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11 março 2010

O leve exemplo

Por João Gobern in Record

Dir-se-á que o homem precisou de anos para se guindar a tal estatuto, de golos transcendentes e óbvios, de exibições de luxo e de momentos de sacrifício. Dir-se-á, ainda, que a sua disponibilidade para vir dar uma ajuda - e que ajuda! - à Seleção Nacional acabou por arredondar-lhe as "arestas" e por obrigar os mais renitentes a olhá-lo como património e não como "inimigo". Mas apetece dizer que, concretizado o seu primeiro póquer em jogos oficiais, provado que o bom momento do Sporting tem por base a ótima forma do atleta, a entrevista de Liedson de que o Record deu eco na edição de ontem deveria valer como exemplo para muitos dos seus parceiros de ofício e, ainda mais, para muitos dos que com ele partilham a condição de agentes do futebol.

Liedson confessa sentir-se acarinhado por todos, particularizando o "respeito" conquistado junto dos adeptos do Benfica, equipa a que ganhou o "vício" de marcar. O seu discurso é claro e irrefutável, tornando-se tanto mais útil e pedagógico quanto já há muito ficou provado que o luso-brasileiro é um dos homens que, pelo talento e pelo trabalho, serve como valor acrescentado às competições futebolísticas portuguesas. A questão que se coloca é simples: não deveria ser sempre assim? A circunstância de este ou aquele futebolista de eleição não defender as cores do nosso clube de simpatia será motivo para o desvalorizarmos ou humilharmos? Não me parece. Até porque, nos dias que correm, de globalização e celeridade no mercado de transferências, de equipas transformadas em "sociedades de nações", já é bom percebermos que o profissionalismo inclui o empenhamento na defesa da instituição que se representa - e essa defesa faz-se, em regra, dentro de campo. De resto, são múltiplas as situações em que as declarações de guerrilha de alguns atletas face a rivais parecem feitas por medida apenas para apaziguar o instinto bélico de dirigentes e de claques dos clubes empregadores. Talvez com o tempo e com exemplos leves como o de Liedson se perceba que entre a paz podre e a guerra sem quartel há uma larga faixa de convivência civilizada, em que interessa o importante: que ganhe o melhor.

P.S. - Com o risco de estar a ser precipitado, julgo que se prepara, com a convocatória da Seleção Nacional para a África do Sul, uma injustiça irreparável: se o guarda-redes Quim não fizer parte dos escolhidos, repete-se em larga medida o escândalo que afastou Vítor Baía do Euro-2004. Mal amado no Benfica, sem razões que o expliquem, Quim não merece o esquecimento, sobretudo tratando-se da última oportunidade de mostrar, num grande palco e com a camisola de Portugal, o seu valor. Patrício é um aprendiz, Hilário um corpo estranho. Haja bom senso.

03 março 2010

A lista e as lógicas

Por João Gobern in Record

Passadas, com mais eficácia final do que brilho, as tormentas da qualificação, Carlos Queiroz caminha para a lista final dos convocados nacionais que hão-de integrar a Seleção na África do Sul. O jogo particular com a China poderia - e deveria - valer a oportunidade a uns quantos jogadores que, na distinta medida das suas possibilidades, têm feito tudo ao seu alcance para que o selecionador os referencie, ao menos como hipóteses. Queiroz assina uma opção diferente - e o que se questiona é, precisamente, a lógica da sua lista.

Vamos por partes: Eduardo, Ricardo Carvalho, Bruno Alves, Rolando, Miguel, Tiago, Simão, Nani, Cristiano Ronaldo e Liedson representam a continuidade. Nada a opor. A não ser isto: a menos que ocorra alguma incómoda lesão ou alguma arreliadora baixa de forma, todos eles parecem ter lugar reservado na comitiva nacional de junho. Não teria sido interessante poupá-los, numa fase da época em que quase todos - e Eduardo é a exceção - apresentam uma pesada sobrecarga de jogos até por estarem envolvidos em mais do que uma frente competitiva? Ou até aqui Queiroz terá dúvidas?

Aconvocatória de Silvestre Varela, uma das confirmações desta Liga, levanta outra questão: se estamos sob o signo dos ensaios, porque não se dá igual oportunidade a Fábio Coentrão (adaptado a lateral-esquerdo), Ruben Amorim (pela polivalência), Daniel Carriço (em melhor forma que Rolando), até a César Peixoto ou João Pereira?

