebolista Adriano, 11 dias depois de ter sugerido que iria fazer revelações polémicas sobre o Porto, foi espancado à porta de uma discoteca. A violência contra funcionários do Porto é tão frequente que devia ser contratualizada e comunicada à CMVM: «O jogador Adriano assinou contrato por três anos com a FC Porto SAD, ao longo dos quais vai auferir um salário de 35 000 euros mensais e enfardar duas cargas de pancada por trimestre».
O mais surpreendente é que tudo isto aconteça impunemente a empregados do clube da gestão altamente profissionalizada. O Porto não consegue proteger os seus trabalhadores, nem parece interessado em fazê-lo. Nunca os dirigentes do clube da competência e da estrutura vieram a público manifestar indignação contra quem agride os seus funcionários. Não se ouve um apelo às autoridades, uma intenção de agir judicialmente contra incertos, um pedido para que os bandidos vão agredir gente de outras colectividades. Nada. Mas talvez o problema seja a enorme quantidade de suspeitos: quem teria interesse em agredir um jogador que está a treinar-se à parte porque recusa há anos as soluções de transferência que o Porto lhe propõe e duas semanas antes da agressão, disse: «Quando eu decidir falar, saiam da frente»? Tanta gente.

Pelo menos, agora percebemos melhor o que Adriano quis dizer: «Quando eu decidir falar, saiam da frente, porque nessa altura já não devo ter dentes e sou capaz de ter dificuldades em controlar a saliva».

No final do jogo contra o Paços de Ferreira, Jesualdo Ferreira lamentou: «É fácil expulsar Hulk em Portugal». Alguém console o professor, porque está a chorar em vão. Na verdade, não é assim tão fácil. O que continua a ser fácil, em Portugal, é anular golos aos adversários do Porto no último minuto. Expulsar o Hulk é até bastante difícil, na medida em que, ao contrário do que sucede com os outros jogadores, Hulk só recebe ordem de expulsão ao fim da segunda infracção para vermelho directo: a bofetada a um jogador do Paços de Ferreira nem amarelo valeu, e a tesourada por trás justificou, com favor, um relutante segundo amarelo.

Embora ache que Hulk devia ter sido expulso ainda na primeira parte, gostaria de deixar claro que não condeno o seu comportamento. Pelo contrário, até acho ajuizado que os jogadores do Porto pratiquem actos violentos em campo. É uma maneira de mostrar a futuros capangas que também têm jeito para andar à pancada. Pode ser que os desencoraje.

15 agosto 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira



Comente o seguinte texto

Por Ricardo Araújo Pereira in A Bola

JOSÉ EDUARDO BETTENCOURT é um homem estranho. E não me refiro apenas ao facto de ter o cabelo todo branco e as sobrancelhas todas pretas. Aprecie o leitor esta pequena cronologia:
no dia 22 de Maio, quando era ainda candidato à presidência do Sporting, Bettencourt elogiou o Porto. «A estrutura do FC Porto é muito eficiente. Liderada por uma pessoa, que todos sabem quem é. Tem pessoas ambiciosas, trabalhadoras e que põem os interesses do clube acima de tudo. São poucos. O Sporting tem uma estrutura desajustada. Tem pessoas a mais.» Esta semana, no dia 11 de Agosto, elogiou o Benfica: «É óptimo ver 62 mil pessoas no estádio, e não tenho pejo em reconhecer que os benfiquistas estão com motivos de orgulho e com expectativas muito altas», enquanto os sportinguistas não têm «tantos motivos de euforia e de entusiasmo». Em cerca de três meses, portanto, José Eduardo Bettencourt já elogiou o Porto e o Benfica. Só acerca do Sporting é que ainda não lhe registei muitas palavras elogiosas — mas não o censuro: tendo em conta o futebol apresentado e os resultados obtidos até agora, é preciso ter uma imaginação muito fértil para inventar um bom elogio ao Sporting. Além desta louvável coerência, José Eduardo Bettencourt tem uma rapidez de compreensão que também se saúda. No dia 23 de Julho disse que não entendia «tanta preocupação» dos sportinguistas «com o Benfica». O adversário principal do Sporting era, quanto a ele, o Porto. E acrescentou ainda que o Benfica continuava igual ao que tinha sido nas últimas temporadas: «É a mesma data de reforços de há dois e há três anos. O que é que mudou? Só uma data de reforços». Escassas três semanas depois, o mesmo Bettencourt diz que o Benfica é, com o Porto, «favorito à conquista do título», reconhecendo que «fez boas contratações e está muito forte». Em menos de um mês, Bettencourt foi ao encontro da massa associativa, percebendo finalmente, e muito bem, a preocupação dos sportinguistas.
O problema do presidente do Sporting é que os sportinguistas também são estranhos. Depois de Bettencourt ter elogiado o Porto, 90% dos sócios do Sporting que foram às urnas votaram nele para presidente. Quando elogiou o Benfica, gerou-se um incomodativo mal-estar entre os adeptos. Foi então que Bettencourt disse que os seus elogios ao Benfica eram para ser interpretados livremente, o que é magnânimo: o presidente do Sporting não impõe aos adeptos uma grelha interpretativa das suas palavras. Cada um pode mesmo interpretá-las como quiser. Conceder liberdade aos outros é sempre uma atitude admirável em qualquer pessoa. Num confesso admirador de Góis Mota, é mais extraordinária ainda.