Noutra "frente": se Raul Meireles não tem primado pela regularidade, oscilando entre uma presença decisiva e um "apagão" inaceitável, porque não voltar a abrir portas a Nuno Assis, o maior responsável pela subida do Vitória de Guimarães? Mais: porquê Duda (um eterno equívoco) e João Moutinho e porque não Miguel Veloso, quando o esquerdino até "começou" a acertar com os caminhos da baliza adversária? Porquê Hilário e porque não Quim, guarda-redes titular e totalista da defesa menos batida do campeonato? E se Hilário é chamado pela experiência de balneário, como se explica que Nuno Gomes continue proscrito?

Carlos Queiroz é juiz e soberano - evidentemente. Não tem que justificar-se, pelo menos por agora. Mas seria interessante conhecer as suas razões, traduzíveis pelo enunciar de um critério ou de um par de regras. À vista desarmada, elas são difíceis de descobrir, sem a ajuda de quem as estabelece. E, já agora, se a Seleção é "de todos nós", julgo que perguntar não ofende.

P.S. - Apesar de Alvalade, mantenho: o FC Porto ainda é candidato ao título. Mais difícil? Claro que sim. Mas pior é apresentar o cansaço como razão, depois do descalabro diante de um adversário com mais jogos acumulados e menor tempo de recuperação desde a partida anterior.

25 fevereiro 2010

Não há dois sem três



Por João Gobern in Record

Terá aí 15 dias uma daquelas iniciativas em que são pródigas as redes sociais e que, como é costume, pretende agrupar pessoas em torno de uma ideia ou de um objetivo. Esta, no Facebook, não dá lugar a dúvidas: chama-se "Grupo dos que já se sentem campeões com o Benfica". Dirão os mais benévolos e ingénuos que não vem daqui mal ao Mundo, uma vez que não há quaisquer consequências sobre o "mundo real" do futebol. Defenderão outros que se trata de uma forma de corporizar a maré benfiquista que, em boa verdade, já ia alta quando a época oficial começou.

Todos estão certos, na justa medida. Mas aqueles que decidirem "alistar-se" levando a coisa mais a sério transmitem a ideia de que, no fundo, pouco ligam ao futebol e às respetivas vicissitudes. É verdade que hoje, com as contas da Liga acertadas, o Benfica é líder isolado. Mas todos ficámos a perceber, no domingo, que à entrada para o último terço do campeonato ainda há três equipas com fundadas aspirações à conquista do título.

Comecemos pelo Braga. O descalabro que viveu no Dragão foi, certamente, inesperado - não pela derrota, mas pelos números. Simplesmente, Domingos e os seus atletas tiveram o azar de enfrentar o tetracampeão no pior momento: aquele em que, de uma forma que lhe é tão peculiar, o FC Porto cerrava fileiras em torno de algo que conseguiu passar para o exterior como uma tremenda injustiça (os castigos de Hulk e Sapunaru). Se o jogo já tinha contornos de decisivo, ganhou ainda mais densidade ao entrar em campo o orgulho ferido. E o Braga, com algumas unidades em baixa, também não escondeu o desgaste pela pressão da liderança durante meses. A questão está em saber se o naufrágio foi o "canto do cisne" ou se, pelo contrário, fez soar os sinais de alarme para o que resta disputar. Pela parte que me toca, estou convencido que a segunda hipótese é a verdadeira, tanto mais que, com exceção da visita à Luz, os minhotos são os que dispõem de um calendário mais simpático. E, ainda por cima, não gastarão tempo nem energia com outras atividades, nem europeias nem de taças.

Quanto ao FC Porto, quem lhe passou a certidão de óbito antecipada, desconhece a dinâmica já tantas vezes demonstrada. Um triunfo em Alvalade, no fim-de-semana, e será um corredor temível - até por receber o Benfica na penúltima jornada.

Jorge Jesus sabe de tudo isto e de muito mais. Como sabe, também, o que custa(ria) perder com a meta à vista.

P.S. - Perante a tragédia da Madeira, o futebol mostrou o seu lado mais nobre. Primeiro foi Luís Filipe Vieira quem fez saber que o Benfica quer ajudar. Depois foi o FC Porto que avançou para um jogo solidário. Pena que seja precisa uma desgraça para haver confluência no bom senso.

28 janeiro 2010

Os extremos não se tocam



Por João Gobern in Record

Segunda-feira, 25 de janeiro de 2010. Perante 50 mil testemunhas dispostas a combater a tragédia e os flagelos com a festa - e com uma contribuição que não se ficou pelo simbolismo -, o futebol tem direito a uma jornada de propaganda única.
Foi um jogo de excelência (não estivessem em campo Zidane, Figo, Nedved, Kluivert, Hierro, Davids, Hagi, Lehmann, Barthez, Henry, Daniel Alves, Dugarry e Cocu, mas também Humberto Coelho, Nené, Chalana, Pietra, Shéu, Schwarz, Valdo, Mozer, Poborsky, Rui Costa, Dimas, Hélder e tantos outros), carregado de significado, vivido como uma celebração e, às vezes, até emocionante.

Foi, igualmente, pedagógico - no cavalheirismo praticado e na ausência de dureza. Foi recreativo, como o futebol deveria ser sempre. Teve momentos de puro espetáculo, algo que falha muitas vezes nos chamados jogos "a doer" (e a expressão não é inocente). Foi uma lição de bom comportamento e de entusiasmo inteligente por parte do público, o mesmo que às vezes se deixa transformar numa espécie de plateia de circo romano, se bem que por norma os "incendiários" venham lá de dentro. Claro que o momento "de onda" do Benfica contribuiu para uma adesão única. Mas ninguém confundiu nem esqueceu nada, do Haiti à saudade de Miklos Fehér. Pode e deve ser mostrado aos mais novos, como exemplo da superioridade moral do futebol.

Opior é o outro lado: murros e insultos entre um diretor-desportivo e um atleta de alta competição, ainda por cima ex-companheiros de equipa; tentativas de agressão em túneis, seguidas ou não por provocações; a vergonha das escutas que, ouvidas "de viva voz", ainda nos deixam mais estarrecidos com a circunstância de terem sido rejeitadas como prova; a divulgação "à la carte" - que mais parece "a pedido" - de "novidades" que colidem com o direito à privacidade e, eventualmente, com o segredo de Justiça.

Esta é a face mais negra do futebol nacional, afetado pela suspeita crónica e em que os golpes baixos, o tráfico de influências, os arranjinhos e compadrios se espalham como metástases por todos os sectores, espalhando uma doença maligna e que o prolongamento, sem intervenção cirúrgica, pode tornar fatal. Confesso: o que mais me espanta é a cegueira do "salve-se quem puder" dos que seguem quem deveria ter vergonha na cara e talvez ainda fosse a tempo de sair pelo próprio pé. Já se percebeu que não. Infelizmente.

Nota 1 - E Miccoli à solta no Estádio da Luz? Mesmo com a atual maré, deu para sentir muitas saudades.

Nota 2 - Será impressão minha ou uma certa "intelligentsia" portista começou a mudar de atitude face à Taça da Liga depois do sorteio de ontem? "Estão verdes, não prestam...", escreveu o senhor de La Fontaine. E sabia do que falava.

20 janeiro 2010

Petróleo e champanhe



Por João Gobern in Record

A contratação de Ruben Micael, médio de vistas largas e pés de privilégio (no sábado até se lhe descobriu a cabeça, ao marcar um golo e ao silenciar uma transferência que já estava consumada), é - em teoria - um excelente passo para o FC Porto. Trata-se do jogador da nossa Liga que vinha a ser mais cobiçado pelos grandes, em tempos recentes. É português, é novo, é criador, tem larga margem de crescimento. Falta-lhe a prova de que tem mentalidade para dar o salto que agora se lhe exige. E a exigência não vai ter "compassos de espera": o meio-campo dos campeões não esconde o - prolongado - luto por Lucho, cuja armada de compatriotas (Belluschi, Mariano, Tomás Costa, Valeri, Prediger) parece servir apenas para a angústia das comparações.

Resta saber quem vai ser o sacrificado, a meio de uma viagem acidentada, que cederá o seu lugar ao madeirense. Fernando? Ninguém acredita. Raul Meireles? Tem, apesar de algumas oscilações, um estatuto de antiguidade e dedicação que não o recomenda para o sacrifício. Belluschi? É o mais provável, mas, a ser ele o preterido, fica dada a machadada final nas contratações milionárias e latino-americanas da pré-época, mesmo excluindo desta lista negra Alvaro Pereira e Falcão, ainda assim menos unânimes que o excelente "custo zero" Silvestre Varela. E fica por apurar se Ruben Micael estará pronto, no imediato, para assumir o mesmo papel de "interface", de "epicentro", que foi de Deco e de Lucho, uma vez que Diego foi queimado por um técnico "visionário".