NO fim da Eusébio Cup, o guarda-redes Quim foi herói. O problema é que só foi herói durante três centésimos de segundo. Entre a altura em que defendeu o último penalty dos italianos e o momento em que começou a mandar calar os sócios do seu próprio clube enquanto gritava «toma! toma!», foi herói. Não um grande herói, uma vez que, com todo o respeito pela Eusébio Cup, aquele jogo não era propriamente a final da Liga dos Campeões. Mas defendeu penalties, habilidade que, não fazendo de ninguém um grande guarda-redes (lembro-me, por exemplo, de um Ricardo), é agradável. Não tenho nada contra o Quim, antes pelo contrário. Mas prefiro guarda-redes que, em lugar de mandarem calar os sócios do seu clube, façam calar os dos clubes adversários, com as suas defesas. É por isso que espero que o titular seja Moreira.

27 julho 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira


Jesus e os milagres

Por Ricardo Araújo Pereira in A Bola

A imprensa desportiva tem vivido dias de sonho: o facto de o novo treinador do Benfica se chamar Jesus proporciona uma quantidade quase infindável de referências jocosas ao Messias, óptimas para fazer títulos. A equipa estava moribunda, mas Jesus ressuscitou-a. Jesus trabalha para não ser crucificado no final da época. A última ceia de Jesus antes do jogo de apresentação. Os discípulos de Jesus começam a assimilar a sua doutrina. E, quando o Benfica ganhar num terreno alagado, tenho a certeza de que Jesus há-de caminhar sobre as águas. Por tudo e por nada se fala dos milagres de Jesus.

Ora, eu também estou entusiasmado com o trabalho de Jorge Jesus, e gosto cada vez mais do futebol da equipa. Mas, sem querer ser desmancha-prazeres, pôr o Benfica a jogar bem não é um milagre. Quem fez o milagre foi Quique Flores, no ano passado: pôr aqueles jogadores a praticar um futebol tão pobre é que é notável — e, para os nossos adversários, milagroso.

Jorge Jesus, felizmente, tem mais de Jorge que de Jesus. No tempo do Fernando Santos, Jesus teve uma presença relativamente importante na equipa técnica e eu, com franqueza, não apreciei especialmente o trabalho d'Ele. Sempre me fez confusão, aliás, que uma equipa com tanta gente crente em Jesus tivesse tão pouca ajuda de Deus. Nem os atletas de Cristo nem o treinador nos valeram, naquela época. O próprio Fernando Santos disse uma vez, salvo erro no Prós e Contras, que guardava uma imagem de Cristo no bolso e era a imagem que lhe dava umas picadas para indicar as substituições. O problema é que Cristo vai fazer 2009 anos em Dezembro próximo (é três semanas mais velho que o Trapattoni) e, de acordo com o Novo Testamento, não tem curso de nível IV. Assim, não admira.



Verdadeiramente difícil — e, isso sim, milagroso — não é fazer do Benfica campeão. É fazer com que o Belenenses desça à segunda divisão. Recentemente, vários treinadores têm tentado a proeza sem êxito. Nos últimos quatro anos, o Belenenses desceu duas vezes à segunda divisão e, mesmo assim, conseguiu ficar na primeira. Tem óbvias vantagens: assim, o clube pode dedicar à crítica musical o tempo que gastaria a preocupar-se com o futebol. Se fosse um clube que, como os outros, estivesse sujeito à descida de divisão, não poderia desperdiçar tempo com estas matérias. Na semana que passou, um jornalista do Público teve a ousadia de escrever, numa crítica a um concerto do Super Bock Super Rock, que o estádio do Restelo costuma estar às moscas. A direcção do Belenenses escreveu uma carta ao Público a chamar boi ao jornalista e exigiu um pedido de desculpas — que aliás obteve. O mesmo jornal que, no caso das caricaturas de Maomé, considerou que as desculpas eram injustificadas, pede desculpa ao Belenenses por uma crítica musical. Américo Thomaz, esteja onde estiver, repousará com certeza satisfeito.