Com tudo isto, e mesmo que não se confirmem os rumores de chegada de mais um atacante da América Latina, o FC Porto ainda pode ser campeão? Claro que pode. Há de receber o Braga e o Benfica, se bem que, nos 14 jogos em falta, terá de deslocar-se por oito vezes e quatro delas contra adversários que estão - circunstancialmente ou não - na primeira metade da tabela classificativa.

Contas feitas, a chamada de Ruben Micael fez cair pela base a solene declaração de Pinto da Costa quando disse que o FC Porto se tinha "aviado em terra" e dispensava os remendos do mercado de Inverno. Dois jogos da Liga em Janeiro e um pleno do Benfica em duas deslocações difíceis (Vila do Conde e Funchal) chegam para mudar tudo. Agora, ainda por cima com Jesualdo Ferreira a não ser capaz de assumir que o golo sofrido frente ao Paços de Ferreira é da sua exclusiva responsabilidade (saída de Fucile), por ter arriscado e, neste caso, perdido, há um "salvador da pátria" chamado Ruben Micael. Só o tempo provará se é ou não tarefa demasiado pesada para um homem que vai estrear-se nos grandes palcos e diante de um tribunal. Caso para dizer: afinal, havia petróleo. Quanto ao champanhe, mais tarde se verá se chega.

07 janeiro 2010

Unitários e otários



Por
João Gobern in Record

Desde o golo não averbado a Petit, num célebre jogo com o FC Porto, que o árbitro Olegário Benquerença é - no mínimo - figura incómoda nas partidas em que participa o Benfica. No domingo, no encontro dos lisboetas com o Nacional, Benquerença terá alegadamente (insisto: "alegadamente", uma vez que, de todos os lances, só um constitui erro grosseiro, aquele em que Luisão deveria ter sido expulso) favorecido os da Luz. Tal chega para que até este juiz já tenha sido incorporado naquilo que se desenha como um vasto exército de conspiradores para levar o Benfica "ao colo".

Pouco importam os pecados cometidos noutras frentes (o penálti transparente de Rodríguez no jogo do FC Porto na Luz, o salto de Miguel Veloso a pés juntos sobre um jogador do Braga, seguido de cotovelada). Já não contam os anos em que o "ascendente" sobre os juízes - tão óbvio que revoltava qualquer adepto decente do futebol - tinha cores e geografias bem definidas, sem esforço para dissimular a preferência. Agora, uma estranha e antinatural "santa aliança" entre comentadores e analistas afetos a outros candidatos ao título (mais uns do que outros...) vem denunciar essa manobra subterrânea que há-de, "obrigatoriamente", entregar o título ao Benfica. Uns esquecem-se rapidamente do mal que fizeram, outros passam em branco o conivente silêncio que mantiveram - o decisivo, o urgente é provocar e alimentar marés de suspeita, tentando desestabilizar, visando minimizar aquilo que de bom se passa nos relvados. Ou seja, não interessa que o Benfica tenha sido, até agora, a equipa que melhores espetáculos proporcionou, que maior consistência revelou (com o Braga por perto), que voltou a trazer a maré ao seu estádio e a encher os estádios alheios. O que conta é que Aimar é simulador, que David Luiz é violento, que Di María é maldoso, que Javi é um tanque de guerra. O que jogam é coisa de somenos.

Para quem faz da memória um ativo, recordo que este discurso não é novo. Ouviu-se, com igual intensidade, na época de 2004/2005. Ou seja, no mais recente título de campeão do Benfica. Sabendo-se que não há coincidências, sempre se deixa o aviso: ainda que, de um mesmo lado, se alinhem todos os "unitários" de ocasião, do outro, não se fixam os "otários".

Resta desejar que o Conselho Disciplinar da Liga não perca tempo a decidir aquilo a que as leis o obrigam. E resta sugerir que, na próxima visita do mundo do futebol (nem todo, por razões que não vale a pena esmiuçar) à Assembleia da República, a petição não diga apenas respeito às - indispensáveis - novas tecnologias. Convinha pedir uma nova atitude. Esta, a das azias, das insinuações mais torpes e das brejeirices palitadas, já deu o que tinha a dar, quero crer.

31 dezembro 2009

Mudar de rumo



Por
João Gobern in Record

No final da época, quando houver um só campeão e os outros tiverem de satisfazer-se com "os restos", haverá quem defenda que, além de uma equipa, de um plantel, de um técnico e de uma organização, também sai premiada uma estratégia de aquisições. Nos dois polos opostos ficam FC Porto e Benfica. Com uma tática mista, em curiosa mudança de rumo, coloca-se o Sporting. Resta saber, candidato como é a uma subida de escalão no imposto de responsabilidades, onde vai arrumar-se o Sporting de Braga.

Para os lados do Dragão, entendem os responsáveis que as compras se fazem a tempo e horas e que janeiro é mau conselheiro. Daí que só se perspetivem aquisições caso a suspensão a Hulk seja prolongada. Acontece que sócios e adeptos do tetracampeão não esquecem um defeso que, financeiramente, foi de sonho: Lucho, Lisandro e Cissokho multiplicaram a chegada de euros. O senão mora do lado desportivo: se o FC Porto conseguiu ultrapassar com naturalidade a fase de grupos da Liga dos Campeões, a nível interno, um terceiro lugar a quatro pontos dos dois comandantes é algo que não agrada. Mais: se excetuarmos o vulcão Varela, só dois jogadores se impuseram na equipa titular, Falcão e Alvaro Pereira, por sinal a dupla que até Pinto da Costa reconheceu ter ficado a dever à prospeção do Benfica. Quanto ao resto, ainda há muitos exames por classificar: Belluschi (excelente mas intermitente), Valeri, Prediger, Beto (pouco utilizado), Maicon, Miguel Lopes, Nuno André Coelho. E registam-se, até, contas mais atrasadas: Guarín, Tomás Costa, Sapunaru e até Mariano González ainda não impuseram classe e dinâmica de molde a deixar marcas.

No Benfica, pelo contrário, o alto rendimento conseguido, a combatividade aliada à classe, tudo conjugado para o delírio dos adeptos, parecem não travar a fúria compradora que tem em Airton e Kardec, a que se juntará Éder Luís, os vértices mais recentes. No entanto, a aposta nas vitórias e nos títulos vai obrigar a uma luta bem maior no que concerne às travagens, sabendo-se que há grandes da Europa a suspirar por David Luiz e Di María, que Javi García e Saviola estão nas listas de aquisições de muita gente com poder. Será um mês a testar a resistência da SAD e de Vieira, que tentam adiar as vendas para depois do Mundial da África do Sul, palco de prováveis valorizações.

No Sporting, já se percebeu, a estratégia mudou. Da penúria inicial passou-se a um fartote: Mexer, João Pereira, Sinama-Pongolle estão já entre os reforços, bem perto agitam-se os nomes de Del Horno, Manuel Fernandes, Rodríguez (central do Braga) e por aí fora. O tempo da contenção passou à história. Bettencourt inflete radicalmente o caminho dos últimos meses. Já se sabe que o momento é que manda. Mas há pelo menos um ex-funcionário do Sporting que pode vir reclamar contra a injustiça: chama-se Paulo Bento, e no seu tempo de atividade não houve "brinquedos" para ninguém.

PS - Bom ano de 2010 para todos, com espetáculo e artistas à altura.

26 dezembro 2009

O príncipe David



Por João Gobern in Record

Em rigor, deveria ser ao contrário. Ou seja, o diamante é que deveria ser trabalhado até se transformar em diadema. No caso, é de Diadema - município do Estado de São Paulo - que chega o "diamante", uma das pedras preciosas do catálogo joalheiro da Luz: David Luiz Moreira Marinho, 22 anos e meio, futebolista profissional, defesa central de posição. Quem assistiu ao Benfica-FC Porto de domingo e preferiu focar a sua atenção no jogo (e não nas peripécias do costume), reconfirmou a certeza de que o "mocinho" tímido que há três anos chegou a Portugal, vindo de um discreto Vitória da Baía, está no caminho certo para se transformar num atleta de classe mundial.

Mantém uma ótima tradição lançada pelos seus compatriotas ao serviço do Benfica, depois de Mozer, de Ricardo Gomes, de Aldaír. Ou, no presente, de Luisão. Tem, sobre todos, a vantagem de o termos visto crescer por aqui, de podermos dar conta da evolução exponencial do rapazinho, "lançado às feras" num jogo muito complicado frente ao Paris St. Germain. Com erros à mistura, logo aí deu sinais de uma fibra e de um espírito guerreiro assinaláveis. Aos poucos, foi-se afirmando, apesar de prejudicado por algumas lesões consideráveis e por uma utilização demasiado frequente no lado esquerdo da defesa, que - apesar do desempenho em esforço - não é a sua "praia".