19 julho 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira


A pré-época pré-histórica do Sporting

Por Ricardo Araújo Pereira in A Bola

EM Lisboa, a pré-época tem sido alegre: os adeptos do Benfica estão entusiasmados com o novo treinador e a qualidade da equipa; os adeptos do Sporting estão entusiasmados com o entusiasmo dos adeptos do Benfica. Enfim, cada um entusiasma-se com o que pode. Eu admito que as euforias precipitadas são perigosas.

Mas, na verdade, só há uma coisa pior do que o entusiasmo injustificado da pré-época: é o desalento justificado da pré-época.

A razão pela qual não há euforias injustificadas no Sporting não se deve a uma hipotética maior sensatez dos seus adeptos. No Sporting não há euforias injustificadas porque não há euforias nenhumas. Justificadamente: na pré-época, o Sporting bateu o Atlético do Cacém por 3-0 e depois perdeu com uma equipa da segunda divisão inglesa e com o sétimo classificado da liga holandesa do ano passado — sendo que, dentro de pouco mais de uma semana, terá de discutir a qualificação para a Liga dos Campeões com o segundo classificado, o Twente. Convenhamos que é mais fácil esperar que o entusiasmo dos benfiquistas seja injustificado do que encontrar motivos para entusiasmo justificado dos sportinguistas. Ou seja, enquanto os benfiquistas crêem que é possível que o Benfica venha a jogar à Benfica, os sportinguistas esperam que o Benfica comece rapidamente a jogar à Sporting.

Ainda assim, nem tudo é mau para o Sporting. Há aquela nova contratação, um homem jovem, ambicioso, e que vem ganhar mais do que todos os jogadores do plantel. Infelizmente, trata-se do presidente. Mas também entusiasma. E há ainda o investimento nas novas tecnologias. Durante a maior parte da pré-época, o Sporting jogou com o complicómetro ligado, um novo dispositivo que promete revolucionar o futebol em Alvalade. Finalmente, não podemos esquecer os novos reforços Vukcevic e Miguel Veloso que, nestes 20 minutos em que não estão incompatibilizados com o treinador, podem dar um contributo inestimável à equipa.

Quanto ao Porto, vendeu muito bem Cissokho, o que é excelente. São magníficos negócios como este que permitem ao Porto recuperar algum do dinheiro que deixou de ganhar em negócios ruinosos como a venda de Diego por 6 milhões (acaba de ser vendido à Juventus por 24,5 milhões) ou a cedência de Luís Fabiano por 3 milhões (actualmente é o ponta-de-lança da selecção brasileira e o Milan pondera adquirir o seu passe por 20 milhões).

Entretanto, o futebol começa a voltar às nossas vidas: ontem acompanhei o Sporting-Feyenoord, depois o Porto-Mónaco, e logo a seguir o Benfica-Porto, na final do torneio do Guadiana. Aqueles vários jogadores do Porto, orientados por um treinador do Porto, deram algum trabalho ao Benfica, mas acabaram por perder o jogo. Diz-se que o Porto tem um bom plantel, mas é importante não esquecer que também tem mais dois ou três maus plantéis, distribuídos por várias equipas do País e do estrangeiro. É mais fácil acertar em 11 bons jogadores quando se pode comprar 70.

12 julho 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira

A ironia de Pinto da Costa, ironicamente, não é ironia

Por Ricardo Araújo Pereira in A Bola

QUAL é a melhor maneira de credibilizar um Parlamento abalado pelo episódio do ministro que fez corninhos na direcção de um deputado? Talvez tentar restituir-lhe o prestígio convidando para almoçar um dirigente desportivo que cumpre pena de suspensão de dois anos por tentativa de corrupção. Foi o que fizeram algumas dezenas de deputados. A ideia é excelente, claro, mas apesar de tudo não é original.
O almoço anual de Pinto da Costa na Assembleia da República já é uma tradição. Sabia-se que as escutas tinham sido ignoradas pelo tribunal, agora sabe-se que também foram ignoradas pelo Parlamento. Só espero que os organizadores tenham tido o bom senso de retirar da ementa da patuscada a fruta e o café. Podiam ser pretexto para conversas emb
araçosas.

No fim do almoço, houve a «habitual ironia» de Pinto da Costa. Sempre que o presidente do Porto abre a boca, a imprensa regista-lhe a «habitual ironia». A «habitual ironia» de Pinto da Costa é extremamente curiosa, sobretudo porque, sendo habitual, raras vezes é ironia. E é frequente que as suas declarações escarneçam mais do próprio do que do alvo que pretendem atingir.