Hoje, é o mais rápido defesa do Benfica. Ganhou sentido posicional (e a convivência com Luisão não será estranha a esse progresso) e desfez-se da cerimónia com a bola: é vê-lo avançar para desequilibrar ou ensaiar lançamentos longos, transformando momentos defensivos em ocasiões de ataque (de que é prova aquele falso "alívio" que foi, afinal, assistência decisiva para o golo de Saviola). Remata bem e cabeceia melhor, fazendo uso pleno da estatura (1,88 m). A forma eficaz e elegante como "secou" Hulk e Falcão, às vezes dispensando a ajuda de parceiros, fez dele um dos protagonistas do clássico.

Falta-lhe trabalhar para que a concentração não se escape em situações-chave; falta-lhe, às vezes, controlar a fogosidade. Mas é grosseiro rotulá-lo como "sarrafeiro" ou "maldoso" - e o cartão amarelo que viu é, tão só, um reflexo condicionado de uma campanha injusta e cirúrgica. De resto, a empatia com os adeptos é total e a atitude no final do jogo (protegendo e abraçando um adepto mais eufórico, oferecendo-lhe a camisola e devolvendo-o à bancada) vem reforçar o seu lugar entre os eleitos da Luz. Dá gosto vê-lo jogar - é um príncipe. Se tudo correr normalmente, vai a caminho do trono.

Nota 1 - Desta vez, foi em cheio: a utilização de Urreta, a "surpresa" de Jorge Jesus, foi ventilada aqui mesmo, há uma semana. Bingo!

Nota 2 - Um bom Natal para todos, sem azias.

11 dezembro 2009

Meias verdades


Por
João Gobern in Record

Pelos insondáveis desígnios da sorte e do sorteio, traduzíveis na sua chegada ao comando do Atlético Madrid e ao calendário da Liga dos Campeões, Quique Flores voltou às páginas da Imprensa portuguesa - por razões de profissão. Seria quase inevitável desafiá-lo a falar da temporada do Benfica - e assim se fez. O técnico espanhol explicou o salto da equipa em que trabalhou com "a qualidade dos reforços". Ninguém duvida que os encarnados ganharam qualidade e dinâmica com as chegadas de Saviola (o ressuscitado), de Ramires (o confirmado) e de Javi García (a revelação). E que, por consequência, o plantel da presente temporada é mais forte - além de mais variado - do que o da época anterior.

Ainda assim, não terá sido por esquecimento ou distração que o treinador-cavalheiro passou por cima do "fator" Jorge Jesus, talvez porque a guerra de bastidores no final da época anterior e a rendição lhe tenham deixado amargos de boca... Teria sido útil, no entanto, ouvir Flores discorrer sobre a capitalização do talento único de Pablo Aimar, finalmente colocado no seu lugar, estrategicamente protegido de desgastes supérfluos; sobre o rendimento multiplicado de Oscar Cardozo, a quem - pelos vistos - bastava dar a prova de confiança que não teve noutros tempos (coincidindo com a colocação de Suazo no papel de estátua de área que se lhe não molda) e municiar decentemente; sobre a explosão de Angel di María, cada vez mais distante de irregularidades e inconsequências que ameaçaram tornar-se imagem de marca. Mais: Ruben Amorim, menos vezes titular, é agora mais útil e mais jogador de equipa do que colocado artificialmente na ala direita; Luisão está a fazer a melhor época de sempre no clube; David Luiz, afastado o espetro da lateral-esquerda, ganha dimensão mundial... Já Balboa, reforço de Quique, é bota que ainda não se percebeu ao certo como vai ser descalça. Razão para concluir que Quique perdeu quando silenciou a outra metade da verdade - quem cala, consente, também neste caso.

Ofutebol parece, aliás, ser um paraíso para as meias verdades. Como a de Jesualdo Ferreira, quando defende que o "FC Porto está mais equilibrado e mais personalizado". O resultado em Guimarães parece dar razão ao técnico, especialista em reconstrução de equipas. Mas Jesualdo não negará a importância da recuperação de Varela na dinâmica de jogo. E terá mais dificuldade em comparar o rendimento atual com o do onze portista que fechou 2008.

No mesmo quadro, houve o "desabafo" de Liedson face à tática de Carvalhal. Talvez morasse ali mais de meia verdade. Mas, dita na hora errada (a seguir a um apuramento suado e antes do seu próprio retorno à condição de goleador), soou pior do que uma mentira.

25 novembro 2009

Dia D



Por João Gobern in O Record

Já estamos preparados para o discurso oficial: nada do que se passar no Sporting-Benfica de sábado será decisivo. É costume nosso, esta história de, preventivamente, tentar aliviar pressões (mesmo as positivas) e adiar conclusões (mesmo as drásticas). De um ponto de vista estrito, a ideia soa a uma verdade de La Palisse: à 11ª ronda e a valer apenas três pontos, Alvalade não ditará sentenças. Mas, se me permitem, o "D", que não serve como "decisivo", vale como "demonstrativo", "definidor". Ou simplesmente, como arranque para um dérbi.

Do lado dos leões, as palavras correspondem aos desejos - há um uníssono em torno do "novo ciclo". É essa a voz que vem da direção. Mas as feridas estarão saradas? As entrevistas de Paulo Bento serviram, no mínimo, para que ficassem expostas, desta vez com nomes (Rogério Alves, Ricardo Sá Pinto). Ora, depois da trégua da Taça de Portugal, o Sporting e Carlos Carvalhal precisam da vitória. Não tanto pelo atraso pontual, significativo, mas muito mais para passarem um sinal vigoroso de recomeço. Além disso, se parte da crise psicológica vem do arranque devastador do Benfica, não pode haver melhor tónico do que, nesta conjuntura, bater o rival. Para os jogadores, seria um verdadeiro choque vitamínico, muito mais efetivo do que a alegada promessa do novo técnico de que dispensa reforços em Janeiro. Este é, de resto, um passo perigoso para Carvalhal, que corre o risco de contradição e de vir a sofrer mais adiante as respetivas cobranças.

No que toca ao Benfica, há questões que perspetivam uma partida de total empenhamento. Se a onda de entusiasmo está longe de se esbater, a derrota de Braga, as dificuldades com a Naval e o desaire caseiro para a Taça podem passar a ideia de que se vai esbatendo a fase das "vacas gordas" (leia-se goleadas e exibições categóricas). É a estreia de Jesus num duelo entre "grandes". Está em aberto a possibilidade de não perder pontos para o Braga - com um jogo teoricamente mais fácil, recebendo a União de Leiria - e, sobretudo, de manter a distância interessante o FC Porto - que joga no Dragão, com o Rio Ave. O regresso de Cardozo pode ajudar. E, se o bloco que agora se abre e vai estender-se até à receção ao campeão nacional é fundamental, ninguém vai querer abrir com um tropeção.

Haja muito público e uma boa arbitragem. Mais futebol jogado, do que falado. Para variar.

NOTA - Com a renúncia de Hermínio Loureiro a uma recandidatura à presidência da Liga, depois de um mandato em que fez muito e mais deixou por fazer, é preciso não dar passos à retaguarda. Pelo seu percurso e pela sua personalidade, vejo uma boa escolha em Miguel Ribeiro Teles, agora livre de compromissos com o clube. Será possível?

29 outubro 2009

Crónica de João Gobern

O gesto é tudo

Por João Gobern in Record

Todos ralham e ninguém tem razão. Infelizmente, o dito popular aplicou-se, nesta parcela, ao Benfica-Nacional, em que a par de um excelente jogo, toda a gente decidiu pisar o risco. Começo por Jorge Jesus, por razões distintas: primeiro, é ele quem treina um "grande", o que o obriga a estar à altura da "instituição"; segundo, é ele quem vive em estado de graça, o que devia levá-lo a perceber que o grau de exigência de comportamento deve ser igual no triunfo e na derrota.

São, assim, indesculpáveis as suas provocações que, acredito, mais do que o banco da equipa adversária visavam diretamente o treinador Manuel Machado. Por tudo o que já fez - não ganhou nada, é certo, mas pôs a equipa a jogar à dimensão dos melhores sonhos -, pelos desafios e pela pressão que o esperam, Jesus tem que melhorar como homem o que cresceu como técnico. As suas explicações (dois dedos para os avançados, quatro para os defesas) valem um sorriso amarelo. Os seus gestos merecem condenação, não de um tribunal encartado mas de um júri popular que sabe que a superioridade se ganha em campo, não em "aspetos colaterais" ao futebol.