Recordo o dia em que, depois de uma derrota do Porto por 4-0, o
jornalista perguntou a Pinto da Costa se era caso para dizer que o Porto não tinha estado presente naquela noite europeia. Pinto da Costa, cuidando estar a zombar do jornalista, disse que não, uma vez que, se o Porto não estivesse estado presente, o resultado teria sido 0-0. Acabou, como é óbvio, por troçar de si próprio, porque pelos vistos a equipa que ele dirige consegue melhores resultados quando não joga. Normalmente, quando Pinto da Costa julga que está a fazer figuras de estilo, está na verdade a fazer figuras tristes.

Entre Maio de 2003 e Julho de 2009, o Porto facturou 322,64 milhões de euros em transferências de jogadores. As contas do clube, apresentadas no mês passado, indicam que o passivo subiu para 144,8 milhões de euros (aumento de mais de três milhões em comparação com o ano anterior), e que a SAD teve um prejuízo de 6,4 milhões de euros. É a equipa que mais factura no Mundo, e ainda assim dá prejuízo. Ora aqui está (até que enfim) uma ironia — e das grandes. É possível que seja esta a celebrada ironia de Pinto da Costa. À atenção dos jornalistas.

ONTEM, o Sporting perdeu com uma equipa da segunda divisão inglesa. Estamos ainda no princípio, evidentemente. O treinador é novo, os reforços são mais que muitos, e por isso é natural que esta equipa ainda não funcione. Mais cinco ou seis anos de trabalho e julgo que este Sporting poderá mesmo começar a cilindrar equipas de escalões secundários. Rochemback bem avisou que o Sporting era o mais forte do campeonato. O problema é que, com Rochemback, nunca sabemos se forte significa potente, ou se estamos perante aquele eufemismo que se usa para não dizer gordo, como na frase «A tia Fernanda era uma senhora magra, mas agora é a mais forte do prédio».

05 julho 2009

Crónicas de Ricardo Araújo Pereira


O Benfica é nosso e há-de ser

Por Ricardo Araújo Pereira in A Bola

Imagine o leitor que o presidente de determinado clube diz publicamente, sobre um jogador que acaba de ser contratado, que não tem qualidade – característica que, aliás, partilha com outro compatriota que joga no mesmo clube desde o ano anterior.
Não haverá conferência de imprensa em que jogadores e presidente não sejam confrontados com essas declarações, não lhe parece? E se, para fugir à instabilidade que ele próprio causou, o presidente tentar vender imediatamente os jogadores em causa, o clube comprador não deixará de recordar ao vendedor que está a adquirir os direitos desportivos de jogadores sem qualidade, não acha? Eu acho. E era o que aconteceria se Bruno Carvalho tivesse sido eleito presidente. Depois de, com o sentido de responsabilidade que sempre o caracterizou, ter dito que Saviola e Aimar não tinham qualidade (na sua opinião, "se fossem bons, não vinham para o Benfica"), Bruno Carvalho teria de gerir um clube no qual dois dos principais activos, adquiridos por 11 milhões de euros, tivessem moral e valor reduzidos a nada. Pinto da Costa, se pudesse, não faria melhor.

Bruno Carvalho foi, que me lembre, o primeiro a exigir eleições antecipadas. Depois, foi também o primeiro a defender que a antecipação das eleições era uma batota. Estes factos, entre outros, talvez expliquem a razão pela qual Bruno Carvalho tenha tido menos de metade dos votos em branco. Bruno Carvalho tinha um site, uma lista, um projecto. Os votos em branco, não. Bruno Carvalho deu entrevistas, escreveu comunicados, fretou aviões. Os votos em branco, que eu saiba, não. Ainda assim, ou justamente por isso, os votos em branco conseguiram mais do dobro dos votos de Bruno Carvalho. Karl Marx disse que a História se repetia, primeiro como tragédia, depois como farsa. No Benfica, a História repete-se, primeiro como Guerra Madaleno, depois como Bruno Carvalho.

Naqueles 10 minutos em que foi jogador do Milan, Cissokho disse que era o homem mais feliz do Mundo. Agora que voltou ao Porto, percebe-se que desceu duas ou três posições no ranking de felicidade mundial. O pai de Bruno Alves já garantiu à Sky Sports que é altura de o filho sair do clube. Lucho já saiu para o colossal Marselha, que nos últimos 17 anos venceu – peço desculpa, deixem-me só fazer as contas – é isso: zero títulos. Um dos empresários que representa Lisandro López disse ao Jornal de Notícias que o jogador já assinou um pré-acordo para jogar quatro anos no Lyon. Entretanto, já foram indicados como estando a caminho do Porto os jogadores: Luís Garcia, Falcão, Buonanotte, Tiago, Duda, Diego Valeri e Javier Pastore, entre outros. Se ao menos o Benfica conseguisse ter a estabilidade do Porto…