É verdade que passou muito tempo a ser provocado, mas as atenuantes não anulam as faltas, apenas as relativizam. E é certo que, em plena flash-interview, Manuel Machado deixou cair a máscara da superioridade, contando com a cumplicidade de um repórter à procura de "sangue fresco". A alusão a um "cretino" nem sequer condiz com o celebrado garimpo de vocabulário em que o protagonista é pródigo, antes se situa a um nível abaixo das suas pretensões professorais e pedagógicas. O que pode querer dizer que, em horas de aperto, o primeiro a desaparecer de campo é o verniz.

Da atuação do árbitro - cuja nomeação é tão contestável, no campo dos princípios, como a de Duarte Gomes para o FC Porto-Sporting -, outros cuidarão. Mas não passa despercebida a sua atuação ziguezagueante; foi um, enquanto houve possibilidade de dúvida, e outro, quando a vitória do Benfica se transformou em goleada. Como não passa em branco o desespero de alguns adversários de nomeada que, no meio da coleção de erros de Vasco Santos, só conseguiram fixar o momento da grande penalidade assinalada sobre Aimar. É um sinal. Outro: quando o Braga foi, por uma vez, prejudicado pela arbitragem (em Vila do Conde), pareceu por alguns discursos que tal se deveu a um favorecimento ao Benfica. Como se FC Porto e Sporting também não lucrassem com esse resultado e já tivessem desistido de lutar pelo campeonato. Falta só sinalizar as declarações "preventivas" de António Salvador, logo no sábado, sobre a semana que aí viria. Tudo junto, permite a conclusão: instalou-se a palhaçada. Mas esta não é para rir.

15 outubro 2009

Crónicas

Teimosia e firmeza

Por João Gobern in Record

Faltava-nos esta - no momento em que os céus pareciam limpar-se das nuvens de tempestade que, por meses, pairaram sobre a Seleção Nacional, na ocasião precisa em que Portugal voltou ao privilégio de "depender de si próprio", perdemos Cristiano Ronaldo. Antes de mais, por ter agravado uma lesão que começou nos pés negligentes de um defesa do Marselha e que se agravou no passado sábado, no Estádio da Luz. Pior ainda: a utilização do jogador parece ter desencadeado uma guerra quase sem precedentes entre nós: de um lado está o seu clube, representado pelo implacável Jorge Valdano; do outro, a Seleção, naturalmente personificada por Carlos Queiroz.

No centro da polémica, depois de confirmado o agravamento da lesão que o afastará do jogo desta noite, dos dois encontros portugueses no playoff e de 8-partidas-8 do Real Madrid, está um alegado veto do clube espanhol à viagem do internacional até Guimarães, para estar com os parceiros de Seleção e, se tudo correr como desejamos, festejar a passagem à fase seguinte.

Ronaldo arriscou - e confessou. O seu voluntarismo, com ou sem cumplicidade dos médicos da Seleção, não deixava alternativa ao selecionador. Correu mal para o jogador o que correu na perfeição para o coletivo. Ainda assim, por mais direito que lhe assista enquanto entidade empregadora, parece estranha e desmedida a reação do Real Madrid e, em particular, de Valdano - ele, que foi jogador e dos bons, sabe que em nome das cores nacionais se faz das tripas coração, se ultrapassam dores, se esquecem riscos. E o passo de gigante da Seleção frente à Hungria não teria o mesmo alcance se Ronaldo não tivesse contribuído, nem que fosse por 27 minutos. Haja bom senso e haja diálogo, para evitar arrependimentos futuros.

Do outro lado das notícias, o desempenho meritório do Benfica começa a registar "contrapartidas": os clubes da Europa rica começam a lançar as respetivas redes na direção dos que mais se destacam na Luz. Aparentemente, chegou a vez de Aimar (o tal que não tinha recuperação e vinha acabar a carreira a um clima quente, mas já dá cartas na seleção da Argentina) e de Ramires, cobiçados desde Itália a Inglaterra.

Adivinha-se um período em que vai ser precisa diplomacia, sagacidade negocial, sentido de equilíbrio e... mística. Porque o Benfica ainda não ganhou nada - a não ser a espantosa maré de adeptos que tanto preocupa os seus rivais. E porque Luís Filipe Vieira prometeu um mandato focado nos êxitos desportivos. Não lhe basta a "boa onda", a valorização do plantel, o acerto na escolha do técnico, a criação de medidas de gestão adequadas: vai precisar de muita firmeza. Os benfiquistas contam com isso. E com Ramires, e com Aimar...